Por Marcelo Alves

Escultura de Dante Alighieri em Florença, em frente à Piazza do Santa Croce, obra de Enrico Pazzi, século XIX
Dias atrás, conversamos aqui sobre a “Divina Comédia” (1321), de Dante Alighieri (1265-1321), como exemplo “avant-garde” – bem anterior ao “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-1796) de Goethe – de um “bildungsroman” (romance de formação). Nesse “épico do aprendizado”, Dante percorre, acompanhado pelo grande poeta pagão Virgílio (70aC-19aC), seu mentor e guia, em meio a sucessivas lições e master classes, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso em busca da verdade revelada. E temos, assim, entre outras maravilhas, o texto dito fundador da língua italiana e uma das obras fundamentais da literatura mundial. Maravilha!
Entretanto, há algo de trágico na interpretação da “Divina Comédia” como “bildungsroman”: o final da relação entre Dante e Virgílio, entre o pupilo e seu mentor/guia, com a negação ao autor da “Eneida” (19aC), por parte de Dante, de qualquer possibilidade de salvação na vida em Cristo. Virgílio, que guia seu pupilo à luz, é, ao final da peregrinação conjunta, destinado ao Inferno, deixando perplexos e mesmo indignados muitos dos mais aficionados leitores da “Comédia”.
Profundamente trágico. Injusto também? Por mais que lamentemos – e que o próprio Dante lamente – não havia mesmo jeito de o pupilo “salvar” o seu “dolicissime patre”? Ou estamos diante, como se referiu George Steiner (em “Lições dos mestres”, Record, 2005), da “sombra da traição projetada onde mais se concentrava a luz da felicidade [paternidade]”?
O destino de Virgílio parece estar sendo selado durante o decorrer da comédia. George Steiner lembra que o poeta russo Óssip Mandelstam, autor de “Conversa sobre Dante”, já havia observado que “os números revelam muito da sensibilidade de Dante. Noventa citações de Virgílio no Inferno, trinta e quatro no Purgatório, apenas treze no Paraíso. Esse diminuendo preciso corresponde à dependência decrescente do discípulo em relação ao seu Mestre, à redução da dívida que tem a Comédia para a Eneida.
As traduções diretas da obra de Virgílio ocorrem sete vezes no Inferno, cinco vezes no Purgatório, mas apenas uma vez na esfera celeste. Em contraponto, as Escrituras são traduzidas doze vezes no Paraíso, oito vezes no Purgatório, mas apenas uma vez nas profundezas do Inferno. De mais a mais, as alusões à Eneida nos oitavo e nono cantos do Paraíso são ásperas. A maestria pagã [a partir de certo ponto da peregrinação] não é mais bem-vinda”. Se a chamada “tragédia da comédia” é incipiente no Inferno, ela vai se tornando “inevitável” no decorrer da jornada via Purgatório ao Paraíso.
É certo, outrossim, segundo Dante, que Virgílio resiste à lei do Salvador (é “ribellante a la sua legge”) e até “duvida da missão divina de Beatriz e de sua proteção”. Mesmo que o assustado discípulo muitas vezes retorne, tal qual criança, ao mestre (“voltei-me para o oceano de toda sabedoria”), “o discípulo peregrino intui que um misterioso fallimento, uma falha inexplicável, impede o mestre de fazer uso de toda a sua clarividência”. Virgílio não ouviu o “Verbo”. A “luz” não lhe foi possível pessoalmente atingir. E a fama é uma “glória secular que se estende para além da morte”. O “defeito do cristal” não poderia mesmo ser reparado. Nem seu mister de guia do pupilo na “Comédia” pode colocar o mestre pagão nos braços de Cristo. Dante manda seu “dolicissime patre” para junto de “le genti antiche ne l’antico errore” no primeiro círculo do Inferno.
Todavia, contraditoriamente, na “Comédia”, a graça da salvação é dada a quatro supostos pagãos (os dois primeiros no Purgatório; os dois últimos no Paraíso): a Estácio (45-95), poeta latino que, aparentemente, em vida, já era, curiosamente inspirado pela Eneida, cristão velado; Catão, o jovem (95aC-46aC), por sua vida e morte heroica e moral, sacrificando-se pelos outros; o imperador Trajano (53-117), que foi resgatado do limbo pelas preces do Papa Gregório por haver governado seu povo com Justiça; e Rifeu, soldado troiano da “Eneida”, que foi o mais equânime e justo entre aqueles que “fizeram Roma”. E mesmo “a mitologia medieval teria dado a Dante ampla licença para ‘salvar’ Virgílio”, como lembra George Steiner. Então, por que essa intransigência de Dante que nos deixa perplexos? “Que espécie de traição é essa? (‘Que vingança edipiana?’, seria a pergunta em linguagem psicanalítica)”.
Leia também: A formação de Dante
Embora me cause tristeza – e mesmo ojeriza – essa tão comum traição à paternidade (“a mais terrível sombra projetada onde mais se concentra a luz da felicidade”), não condeno Dante – e quem sou eu para condenar o “divino” autor? Qualquer que tenha sido o personalíssimo motivo de Dante – explicar esse motivo demandaria ter acesso às “áreas vitais da sensibilidade labiríntica” dantesca –, acredito que Virgílio esteve sempre teologicamente condenado. E se não o foi por razões acuradamente teológicas, o foi pelo seu fatum literário. Ele deveria mesmo ir (injustamente?) para o Limbo, o primeiro círculo do Inferno, para que pudéssemos discutir mais esse mistério dantesco, inclusive aqui nesta singela crônica.
Marcelo Alves Dias de Souza é Procurador Regional da República, doutro em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL E membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL























Faça um Comentário