domingo - 25/01/2026 - 09:10h

Dona Mafisa

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa do autor da crônica

Foto ilustrativa do autor da crônica em janeiro de 2026

No último dia 21 de janeiro, despercebidamente, comemorou-se mais Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa no Brasil. Me arrisco a dizer – literalmente – que, certamente, a conquista permanece em luta diuturna.

Para quem torce o nariz e olha atravessado para certos ritos e rituais religiosos que não os de sua preferência, não por onde, desconfio que talvez já esteja com sua roupa branca e azul claro bem limpa já cheirando a lavanda, já tenha escolhido um belo adereço prateado, assim como também continuo a desconfiar que já estejam encomendadas flores e mais flores; um bom perfume de alfazema, frutos e, quem sabe, até um Veuve Clicquot. O patuá, lembre-se do patuá.

Se você não se deu conta, já se aproxima o dia 2 de fevereiro, e ninguém quer perder a oportunidade de reverenciar a Rainha do Mar, para que o ano seja de bons e duradouros fluídos, muita paz, prosperidade e amor, muito amor. Há quem só pense nisso, mas pouco faz para merecê-lo.

Os poucos que se lembram, agradecem os pedidos do ano passado, afinal, para muitos, o que importa é a conexão com seu orixá predileto, ainda que não haja uma obrigação do pedido ser contemplado. Lembre-se, Iemanjá, vez ou outra, devolve a oferenda.

A despeito dessas questões paralelas, outro costume que inconscientemente se tem, todavia para alguns mantido às escondidas, é que ainda recorremos às rezadeiras ou benzedeiras.

Não, não. Não entenda errado! Sim, é o puro e mais alto grau do sincretismo religioso, unindo orações cristãs arcaico-populares com a sabedoria ancestral indo-africana.

Por acaso, você achava que prece com roupa branca, gestos sincronizados, defumação, alecrim, lavanda, arruda, guiné, azeite, terços e água eram o quê?

Quem tem criança por se criar ou já criada, ou já levou ou ainda levará a uma rezadeira, em caso de reforço espiritual. No meu caso, me lembrarei eternamente de Dona Mafisa, a benzedeira que minha mãe me levava lá em Natal quando havia necessidade.

Nunca esqueci daquele pequeno chão sagrado, uma pequena sala – minúscula -, que ao mesmo tempo servia de quarto e cozinha e ali ficava sendo rezado, naquele benzimento e aquela ladainha incompreensível para mim, e os repetidos e ritmados toques com galhos de ervas no meu corpo e cabeça.

Só Dona Mafisa quem falava e se mexia. À meia-luz eu só a observa e a escutava. Imóvel e atento, muitíssimo atento. Mamãe nunca imaginou, mas foi ali que descobri a espiritualidade que me habita.

Com o passar dos anos e outra cosmovisão, embora tenha um batalhão sincrético para luta corpo a corpo, essa semana precisei tanto da ciência, com doses generosas de cloridrato de ondansetrona, benzetacil, cloridrato de naratriptana e dipirona, quando de uma boa reza.

Aos trancos e barrancos sigo firme e forte, para a decepção de muitos e alegria de poucos, claro. Tudo genuíno, penso e percebo.

Se Dona Mafisa ainda estivesse viva, certamente esta semana teria ido por lá, não só para a me benzer, mas para agradecê-la, afinal, até hoje me sinto benzido.

Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM)

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Categoria(s): Crônica

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