Por Cesar Amorim
Domingos têm um ritmo próprio. Não são apenas a pausa entre duas semanas; são também um breve intervalo de contemplação, quando o ruído da política parece baixar alguns decibéis e o país respira antes de retomar sua habitual turbulência.
São nesses momentos que percebemos a falta de certas vozes, entre elas, a de Ricardo Boechat.
Diante das recentes controvérsias envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o chamado “Caso Master”, é inevitável imaginar como Boechat reagiria a mais um episódio em que poder, evidências e narrativas se entrelaçam no palco da vida pública.
Não porque ele oferecesse respostas definitivas, esse, aliás, nunca foi o seu método. Seu talento residia em algo mais raro e mais incômodo: formular, com ironia peculiar, as perguntas certas.
Boechat não era um moralista de ocasião, tampouco um comentarista inclinado a aderir às paixões instantâneas da política brasileira. Havia em sua voz uma lucidez desconcertante. Tratava temas graves com a clareza de quem conversa com o ouvinte comum, mas sem abrir mão da densidade que os assuntos públicos exigem.
Num episódio como o atual, é provável que ele começasse pelo essencial, aquilo que frequentemente se perde no labirinto de versões, notas oficiais e disputas partidárias: a confiança pública.
Instituições vivem de credibilidade. E poucas no Brasil concentram tanta autoridade quanto o Supremo Tribunal Federal. Não se trata apenas de um tribunal que interpreta a Constituição; trata-se de um dos pilares da arquitetura institucional do país. Por isso mesmo, qualquer dúvida que alcance um de seus ministros deixa de ser apenas pessoal. Torna-se, inevitavelmente, institucional.
Boechat costumava lembrar algo simples e, por isso mesmo, poderoso: transparência não é favor do poder, é exigência da democracia.
Não se trata de presumir culpa, tampouco de estimular julgamentos precipitados. Trata-se de reconhecer que quem exerce enorme autoridade pública carrega também uma responsabilidade proporcional.
O problema é que, no Brasil contemporâneo, as crises raramente percorrem esse caminho sereno. Escândalos e suspeitas logo se transformam em munição política. O debate se organiza em trincheiras: de um lado, os que condenam antes da apuração; de outro, os que tratam qualquer pergunta como conspiração.
Era justamente nesse terreno que Boechat se destacava.
Ele desconfiava das unanimidades e das torcidas organizadas. Sabia que a verdade raramente floresce em ambientes dominados pela paixão partidária.
Se Boechat ainda estivesse entre nós, provavelmente faria o que sempre fez. Colocaria a pergunta certa no centro da conversa.
E lembraria, com sua serenidade crítica, que a legitimidade das instituições não se sustenta apenas na autoridade formal de seus cargos, mas na confiança silenciosa da sociedade que as observa.
Domingos têm mesmo esse efeito curioso. Entre uma semana e outra, olhamos para o país com um pouco mais de distância e percebemos que, em meio ao barulho constante do debate público, certas vozes continuam fazendo falta.
Fazem falta porque tinham algo cada vez mais raro no Brasil: a coragem simples de perguntar.
Cesar Amorim é advogado militante e especialista em Direito Administrativo.
























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