Por Honório de Medeiros
O que se percebe hoje, no Rio Grande do Norte, no que diz respeito ao embate entre categorias de servidores públicos e Governo, não é uma crise no Estado, entendido este, na percepção do senso comum, como “lugar” no qual ocorrem acontecimentos sócio-políticos.
O Estado, na verdade, é uma cristalização, uma “formalização” de como a Sociedade se auto-organiza e, nesse aspecto, continua incólume: funciona o Poder Legislativo; funciona o Poder Judiciário; até mesmo funciona o Poder Executivo; e a vida real, concreta, o dia-a-dia no campo social, as relações de produção fluem normalmente.
Mas há uma crise no Governo, e esta é grave.
As raízes do embate entre o atual Governo e algumas categorias de servidores públicos são antigas e profundas. Aqui não é o local apropriado para esmiuçar todas elas, muito embora seja possível detectar, como nexo a lhes dar unidade, a contínua e ancestral espoliação dos servidores públicos, via apropriação de sua força de trabalho.
Um exemplo situa o abstrato no concreto: os tributos que sobem indiscriminadamente enquanto o poder de compra dos servidores públicos cai. No que diz respeito ao servidor público há, inclusive, um epifenômeno específico: enquanto outros segmentos da classe média têm como limite para seu crescimento econômico-financeiro as leis do mercado, o barnabé, ao longo dos anos, sente na pele os efeitos do congelamento artificial de sua remuneração, ao travar a luta diária contra as gôndolas dos supermercados, os preços da educação particular, os cutos da medicina privada.
Entretanto é necessário analisar uma dessas raízes exposta pela circunstância político-institucional vivida em nosso Estado pelos servidores públicos, expondo suas causas e suas conseqüências.
E qual é ela?
Quanto a este Governo, embora pudéssemos abarcar os anteriores, a histórica postura da elite dirigente que o compõe em estimular as negociações com os servidores públicos por categorias. O objetivo da estratégia ancestral é maquiavélico: dividir para reinar. E o que era para ser uma vitória estratégica, se revelou um erro histórico.
Na medida em que a discussão é encetada por categorias, separadamente, e especificamente com aquelas que têm poder de barganha, como os auditores fiscais, a polícia militar, ou os médicos, todo o restante dos servidores públicos – e é uma imensa maioria – é deixada de lado e condenada à submissão: aqui convém lembrar os ASGs, os Técnicos de Nível Superior e Médio, e assim por diante.
Perdem, assim, ambos: Governo e categorias. O Governo, governabilidade; as categorias, legitimidade.
Até recentemente essa estratégia surtiu aparentes efeitos favoráveis e, mesmo equivocada, garantiu sobrevida. Todos os governos, desde as capitanias hereditárias em sua essência conservadores, até mesmo reacionários, constituídos que foram pela mesma elite que há séculos se apropriou dos aparelhos do Estado – embora às vezes aparentemente dividida por cores, bandeiras e músicas -, têm como seus uma “memória” no trato com a “coisa pública” que induz a mesma conduta, a mesma ação, o mesmo procedimento, ano após ano, em relação aos servidores públicos.
Mas um dia a casa – mal construída – cai, e a causa é claramente perceptível: as contradições inerentes à postura conservadora de governar, que se materializa por intermédio do exacerbamento radical da tentativa de implantar um modelo financista de gestão, ou seja, fazer caixa para obras (a face perversa da “Teoria do Bolo Econômico”), e a conseqüente necessidade de “enquadrar” as categorias de servidores públicos que ameaçam tal modelo gerencial via crescimento da folha de pagamento do Estado.
E como “fazer caixa” equivocadamente, sem atacar os chamados “nós estruturais” como, por exemplo, o número de Secretarias, de cargos em comissão, o déficit previdenciário, o repasse para os outros Poderes, a gestão do patrimônio do Estado, origina, em curto prazo, um déficit de legitimidade, eis a conseqüência: o Governo não conta com as categorias com as quais litiga porque não conseguiu atraí-las para seu plano de gestão; e não conta com a maioria submissa do restante dos servidores públicos por que sequer percebe sua existência; não conta com a Sociedade por que seu discurso, contraditório, conseqüência de sua percepção autoritária de gestão, confunde e suscita antipatia.
Esse modelo conservador de gestão e suas conseqüências, radicalizado ao extremo em sua face mais perversa, a de confrontar as categorias “fortes”, e relevar a massa “fraca”, de servidores públicos, e suas entranhas ocultas, secundado por uma mídia obsequiosa e/ou incapaz de perceber o pano-de-fundo dos acontecimentos, parte dela a esgrimir com o olho no descalabro dos governos anteriores, alheia ao fato de que as elites governantes historicamente são as mesmas, e parte a exibir seu desnorteio ante o que realmente está acontecendo, conseguiu reunir, como adversários internos, embora ainda separados entre si, as categorias enganadas pelos artifícios eleitoreiros dos personagens políticos locais que se revezam no Poder desde sempre.
E em que erraram as categorias ao longo do tempo?
Erraram por caírem no canto de sereia das elites governantes aceitando discussões remuneratórias unilaterais, confiando em seu poder individual de pressão. Agora, quando precisam da maioria dos servidores públicos para dar legitimidade às suas pretensões, não são capazes de mobilizá-la, e como não o são, não se legitimam ante a Sociedade. Sociedade cansada da mesma prática encampada tantas e tantas e que somente lhe trás prejuízos.
Pagam o preço de seu erro histórico: ao encontrarem um Governo disposto a radicalizar sua opção ideológica cuja face exposta é o modelo de gestão “fazer caixa para tocar obra”, e disposto a destruir, ainda mais, a imagem do servidor público ante a Sociedade, apresentando-o como ganancioso, estão passíveis de saírem derrotados nesse enfrentamento, “perdendo a parada”.
Agora, a conseqüência para a Sociedade.
Suponhamos que o Governo consiga dobrar as categorias. Qual o resultado concreto dessa vitória de Pirro?
O “caixa” melhora, substancialmente. O Governo vai “tocar obras”, repetindo a mesma toada de sempre, desde as Capitanias Hereditárias e a construção do Forte dos Reis Magos.
E dificilmente avançaremos quanto às políticas publicas.
Políticas públicas, para se concretizarem, necessitam de servidores públicos treinados, bem remunerados, e, principalmente, fundamentalmente, persuadidos a darem o melhor de si.
Políticas públicas não se concretizam com servidores ressentidos.
E existe um ressentimento histórico nos servidores públicos do RN, em sua imensa maioria, com exceção de algumas castas privilegiadas, que já construíram, para si, um ambiente “legal” apropriado no qual se mantêm, distantes das agruras pelas quais passam os professores, os médicos, os policiais, os técnicos de nível médio, os ASGs…
Com servidores ressentidos, nada funciona no serviço público. O exemplo nem sempre lembrado é o Governo Geraldo Melo.
Nada funciona em decorrência da “greve branca” que, insidiosa, não declarada, se instala. É um desânimo geral: os processos administrativos não andam, ou passam a andar em círculos. Ações não se concretizam; programas definham; políticas públicas passam a ser pura retórica governamental. Tudo isso, como se sabe, gera conseqüências eleitorais.
E a grande vítima, claro, é a Sociedade, que paga o preço por estar entre o touro enfurecido e o abismo.
Por fim: o que faltou ao atual Governo em sua relação com os servidores públicos?
Uma percepção não autoritária de gestão pública, com o desdobramento óbvio: respeito no trato com quem está do outro lado da mesa de negociação e compõe essencialmente a Administração Pública. Compreender a premência de uma Reforma do Estado, sempre postergada, legitimada pela Sociedade, da qual participem os outros Poderes e os Servidores Públicos. Ações que sinalizem claramente uma firmeza de propósitos, como a extinção de Secretarias, cargos em comissão, revisão dos repasses financeiros aos outros Poderes, déficit previdenciário, e assim por diante.
O servidor público, que juntamente com os fornecedores do Estado, foram as primeiras vítimas desse modelo financista de gestão implantado pelos atuais governantes, como não estão sujeitos ativos de sua história, a esta altura dos acontecimentos, salvo uma mudança de mentalidade quase impossível de acontecer, já consolidou a percepção de que a Governadora é seu inimigo. Isso é terrível.
Assim ocorre, também, com a linha de frente do Governo e sua ingênua tática de “morde e assopra”. Está ela sendo moída, lentamente, no “moinho ideológico” do qual fazem parte enquanto inocentes úteis, no capital simbólico que é sua imagem pública.
A se manter este estado de coisas, outras moendas virão. A roda do moinho continua girando, e como o tempo passa muito rápido, e o senso comum muda lentamente de opinião depois que consolida sua imagem das coisas e dos fenômenos, talvez, em breve, não haja mais condições de lidar com o futuro sem concebê-lo a partir do passado e presente. Ou seja: o amanhã somente será percebido a partir do ruim que nossa memória evoca.
E o Estado, essa excrescência que a Sociedade vê, perplexa, trabalhar contra si, na medida em que nada funciona no que diz respeito ao essencial, passa a ser sinônimo de algoz, e seus protagonistas, supondo deterem as rédeas dos acontecimentos, responsabilizados, muito embora, pelo seu lado, sejam também meras vítimas das próprias armadilhas que ajudaram a construir.
Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do Estado do RN
“Na vida há duas coisas inevitáveis: a morte e os impostos”. Benjamin Franklin
Conforme o autor do blog ” Ouvi uma fonte de governo, no início do ano passado, que 70% da folha de pessoal do Estado fica com menos de 9% dos servidores.”
Esta disparidade traduz-se em um sistema tributário regressivo e injusto, onde os “barnabés” sustentam os privilégios de uma casta insaciável e indiferente aos anseios da maioria do funcionalismo.
“Ademais de simplista, sabe-se que a carga tributária não onera equanimente o conjunto dos
brasileiros, não implicando, portanto, mesmo esforço na contribuição de financiar o funcionamento do Estado e das políticas públicas. No Brasil, a distribuição do ônus tributário se dá de modo heterogêneo, com alguns setores da população sendo mais afetados que outros.
Isso porque se sabe que o princípio importante em qualquer sistema tributário é o da Equidade ou
da Capacidade Contributiva, por permitir que o estabelecimento da contribuição dos cidadãos para o
financiamento do Estado deve ser compatível com a sua capacidade econômica. Ou seja, não se deveria impor aos cidadãos de menor capacidade econômica – normalmente entendidos como aqueles de menor renda e menor patrimônio – o mesmo esforço tributário exigido dos cidadãos de maior capacidade econômica. Nesse sentido, o sistema tributário deve buscar a progressividade – tributar mais os ricos do que os pobres.
Tabela 01: Brasil – Distribuição da Carga Tributária Bruta segundo faixa de salário mínimo
Renda Mensal Familiar Carga Tributária Bruta – 2004 Carga Tributária Bruta – 2008 Dias Destinados ao
Pagamento de Tributos.
BRASIL- Distrubuição da Carga Tributária Bruta segundo faixa de salário
Renda Mensal Familiar Carga Tributária Bruta/2004 Carga Tributária Bruta/2008 Dias destinados ao pagamento
de tributos
até 2 SM 48,8 53,9 197
2 a 3 38,0 41,9 153
3 a 5 33,9 37,4 137
5 a 6 32,0 35,3 129
6 a 8 31,7 35,0 128
8 a 10 31,7 35,0 128
10 a 15 30,5 33,7 123
15 a 20 28,4 31,3 115
20 a 30 28,7 31,7 116
mais de 30 SM 26,3 29,0 106
CTB, segundo CFP/DIMAC 32,8 36,2 132
Fontes: Carga Tributária por faixas de renda, 2004: Zockun et alli (2007); Carga Tributária Bruta 2004 e 2008: CFP/DIMAC/IPEA; Carga Tributária por faixas de renda,
2008 e Dias Destinados ao Pagamento de Tributos, elaboração própria.
Estudos recentes, entretanto, têm demonstrado que o sistema tributário brasileiro faz exatamente
o contrário – tributa mais os mais pobres. Os 10% mais pobres da população brasileira destinam 32,8% da
sua – pouca – renda para o pagamento de tributos, enquanto que para os 10% mais ricos, o ônus estimado é
de 22,7% da renda2. Utilizando o salário mínimo como referência para classificar os níveis de renda, números
ainda mais contundentes confirmam a regressividade da tributação no Brasil: famílias com renda de até dois
salários-mínimos pagam 48,8% da sua renda em tributos; famílias com renda acima de 30 salários-mínimos,
cerca de 26,3%3.
Estes últimos dados foram estimados, entretanto, para o ano de 2004, quando a CTB calculada
com base no IBGE era de 32,8% do PIB. Assim, observa-se que entre 2004 e 2008, a CTB cresceu 3,4 pontos
percentuais, aumentando cerca de 10% em 5 anos. Nesse sentido, o ônus sofrido em cada faixa de renda
também deve ter se elevado.
Supondo, apenas para simplificar o raciocínio, que a regressividade no período não piorou nem
recuou, mas apenas manteve-se a mesma, então poder-se-ia considerar que o ônus sofrido em cada faixa de
renda também teve que crescer no mesmo ritmo4. Ou seja, é provável que, se em 2004 a Carga Tributária
Bruta sobre os que ganhavam até 2 s.m. foi de 48,8% da renda, em 2008 pode ter chegado aos 54%.
Enquanto que, mantidas as proporções, os que ganham acima de 30 s.m. podem ter enfrentado em 2008 uma
carga de 29%. O que significa dizer que, se à luz dos dados para a CTB em 2008, o cidadão brasileiro
destinou, em média, 132 dias para o pagamento de tributos, há enormes desigualdades que devem ser mais
bem estudadas, debatidas e combatidas. Dos cidadãos mais pobres terminou sendo exigido um esforço
equivalente a 197 dias, enquanto que os cidadãos mais ricos aportariam 106 dias – três meses a menos.”
Fonte: Receita pública:Quem paga e como se gasta no Brasil. IPEA 30 DE JUNHO de 2009.
Caríssimo Professor Honório e web leitores:
Já faz tempo que venho percebendo, que nossa elite política, como um todo, nada mais querem, chegando ao poder, conduzir o Estado como um balcão de negócios. O exemplo mais recente, a Câmara dos Deputados com o trato das licitações sigilosas. Onde já se viu uma aberração dessas. Aqui, na esfera estadual a prioridade do governo atual é a construção do estádio de futebol ’arena das dunas’, que vai levar no mínimo trinta anos para ser pago.
O resto, é o resto, não tem importância mesmo. E assim teremos que em 2014 voltarmos a ouvir as mesmas ladainhas: – Se eu for eleito (a), vou acabar com o analfabetismo – Vou pagar bem aos servidores públicos, – vou construir um hospital modelo,… ou coisas que o valham… E o povo votando, elegendo (se vendendo), para passar mais quatro anos na peia. E mais uma vez não aprende.
Tudo isso em função, da ausência de não possuir uma formação crítica – que só se adquire, através de mudanças comportamentais, que se leva décadas para sua consolidação. E que somente é possível implantar por ícones (verdadeiros lideres), que na maioria das vezes se apresentam e não conseguem êxito nas unas por uma simples razão: Não são detentores de toda uma estrutura midiática financeira.
Para facilitar ainda mais, a vida dessa elite, temos que assistir o surgimento e fortalecimento de filhotes oligárquicos, para a perpetuação da espécie. Chegamos a um determinado momento a pensar… “ não vou conseguir presenciar as já tão anunciadas mudanças”… para melhor é claro, do nosso País, nosso Estado (RN), e conseqüentemente as ‘mudanças sociais’, que as ouço serem anunciadas desde de que comecei a me enxergar como cidadão brasileiro.
Mas como diria Luiz Gonzaga Júnior: “Desesperar, jamais!”. (Gonzaguinha)
Benilson Silva
Parabéns. Exímia analogia.