Por Bruno Ernesto
Nem percebemos, – e passa despercebido por muitos- mas uma simples diferenciação conceitual faz toda a diferença quando falamos sobre um fato histórico.
Não basta contar um fato (História), é preciso compreender como ele é contado (Historiografia). E essa compreensão, claro, vai se conformando com o passar do tempo.
É por isso que há uma certa resistência tácita em se considerar um fato histórico sob a ótica da própria geração, pois o momento histórico influencia sobremaneira, não apenas a forma contar essa história, mas, sobretudo, de compreendê-la.
Disso resulta que, eventualmente, surgem novas análises, revisões históricas e questionamentos sobre certas narrativas históricas, daí a importância de diferenciarmos a história da historiografia; sobre os fatos em si e sobre como se escreve sobre ele, as teorias, os pontos de vista e forma de abordagem.
Isso é tão importante que não é incomum surgir uma discussão acalourada sobre determinado fato histórico praticamente adormecido, como foi o caso recente de uma revisão histórica conduzida pelos físicos Carlos Chesman (UFRN) e Cláudio Furtado (UFPB) e publicada no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, a qual analisou o real local de descobrimento do Brasil pelos portugueses, dessa vez a partir de observações de expedições anteriores, dados numéricos da carta de Pero Vaz Caminha, ventos – lembre-se que eram barcos à vela – e correntes marinhas, e, ao correlacionar com as rotas prováveis, converge para a tese de que os Cabral só poderia ter desembarcado no litoral Potiguar, em 22 de abril de 1500.
A discussão tomou tamanha proporção, que foi destaque em diversos jornais aqui e no exterior, além de ter causado alvoroço e discussões acirradas nos meio acadêmico e pesquisadores independentes.
Afinal, a esquadra de Cabral boiou primeiro até o Rio Grande do Norte ou desceu até a Bahia?
A despeito disso, sempre gosto de destacar que, sem computadores ou modelos de simulação matemática, Luiz da Câmara Cascudo, há quase cem anos, quando do seu ingresso como professor efetivo do Colégio Atheneu norte-rio-grandense, escreveu a tese acadêmica “Dois Ensaios de História: A intencionalidade do descobrimento do Brasil. O mais antigo marco de posse”, já defendia a tese de que a chegada da esquadra portuguesa se deu de forma deliberada, com rota traçada intencionalmente para se chegar ao litoral do Rio Grande do Norte, não sendo mero acaso.
Não por onde, a discussão ainda renderá muitos e calorosos debates, pois o que diferencia uma tese da outra é apenas a intenção dos portugueses, ainda que a conclusão seja a mesma.
Uma é história, outra é historiografia.
Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró (IHGM)
























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