Por Bruno Ernesto
A despeito da praticidade, os esmartefones serão a nossa desgraça.
A verdade é que gostamos do que nos tira o sono, a paciência, a atenção e atrasa a vida.
Não tente me convencer: você está lendo este texto de um.
Disseram isso também quando Samuel Morse criou o telégrafo em 1837; e o mesmo em 1875 quando Alexander Graham Bell criou o telefone; e o mesmo quando Philo Farnsworth, em 1927, concebeu o que hoje conhecemos como televisor.
Até mesmo a Acta Diurna, criada pelo imperador romano Júlio César, por volta do ano 59 antes de Cristo, e é considerada a precursora do que temos hoje como jornal impresso, já foi ameaçada no início dos anos de 1990 com a criação da internet.
Se bem que ainda lemos jornal impresso.
Aliás, nada mais gratificante como sentir o cheiro de um livro recém-aberto e um jornal recém-impresso.
A desgraça a que me refiro, é que somos diuturnamente atraídos para o que o submundo do crime chama de “O cheiro do queijo”, embora virtualmente.
Vamos checar um e-mail e, do nada, já estamos comentando uma postagem numa rede social.
Vamos verificar se a atendente do consultório médico confirmou a consulta e, do nada, caímos numa notícia espetaculosa sobre uma prévia de carnaval.
Se for um meme viral, até a consulta que acabamos de confirmar, corre o risco de ser perdida.
É bom, é útil, é prático. Porém, ao fim e ao cabo, não vai acabar bem.
Não por onde, quando ponho os olhos naqueles telefones analógicos, que cobrava a ligação por pulso – lembra ? -, lembro como o hábito era outro.
Todos nós daquele tempo, de uma certa maneira, ainda têm a mesma sensação de que não abandonamos totalmente aquele tempo.
Vadim Nikitin, o tradutor e dramaturgo russo-brasileiro, falecido no último dia sete de fevereiro, soube, como ninguém, dizer o que é pertencer a outro lugar.
Numa de suas últimas entrevistas, disse que ao traduzir cada frase, cada expressão ou situação, da língua russa para o português, percebia que, embora tivesse vindo para o Brasil aos quatro anos de idade, sente que, de fato, nunca chegou de Moscou por inteiro.
Nem nós.
Bruno Ernesto é advogado, professor, escritor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM
























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