domingo - 04/01/2026 - 11:30h

O babaca era eu

Por Cid Augusto

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial

Pedalei durante anos, até ser vítima de um assalto na Duodécimo Rosado, à época já uma das ruas mais movimentadas de Mossoró. Depois, ao superar o trauma, caí na Amaro Duarte. Estabaquei-me no chão feito jaca madura. Recentemente, por ordem da minha junta médica – ortopedista, endocrinologista, cardiologista e psiquiatra – matriculei-me na musculação e ressuscitei a bicicleta.

Um dos poucos exercícios físicos com os quais me identifico é o pedal e, mesmo assim, nem tanto. Minha vocação de “mermo-mermo” é o sedentarismo. Sou sedentário convicto e militante desde a infância. Se dependesse de mim, passaria o dia lendo e escrevendo. Aliás, embora cumprindo a obrigação de paciente bem-comportado, ainda não estou convencido da real necessidade de tanto esforço corporal.

No primeiro dia do recomeço, a bike me conduziu por 10 quilômetros. No segundo, cravei 13 em 50 minutos – e aqui não vai qualquer mensagem subliminar como o disco da Xuxa tocado de trás para frente ou a suposta guinada comunista das Havaianas. Poderia ter feito percurso maior, mas preferi não forçar a barra. Lembrei-me de Trupizupe interpretado por Nonato Santos: “Devagar com a ligeireza, que a vagareza se cansa”.

Fiz as duas últimas rotas em vias de Capim Macio e de Ponta Negra, a primeira em um início de noite e a segunda hoje de madrugada. Natal tem ótimas ciclovias, embora várias delas não me tranquilizem nem um pouco, por congregarem, no mesmo espaço, as faixas de ônibus e de bicicletas. O ciclista se sente o próprio Capitão Ahab desafiando uma Moby Dick a cada cinco minutos, no oceano de carros.

Desculpa se a comparação parece antiecológica. Reconheço que as baleias são criaturas inocentes. Elas não criam problemas, a não ser quando provocadas, diferentemente dos ônibus enfurecidos e dos carros e motos inconsequentes, que invadem a “ciclo-bus-faixa” e ultrapassam quase se esfregando em nós, para evidenciar a relação de poder desigual entre o Senhor Volante e o Senhor Pedalante.

“Ok”, “ok”, “ok”, tomo por empréstimo a expressão do grande Afonso Lemos para anunciar que devo testar áreas menos caóticas nos próximos dias. A Via Costeira – entre Ponta Negra e a Ponta do Morcego – parece segura quanto ao risco de atropelamento. Há também a Rota do Sol. Posso ir ao Pium e voltar sem maior sacrifício, suponho. Só temo o vento. Na hora em que esse camarada se lança com as quatro patas nos peitos de um indigitado, parece até que as catracas estão engatadas em marcha a ré.

Qualquer coisa, se eu não aguentar o tranco, peço a Clarisse Tavares que me resgate na estrada, circunstância previsível que me lembra certa viagem que tentei fazer, com um grupo de ciclistas turbinados, de Mossoró a Assú, em Noite de Lua Nova, na contramão da ventania. Antes da metade do caminho, arreguei e pedi ajuda ao repórter fotográfico Luciano Lellys, que logo saiu em meu socorro no Fiat Uno do jornal O Mossoroense.

Para não ficar esperando na BR-304 – passava das 21h e eu ainda estava assustado com o assalto –, continuei pedalando na expectativa de alcançar Zé da Volta. De repente, vi Luciano passar, lépido e fagueiro. Gritei, gesticulei… e nada. Chegando ao posto, a cerca de 40 quilômetros de distância de Mossoró e 30 de Assú, consegui um telefone emprestado e liguei para Lellys, que há tempos acompanhava o comboio do qual eu me separara por falta de preparo físico e de velocidade.

Meu amigo voltou, ajudou-me a arrumar, no bagageiro do carro, a bicicleta que depois vendi a Gilson Cardoso. Arriamos o banco traseiro do Uno e tiramos o pneu dianteiro da bike para caber. Na volta, já na zona urbana, perguntei se o socorrista, ao passar, não havia me visto no acostamento. E ele respondeu: “Não! Eu vi um babaca quase morrendo, pedalando sozinho, e fui embora”. Pois bem, o babaca era eu.

Cid Augusto é jornalista, advogado, professor, poeta e escritor

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Categoria(s): Crônica

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