Por Odemirton Filho
Certa vez, lá na cidade de Areia Branca, cheguei à casa de uma senhora e bati à porta. Ela estava escutando música gospel, “nas alturas”, e tive que esperar o intervalo entre uma música e outra para chamá-la novamente. A senhora, então, veio me atender, mas não abriu a porta. Identifiquei-me. Disse-lhe que era oficial de Justiça e estava à procura de fulano de tal. Pelas rótulas, ela disse que a pessoa que eu estava procurando não morava naquele endereço.
Contudo, após agradecer pela informação, o que me espantou foi o seu choro compulsivo. Perguntei se estava tudo bem, a qual respondeu que sim, estava apenas pensando na vida e chorando. O que aquela senhora estava a enfrentar? Só Deus sabe. Cada um de nós, diariamente trava uma batalha interior renhida. São tantas dificuldades que a alma, às vezes, transborda lágrimas.
No cotidiano do meu ofício é comum encontrar situações, as quais me deixam comovido. Muitos aproveitam a minha presença para desabafar. Falam que o pai não quer pagar a pensão da criança, que dá uma “mixaria” e acha que está “abafando”. Outros, alegam que não pagaram a dívida, pois estão atravessando uma difícil situação financeira. Já fui recepcionado por pessoas arrogantes, mas, doutro lado, também já presenciei homens e mulheres com os olhos marejados.
Uma vez, tive que proceder à busca e apreensão de um veículo, o qual era usado por um cidadão para fazer a linha entre Areia Branca e Mossoró. Disse-me que atrasou as prestações do carro, pois somente conseguia fazer uma ou duas corridas por dia. Percebi que, ao retirar os seus pertences de dentro do automóvel, ele ficou cabisbaixo. Creio que deve ter pensado: como ganhar o pão a partir daquele momento?
Sabemos que há má-fé aqui e ali. Muitas pessoas, por exemplo, vendem o carro, e o comprador não transfere a titularidade junto ao Detran, cometendo várias infrações de trânsito e, por conseguinte, uma enxurrada de multas. E há os maus pagadores, os que vivem de dar golpes, aqueles que dão o passo maior que a pena e depois ficam “aperreados”. Nessa vida, existe de tudo e mais um pouco.
Assim, apesar de cumprir os mandados judiciais sem questionar a justiça ou a injustiça das decisões, pois não me cabe, compadeço-me diante da fragilidade e dificuldades humanas. Graças a Deus, o coração ainda bate.
Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos
























Parabéns, Odemirton!
Sua emotividade não é sinal de fraqueza. É sinal de resistência ética e solidariedade humana.
QUando um servidor da Justiça preserva a capacidade de sentir – e sofrer – com o dilema alheio, reafirma o sentido mais nobre da função pública: servir pessoas, e não apenas processos.
A Justiça não pode ser um mero mecanismo de coerção; necessita também um ambiente de acolhida.
A sua emoção lembra a todos nós que aplicar a lei não exige o sacrifício da empatia. Ao contrário, seu gesto serve de encorajamento para que outros tenham a coragem necessária para não perdê-la.
Sinto orgulho em ser seu amigo.
Marcos Araújo
Obrigado pelas palavras, meu caro amigo. De fato, não podemos deixar de ficar compadecidos com o sofrimento alheio, mesmo no cumprimento de nosso mister. Se assim for, deixaremos de ser humanos. Quanto à nossa amizade, construída ainda na Uern, na qual tive o singular privilégio de ser seu aluno, está sendo consolidada por meio deste Blog, regada a café e boas risadas.
Um forte abraço, meu dileto amigo.