domingo - 18/01/2026 - 09:30h

O coração ainda bate

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

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Certa vez, lá na cidade de Areia Branca, cheguei à casa de uma senhora e bati à porta. Ela estava escutando música gospel, “nas alturas”, e tive que esperar o intervalo entre uma música e outra para chamá-la novamente. A senhora, então, veio me atender, mas não abriu a porta. Identifiquei-me. Disse-lhe que era oficial de Justiça e estava à procura de fulano de tal. Pelas rótulas, ela disse que a pessoa que eu estava procurando não morava naquele endereço.

Contudo, após agradecer pela informação, o que me espantou foi o seu choro compulsivo. Perguntei se estava tudo bem, a qual respondeu que sim, estava apenas pensando na vida e chorando. O que aquela senhora estava a enfrentar? Só Deus sabe. Cada um de nós, diariamente trava uma batalha interior renhida. São tantas dificuldades que a alma, às vezes, transborda lágrimas.

No cotidiano do meu ofício é comum encontrar situações, as quais me deixam comovido. Muitos aproveitam a minha presença para desabafar. Falam que o pai não quer pagar a pensão da criança, que dá uma “mixaria” e acha que está “abafando”. Outros, alegam que não pagaram a dívida, pois estão atravessando uma difícil situação financeira. Já fui recepcionado por pessoas arrogantes, mas, doutro lado, também já presenciei homens e mulheres com os olhos marejados.

Uma vez, tive que proceder à busca e apreensão de um veículo, o qual era usado por um cidadão para fazer a linha entre Areia Branca e Mossoró. Disse-me que atrasou as prestações do carro, pois somente conseguia fazer uma ou duas corridas por dia. Percebi que, ao retirar os seus pertences de dentro do automóvel, ele ficou cabisbaixo. Creio que deve ter pensado: como ganhar o pão a partir daquele momento?

Sabemos que há má-fé aqui e ali. Muitas pessoas, por exemplo, vendem o carro, e o comprador não transfere a titularidade junto ao Detran, cometendo várias infrações de trânsito e, por conseguinte, uma enxurrada de multas. E há os maus pagadores, os que vivem de dar golpes, aqueles que dão o passo maior que a pena e depois ficam “aperreados”. Nessa vida, existe de tudo e mais um pouco.

Assim, apesar de cumprir os mandados judiciais sem questionar a justiça ou a injustiça das decisões, pois não me cabe, compadeço-me diante da fragilidade e dificuldades humanas. Graças a Deus, o coração ainda bate.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica

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