Por Marcos Ferreira
Tenho uma notícia simplesmente fantástica para comunicar. Uma reviravolta que jamais imaginei que pudesse me acontecer. Mas acalmei o êxtase que me domina. Então relatemos as ocorrências desta quinta-feira especial sem atropelar as coisas. Vamos pelo começo. Nada de colocar, conforme o velho ditado, o carro na frente dos bois. Em breve chegarei ao ponto que impactará a todos.
Olho neste momento o reloginho no canto inferior direito do computador e constato que são precisamente dezenove horas e cinquenta e sete minutos. Pois é, estou exultante. Confio que esta noite dormirei muito bem. Aliás, nem sei se vou conseguir de fato, tamanha é a minha euforia neste momento da noite. Antes, contudo, repito que preciso fazer esses registros iniciais. Depois disso vou explicar o motivo de meu imensurável contentamento. Não há como ser de outra maneira. Ainda que se trate da desgraça de outra criatura, um estranho para mim que, na prática, me deu outra vida. Bem, vamos adiante. Tentarei descrever, de um modo sucinto, como transcorreu este dia maravilhoso. Destaco que não vou me prender a delongas. Como eu frisei, entrementes, exibirei o que julgo digno nestas primeiras linhas.
“Foi Deus!”, penso aqui sozinho com os meus botões. Hoje, como de costume, dei mais uma olhada nas minhas obras confinadas neste velho computador. Aliás, retoquei um dos meus livros, ajustei, arrumei certos detalhes que me pareceram um tanto incoerentes; cortei pontas soltas. Pois é, foi um dos meus quatro romances. Não informarei o título para não perder o efeito do ineditismo. Amanhã continuarei com essa atividade. Pretendo fazer isso com todos os títulos que enviarei para Carlos Santos, Marcos Araújo e Clauder Arcanjo, esses gentis mecenas.
É quinta-feira, 27 de novembro deste turbulento 2025, ao menos no que me diz respeito. Levantei-me cedo e, após as minhas abluções, tomei o meu rotineiro café, comi um pão com manteiga e uma fatia de queijo de coalho. Em seguida me sentei à escrivaninha para dar início à revisão e retoques do original. Esse serviço arrastado me tomou a maior parte do dia. Por volta das dezessete horas, contudo, já satisfeito com o trabalho de copidesque, que enfim dei por concluído, eis que o telefone tocou. Fiquei espantado. Era o doutor Epitácio Coelho. Atendi e ele, por demais empolgado, declarou-me que tinha algo extraordinário para compartilhar, uma novidade que me deixaria feliz por absoluto. Fiquei extremamente curioso, perguntei sobre o que se tratava, entretanto ele afirmou que precisava que a conversa fosse cara a cara:
— Pode ser ainda hoje? — inquiri.
— Sim! Terei que sair mais tarde.
Tomei um banho rápido, peguei a bicicleta e disparei para a clínica. Algo no meu âmago, lá no fundo do meu peito, dizia que a minha vida sofreria uma reviravolta. De outro modo, porém, busquei não me animar tanto para não me frustrar depois. Esta rua se encontrava repleta de vizinhos com suas cadeiras nas calçadas. Segui pela Pedro Velho até sair dos limites do bairro Santo Antônio. Na sequência peguei a Juvenal Lamartine na altura da Casa de Saúde Tancredo Rosado. Cortei todos os sinais vermelhos que surgiram no meu caminho. Passei diante do Cemitério São Sebastião e entrei à direita na Frei Miguelinho. Meu coração estava aos pulos.
— Vim falar com o doutor Epitácio — disse à atendente, que desconhecia o porquê de minha presença ali, tendo em vista que eu não havia agendado consulta alguma. Ela pediu que me sentasse e aguardasse, pois restavam duas pessoas para serem atendidas. Essa espera representou um tempo interminável. Não tinha jeito. O remédio era ter um tanto de paciência e esperar a minha vez.
O relógio parecia não sair do canto. Minha ansiedade aumentava a cada minuto. Cerca de uma hora e meia depois, quando enfim o último indivíduo saiu, a moça da recepção interfonou para o médico informando que alguém de nome João Fernando Soares Barros o aguardava. Ela me olhou de um modo simpático e, sem demora, falou que eu podia entrar, pois Epitácio já me aguardava. Minhas pernas me pareceram ligeiramente bambas. O coração continuava acelerado. Atravessei o longo corredor com rutilante piso de porcelanato até alcançar o consultório do doutor, cuja sala era a penúltima. Dei três batidinhas na porta com os nós dos dedos e entrei. Ao me ver, o oncologista depressa se levantou da cadeira giratória e veio me dar um inesperado abraço. Isso nunca acontecera. O doutor Epitácio Coelho é, além de bem-conceituado, uma figura contida e um tanto quanto fria perante os seus pacientes.
Sem rodeios, depois de haver retornado à sua cadeira e eu me acomodar no pequeno sofá diante do birô, o oncologista me deu a notícia mais importante e redentora de toda a minha vida. O exame de imagem, que atestara o meu suposto câncer de pâncreas metastático, não me pertencia. Minha análise clínica fora trocada pela de outro elemento cujo nome parecia demais com o meu.
Admito que não olhei direito para a folha translúcida com a identificação, onde se encontrava o laudo de (reparem bem na semelhança) João Fernando Silvério Barros em vez de João Fernando Soares Barros, este o meu nome inteiro. Só depois de vários dias foi que o outro Fernando se deu conta de que aquele laudo não era o dele, que pertencia a um quase homônimo. O exame que recebera acusou tão só uma hepatite aguda. Tive um ímpeto de dar um beijo na careca do doutor Epitácio Coelho quando ele acabou de me explicar a monstruosa confusão dos exames. Ou seja, eu não estava com um pé na cova, como o bendito laudo me fez crer.
— Você ainda tem muita vida pela frente, meu prezado Fernando — acrescentou o médico com um sorriso continental. — Tudo não passou de um terrível engano. A outra pessoa, porém, que possui um nome praticamente igual ao seu, é que está em situação muito difícil. Como sócio desta clínica, só posso lhe pedir mil desculpas pelo equívoco. Sua enfermidade é algo tratável e curável.
— Imagine você, doutor, que durante esses dias, desde o momento em que recebi a sentença de câncer metastático, eu já imaginei diversas formas de me suicidar. Bom, isso tudo são águas passadas. Vou me tratar, ficar curado e seguir com a minha vida. Por bem pouco não cometi um ato tresloucado.
O médico balançou a cabeça afirmativamente, inclinou-se na cadeira e deu dois tapinhas no meu ombro esquerdo. Deixei a clínica me sentindo renascido. O tempo agora corre a meu favor. Muita coisa se passou ao longo desse período. Por exemplo, o fim que dei àqueles dois canalhas que me espancaram aqui em casa. Amanhã vou aguar novamente os pequenos ramos que brotaram das sementinhas de jacarandá que plantei no fundo do terreno, justamente no local onde estão enterrados em uma cova apenas. Torço que a polícia nunca descubra o duplo homicídio que pratiquei. Sem querer me gabar, penso que sou autor de um crime perfeito.
Marcos Ferreira é escritor
























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