domingo - 12/04/2026 - 11:38h

O ocaso de uma hegemonia

Por Yan Boechat do Canal Meio para o BCS

Arte ilustrativa do Canal Meio

Arte ilustrativa do Canal Meio

Analogias históricas para explicar o presente raramente são exatas e muitas vezes levam a conclusões, se não equivocadas, ao menos distorcidas pelo calor do momento. Mas com o frágil acordo de cessar-fogo na guerra liderada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, diplomatas, historiadores e aliados antigos de Washington estão cada vez mais tentados a chegar a uma conclusão desconfortável para o Ocidente: a de que este pode ser o “momento Suez” dos Estados Unidos. Assim como a crise de 1956 sinalizou o declínio terminal do poder global britânico, o conflito de duas semanas contra a República Islâmica deixou a credibilidade americana em frangalhos, a economia mundial duramente impactada, o dólar fragilizado e criou um vácuo de influência que Pequim parece ter preenchido com uma rapidez alarmante.

O que começou como uma demonstração de força para paralisar o programa nuclear de Teerã terminou em um impasse onde o regime dos aiatolás permanece no comando do Estreito de Ormuz e continua capaz de atingir alvos americanos e de seus aliados mais próximos no Oriente Médio, além, claro, de se colocar em uma posição na qual pode ditar os termos para um acordo de paz de longo prazo. Para observadores internacionais, a guerra “está começando a parecer uma derrota militar, mais séria do que o Iraque ou o Afeganistão”, como diz Bruno Maçães, ex-secretário de Estado de Portugal. A crença em uma América todo-poderosa, capaz de garantir o fluxo global de petróleo e resolver qualquer crise, está desaparecendo.

A guerra por opção

O enfraquecimento do Estado americano não é uma questão puramente militar, mas também um declínio de governança e de sua capacidade de projetar poder de forma concreta ou simbólica. O conflito demonstrou, em um único incidente, como Washington é capaz de realizar um julgamento precário do estado de coisas e, consequentemente, agir de maneira errática. Diferentemente de conflitos anteriores, esta foi uma “guerra de escolha”, iniciada sem consultas aos aliados e após uma série de políticas que já haviam gerado profunda desconfiança — desde guerras tarifárias até a bizarra ameaça de tomar a Groenlândia da Dinamarca, uma das fundadoras da OTAN e, até segunda ordem, aliada fiel da política externa americana.

Internamente, o Departamento de Defesa, insistentemente chamado de Departamento da Guerra, sob o comando de Pete Hegseth, injetou uma camada de nacionalismo cristão que muitos especialistas acreditam ter minado a coesão das Forças Armadas e a imagem externa do país. Ao descrever operações militares como “milagres de Páscoa” e invocar uma “guerra santa” contra o Islã, Hegseth transformou o conflito em uma “política do Armagedom”. Analistas como Melissa Deckman, do Public Religion Research Institute, notam que Hegseth usa abertamente uma linguagem sectária que promove a ideia de uma América que deve exercer domínio cristão sobre a sociedade.

Essa retórica alienou aliados muçulmanos críticos ao Irã — como Turquia, Paquistão e Egito —, também serviu como uma “bonança de propaganda” para o recrutamento de grupos terroristas como a al-Qaeda, o Estado Islâmico e reforçou o espírito de Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica iraniana. Além disso, a purga de oficiais que não se alinhavam com a visão de Hegseth, incluindo o primeiro capelão-chefe negro do Exército, Major General William Green Jr., gerou temores de que o Pentágono esteja aplicando um “teste religioso de fato”, violando a Constituição e enfraquecendo a pluralidade necessária para a eficácia militar.

Doeu no bolso

O impacto na economia mundial foi devastador, mas as cicatrizes mais profundas podem estar no sistema financeiro. Durante décadas, a capacidade de Washington de “armar” o dólar e desconectar adversários do sistema Swift foi seu “grande porrete”. No entanto, na guerra do Irã, esse porrete quebrou na mão de quem o empunhava, assim como já havia demonstrado pouca eficácia contra a Rússia. O bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde circulam 20% do petróleo mundial, não apenas fez dispararem os preços do produto como forçou o mundo a buscar alternativas ao sistema financeiro americano.

Teerã, já sob sanções extremas, encontrou formas de vender petróleo em renminbi (moeda chinesa) e agora exige que companhias de navegação paguem pedágios em criptomoedas para garantir a passagem de navios. “O sistema de dólar, que por tanto tempo foi fonte de estabilidade global, evoluiu para ser uma fonte de instabilidade à medida que se tornou mais armado”, diz o analista Daniel Davies, da Frontline Analysts em um artigo no jornal inglês Financial Times.

O isolamento econômico do Irã, assim como o da Rússia, falhou em parar sua máquina de guerra, enquanto o custo para os aliados dos EUA foi imenso. Mais grave ainda: a guerra exauriu o arsenal tecnológico americano. A defesa contra mísseis iranianos exigiu que os EUA disparassem, às vezes, 10 ou 11 interceptores para derrubar um único alvo, o que esgotou rapidamente os estoques.

Negócio da China

Ironicamente, a reconstrução desse estoque de armas depende agora da China, que detém um monopólio quase total sobre o processamento de gálio e outros metais de terras raras, como o neodímio, essenciais para mísseis de alta tecnologia. O preço do gálio saltou 32% no último mês, dando a Pequim uma alavancagem sem precedentes sobre a indústria de defesa americana.

Se Washington projetava uma imagem de desordem e beligerância, Pequim emergiu estrategicamente como o agente de estabilidade nesta crise que impactou o mundo como poucas outras na história contemporânea. “Enquanto parecemos enlouquecidos e falamos em bombardear um país até a idade da pedra, a China parece uma pacificadora”, disse ao New York Times Rajan Menon, professor emérito de Ciência Política da City University.

O papel de Pequim na mediação das negociações em Islamabad, no Paquistão, que levaram ao cessar-fogo, solidificou sua imagem como uma potência responsável. Para a China, o conflito foi uma oportunidade de observar como a Marinha dos EUA opera e de consolidar sua influência no Oriente Médio, onde já havia mediado a inesperada aproximação entre a Arábia Saudita e o Irã em 2023. Analistas sugerem que a China não precisou fazer muito esforço; o governo Trump, ao aceitar as exigências iranianas para o cessar-fogo, essencialmente “abriu a porta” para a diplomacia chinesa.

Agora, o presidente chinês Xi Jinping se coloca em uma posição de força superior nas futuras negociações com Washington. A dependência americana de minerais chineses para se rearmar e o papel de Pequim como garantidor do fluxo de energia transformaram a dinâmica de poder. A China não apenas venceu no campo diplomático, mas também garantiu que o mundo visse os Estados Unidos como um parceiro imprevisível e pouco confiável.

Analistas de política externa traçam paralelos sombrios com a Operação Tempestade no Deserto de 1991. Naquela época, os EUA destruíram o exército de Saddam Hussein, mas falharam em alinhar estratégia e política, caindo em uma armadilha de contenção de uma década que exauriu sua legitimidade. Hoje, os EUA enfrentam um risco semelhante: um regime iraniano enfraquecido, mas intacto, capaz de mobilizar a opinião pública global contra um cerco americano visto como irracional e, ao mesmo tempo, incapaz.

Viver com o que se tem

O governo Trump recuou da retórica de derrubada do regime, mas o custo de “apenas conter” o Irã será uma presença militar permanente e confrontos repetidos que prejudicam a economia internacional. Para evitar o desastre, especialistas sugerem que Washington deve fazer o que os líderes não fizeram nos anos 1990: aprender a viver com o regime existente, por mais desagradável que seja, e oferecer um caminho para a normalização econômica em troca de conformidade nuclear.

No entanto, a imprevisibilidade de Trump e a influência de falcões messiânicos como Hegseth tornam essa transição diplomática incerta. O fracasso em negociar uma saída diplomática clara deixará os EUA mais isolados do que nunca, especialmente em uma era em que não são mais a única superpotência.

Para o Partido Republicano, o custo da aventura iraniana pode ser o fim do controle do Congresso americano. Apesar das declarações de vitória da Casa Branca, estrategistas operam sob um clima de pânico. O aumento no custo de vida, impulsionado por preços de gasolina acima de US$ 4 por galão (3,8 litros), tornou-se o tema central da campanha, eclipsando qualquer outra mensagem econômica. “Esta guerra no Irã quase cimenta o fato de que perderemos as eleições de meio termo em novembro — o Senado e a Câmara”, admitiu um deputado republicano próximo à Casa Branca ao site Politico.

O sentimento de que o tempo está contra o presidente é reforçado por dados eleitorais recentes: na Geórgia e em Wisconsin, democratas superaram as expectativas em distritos historicamente republicanos, capitalizando sobre a ansiedade dos eleitores com a inflação e a instabilidade.

Com a aprovação de Trump estagnada em 39%, o eleitor médio está focado no próprio bolso. Para muitos americanos, a guerra no Irã não foi um milagre espiritual ou uma vitória estratégica, mas um erro caro que tornou a vida mais difícil. Estrategistas republicanos temem que, se a tendência continuar, novembro será um “banho de sangue” nas urnas.

A guerra do Irã pode ser lembrada como o momento em que a clareza moral e a superioridade militar dos Estados Unidos foram substituídas por uma política de fragmentação e dependência. Ao tratar aliados como inimigos e permitir que a retórica religiosa dominasse a estratégia militar, Washington destruiu a legitimidade de seu próprio poder. Enquanto os Estados Unidos tentam se rearmar com minerais comprados de Pequim e o dólar luta para manter sua relevância frente a moedas digitais e alternativas chinesas, o mundo já busca portos seguros preferíveis à influência americana.

O desafio de Trump agora não é apenas militar, mas a aceitação dolorosa de que a era da hegemonia incontestada terminou no Golfo Pérsico. Para sobreviver, Washington precisará aprender a arte da diplomacia em um mundo onde não pode mais simplesmente dar as ordens.

Yan Boechat é jornalista

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Categoria(s): Artigo

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