domingo - 12/04/2026 - 06:26h

O velório de Epifânia

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com uso de IA para o BCS

Arte ilustrativa com uso de IA para o BCS

Suponho que não tivesse quarenta anos. Ou um pouco mais. Todavia, em razão de um mal súbito, morreu no fim da tarde de ontem enquanto realizava uma faxina na casa da senhora Raimunda, sua vizinha aqui no Conjunto Walfredo Gurgel, precisamente à Rua Euclides Deocleciano, número 37. A trabalhadora Epifânia Santos, eis o nome da falecida, costumava dizer a alguns vizinhos próximos, com os quais tinha bom relacionamento e batia papo, que ela não era nada mais do que uma peniqueira.

Essas conversas descontraídas e bem-humoradas ocorriam na calçada desse nosso grupo que denominei de Fofoca News. A gente se reúne ali (do final da tarde até certo horário da noite) na junção das calçadas da faladeirazinha Rucilene Pinheiro e Maria Sayonara. Para ser justo, Sayonara não dá palpite na vida de ninguém. Com as cadeiras nesse ponto, então, falamos um bocado do varejo urbano, sobre Deus e o mundo. Tudo isso, que fique bem claro, de forma saudável, sem qualquer maldade.

Às vezes, fazendo pouco-caso da própria condição econômica, Epifânia dizia coisas desse tipo sobre si mesma: “Eu só sei fazer faxina e não tenho nem onde cair morta.” Mas caiu, entretanto, justo na residência da senhora Raimunda. Foi um alvoroço medonho. O Samu veio sem demora, contudo só fez confirmar o óbito de Epifânia. Era muito espirituosa e não tinha cabresto na língua. Dizia o que lhe dava na telha, zombando das próprias dificuldades financeiras em certas ocasiões. Uma noite, com seu jeito desbragado e brincalhão, falou o seguinte às amigas: “Ei, bichinha, a minha vida não é fácil, não. É um bêbado chamando na porta, uma velha gemendo e um cachorro perebento de um lado para o outro. Sem falar na ruma de gatos”.

Epifânia se referia a um irmão alcoólatra, à mãe que se queixa de fortes dores de coluna e ao manso cachorro Favelinha, que possuía um câncer metastático e findou sacrificado. Afora Favelinha, ela cuidava de uns vinte gatos. Vivia pelejando com os felinos para que nenhum ficasse atravessando a rua, com receio de que fosse atropelado. Estive no velório de Epifânia, que ocorreu em sua modesta residência. Com o caixão no meio da sala, o corpo era velado por familiares, entre os quais o irmão embriagado, que volta e meia discursava. Não faltou, obviamente, a presença dos bichanos, cuja quantidade era realmente em torno de vinte indivíduos. Nessa manhã, mais ou menos umas onze horas, estava presente, em meio a pessoas que não conheço, toda a representação do Fofoca News: Cilene Freitas, Maria dos Navegantes, o esposo Magno, a senhora Raimunda, Sayonara, Rucilene e o marido, o motorista Francisco Erinaldo. Um grupo de mulheres, cada uma com um rosário, puxava uma ladainha meio enfadonha. A reza era entrecortada pelo irmão bêbado da defunta. Uma parte dos gatos se posicionou embaixo do caixão; outros cruzavam a sala a todo momento.

Além da mãe, daquele monte de gatos e do irmão cachaceiro, a benquista Epifânia deixou um único filho, um rapazinho na faixa dos quinze anos. Fará muita falta a todos. Também devo dizer que o súbito passamento dela representa um enorme desfalque no nosso time do Fofoca News. Que Deus a receba em Seu reino celestial. Era uma criatura de bom coração. Pelo aspecto tristonho, pareceu-me que aqueles felinos tinham ciência de que perderam a sua amorosa cuidadora.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica

Faça um Comentário

*


Current day month ye@r *

Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2026. Todos os Direitos Reservados.