Por Marcos Pinto
Os  sertões  da  região  Oeste  potiguar  apresentavam, no  longÃnquo  ano  de  1900, um cenário  desolador  que  inseria  os  seus  desamparados  e  esquálidos  habitantes  numa completa  desdita.  As  autoridades  federais e  estaduais  pouco  ou  nada  faziam  para  o  amenizar o flagelo  das  secas  que  assolavam  aquelas  plagas, a  maior  algoz  das  almas  sertanejas.
Imagine-se a  verdadeira  via-crucis  enfrentada  pelos  estafetas  daqueles  remotos  tempos, enfrentando  sede e  fome, para  desempenharem  mais  ou  menos  a  contento  o  trabalho  de  entregas  de encomendas  e  correspondências. Configurava-se  o  dolente  perfil  de  uma  população  desamparada, alheia  ao surto  do  progresso  dos  grandes  centros.
Vivia-se  à  mÃngua  dos  recursos  cientÃficos  necessários à  cura  das  infectas  doenças,  que  proliferavam  aliadas  à  condição  miserável  em  que estavam condenados  em  suas  passagens  por  esse  longo  roçado  meio  espinhoso  da  vida.  Abordemos  o tema  que  encima  estas  despretensiosas  análises.
A  Agência  dos  Correios  e  Telégrafos  do Apodi foi  inaugurada  em  30  de  Janeiro  de  1907.  Quanto  à s  entregas  de  correspondências  e encomendas,  a  linha  do  Apodi  era  servida  por  cinco  estafetas (Carteiros). Atendiam  pelos nomes de  Luiz  Carcará, João  Viado, Manoel  Umbelino, João  Carneiro e  Manoel  Ricardo, este  o mais  antigo, posto  que iniciara  este  ofÃcio  desde  o  ano  de  1888.
Percorriam  o  trajeto  à  pé, com  a  mala  à s  costas. Exerciam  seus  ofÃcios  imbuÃdos de  um  indiferentismo  pernicioso, sendo, por  isso, objetos  de  reclamações  gerais, restando  observados  pelos  que  habitavam  as cidades,Vilas  e  paragens  do  roteiro da  linha  do  Apodi, um  completo  relaxamento, dado  a demora  da  entrega  das  correspondências  e  encomendas.
João  Viado  e  Manuel  Umbelino  eram  os  dois  estafetas  validos, gozando  das  mesmas  regalias  dos colegas, posto que não  esforçavam-se  para  o  bom  desempenho  de  seus  cargos. O  governo  também  era  culpado  do  desprezo  em  que  se  achava  este  tão  importante  ramo  do  serviço  público, remunerando  pessimamente  os  estafetas.
Nenhum  homem  ganhava,  àquela  época, menos  de  sessenta  mil  réis  mensais  para  desempenhar  aquela  função, isto  de  forma  particular.  Os  estafetas, funcionários  públicos  que  eram, percebiam  apenas  quarenta  mil  réis  como  remuneração  mensal, recebidas  estas  remunerações  no  ano  de  1913.
Como  forma de  potencializarem  a  concretização de  um  eventual  pleito  de  aumento  salarial, os  estafetas  pediam, cinicamente, aos  Agentes  dos  Correios  localizados  que  enchessem  as  guias  de  lama, catarro  e  quejandos, contanto  que  justificassem  a  sua  marcha  de  cagados.
Os  Agentes,  em  regra  bonachões, satisfaziam  o  pedido. Postura  que  configurava  o famoso  pacto  da  mediocridade, que  consistia  em  dispensar  alguém  de  cumprir  suas  obrigações.
Um  salário  condizente  com  a  árdua  missão  que  estavam  na  obrigação  de  cumprir  estimularia-os  a  viajarem  mais  apressados.  Nenhum  estafeta  valido, naquele  tempo,que  fosse  bem  remunerado,  recebendo  a  mala  em  Natal, oito  dias  depois  a  entregaria  em  Natal.
A  estafante  e  crucial  caminhado  do  estafeta  seguia  o  roteiro  oficial, percorrendo  as  distâncias  e  gastando  o  tempo  necessário  assim  especificados:  – De  Natal  à  Jardim  de  Angicos  –  22  léguas  em  um  dia. –  De  Jardim  de  Angicos  a  Angicos –  15  léguas  em  dois  dias.  – De  Angicos à  Assu  –  08  léguas  em  um  dia. – De  Assu  à  Mossoró  –  18  léguas  em  dois  dias.  –  De  Mossoró  a  Apodi  –  14  léguas  em  dois  dias.
Estes  traçados  representativos  das  distâncias  e  do  tempo  necessário  para  percorrê-  las, eram  cumpridas  por  dois  estafetas, um  saindo  de  Natal  tendo  como  parada  final, ou  seja,  percorria  45  léguas  em  quatro  dias, e o outro  pegando  do  Assu  à  Pau  dos  Ferros, ponto  terminal.
No  entanto,  a  correspondência  no  remoto  ano  de  1913  chegou  a  demorar  trinta  dias, depois  da  saÃda  de  Natal,  para  chegar  ao  Apodi.  Para  respaldarem  a  demora, alegavam  ter  que  cruzarem  rios  cheios, motivo  improcedente, uma  vez  que  todos  os  rios  ofereciam  rápido  transporte.
Em  1913  o  Major  Manoel  Moreira  Dias  exercia  o  cargo  de  Diretor  Geral  dos  Correios  no  Rio  Grande  do  Norte.  Era  um  cidadão de  integridade  moral  e  social  à  toda  prova.  Com  certeza,  a  demora  dos  estafetas  devia-se  atribuir  aos  percalços  voluntários  tais  como  bebedeiras  e  forrós, nas  festas  paroquiais  das  cidades  e,  vilarejos  percorridos.
Os  estafetas  eram  muito  considerados  em  suas  funções, posto que as  notÃcias  dos  jornais  que  trazia  de  Natal, ligava  o  interior  rude  e  desprovido  dos  sinais  do  progresso, à  agitação  reinante  na  capital  do  estado.  Tempos  árduos  e  difÃceis.
Marcos Pinto é advogado e escritor























Hj não tá muito diferente. Recebo minhas faturas com 15, 20 e até 30 dias de atraso. Isso dentro da própria cidade.
Era grande o caminho e pouca a vontade diante da Ãnfima remuneração. Nada seduzia, senão participar das festanças paroquiais.
Artigo muito bom, de cunho educativo. Parabéns, Marcos Pinto, como sempre!