domingo - 15/02/2026 - 04:16h

Quando menos esperamos

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Transitória. Fugaz. Assim é a vida. Então é preciso viver cada dia com a maior intensidade. Como se diz popularmente, não deixemos para amanhã (ou depois de amanhã) o que podemos fazer hoje. De repente, quando menos esperamos, a gente se depara com a notícia de alguém que, de maneira natural ou trágica, despediu-se deste plano físico, terreno. Pois é. Nunca sabemos, não fazemos ideia de qual será o dia de cerrarmos os olhos para sempre. Aproveitemos o agora ao máximo. Ainda que esse máximo signifique boas horas de simples repouso, ou ócio criativo. Mas abracemos aquele amigo (decerto no plural) enquanto podemos. Não aprontamos as malas, entretanto, como é de praxe, o nosso passaporte já está carimbado.

Sei, e isto é uma grande obviedade, que estou chovendo no molhado. Não há nada de novo na minha advertência, nesta página carregada de uma saudade recorrente. Todos temos ciência disso. Espero que minhas palavras tenham ao menos o valor de um lembrete, de um carinhoso puxãozinho de orelha. Recordo-me de que outro dia meu xará Marcos Araújo escreveu acerca da frieza contida nessas figurinhas abreviadoras do WhatsApp. Ou seja, eliminamos até as palavras, uma mensagem de texto concisa, curtinha. Estamos sempre tão apressados, tão cheios de afazeres, de compromissos, sem tempo para abraçar familiares e indivíduos que estimamos. Vamos nos contentando só com os aplicativos das redes sociais. Sem calor humano.

Tenho amigos que vez por outra me dizem algo desse tipo: “Hoje eu vou tomar aquele cafezinho com você.” Depois de alguns minutos ou horas, porém, enviam uma mensagem de áudio ou texto desmarcando o encontro. Porque, segundo justificam, surgiu um imprevisto, qualquer coisa mais importante, urgente, certa situação impeditiva. Aí me sinto um tanto frustrado. Pois não raro dou uma arrumada na casa, mesmo às pressas. Removo a poeira fininha da mesa, deixo-a limpa; preparo as xícaras e canecas para receber a visita muito bem-vinda. Há ocasiões em que mais de um amigo se compromete para comparecer a esta Casa Branca da Euclides Deocleciano, 32, aqui no periférico Walfredo Gurgel. Todavia, por motivo justo, não vêm.

Assim, por uma razão ou por outra, postergamos o abraço afetuoso, o bate-papo leve, descontraído. Apesar disso, da ausência de pessoas às quais quero bem, tenho plena certeza de que estamos conectados, embora à distância. Sei que a nossa amizade é sólida e benéfica não só de corpo presente. É verdadeira, edificante. Contudo, volto a dizer, nossa existência é imprevisível. Vivemos sob a ameaça da Moça da Foice. Está à espreita, de tocaia. Súbito, implacável, sem pena, sem dó, a Indesejada nos alcança, põe termo aos nossos planos, intenções, projetos, sonhos. Vou ficando por aqui. A reflexão está exposta. Torço que nos reencontremos em breve. Antes que a cortina do palco da vida desabe, desça em definitivo. Aí será tarde demais.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Francisco Nolasco diz:

    Bom dia, poeta Ferreira. É desse jeito, tudo muito fulgaz.
    O tempo é avassalador leva e não traz!
    Contudo a gente continua na linha de frente da resistência, mostrando como somos e vivendo como podemos.
    Um abraço! Em breve apareçerei para o baile das xícaras!

    • Marcos Ferreira diz:

      Caro poeta Francisco Nolasco,
      Grato por sua leitura e incentivo. Um bom feriado pra você e todos os seus familiares. Muita saúde e paz.
      Abraços.

  2. Valdemar Siqueira Filho diz:

    Perfeito, na nossa vida, o outro atrapalha a sociedade baseada no eu. O afeto está no comunitário, nele o indivíduo cresce em amor e generosidade. Como sabe, uma das comunidades que participo é a universidade, na qual a lógica individualista prevalece, para os professores é o currículo, para os estudantes é o índice de rendimento escolar (IRA), enfim somos pesquisadores e estudantes na solidão. Grande abraço.

  3. Luiz Soares Filho diz:

    Verdade, Grande Professor. Chamo-o de professor, não por sabem em qual escola ou outros estabelecimentos de ensino exercem tal profissão, mas, tao-somente por conciderar-lhe um professor da vida ou da história de muitas delas, que todos os domingos, por meio deste prestigiado espaço você nos deixa cada vez mais reflexivos com a vida, com o tempo e com a expectativa de saberemos o que fazer dela.
    Vez que, tanto as prosas quanto os textos com os quais
    você tem nos prestigiado ao domingos, os faz com às verdades que nós impactam a vida ou a forma de vivê-la.
    Principalmente, quando. Na maioria dos casos, você dar uma importância toda especial, a fatos do dia dia, Protagonizado por pessoas anônimas das mais simples possíveis.
    E. Por meio de um raciocínio lógico, você conta a história delas. O que fazem, como é por que o faz. São os flanelinhas nos cruzamentos de semáforos, são refugiados de países degredados, são os vendedores de doces caseiros. de flanelas. de caixas de morango de Didi etc. Por fim. Eu agradeço profundamente pelas lições de comportamento que nos tem passado em seus preciosos texto. Luiz Soares Filho. WhatsApp 99870947.

    • Marcos Ferreira diz:

      Prezado Luiz Soares Filho,
      Saudações…
      Muitíssimo obrigado por suas palavras de estímulo e carinho. Um depoimento como esse seu, repito, tem o poder de me encher de ânimo para continuar escrevendo essas crônicas dominicais. Desejo-lhe muita saúde e paz.
      Abraços.

  4. Bernadete Lino diz:

    A vida é surpreendente: umas vezes pra coisas boas, noutras pra coisas não muito! A cada acontecimento eu me permito uma reflexão; as promessas que fiz e não cumpri; a minha preguiça mental. Muitas vezes me deixo arrastar por caminhos que não escolhi. Vou seguindo o fluxo. Só que seguir o fluxo nos faz chegar onde todos estão chegando. Nem sempre é o que queríamos. Mas é mais cômodo. Não divergir; não conflitar. Acho que é medo de nos atirarmos em mergulhos mais profundos. Só que não somos donos de nossa vida. E aí a surpresa pode chegar sem que tenhamos tido tempo de viver os nossos sonhos. Concordo que devemos viver o agora. O ontem já foi e o amanhã é uma incógnita!

    • Marcos Ferreira diz:

      Querida amiga Bernadete Lino,
      Sempre você tem novas palavras e reflexões para incentivar este escrevinhador e seu admirador. Muitas felicidades, saúde e paz para você.
      Forte abraço.

Faça um Comentário

*


Current day month ye@r *

Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2026. Todos os Direitos Reservados.