Por Mário Prata
Samuel Wainer, o grande Samuel, estaria, se vivo fosse, dando sonoras gargalhadas, remexendo suas sobrancelhas desencontradas, colocando os óculos em cima da cabeça, tomando seu uisquinho ao ler a hilária discussão sobre a natalidade do japonês (ou não) Fujimori. Eu explico.
Samuel passou pela mesma acusação há mais de quarenta anos. Exatamente no começo dos anos 50. Tudo começou quando Samuel voltava de uma reportagem em Montevidéo para os Diários do Chatô.
De repente o piloto do bimotor avisou:
– Estamos sobrevoando a fazenda do Getúlio.
– Então desce.
– Descer?
Samuel saiu dali com uma reportagem sobre a volta do Getúlio Vargas. Um dos maiores furos da imprensa brasileira de então. “Diga ao Povo que Voltarei”, ou coisa parecida. Getúlio voltou e foi eleito presidente do Brasil. 1950.
Em 51/52 Samuel o convence a dar um jornal para ele, um jornal popular e nacional. O Banco do Brasil financiou e assim surgia no país o jornal “Última Hora” que iria revolucionar a imprensa brasileira gráfica, editorial e salarialmente.
É aqui que começa a história. O jornal fez um retumbante sucesso e o Carlos Lacerda, o ‘Corvo’, resolveu processar o Samuel dizendo que ele tinha nascido na Bessarábia e, portanto, pelas nossas leis, não poderia ser dono de um jornal. A coisa pegou fogo.
Samuel sempre dizia, até o dia da morte dele:
– Nasci no Bom Retiro, em São Paulo.
Nem no seu livro de memória ele assumiria não ser brasileiro. Mas um dia, poucos dias antes de morrer, disse para mim e para a Marta Góes:
– Vou confessar uma coisa para vocês. Eu nasci mesmo foi na Bessarária.
– E por que você não quer colocar isso no livro?
Sorrindo, entornando o uísque:
– É que quando o Lacerda começou a me encher o saco, 45 grandes intelectuais brasileiros assinaram um documento provando que eu tinha nascido na rua da Glória.
– E daí?
– Daí que tem uns que ainda estão vivos. Não posso fazer isso com eles. Seria muito deselegante.
Este era o leal Samuel Wainer. Morreu dizendo que era brasileiro. Aliás, cá entre nós, ninguém foi tão brasileiro quanto ele. Poderia escrever um livro inteiro sobre ele. Um mestre, um galã, uma inteligência rapidíssima.
Um dia fomos a um coquetel e eu estava andando de um lugar para o outro para cumprimentar as pessoas. Ele me segura pelo braço e ensina: “Todo coquetel tem uma coluna. Assim que você chegar acha logo a sua e fica encostado e deixa que o coquetel passe por você. Seja procurado, não procure. E fica tranquilo que os salgadinhos e a bebida também passam.”
E o dia que ele publicou, na primeira página do jornal, uma foto enorme dos ditadores militares batendo continência no desfile de 7 de setembro. Tudo normal, se ele não tivesse invertido a foto e apareceram todos os carrancudos militares a bater continência com a mão esquerda. Imagine o rolo que não deu. Ele ria gostoso. Parecia um moleque.
A última vez que vi o Samuel. Liga para mim e a Marta convidando para sair com ele e uma jornalista dinamarquesa que estava de passagem, para ir entrevistar o Borges em Buenos Ayres, a um show brasileiro. Ia levar a gringa para ver um show do Adoniran Barbosa. Pode? Com ele tudo podia. Fomos para lá.
Imaginávamos uma velha chata que o Samuel não queria aturar sozinho. Chegamos e vimos o Samuel numa mesa, com sua sempre camisa branca de gola rolê e paletó azul escuro, já encantando uma loira lindíssima de 25 anos, mais alta do que ele e uns quarenta anos a menos. E soltando todo seu irresistível e famoso charme de olhos azuis. Em francês, diga-se de passagem.
Terminado o show ele queria levar a moça (encantada com ele) para dançar no Hippopotamus.
– Samuel, seu pulmão não anda bom. Deixa isso pra lá. Não vá dançar… Eles insistiram. Deixamos os dois lá. Era um sábado. Na segunda de madrugada ele estava morto. Havia dançado mais o que devia. Definitivamente: Samuel nasceu na Bessarábia e morreu nos embalos de uma dinamarquesa.
Sua frase predileta:
– Eu estava lá. E era verdade. Sempre no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa. E no país certo.
O seu bessarabiano Brasil.
Mário Prata – É escritor, jornalista, dramaturgo e cronista nascido em Uberaba-MG
Nota do Blog – “Minha Razão de Viver”, de Samuel Wainer, foi um livro que consumi num domingo de carnaval, nos anos 90. Devorei-o. Conteúdo e narrativa envolventes, indispensável para quem tem paixão pelo jornalismo.
Não sou jornalista, mas foi um dos melhhore livros que já li.