domingo - 18/01/2026 - 08:38h

Uma formação meio brasileira

Por Marcelo Alves

Joaquim Nabuco (Reprodução: Web)

Joaquim Nabuco (Reprodução: Web)

Dia desses, conversamos aqui sobre o “romance de formação”, gênero literário de origem germânica, cujo enredo gira em torno da evolução moral e psicológica de um protagonista desde a sua juventude até a idade adulta. Designado pela expressão alemã “bildungsroman”, ele tem em “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister”, de Goethe, o seu marco referencial, com enorme influência sobre a subsequente literatura ficcional no estilo.

Hoje conversaremos sobre uma “formação brasileira” que, embora não seja um romance na precisão técnica do termo, pode ser degustada, pela maravilha do estilo, como tal: “Minha Formação” (1900), de Joaquim Nabuco (1849-1910).

Pernambucano de nascença, Nabuco foi um dos mais ilustres filhos do Brasil. Político e grande orador, jurista (iniciando os estudos em São Paulo, mas terminando no Recife), diplomata, historiador e jornalista, poeta e memorialista. Como político, ao lado de Rui Barbosa, lutou a favor da liberdade religiosa e pela separação entre Estado e religião. Como jurista, defendeu a interpretação mutável e progressiva da Constituição e advogou para o Brasil na (malograda) querela com a Inglaterra acerca dos limites da Guiana.

Foi um homem que, nascido em família escravocrata (era filho e neto de vultos políticos do Império), tornou-se grande abolicionista, advogado de escravos, em luta que abraçou por quase toda a vida. Autor de belíssimas obras – “O Abolicionismo” (1883), “Um Estadista do Império” (1897-1899), “Pensées détachées et souvenirs” (1906) e “Diários” (inéditos até 2005), entre outros –, Nabuco foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e grande amigo de Machado de Assis.

Li “Minha Formação” uma primeira vez, ainda muito jovem, por sugestão do meu pai. Era uma edição já antiga, de 1970, da W. M. Jackson Inc. editores. E ali estava o Nabuco que evocava, com insuperável beleza e emoção, sua terra (Pernambuco), suas origens e a “Massangana” de sua infância. Mas que também falava, com igual beleza, de sua formação em Paris, Londres, Nova York, Washington e no Vaticano. Era o Nabuco multifacetado, mas que, como disse a filha Carolina Nabuco no prefácio dessa edição, foi “um exemplo de equilíbrio feliz. (…) em cada uma das brilhantes facetas da sua personalidade e da sua inteligência, harmonioso consigo mesmo e com o meio”. Me encantou…

Nestes dias de verão em Pirangi/RN, estou relendo “Minha Formação”, desta feita numa edição de 2004 da Editora Itatiaia, que adquiri baratinho (10 reais) numa dessas felizes promoções da vida. Mais maduro, confirmo a excelência das memórias/autobiografia do “primeiro homem público brasileiro a descobrir-se [embora não totalmente, para proveito dos seus biógrafos] com a própria mão de grande escritor”, uma “autobiografia tão psicológica como sociologicamente valiosa, além de notável pela sua qualidade literária. Uma das expressões mais altas da literatura em língua portuguesa”, como disse no prefácio o não menos notável e pernambucano Gilberto Freyre.

De toda sorte, retrospectivamente analisando, para mim, o que há de mais especial em “Minha Formação” será mesmo a sua “pluralidade”. A humanidade do livro espelha a vida de um dos homens mais completos de nossa terra – e aqui falo de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil. É a apresentação de uma alma, de um ambiente, de uma sociedade, de uma civilização, a brasileira. Como dito na apresentação da Editora Itatiaia, “algumas das qualidades mestras da alma brasileira, a bondade, a delicadeza, a doçura, a tolerância, a simpatia humana, a afabilidade, tudo se encontra nas suas páginas inesquecíveis”.

Todavia, ele é também um livro marcadamente cosmopolita. Indo até “Paris, Londres, Nova York, Washington e no Vaticano”. Viajando, no tempo e no espaço, e aprendendo/ensinando, dos engenhos da outrora civilização da cana-de-açúcar às coisas da Zoropa. Isso me marcou deveras. E certamente me formou…

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 08/06/2017 - 09:01h
Cultura

João Almino e o fardão – de Mossoró para o mundo

Por Ancelmo Góis (O Globo)

A cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, tem história. Foi lá, em 1927, que, pela primeira vez, uma mulher votou em eleições brasileiras.

Agora, um filho da terra, João Almino, 67 anos, diplomata e escritor, que experimentou segunda-feira (5) o seu fardão, com o alfaiate Diógenes, foi eleito para integrar a Academia Brasileira de Letras.

João Almino e o alfaiate Diógenes: emoção com conterrâneos de Mossoró (Foto: Fernando Lemos)

“O que mais me emocionou foi a reação de meus conterrâneos de Mossoró e, muito especialmente, a da minha família”, conta Almino, que toma posse em 28 de julho, da Cadeira 22 da ABL, que pertenceu a Ivo Pitanguy. Radicado em Brasília, ele vai lançar, este ano, seu 7º romance, “Entre facas, algodão”, pela Record.

O livro, como a maioria de sua obra, é ambientada na capital do país e nas cidades do entorno. “É a história de um homem que deixa a família em Taguatinga e vai para o Nordeste em busca de amor e vingança”, explica o cabra arretado.

Aliás, o primeiro livro dele, lançado há 30 anos, “Ideias de onde passar o fim do mundo”, parece atual. E é.

Nota do Blog – Aplauso, aplauso. Ascensão que realmente orgulha o mossoroense, mexe com nosso sentimento nativista, aviva nossa auto-estima.

Nem tudo é perdido ou está perdido por essas plagas.

Leia também: João Almino e o pulsar das letras AQUI.

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Categoria(s): Cultura
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