domingo - 07/06/2020 - 07:34h

O alimento como um elemento sociocultural

Por Zildenice Guedes

A produção alimentar trata-se de uma prática milenar e uma das mais importantes revoluções da humanidade, foi sem dúvidas, a Revolução Agrícola. Essa mudança foi tão significativa para a humanidade, que se antes éramos apenas caçadores coletores que vivíamos espalhados pelo globo, foi a partir da Revolução Agrícola que passamos a nos fixar nos territórios e passamos a desenvolver culturas que são representativas até hoje. Foi um marco rumo à civilização.

As práticas foram se aprimorando com o passar do tempo, ao passo que as sociedades foram se organizando e artificializando os processos, para que se diminuísse a dependência da natureza e seus ciclos e garantisse com isso, abastecimento para uma população sempre em crescimento exponencial.Contudo, o aprimoramento dessas técnicas está voltado diretamente para a artificialização dos processos. No passado as pessoas estavam habituadas a comerem frutos da estação, por exemplo, em tempo de manga não se procurava caju, e assim por diante. Ocorre que veio um processo intenso e complexo chamado modernização e com isso, técnicas e tecnologias foram amplamente difundidas provocando com isso um cenário no mínimo dúbio.

As mudanças na alimentação humana têm uma forte relação com o processo de revolução industrial, sobretudo, através do desenvolvimento das indústrias alimentares. Produtos que antes eram fabricados de forma totalmente artesanal (farinhas, óleos, açúcar, etc.) passaram a ser produzidos de maneira totalmente industrial através das usinas, e as empresas que passaram a especializar-se para disponibilizar o alimento pronto (FLANDRIN; MONTANARI, 1998).

Ocorre que nesse tempo de pandemia, houve um aumento na procura por alimentos orgânicos, segundo dados da Valor (2020). Contudo, é importante ressaltar que esse aumento tem sido evidenciado nas últimas décadas, e a procura está relacionada a uma série de fatores tais como, busca por qualidade de vida que normalmente os consumidores associam ao produto orgânico que é isento de agrotóxicos e produzidos sobre os princípios da agroecologia; maior preocupação com a saúde, pois é comum encontrarmos em feiras agroecológicas consumidores que em decorrência de tratamentos de doenças, optam pelos alimentos orgânicos como uma forma eficaz de ajudar no tratamento, ou mesmo, aumentar a prevenção contra os riscos de doenças.

Há ainda a preocupação com a questão ambiental que nas últimas décadas tem sido alvo de debates e discussões para implementação de uma agenda ambiental pautada pela sustentabilidade. Outro elemento de muita relevância está o fato de o consumidor conhecer através das feiras agroecológicas, o produtor rural. Esse contato é fundamental para fortalecimento dessas cadeias curtas de comercialização.

Ressalto que a Agroecologia trata-se de um enfoque sistêmico e científico em que a produção alimentar é realizada sob a perspectiva da sustentabilidade em que uma diversidade de atores produz alimento orgânico em uma ressignificação dos espaços rurais e da agricultura familiar. É um modelo de produção pautado pela sustentabilidade socioambiental, econômica e cultural.

A procura pelo alimento orgânico já é uma tendência bastante consolidada em outros países e aqui no Brasil vemos que na última década tem se fortalecido o que denominamos de circuitos curtos de comercialização, que se configura como uma relação direta entre produtor e consumidor.

Pesquisas têm evidenciado[1], que mesmo os alimentos orgânicos sendo encontrados nas prateleiras dos supermercados, o alimento encontrado nas feiras e adquirido pelas mãos dos produtores vem incorporados de uma ressignificação da relação humana com a natureza, significa ainda para o consumidor que é uma forma de fortalecer a agricultura familiar e contribuir para um planeta mais sustentável.

Assim, o alimento está relacionado a uma necessidade biológica, mas também cultural. Nesse sentido, afirma Pollan (2008, p.16):

Esquecemos que, historicamente, as pessoas comem por muitas razões

além da necessidade biológica. Comida também tem a ver com prazer,

comunidade, família e espiritualidade, com a nossa relação com o mundo natural e com a expressão da nossa identidade. Já que os seres

humanos fazem refeições juntos, a alimentação tem relação tanto com

a cultura quanto com a biologia.

Com isso fica claro que a busca pela qualidade se configura também com o surgimento de uma diversidade de olhares sobre o alimento, e a questão de pensar no alimento procurando entender a sua simbologia e sua representação social, já é uma realidade. Logo, a alimentação passa a ser pensada sob a discussão dos resgates culturais de hábitos alimentares, e ainda como possibilidade de defesa ao meio ambiente, sobretudo, diante da necessidade de repensar a alimentação e as práticas produtivas.

Temos uma constatação, o mundo pós-pandemia precisa ser repensado em muitos aspectos, e pensar que a alimentação enquanto um ato político no sentido de escolha consciente e deliberada do indivíduo, tem se intensificado nas últimas décadas, tal fato pode nos inquietar para repensar a relação humana com a natureza.

Zildenice Guedes é professora-doutora em Ciências Sociais pela UFRN


[1] MAIA, Z.M.G. Circuitos curtos como estratégia da agricultura familiar camponesa: o estudo de caso da feira agroecológica de Mossoró-RN, 2018.

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Categoria(s): Artigo
sexta-feira - 23/01/2015 - 19:06h
Mossoró

Governo municipal aponta ações para convivência com seca

Perfuração de poços, manutenção preventiva e corretiva dos dessalinizadores, oferta de carros-pipas, concessão de insumos aos agricultores, orientação técnica para o plantio, colheita da cultura cultivada e campanha para o uso consciente dos recursos hídricos são algumas das ações efetivadas pela Secretaria Municipal de Agricultura e dos Recursos Hídricos (SEMARH) para a convivência com a seca.

Água é matéria de alto valor agregado (Foto: PMM)

O período de estiagem se prolonga há quase quatro anos e é o pior das últimas cinco décadas no Município. Diante desse quadro, a Semarh se mostra empenhada para elaborar e colocar em prática medidas que assegurem a qualidade de vida das famílias do campo e com condições de trabalharem na sua terra.

“Percorremos diariamente as comunidades rurais de Mossoró, conversando com os moradores e os agricultores para juntos buscarmos as melhores saídas para esse período de estiagem. O Poder Municipal levantou como bandeira de trabalho no setor da Agricultura e dos Recursos Hídricos, a garantia da oferta de água satisfatória e de qualidade para consumo do ser humano, animal e na atividade agrícola”, disse o secretário da Semarh, Rondinelli Carlos.

Óleo diesel

Atualmente, a Prefeitura Municipal administra mais de cinquenta poços com dessalinizadores e oferta gratuitamente a energia elétrica para o funcionamento dos poços, com investimento mensal de quase R$ 70 mil alocados para o pagamento da energia elétrica e a manutenção dos dessalinizadores. Os moradores rurais recebem orientação da Semarh para utilizarem as cisternas quando tiver água na rede, evitando o uso do motor elétrico.

O incentivo aos agricultores vem também através da distribuição do óleo diesel, pelo Projeto Semear, que oferta gratuitamente o combustível utilizado no corte de terra, contemplando mais de cinco mil famílias. O projeto Garantia Safra é uma segurança financeira para o agricultor, em casos de excesso ou falta do recurso hídrico. O incentivo injeta na economia local mais de 1,6 milhão.

Nas suas parcerias, o Poder Municipal, aliado a empresas como o Sebrae e a Petrobras, colocaram em prática projetos como os quintais produtivos, que são alternativas de renda para o agricultor, ao plantar culturas diversificadas e propícias ao solo do semiárido. O funcionamento de tanques que reaproveitam a água dos dessalinizadores evitou o desperdício e deixou propício à criação de tilápias.

Com informações da Prefeitura de Mossoró.

 

 

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Categoria(s): Administração Pública
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