domingo - 17/10/2021 - 07:34h

“Fake News” e crise nas democracias

Por Ney Lopes

Não é apenas no Brasil o debate sobre a questão das regras que regulam o funcionamento das redes sociais, em especial em relação à remoção de conteúdo.

A Alemanha é um dos primeiros países que aprovou legislação específica de responsabilização das redes sociais, por conteúdos publicados em suas plataformas.

Lá foi aprovada a lei denominada Network Enforcement Act (NetzDG), cujo objetivo é combater a divulgação das notícias falsas.Fake News - notícias falsas

Em diversos continentes, legislações combatem aquilo que de forma genérica é designado por “fake news”, que caracterizam notícias falsas, distribuídas deliberadamente propagando a desinformação e os boatos via jornais, televisão, rádio, ou ainda online, como nas mídias sociais.

Esses procedimentos criminosos geram profunda crise nas democracias, afetando a credibilidade dos poderes constitucionais (Executivo, Judiciário e Legislativo).

Frequentemente, surgem lideranças populistas para fomentar o descrédito das instituições livres, mostrarem que o Estado não tem força e tudo se encontra contagiado pela corrupção.

A proposta é o estado centralizado e autoritário, como única forma de controle social. Nesse contexto, as “fake news” são ferramentas utilizadas nas mídias sociais para misturarem elementos reais (nomes, locais, fotos, etc.), com mentiras visando enganar a opinião pública.

Este é um tema presente nas agendas internacionais, na busca de alternativas que apurem a responsabilidade das mídias sociais, sem interferência no princípio da liberdade de expressão, ou violações a direitos fundamentais.

O grave é que as vítimas são justamente as democracias liberais, que se baseiam na liberdade de expressão, porém se encontram cada vez mais ameaçadas por essa liberdade, sem controles, que propicia a disseminação de discursos de ódio, desinformação e demais tipos de conteúdo ilegal.

No Brasil, tramita no Congresso um projeto de lei para alterar o Marco Civil da Internet, mudando as regras que regulam o funcionamento das redes sociais, em especial em relação à remoção de conteúdo pelas empresas.

Atualmente, a punição das “fake news” está restrita a legislação eleitoral, que se aplica a quem, comprovadamente ciente da inocência do denunciado e com finalidade eleitoral, divulga ou propala, por qualquer meio ou forma, o ato ou fato que lhe foi falsamente atribuído.

A União Europeia criou um código de boas práticas para as plataformas digitais, porém de cumprimento voluntário. Já foi aprovada uma alteração, ainda não implementada, que traz artigo sobre a obrigação de filtragem prévia de conteúdo por parte das plataformas.

Na França, a lei criou definição de notícias falsas em período eleitoral, com objetivo de influir no voto. Nesses casos, as autoridades podem remover conteúdos e bloquear sites.

Nos Estados Unidos, vem crescendo a consciência social sobre a necessidade de impor limites à atuação das plataformas, como medida essencial para enfrentar a desinformação.

Os desgastes decorrentes das pressões negativas das mídias sociais obrigam os países democráticos reinventarem o modo de fazer política.

Há análises que defendem estar a democracia enfrentando uma “era de desilusão”. Não seria colapso, mas a constatação de que “ao longo da última década, vários acontecimentos representaram uma ameaça séria para novas democracias” e até as democracias consolidadas”.

O chamado “vazio democrático” se expressa através do no aumento das desigualdades sociais, na devastação ambiental, no desemprego e na insegurança do emprego, na violência urbana e a violência contra as mulheres e tantos outros conflitos.

Essa realidade impõe que a questão de regulação das mídias sociais seja enfrentado, sem resvalar para os riscos de limitação dos direitos fundamentais.

Esse é hoje um sentimento global, por estar diretamente vinculado ao funcionamento estável das democracias. O Brasil não pode ficar para trás e a responsabilidade será do Congresso Nacional.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

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Categoria(s): Artigo
domingo - 15/08/2021 - 10:30h

Ler para não crer

Por Marcelo Alves

A sábia menina Mafalda, do cartunista Quino (1932-2020), tem uma frase fantástica, que vivo repetindo por aí: “viver sem ler é perigoso. Te obriga a crer no que te dizem”. Não sei de quando é essa sentença, já que a tira de quadrinhos foi criada lá nos anos 1960. Mas a ideia por detrás dela nunca foi tão atual.Fake News - tecla

Hoje, a desinformação proposital, que batizamos de “fake news”, ganhou o mundo e, para atender aos interesses dos nossos milicianos digitais, fez casa no Brasil, sobretudo por meio do WhatsApp. Li na Internet dados estarrecedores. Em 2018, o instituto francês Ipsos divulgou o estudo “Fake news, filter bubbles, post-truth and trust” (“Notícias falsas, filtro de bolhas, pós-verdade e verdade)”, realizado em 27 países, que revela o buraco em que nos metemos: 62% dos entrevistados brasileiros disseram ter acreditado em fake news, valor bem acima da média mundial de 48%.

Já o “Reuters Institute Digital News Report” (relatório anual feito pelo Instituto da Universidade de Oxford), na versão 2021, constata que o WhatsApp é, com o Facebook, uma das principais redes de notícias no país. 47% dos brasileiros pesquisados usam o WhatsApp como fonte de informação. E isso é muito superior – muito mesmo – à média dos países desenvolvidos, a exemplo do Reino Unido e dos EUA, onde se tem 14% e 6%, respectivamente.

Embora “a incerteza trazida pela pandemia tenha encorajando o apetite das pessoas por informação confiável” – e esse é o dado positivo de 2021 –, vocês podem imaginar, por comparação, a borda/precipício da “terra plana” em que a milícia do WhatsApp nos pendurou.

As fake news crescem a partir da divulgação criminosa por gente de má-fé. Mas também na medida do compartilhamento, sem a leitura questionadora, das pessoas de boa-fé. Uma coisa que sempre me indignou, agora muito mais, é a capacidade do ser humano de repetir lugares-comuns e cretinices.

As sofisticadas fake news são um plus em relação a isso. Com títulos ou imagens sensacionalistas, distorcendo a verdade, apelam ao emocional do divulgador. Corroboram os seus preconceitos inconfessáveis. Fazem-no divulgar aquilo que acredita mas não tem a coragem de assumir com suas próprias palavras. As leis da imitação, de Gabriel Tarde (1843-1904), nunca encontraram terreno tão fértil como no estrume iletrado do WhatsApp.

O caso dos movimentos antivacina ilustram tragicamente a situação. Amalucados criminosos, contrários às vacinas, espalham falsidades, sugerindo que as vacinas podem ser ineficazes ou mesmo prejudiciais à saúde. Coisas sutis como provocar autismo nas crianças ou conspirações como modificar o nosso DNA. De mentira em mentira, volta o sarampo ou temos uma explosão de Covid nos não vacinados, perigando o fim da pandemia em prejuízo de todos.

Há gente como Pierre Lévy (1956-) e Yuval Harari (1976-) que veem na Internet e na inteligência artificial, em contrapartida ao lado positivo, um perigo enorme à democracia e ao mundo civilizado. O controle imperceptível que as fake news – e as bolhas de informação criadas por elas – podem ter sobre o que pensamos e compartilhamos é imenso. E acabam nos dando de volta sempre mais do mesmo, insuflando os nossos – às vezes, terríveis – preconceitos. Peter Sloterdijk (1947-) nos fala de um mundo ou vários mundos forjados a partir de “bolhas”. Bolhas cheias de “idiotas da aldeia”, como dizia Umberto Eco (1932-2016).

A pergunta é: existe solução para isso no estado democrático de direito? Não queremos um big brother, por óbvio. Há dicas para não se cair nas mentiras das redes sociais.

Desconfie de títulos milagrosos ou sensacionalistas. Eles são criados para gerar robotização. Confira a data da publicação. Notícia real, mas antiga, distorce a verdade. Confira e investigue a fonte. Ela existe ou é apenas um print de WhatsApp? A fonte tem credibilidade? Aliás, é bom consultar os sites de verificação gratuitos. Existem vários.

Sinceramente, eu não sei a solução. Apenas acredito no infinito poder das palavras. Das bibliotecas, dos livros e da leitura questionadora, assim como o autor de “O nome da rosa”. E que “viver sem ler é perigoso”, como diz a Mafalda.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
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