Por François Silvestre
O mais grave na desumanização contemporânea não é a violência contra a espécie humana. Mesmo que essa violência seja a marca determinante desses tenebrosos tempos.
Adjetivar o tempo, por si só, já diz negativamente contra a nossa época. Negação da belle epoque.
Até a hipocrisia, “vício que presta homenagem à virtude”, perdeu a face suave da falsidade. As expressões de saudação, de apresentação ou de agradecimento cedem lugar à pressa do resmungo.
Não há encontros, há encontrões. Nem cumprimentos, só encenações. Reina um mau humor, carões e testas engelhadas, numa pressa para ir a lugar nenhum. A antipatia coletiva facilita a violência, pois cada um procura abrigar-se nas grades do egoísmo.
A solidariedade isola-se, desprotegida de motivações e argumentos. Apontar o dedo acusador justifica, na maioria dos casos, frustrações pessoais. Mesmo quando a acusação é procedente, há excessos no pudor acusatório. É como se alguém fizesse a catarse das suas culpas escondidas, ao expor à execração o alvo da sua fúria.
Fôssemos tão puros quanto parecemos na acusação, não teríamos produzido tanta impureza. Ou o que aí está, navegando em lama, não tem algo do nosso disparo? Tem e muito. É só uma questão do flagrante. Como diria Mia Couto, “todo tiro certeiro carrega algo de quem dispara”.
Somos o tempo da desvocacionalidade. Não há vocação, há escolha pelas imposições do mercado. E no caso dos cargos públicos, a vocação se consuma no contracheque.
Após a posse, começa o processo de preencher a vocação adquirida. Como ocorre no organismo ao contrair uma moléstia não congênita. Neste caso, é a moléstia de caráter que se adquire.
E esse caráter deformado vai fiando a tecedura do tecido social, que se esgarça precocemente ante a má qualidade dos fios tecidos. Teares de tapetes rotos.
Disse no início algo que parece uma estupidez. Como se houvesse dito que a violência é secundária. Pior, a violência contra a espécie humana. Não. Não é secundária. Porém, não é o mais grave. Por quê? Porque ela é consequência e não causa.
A gravidade fundamental está na causa. A decorrência é subsequente. Portanto, de gravidade inferior. Mesmo sendo tão ou mais agressiva do que a própria causa. Isso não é apenas um exercício dialético. É uma tentativa de reflexão.
Contudo, aí está outro mal do nosso tempo: a abstinência do pensar. Ninguém quer perder tempo com a reflexão. Individualmente, se você não reflete não faz autocrítica. Coletivamente, a não reflexão transforma povo em massa. E de massa vira boiada.
Quem está na boiada delega a outrem não apenas as decisões, mas a própria opinião. Não decide nem opina. Não se aprendeu a lição de Stendhal: “Se não posso mudar de opinião, ela será o meu tirano”.
Adere a partidos como a escolha do time de futebol, ainda na infância. E segue torcedor daquele time pro resto da vida. Quem age assim, e tem sido a regra, decreta o fim da reflexão.
Té mais.
François Silvestre é escritor






















