domingo - 26/10/2025 - 10:46h

Guerra entre coronéis – as eleições de 1934/1935 no RN

Por Honório de Medeiros

Mário Câmara, Interventor Federal no Rio Grande do Norte de 2 de agosto de 1933 a 27 de outubro de 1935 (Foto: Reprodução)

Mário Câmara, Interventor Federal no Rio Grande do Norte de 2 de agosto de 1933 a 27 de outubro de 1935 (Foto: Reprodução)

Em uma avaliação muito pessoal, penso que a década de 20, no Rio Grande do Norte, acabou quando o Partido Popular elegeu o Governador do Estado após a vitoriosa campanha de 1934 -1935 e a aristocracia rural cedeu, assim, o Poder à burguesia mercantil/industrial que se instalava em terras potiguares.

Esse novo Brasil que surgia após a Revolução de 30 – hoje tão esquecida – e se consolidou na Era Vargas, mas cujo ideário “tenentista” pode ser rastreado até o Golpe de 1964, no Rio Grande do Norte encontrou, quando da redemocratização depois aviltada por Getúlio, uma estranha situação política configurada de forma radical no embate político partidário de 34/35: de um lado, liderado por Mário Câmara, união entre cafeístas, que poderiam ser posicionados à esquerda do espectro político, e coronéis do interior do Estado, proprietários de terras e criadores de gado, acostumados ao mando mais absoluto em seus redutos eleitorais; e, do outro, a burguesia mercantil e industrial cuja base maior, surgida a partir do cultivo e beneficiamento de algodão e exploração do sal, era o Oeste e Alto Oeste do Rio Grande do Norte, com epicentro em Mossoró e liderada pela família Fernandes, e o Seridó, grande plantador e fornecedor do denominado “ouro branco”, liderado pelo ex-governador José Augusto Bezerra de Medeiros.

Não por outra razão, concluído o pleito, foi eleito Governador do Estado, pela Assembleia Legislativa, Rafael Fernandes, líder político no Oeste e Alto Oeste, em detrimento de José Augusto.

É deprimente constatar a pouca literatura acerca desse período por demais importante da história do Rio Grande do Norte. Excetuando um ou outro opúsculo, desaparecido das vistas dos pesquisadores e somente encontrados, depois de muita luta, em sebos que como é sabido, primam pela desorganização e falta de higiene, três livros, apenas, bastante antagônicos entre si, jogam alguma luz sobre o período aludido: “A HISTÓRIA DE UMA CAMPANHA”, de Edgar Barbosa; “VERTENTES”, autobiografia de João Maria Furtado; e “DO SINDICATO AO CATETE, autobiografia de Café Filho.

O primeiro, visceralmente ligado aos líderes do Partido Popular; o segundo, cafeísta histórico.

Aqui não cabe uma incursão na história dos anos vinte e trinta do Rio Grande do Norte. Não é essa a intenção. O que se pretende, é mostrar o contexto político de exacerbada violência vivida no Estado naquela época, na qual o coronelismo como conhecido, cuja erradicação era uma promessa de campanha da Revolução de 30, vivia seus últimos esgares.

Essa violência, não esqueçamos, na campanha política de 34-35, foi posterior à invasão de Mossoró por Lampião, fato ocorrido em 1927, mas com a qual guarda estranhas ligações.

Para se ter uma ideia, o livro de Edgar Barbosa começa com uma página na qual se lê seu oferecimento e indica fielmente o que há de vir pela frente:

À MEMÓRIA IMPERECÍVEL DOS SACRIFICADOS NA CAMPANHA DE CIVISMO E REDENÇÃO DO RIO GRANDE DO NORTE; A FRANCISCO PINTO, OTÁVIO LAMARTINE, MIGUEL BORGES, JOSÉ DE AQUINO, FRANCISCO BIANOR, MANOEL DOS SANTOS, LUÍS SOARES DE MACEDO E ADALBERTO RIBEIRO DE MELO; às vítimas da covardia dos cangaceiros, aos seviciados pela barbaria policial, a todos os que sofreram humilhações e injúrias, aos perseguidos, aos ameaçados, aos coagidos no seu trabalho e nos seus lares, aos que morreram com fome e sede de liberdade. Homenagem do Partido Popular.

Coronel Francisco Pinto de Apodi, assassinado em 2 de maio de 1934 em sua casa, aos 39 anos (Reprodução com IA para o BCS)

Coronel Francisco Pinto de Apodi, assassinado em 2 de maio de 1934 em sua casa, aos 39 anos (Reprodução com IA para o BCS)

Dentre os mencionados na homenagem chama a atenção o nome do Coronel Francisco Pinto, parente, compadre e correligionário político do Coronel Rodolpho Fernandes, a aquela altura já assassinado, e que escapara da morte – ainda hoje não se sabe como – quando da invasão de Apodi em 1927 pelo bando de Massilon([1]), assim como o de Otávio Lamartine, ninguém mais, ninguém menos que filho do ex-Governador, deposto pela Revolução de 30, Juvenal Lamartine.

Não se vai entrar nos meandros dos dois assassinatos. Entretanto é inegável que suas mortes somente aconteceram em decorrência da campanha política de 34-35.

Mesmo aqueles que se posicionaram em lados opostos ao abordar a questão se negariam a contradizer tal afirmação.

Outro fato que demonstra a exacerbada violência daqueles tempos é pungentemente narrada por Amâncio Leite em carta dirigida a Sandoval Wanderley, diretor de “O Jornal”, em Natal, aos 20 de janeiro de 1937, publicada em forma de opúsculo, depois, pela “Coleção Mossoroense”[2].

Nessa carta famosa, à época, Amâncio Leite, eleito deputado estadual pela situação([3]) na campanha de 34-35, protesta por sua prisão e a de seu colega Benedito Saldanha, acusados de “extremismo” e “comunistas”, acusação essa acatada pela Assembleia Legislativa do Estado em sessão do dia 10 de setembro de 1936 na qual todos os deputados do Partido Popular votaram a favor, tão logo chegaram ao Poder, em um claro revide aos seus adversários.

O coronel latifundiário Benedito Saldanha acusado de “comunista”. Ironia do destino…

A presença da violência, portanto, era algo comum na política daqueles anos. O homicídio em decorrência de disputas pelo Poder, também o era. Como negar esse fato se um pouco mais atrás, em 26 de julho de 1930, o assassinato de João Pessoa por João Dantas deflagara a Revolução de 30?

Muito embora João Dantas tenha morto João Pessoa em decorrência do aviltamento que sofrera com a publicação em jornal oficial de sua correspondência íntima com Anaíde Beiriz, é fato que isso somente ocorrera porque ambos eram fidagais inimigos políticos.

E da presença da violência ocasionada por disputas políticas não estava livre, naqueles anos 20, o Rio Grande do Norte.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

[1] Consta que as mesmas lideranças políticas que estavam por trás da invasão de Apodi em 1927 também o estavam em 1934, quando do assassinato do Coronel Chico Pinto.

[2] Série B, nº 768.

[3]Aliança Social, liderada por Mário Câmara.

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domingo - 24/08/2025 - 07:14h
Mossoró, 1927

Uma trincheira pouco conhecida e o misterioso Júlio Porto

Por Honório de Medeiros

Da esquerda à direita: Raimundo Firmino de Oliveira, Aldemir Pessoa Fernandes, Ezequiel Fernandes, Pedro Fernandes e Raimundo Nonato A. Fernandes, sócios de Alfredo Fernandes & Cia Ltda.

Da esquerda à direita: Raimundo Firmino de Oliveira, Aldemir Pessoa Fernandes, Ezequiel Fernandes, Pedro Fernandes e Raimundo Nonato A. Fernandes, sócios de Alfredo Fernandes & Cia Ltda.

Nos idos de 1925, o adolescente Raimundo Nonato Alfredo Fernandes, então com quinze anos, viu encostar, no terreiro da casa de seus pais José Fernandes Chaves e Maria Adília Fernandes, um Ford 1922 com duas pessoas dentro.

Era Elias Fernandes, que vinha convidá-lo para trabalhar com Alfredo Fernandes, proprietário da empresa do mesmo nome em Mossoró e da lendária residência na Avenida Alberto Maranhão, vizinha, por um lado, à também lendária residência do Coronel Rodolpho Fernandes, de quem era cunhado, e que hoje é a sede da Prefeitura da Cidade de Mossoró, e, pelo outro, à também lendária Igreja de São Vicente de Paula.

Elias e Alfredo Fernandes, primos legítimos de Raimundo Nonato, eram filhos do Coronel Adolpho Fernandes, protagonista do “Fogo de Pau dos Ferros”, em 1919, quando sua família, por ele liderada, expulsou o líder político Coronel Joaquim Correia da cidade.

O Coronel Joaquim Correia jamais voltou a Pau dos Ferros. E o Coronel Adolpho Fernandes era Prefeito (Intendente) quando Lampião atacou Mossoró.

A outra pessoa no carro atendia pelo nome de Júlio Porto, e era motorista da família Fernandes. Raimundo Nonato não sabia, mas viajou até Mossoró ao lado do seu primo e de um futuro cangaceiro que teve papel importante nas articulações que suscitaram os ataques a Apodi, em 10 de maio, por Massilon e seu bando, e a Mossoró, em 13 de junho de 1927, dessa vez por ninguém menos que o próprio Lampião.

Atentemos para o detalhe: em 1927 Júlio Porto, natural de Aurora, no Ceará, já conhecia, e bem, Mossoró.

Passam-se dois anos. Estamos em 1927. Junho. No dia 13, Lampião invadiu Mossoró.

No final da rua hoje denominada Dr. Francisco Ramalho, lateral do lado direito da Igreja de São Vicente de Paula, no sentido de quem vai para o centro da cidade, na última residência, residia Ezequiel Fernandes de Souza, sobrinho do Coronel Adolpho Fernandes e sócio da Companhia Alfredo Fernandes Indústria e Comércio.

Nela, a poucos passos da Igreja, montou-se uma tosca trincheira para aguardar os cangaceiros.

Sob a liderança de Ezequiel Fernandes, lá estavam sua esposa Ester(1), que havia dado a luz e padecia de febre puerperal; o chofer de um caminhão da Prefeitura que aguardava condições para retirá-la da cidade, mas que fugiu tão logo aconteceram os primeiros tiros; um freguês da empresa Alfredo Fernandes chamado de “Velho Chico”; e um amigo da família, Maurílio, que lá estava porque tinha raptado Isabel, sobrinha de Afonso Freire e a depositado sob os cuidados dos donos da casa.

As quinze pessoas, no total, recolheram-se em um quarto no centro, no entorno da cama da doente: Ezequiel Fernandes; Pedro Ribeiro, seu primo; seus filhos Laete, Luís e Aldo; Francisco Fernandes de Sena (Chico Sena), seu sobrinho; Isabel; as domésticas Leonila e Esmerinda; as vizinhas Maria Leite e sua filha Laura; Julieta, filha de Delfino Fernandes; Alzenita Fernandes; e Raimundo Nonato, então com dezessete anos.

Os integrantes da trincheira, que se posicionaram no telhado da residência foram o “Velho Chico” e Maurílio(2).

Dessa vez Raimundo Nonato não chegou a ver Júlio Porto, mas o ex-motorista dos Fernandes que fora lhe buscar em Pau dos Ferros talvez tenha estado com os cangaceiros de Lampião e Massilon no ataque a Mossoró. Com certeza já estivera na invasão de Apodi, com Massilon.

O misterioso Júlio Porto, nasceu em Aurora, no Ceará, mesma cidade onde nascera e exercia enorme influência política no Cariri o Coronel Isaías Arruda.

Em 1927 Júlio Porto tinha vinte e três anos de idade. Júlio Porto não era Porto. Seu verdadeiro nome era Júlio Sant’anna de Mello. O “Porto” viera de sua estreita ligação com Martiniano Porto, fidalgote nas terras do Apodi, e inimigo sangue-a-fogo do Coronel Francisco Pinto, líder político da cidade.

Martiniano Porto era relacionado por laços de interesse recíprocos com Tylon Gurgel e Benedito Saldanha(3) – futuro Prefeito daquela cidade -, todos ferrenhos opositores do Coronel.

Tylon Gurgel, por sua vez, era sogro de Décio Hollanda, e Benedito Saldanha, protetor de Massilon Leite no Ceará, fronteira com Apodi, o qual se considerava “afilhado” de seu irmão, o Coronel Quincas Saldanha, a quem chamava de “padrinho”, desde os tempos de sua jagunçada em Brejo do Cruz, quando matou Manoel Paulino de Moraes, José Augusto Rezende (juiz da cidade), feriu Minervino de Almeida (também juiz), e Severino Elias do Amaral, a serviço de um consórcio de coronéis da região.

Júlio Porto foi um dos elos de ligação entre os inimigos políticos dos Coronéis Francisco Pinto e Rodolpho Fernandes, com o Coronel Isaías Arruda, pelo fato de ser de Aurora(4). Ele está presente em momentos cruciais ligados à invasão de Apodi e Mossoró.

"Bronzeado prestou depoimento (Foto: reprodução)

“Bronzeado prestou depoimento (Foto: reprodução)

Em seu depoimento à polícia, Bronzeado corrobora essa versão, ao afirmar que:

“trabalhava com o senhor José Cardoso, que mora em uma fazenda do senhor Izaias Arruda chefe de Missão Velha e do qual o Cardoso é primo. Estava ali trabalhando quando chegou a ordem do senhor Izaías de seguirem para Apody, afim de fazerem o ataque já conhecido, a convite do senhor Décio Hollanda, morador em Pereiro. Ele e outros não queriam seguir, mas foram obrigados. O portador da carta de Décio fora o conhecido ‘chauffeur’ Júlio Porto, também bandido, que aqui morou”(5).

Júlio Porto conhecia Mossoró, portanto, como ninguém. Raul Fernandes nos relata o seguinte, em A MARCHA DE LAMPIÃO(6):

“Joanna Bezerra da Silva, conhecida por Doca, deu-nos uma entrevista interessante: Morava em Mossoró. Empregada doméstica da casa de José de Oliveira Costa (Costinha Fernandes), comerciante, sócio da firma Tertuliano Fernandes & Cia. Disse que Júlio Porto fora por último chofer de caminhão da referida firma. Meses antes do assalto a Apodi, desaparecera de Mossoró. Vez por outra aparecia à noite, muito apressado. Entrava pelo portão do fundo do quintal da casa, pedia café à Doca e sumia. Aconteceu chegar vestido à moda de cangaceiros. Dizia ser o traje onde trabalhava”.

Sendo de Aurora, Ceará, com certeza Júlio Porto sabia quem era José Cardoso, proprietário da Fazenda “Ipueiras”, parente e aliado do Coronel Isaías Arruda. A ele, quem sabe, apresentou Décio Hollanda, genro de Tylon Gurgel, amigo e correligionário de Martiniano Porto e Benedito Saldanha. Disse a Décio Hollanda, representante do grupo político contrário aos Coronéis Francisco Pinto e Rodolpho Fernandes, talvez, que José Cardoso era o homem certo para se chegar ao Coronel Isaías Arruda e, através dele, a cangaceiros e jagunços a serem comandados por Massilon.

É possível que Júlio Porto não tenha participado do ataque a Mossoró, embora estivesse na invasão de Apodi. Essa é a opinião de Calixto Jr, no excelente VIDA E MORTE DE ISAÍAS ARRUDA(7):

“Depois do assalto (a Apodi), tendo regressado a Aurora, Júlio Porto retorna à casa de Mundoca Macêdo no Angico, a quem vendeu por 95$000 um rifle e cinquenta balas que lhe havia sido cedido para a empreitada. Efetuada a venda, retirou-se para Juazeiro do Padre Cicero, onde viria a matrimoniar-se, ainda em 1927. Lançando mão de algum dinheiro que a esposa possuía, montou carpintaria nas proximidades da atual rua do Cruzeiro, onde trabalhou por uma temporada até ser preso”.

Uma vez preso e recambiado para Apodi, como visto, e liberto por Roldão Maia, o assassino do Coronel Chico Pinto, então carcereiro, sumiu no oco do mundo…

(1) Ester Fernandes não resistiu à doença e faleceu quatorze dias depois, no dia 27 de junho, cercada pela família.

(2) Tudo aqui é contado conforme o livro RAIMUNDO FERNANDES, ANTEPASSADOS E DESCENDENTES, da lavra de Inês Maria Fernandes de Medeiros, com alguns acréscimos.

(3) Do pesquisador Marcos Pinto, acerca de Décio Hollanda, Benedito Saldanha, e Tylon Gurgel, recebi a seguinte correspondência eletrônica, em 23 de janeiro de 2012:

“Encontrei um fato por demais interessante no inquérito/processo que apurou o ‘FOGO DE PEDRA DE ABELHAS’.

Consta por testemunha firme e valiosa que DÉCIO HOLLANDA comprou, no começo do ano de 1925, duas mil balas de rifle e mandou esconder em local que o Capitão Jacintho não conseguiu localizar. Agora, veja a coincidência: dois anos (1927) depois consta que Lampião recebeu um suprimento de duas mil balas de rifle quando se preparava para atacar Mossoró. 

Ora, se esta munição não foi gasta nem apreendida pelo Capitão Jacintho, é a mesma que Décio conduziu, em caixões muito bem disfarçados, “escanchados” em lombos de burro, segundo octogenários que ainda hoje comentam o episódio em Felipe Guerra.

Estou alinhavando um novo artigo que terá o seguinte título: “CANGAÇO NO OESTE POTIGUAR – DO FIO DA NAVALHA AO FIO DA MEADA. Vou provar por A mais B a proteção dada ao cangaceirismo por parte dos desembargadores FELIPE GUERRA e HORÁCIO BARRETO e do Juiz de Direito JOÃO FRANCISCO DANTAS SALES, que recebia abertamente, em sua casa em Apodi, Décio Holanda, Tylon Gurgel e Benedito Saldanha.

JOÃO DANTAS SALES foi transferido, “a pedido”, para Acari, em 25 de maio de 1925, por instâncias do Governador José Augusto, que convenceu o então Presidente do Superior Tribunal de Justiça Estadual, atual TJE.

Acrescente-se que HORÁCIO BARRETO era sobrinho de JUVÊNCIO BARRETO, que veio de Martins para Apodi em 1915, à convite de MARTINIANO DE QUEIRÓZ PORTO, para fixar residência e cerrar fileira na oposição à família PINTO comandada por Tylon Gurgel e seu genro Décio Hollanda. 

O Dr. José Fernandes Vieira também traficou influência em favor do seu sogro Martiniano Porto, sendo certo que, em 1925, o aconselhou a ir residir em Pau dos Ferros. 

Observo que os dois mil cartuchos que foram comprados por Décio Hollanda, o foram em Mossoró, em 1925. 

Lembrei-me de outra particularidade: o Desembargador Horácio Barrêto era sobrinho da esposa (Alexandrina Barrêto) do Governador do Rio Grande do Norte, Joaquim Ferreira Chaves, que deu apoio oficial à perseguição policial a Joaquim Correia e aos Ayres em Pau dos Ferros, em 1919. Horácio e Felipe Guerra foram indicados e nomeados desembargadores por Ferreira Chaves em 1919. 

Felipe Guerra foi candidato e eleito Deputado Estadual em 1934 na chapa dos “Pelabucho” na qual constava, ainda, Benedito Saldanha”.

(4) Leiamos um auto de interrogatório de Júlio Porto no qual ele informa que é cearense e, também, que o guarda que lhe deu fuga, jagunço do Coronel Benedito Saldanha, foi o mesmo Roldão Maia que anos depois assassinaria o Coronel Chico Pinto:

“Auto de perguntas feitas a Julio Sant’Ana de Melo, vulgo Júlio Porto.

Aos vinte e dois dias do mês de maio do ano de mil novecentos e trinta e três, nesta cidade de Apodi, município do mesmo nome, Estado do Rio Grande do Norte, em o salão da cadeia pública desta cidade, aqui presente o cidadão Osório Martins de Moura Brasil, Delegado de Polícia deste município, comigo escrivão abaixo assinado, presente o preso Júlio Sant’Ana de Melo, vulgo Júlio Porto, pela mesma autoridade lhe foram feitas as seguintes perguntas: Qual o seu nome, prenome, idade, estado, profissão, naturalidade, profissão, residência e se sabe ler e escrever? Respondeu chamar-se Júlio Sant’Ana de Melo, vulgo Júlio Porto, com vinte e nove anos de idade, solteiro, motorista, natural do Estado do Ceará, filho de Manoel Sant’Ana de Melo e Francisca Maria da Conceição, residindo nesta cidade, sabendo apenas assinar o nome. Perguntado como fugiu da prisão, quem o auxiliou e porque voltou? Respondeu que em o dia vinte do corrente mês, cerca de dezenove horas, com um pedaço de pau, abriu a prisão em que se achava e abrindo o portão, saiu pelo interior da cadeia; que se tinha alguma praça o guardando na ocasião em que saiu da prisão, não viu; que saiu na carreira na procura de Mossoró, onde destinava-se; que chegando no lugar chamado “Mato Verde”, e depois de subir a serra, resolveu voltar, chegando hoje nesta cidade, cerca de nove horas; que não teve quem o auxiliasse a fugir da prisão, bem assim quem o aconselhasse a fugir; que saiu como um doido quando saiu, pois estava bastante ébrio; que passou em casa de Arnóbio Câmara, despediu-se da mulher deste e saiu às carreiras; que Arnóbio não estava em casa quando passou por lá; que da casa de Arnóbio saiu pela estrada afora em busca de Mossoró; passou em casa de uma mulher conhecida por Preta, despediu-se da mesma e seguiu viagem; que no Sítio ? mais ou menos, nas proximidades da casa de José Honorato de Moraes, vulgo Zeca ?, pressentiu que ia a sua procura uma força; que ocultou-se dentro do mato e viu quando a força passou, reconhecendo serem uns soldados; que na tarde do dia em que fugiu andava só uns soldados da força do Tenente Virgílio Barbalho, e chegando em casa de Amália de Tal, os mesmos soldados tomaram um pouco de aguardente e deixaram um bocado em um copo para o respondente; que tomou o aguardente e saiu logo embriagado não sabendo o que ia fazendo; que quem trancou o respondente na prisão no dia em que fugiu foi o guarda Roldão, isso por lhe terem dito. E como nada mais disse…”

Trincheira na cada de Rodolfo Fernandes (Foto: Reprodução)

Trincheira na cada de Rodolfo Fernandes (Foto: Reprodução)

(5) O CANGAÇO NA IMPRENSA MOSSOROENSE; PIMENTA, Antônio Filemon Rodrigues; Tomo II; Coleção Mossoroense; Série “C”; nº1.104; 1999; Mossoró.

(6) 4ª. Edição; Nota 9 ao Segundo Capítulo.

(7) CALIXTO JÚNIOR, João Tavares; Fortaleza: Expressão; 2019.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 08/10/2023 - 09:22h
Ataque a Mossoró

Muito dinheiro, coronéis e várias dúvidas no rastro de Lampião

Por Marcos Pinto

Inquérito é um documento sobre dinheiro para resgate do coronel Antônio Gurgel

Inquérito é um documento sobre dinheiro para resgate do coronel Antônio Gurgel

Ainda recai pesado manto de sepulcral silêncio sobre a temática do cangaço, protagonizado pelo célebre cangaceiro Virgulino Ferreira – O Lampião, em terras da região Oeste-Potiguar. Em investidas às pesquisas de campo, observam-se veementes esquivas oriundas de pessoas de idades longevas, no que consiste às minudências que configuram um inédito libelo de alguns protagonistas da incursão lampionesca ao RN.

O forçoso silêncio denota uma espécie de ‘pagamento de pedágio’ para atravessar as situações envolventes de cruenta exorcização. Sobre alguns detentores de interessantes particularidades, como acumpliciamento, pesa-lhes a pobreza – que beira a indigência. Não há como servir de caixa de ressonância, ampliadora e diária, mesmo à boca miúda.

Assim, guardam no silêncio o heroísmo e a dignidade da coerência existencial. Minudências de circunstâncias estranhas e desconhecidas. Aos estudiosos e pesquisadores resta uma ilusão de que raciocínio e razão são flores aladas e sem raízes na terra comum.

Tenho cópias de um processo-crime originário em Pau dos Ferros- RN, cujo inquérito policial foi instaurado em 21 de julho de 1927, tendo como denunciante Tilon Gurgel do Amaral e como denunciado o senhor Avelino Holanda Bessa. A denúncia diz respeito a um capítulo do tumultuado sequestro e libertação do Coronel Antônio Gurgel do Amaral, pelo bando do sinistro Lampião.

O narrado sequestro ocorreu durante as primeiras horas da tarde do dia 12 de junho de 1927 quando o citado Coronel vinha de Mossoró em automóvel próprio, com motorista profissional, e se aproximava do sítio Santana, situado na fértil “Várzea do Apodi” (vide livro “Nas garras de Lampião” (diário) – fundação Vingt-un Rosado – coleção mossoroense -série c – vol 910 – ano 1996).

Livro conta o sequestro de Antônio Gurgel (Reprodução do BCS)

Livro conta o sequestro de Antônio Gurgel (Reprodução do BCS)

Quando o coronel chegou ao sítio Santana já encontrou os seus irmãos Fausto e José Tibúrcio como reféns. Logo foram estipuladas as quantias de cinco contos de réis para o resgate/libertação de Fausto e um conto de réis para a liberdade de José, e 15 contos de réis para o resgate de Antônio Gurgel, que assumiu o compromisso de pagar todo o valor cumulativo dos três aprisionados.

A seguir escreveu um bilhete para o seu genro, Jaime Guedes, então gerente do Banco do Brasil em Mossoró, encarregando o seu irmão Fausto para ir a Mossoró entregar a correspondência e trazer o dinheiro (21 contos de Réis).

Fausto não retornou e no dia seguinte ocorreu o ataque a Mossoró.

Há uma importante minudência a ser sublinhada nesse episódio, entre tantas e tantas outras, carregadas de interrogações. No dia 15 de junho de 1927, o coronel Antônio Gurgel afirma literalmente que já estava familiarizado com cangaceiros, citando até a particularidade de que Massilon lhe entregara/devolvera o cinturão e pistola de seu uso pessoal.

Em pesquisa de campo, deslindei a razão e o motivo de tal familiaridade e apreço de Massilon para com o Antônio Gurgel: Gurgel informara ao cangaceiro que era irmão do sogro de Décio Holanda (Tilon Gurgel) dono da fazenda “Bálsamo”, na Serra do Pereiro-CE.

Nesse local, o bando passara um mês acoitado e lá recebeu de Décio duas mil balas de fuzil. Essa munição estivera escondida no sítio “Pacó” (várzea do Apodi) no ano de 1925, terras que pertenciam a Décio Holanda.

Fora transportada – segundo fonte segura – em abril de 1925 em um comboio de animais (burros/cavalos) que carregavam caixões com mercadorias diversas, como mantimentos – encobrindo os artefatos ilegais. A viagem foi tranquila e chegou a seu destino sem qualquer sobressalto, valendo-se do sutil disfarce.

Massilon soube em conversa com coronel Antônio Gurgel, que ele e seu irmão Tilon eram amigos íntimos dos irmãos Benedito e Quinca Saldanha. Esse último, o cangaceiro se referia como sendo seu “padrinho.” Quinca acolheu-o e o protegeu em 1923, quando matou um fiscal na feira de Brejo do Cruz-PB. Em 1925, Massilon foi acoitado por Benedito em sua fazenda “Várzea Grande”, próximo a Alto Santo, no Ceará.

Dinheiro de resgate

Massilon, cangaceiro e acoitado por coroneis. Isaías Arruda, força política e coiteiro; Lampião,

Massilon tinha proteção de coroneis; Isaías Arruda, político e coiteiro; Lampião tinha força bélica (Fotomontagem do BCS)

Houve ingentes esforços para a libertação do coronel Antônio Gurgel. Tive conhecimento por fonte fidedigna de que o senhor Otílio Diógenes informara o Jaime Guedes que Lampião e seu bando pernoitaram em suas terras nas encostas da famosa Serra da Micaela. No dia 15 de junho de 1927, o coronel Antônio Gurgel recebeu telegrama do genro Jaime Guedes informando que o dinheiro para o seu resgate estava a caminho. O portador era o senhor Francisco Alves Maia.

Nesse mesmo dia, Tilon Gurgel seguiu da sua casa no “Brejo do Apodi” em carro fretado por Jaime em Mossoró, de propriedade do senhor Moacir Gomes de Matos, cujo motorista era popularmente conhecido como “Italiano”. Francisco Alves Maia aguardava o Tilon no lugar denominado de “Arara,” onde efetivamente se encontraram.

Francisco Alves Maia conduzia consigo 21 contos de réis para o resgate de Antônio Gurgel. Dali resolveram voltar a cavalo para o povoado do Alto Santo, onde se dirigiram até à casa de Avelino Holanda Bessa, onde deixaram  os pacotes de dinheiro enrolados em papel, no total de 21 Contos de Réis, sem contudo contarem e conferirem se realmente essa esse o total.

No dia 25 de junho, Lampião recebeu carta do coronel Isaías Arruda (líder político no Cariri, um dos maiores coiteiros do cangaceiro no Ceará), através de Massilon, que saiu à noite do lugar “Riacho da Fortuna”, situado entre Macambira e Vaca Morta, município de Riacho do Sangue. Neste mesmo dia, Lampião e Sabino conversaram, e esse se dirigiu ao Antônio Gurgel para lhe comunicar que seria libertado.

Sabino ainda orientou Gurgel a se despedir de Lampião. Acabou solto sem pagamento de resgate. ‘Numa boa’, usando-se uma expressão coloquial do nosso tempo.

Impasse

Por volta do dia 28 de junho, Tilon Gurgel enviou um filho até à casa de Avelino Bessa, com objetivo de pegar os 21 contos de Réis. Mas, esse alegou que deixasse aplacar as coisas e então mandava. Dias depois,  Tilon foi entender-se pessoalmente com o Avelino, que prometeu-lhe que no dia 14 de julho estaria em Mossoró onde entregaria o dinheiro.

Em Mossoró, Tilon Gurgel esperou Avelino até o dia 16 de julho. Em vão. Nesse dia, recebeu telegrama de Alto Santo, com Avelino informando que iria para Pau dos Ferros. Já em sua residência, o Tilon recebeu telegrama no dia 18 de julho (de Avelino) chamando-o a Pau dos Ferros.

A essa altura, o coronel Antônio Gurgel prestara depoimento diretamente ao diretor de segurança pública – atual cargo de secretário – desembargador Benício Filho, no dia 19 de julho, ocasião em que citou apropriação indébita do Avelino Bessa, tendo aquela autoridade enviado telegrama ao delegado de polícia de Pau dos Ferros (Martiniano Rêgo) determinando imediata instauração de inquérito policial.

Avelino foi interrogado e entregou 15 contos de Réis, alegando que fora essa a quantia guardada em sua residência por Tilon Gurgel. No dia 22 de julho, Tilon Gurgel foi ouvido em termos de declarações pelo delegado de polícia de Pau dos Ferros, ocasião em que se fazia acompanhar pelo seu cunhado, o desembargador Felipe Guerra, companhia usado como forma de pressão à autoridade policial.

Remetido o inquérito para o então juiz de Direito da Comarca de Pau dos Ferros, João Vicente da Costa, ele determinou o encaminhamento do processo para a Comarca do Limoeiro, jurisdição do lugar de residência do Avelino Bessa, que era o povoado “Alto Santo”.

Em seu depoimento, Avelino informou que Massilon estivera em sua residência cobrando o dinheiro. Sua resposta foi de que entregara todo o montante que estava em seu poder ao delegado de Pau dos Ferros, Martiniano Rêgo.

Soube-se depois, que Tilon Gurgel pedira a Benedito Saldanha enviar o cangaceiro Massilon para resgate do dinheiro.

Vale lembrar

Pergunta que não quer calar: teria realmente Avelino Bessa subtraído a significativa quantia de seis contos de réis do dinheiro que lhe fora confiado pelo Tilon Gurgel, fazendo-se valer do poderoso álibi de que era sabedor da trama urdida por Jerônimo Rosado, Felipe Guerra e seu cunhado Tilon Gurgel à invasão do bando de Lampião a Mossoró?

Resumo histórico: os senhores Tilon Gurgel e Antônio Gurgel “perdoaram” a suposta apropriação indébita dos seis contos de réis. É o que me cumpre descrever.

Vale ser reiterado: Tilon Gurgel se acumpliciara com o seu genro Décio Holanda para acoitar o bando de Lampião em sua fazenda Bálsamo, na Serra do Pereiro-CE, como realmente acoitou, por mais de um mês. Inclusive, reforçando os cangaceiros com duas mil balas de fuzil, munição de sobra para ataques a Apodi e Mossoró.

É o que consta sobejamente em subsídios históricos colhidos em pesquisa de campo. Noutro momento, vamos abordar mais detalhes desse enredo, que tem muitos fatos e detalhes omitidos da história oficialmente escrita e espalhada há muitas décadas. Publicaremos neste prestigiado Blog Carlos Santos (BCS).

Adianto, como referência e expectativa: o senhor Anísio dos Santos (vide foto de Anísio dos Santos no livro “Nas Garras de Lampião” 2° edição – Raimundo Soares de Brito. Coleção Mossoroense), dono da fazenda “Lagoa do Rocha,” no Ceará, acoitou Lampião e seu bando com aval do clero do Limoeiro-CE. Pode acomodá-los em harmonia e paz. Anísio dos Santos era primo do meu avô materno Joaquim Rosa dos Santos.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

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domingo - 27/08/2023 - 14:44h

Sob a mira do tempo – entre histórias e estórias

Por Marcos Pinto

Foto ilustrativa, a partir de vídeo dos anos 30, com Lampião e outros cangaceiros.

Foto ilustrativa, a partir de vídeo dos anos 30, com Lampião e outros cangaceiros.

Não há imprescindibilidade em se recorrer à filosofia e à dialética do conhecimento para se constatar com veemência a versatilidade e as paralelas cheias de nuances do Sr. Tempo. Os grandes passados, de tão profundos e abrangentes rasgam o sudário da vida, para se esvaírem numa súplica.

Pretéritos  que insistem em serem revelados, traduzidos, explicados e interpretados por diversos olhares, por ângulos inimagináveis de vários pontos de vista. Não consistem num ajuntamento coerente e translúcido, mas antes numa massa quase infinita de nuances mais ou menos incompreensíveis e resistentes.

A tessitura da historiografia revela que estamos, segundo parece, condenados a escrever e escolher entre diversos regimes de verdade. Foi assim com o grande romancista Guimarães Rosa, quando filosofou através do instigante personagem Riobaldo (vide “Grande Sertão: Veredas”): “A natureza da gente não cabe em nenhuma certeza”.

Nesta mesma dialética, surge o exponencial intelectual da prosa Machado de Assis, sobejando razões enfáticaa: “Mas – dirás tu – como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e, exprimi-la depois de tantos anos?” (vide obra literária “Brás Cubas”).

Não há como esquivar-se em fazer uma comparação com a sutil ironia e o grau de pessimismo de nosso Machado, quando no discurso metafórico de Brás Cubas.

Sob a temática do cangaço, alguma luz tem sido lançada sobre essa página da história, resgatando-a das sombras voluntariosas impostas por pesquisadores e historiadores atrelados ao amálgama das elites dominantes. A matéria tem sido objeto de múltiplos estudos, oriundos da árdua e incompreendida “pesquisa de campo”.

É nesta metodologia de pesquisa que não se poupa a pormenores pessoais. Às vezes, encontro na imprensa virtual e, também, na imprensa escrita, referência às incursões de pesquisadores/historiadores do cangaço, em especial à investida banditícia da sinistra horda lampionesca nos sertões da região Oeste-Potiguar, pautando pesquisa de campo no antigo “Brejo do Apodi”, atualmente município de de Felipe Guerra.

Por ser feudo territorial da tradicional família Gurgel, oriunda do Aracati-CE, injustificadamente, esquivam-se em abordarem os antigos habitantes sobre o grupo de jagunços pertencentes e comandados pelo truculento Décio Holanda (Décio Sebastião de Albuquerque) genro de Tilon Gurgel, cujo grupo de celerados era acoitado nos sítios “Pacó”, pertencente ao Décio, e no sítio “Brejo do Apodi”.

Acerca desta particularidade de milícia particular, escrevi e publiquei em plaquete da famosa e respeitável “Coleção Mossoroense”, com o título “O fogo de Pedra de Abelhas” (antigo referencial toponímico da atual cidade e município de Felipe Guerra-RN), fato ocorrido  a 12 de maio de 1925, nas imediações do sítio “Boqueirão.” São abordagens com nuances sobre o embate entre a jagunçada do Décio Holanda e uma “força da polícia militar” composta por 40 soldados comandados por um tenente, enviado exclusivamente pelo então governador Dr. José Augusto.

Intuito do governador era desbaratar essa milícia particular, que, efetivamente fugiu para o Ceará, após perder um dos jagunços baleado e morto pelo contingente policial. O grupo foi acoitado na fazenda “Várzea Grande”, pertencente a Benedito Saldanha, situado no município de Limoeiro do Norte, e atualmente ao município de Alto Santo, também no Ceará.

Outra história do ataque de Lampião a Mossoró, ainda cheio de evasivas, diz respeito ao processo de eliminação na modalidade “queima de arquivo,” feita por Benedito Saldanha dias após o ataque a Mossoró, em sua fazenda “Várzea Grande.” O cabra conhecido por “Coqueiro” foi acoitado por Benedito que tomou conhecimento que fora o responsável pelo ataque ao veículo do sr. Antônio Gurgel, fato ocorrido na Várzea do Apodi, ocasião em que o Lampião o fez refém. No episódio, de imediato já fora exigida quantia à família para liberação de Gurgel.

Benedito era amigo íntimo do Tilon Gurgel.

O jornal “O Mossoroense,” edição de 25/04/1982, na coluna “Mossoró no passado,” informa que o bandido Coqueiro, do Bando de Lampião, fora eliminado na fazenda “Várzea Grande”, em confronto com a polícia.

Observe-se que o Benedito Saldanha enviou telegrama ao diretor de segurança pública do RN, informando que estava enviando o corpo do cangaceiro Coqueiro  para Mossoró, onde seria sepultado. Até hoje não há notícias sobre a chegada e sepultamento desse corpo. História que segue e requer profunda “pesquisa de campo”.

Inté.

Leia também: A historiografia do cangaço

Marcos Pinto é advogado e escritor

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domingo - 06/08/2023 - 11:30h

Cangaço no RN – A fantasiosa “estória do gato vermelho”

Por Marcos PintoCangaço - ilustação do Brasil paralelo

A envolvente história do cangaço lampionesco encontra-se repleta de fatos referenciais que não resistem ao mínimo cotejo com a realidade existente à época do protagonismo. A análise sucinta capta o cenário redimido, mesmo permanecendo no imaginário popular as falácias, o engodo, a débil transfiguração das elites egoístas e predatórias.

Antes de consolidar-se como historiador, o admirável caraubense Raimundo Soares de Brito cerrara fileira política seguindo fervorosamente as hostes partidárias comandadas pelos truculentos irmãos Benedito e Quinca Saldanha, proprietários da Fazenda “Setúbal” no município de Caraúbas. Antes, residiram no município de Brejo do Cruz, onde Quinca era dono da Fazenda “Amazonas”.

Benedito era dono da Fazenda “Várzea Grande”, encravada no município de Limoeiro do Norte-CE, isto já no ano de 1923. Observe-se que o ainda pouco conhecido cangaceiro Massilon Leite/Massilon Benevides cometeu crime de homicídio na feira de Belém do Brejo do Cruz -PB, no ano de 1923, matando um fiscal de feira. Daí, passou a protegido dos irmãos Quinca e Benedito. Acabou sendo acolhido na casa da Fazenda de Benedito, no Vale do Jaguaribe.

Em 1926, Massilon ataca a cidade de Brejo do Cruz na Paraíba, onde mata Manuel Paulino de Morais, Dr. Augusto Resende (juiz municipal) e fere Dr.Minervino de Almeida, o “Joca Dutra (juiz municipal) e Severino Elias (telegrafista). O Quinca Saldanha aparece como um dos autores intelectuais.

No início de Maio de 1927, Lampião encontrava-se “acoitado “ na , Fazenda “Bálsamo”, pertencente ao Décio Holanda, genro de Tilon, quando deu-se o encontro com o cangaceiro Massilon, protegido dos Saldanhas, Quinca e Benedito, ocasião em que Décio entregou duas mil balas de fuzil para serem usadas no ataque a Mossoró.

Ainda na fazenda de Décio Holanda, este informou ao Lampião que o Massilon era cabra de confiança e protegido dos Saldanhas. Acrescentou que o Massilon vivia homiziado vezes em Caraúbas com o seu padrinho Quinca, e ainda no Ceará, na fazenda de Benedito Saldanha.

Reportando a estória

Valendo-se da sua consagrada fama de historiador, Raimundo Soares de Brito (Raibrito) forjou a esdrúxula “estória do gato vermelho”, disseminando-a no imaginário popular como um fato histórico verossímil concreto. Observe-se que durante o mês de maio de 1927 o convívio diário de Lampião com o Massilon o fez usufruir da estreita amizade dos Saldanhas com o Décio Holanda e o Massilon, descartando-se desde logo qualquer investida a Caraúbas, onde predominava a liderança política dos irmãos Saldanhas.

Certa vez, indaguei ao historiador Raibrito, se ele sabia informar o nome do informante que, supostamente presenciara e ouvira o Lampião afirmar, quando se encontrava no sítio “Santana Várzea do Apodi”, que “não atacaria Caraúbas porque lá tinha o gato vermelho”. O historiador esboçou um sorriso e disse desconhecer qualquer informação sobre essa versão.

Confrontando com a realidade histórica, esta estória morre à míngua de veracidade. Não passa de “resto”, sobrevivência anacrônica e ridícula no imaginário popular, “silêncio” cuidadosamente mantido ou simples ruído ocultado no silêncio.

Em verdade, individualmente os irmãos Quinca e Benedito nunca foram valentes. Quando Benedito exercia o cargo de prefeito nomeado do Apodi, no ano de 1933, teve uma conversa áspera com o famoso temido apodiense Joaquim Ferreira Lima (Quinca Amarelo). Esse puxou de sua faca e chamou Benedito para o embate físico, que preferiu se esquivar, resmungando estridentemente.

Todas as análises acuradas conduzem à certeza irredutível de que os Saldanhas só tinham coragem quando se faziam acompanhar da sua jagunçada, espécie de milícia particular. Ressalte-se que esses jagunços eram acoitados em Caraúbas (na Fazenda Setúbal) e na zona rural de Limoeiro do Norte-CE (Fazenda Várzea Grande).

À luz dos jornais das décadas de 20 e 30 (1920-1939) constata-se a existência de três grupos de jagunços/cangaceiros. Era a milícia particular dos Saldanhas, a de Décio Holanda (genro de Tilon Gurgel) acoitada no “Brejo do Apodi” até maio de 1925 quando foi expulsa por um contingente policial do Estado comandado pelo Tenente Napoleão Agra. O episódio é conhecido como “O fogo de Pedra de Abelhas”, objeto de publicação de plaquete pela coleção mossoroense, de nossa autoria.

O terceiro grupo de jagunços pertencia ao virulento Balthazar Meireles, acoitado em sua fazenda situada no município de Luis Gomes. Existiam dois subgrupos esporádicos, pertencentes a Juvêncio Barreto, que os acoitava em sua Fazenda “Unha de gato” à época município de Apodi, e depois ao município de Itaú-RN.

Vez por outra este subgrupo  atrelava-se aos grupos dos Saldanhas e do Décio Holanda. O outro subgrupo pertencia ao sr. Joaquim Cirilo de Andrade, com várias incursões criminosas nos sertões do Vale Jaguaribano, conforme consta nos jornais do RN e do Ceará.

Há uma curiosidade reinante nesses grupos armados, concernente ao fato de que alguns donos dessas milícias aproveitavam o gasto no acoitamento desses elementos criminosos utilizando-os na lida do campo, quer seja na agricultura ou na pecuária extensiva. Os mais afoitos e ousados eram eliminados sumariamente como queima de arquivo e sepultados nas caatingas de suas fazendas.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

*Ilustração da postagem do Brasil Paralelo

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domingo - 12/06/2022 - 10:30h

Cabra marcado para morrer

Por Marcos Pinto

(Em memória do coronel Lucas Pinto).

A história é a mestra da vida, aludindo personagens em seu tempo e em lugar determinado. Patenteia rumos e prumos, alinhando-os com as forças presentes nos sustentáculos do Universo. O título que encima este despretensioso artigo vincula-se à icônica figura do coronel Lucas Pinto, do Apodi-RN (11.10.1899/ 06.02.1981).

Coronel Lucas Pinto ao lado do presidente Juscelino Kubitschek (Foto: cedida)

Coronel Lucas Pinto ao lado do presidente Juscelino Kubitschek (Foto: cedida)

Jovem ainda, participou da eleição do ano de 1922, em que o seu fantástico irmão coronel Francisco Ferreira Pinto (1895-1934)  disputou e foi eleito o Intendente municipal mais votado, o que o fez também eleito para ocupar a Presidência da Intendência, cargo que em Agosto de 1926 passou a denominação  de Prefeito Municipal.

Sempre pautou a sua vida cultuando a honestidade e o trabalho como elementos dignificantes da trajetória traçada pelo Supremo Arquiteto do Universo. Foi o único apodiense a participar ativamente da Revolução Constitucionalista de 1932.

De estatura mediana, físico raquítico, contrastava com a sua extraordinária capacidade de trabalho e a grandeza dos seus triunfos nas atividades que abraçou. Aprendeu as envolventes nuances da política sertaneja na velha escola do seu primo, o famigerado e respeitado coronel João Jázimo Pinto, sogro do seu irmão coronel Francisco Pinto.

Era articulado, manso e meticuloso no trato com os seus humildes e laboriosos conterrâneos. Trazia no sangue o determinismo e a pujança do seu bisavô paterno o capitão Vicente Ferreira Pinto (primeiro deste nome), que no ano de 1817 já comandava os destinos do Partido Conservador em Apodi (Vide Livro “A Zona do Por do Sol” – Raimundo Nonato).

Como magnânimo benfeitor, o coronel Lucas Pinto foi o único apodiense a comandar os destinos do município por quatro gestões.

Com o advento do Golpe Getulista de Outubro de 1930,  a oligárquica família Pinto perdeu o mando e o comando administrativo do Apodi. Os antigos opositores Tilon Gurgel, Juvêncio Barreto e Martiniano Porto, acumpliciados pelos bandoleiros e irmãos Quincas e Benedito Saldanha  galgaram o poder.

Já em 30 de Outubro de 1930, o truculento Tilon Gurgel foi nomeado prefeito-Interventor, o que  para ele representou uma espécie de desforra política, haja vista ter perdido  fragorosamente a eleição do ano de 1928 para a Presidência da Intendência do Apodi para o seu  figadal adversário político coronel Francisco Pinto.

A gestão de Tilon não teve nenhum fato administrativo digno de nota, gestão que durou apenas sete meses e cinco dias. Era tenaz e truculenta a oposição política à família Pinto, sendo certo que já no ano de 1922, o desembargador Felipe Guerra traficou influência para nomear um Juiz de Direito estritamente vinculado a ele, por estreita amizade, com objetivo único de perseguir os coronéis João Jázimo Pinto e seu primo e genro o coronel Francisco Pinto.

Este  tendencioso Juiz de Direito atendia pelo nome de João Francisco Dantas Sales, cuja atuação durou o período de 1922 a  1925, tempo em que hospedava ostensivamente em sua residência o famoso chefe de cangaceiros Benedito Saldanha, que inclusive foi nomeado Prefeito-Interventor do Apodi  em 10 de Janeiro de 1933, tendo sido demitido em 23 de Julho de 1933.

Ocorre que em 16 de Janeiro de 1933, os irmãos coronéis Francisco Pinto e Lucas Pinto se encontravam em Natal a convite dos ex-governadores José Augusto e Juvenal Lamartine, para participarem da fundação do Jornal “A razão”, que seria o porta-voz do Partido Popular, criado meses depois.

Eis que em uma edição do mês de Abril de 1933 foi veiculada extensa reportagem descrevendo a caótica situação vivida na cidade e município de Apodi, que tinha como prefeito-interventor o célebre bandoleiro Benedito Dantas Saldanha.

Tendo chegado às mãos do prefeito-bandoleiro um exemplar do dito Jornal , desencadeou um intenso processo de retaliação aos componentes da família Pinto. O certo é que no dia 18 de Abril de 1933, por volta das 10 horas da manhã, Benedito Saldanha despachou dois de seus jagunços, ostensivamente  armados de fuzis,  para irem buscar o Lucas Pinto em sua casa de comércio, e trazê-lo à sua presença para prestar esclarecimentos sobre informações de que os Saldanhas comandavam e acoitavam uma espécie de milícia  particular em sua fazenda em Caraúbas-RN.  Ao ser intimado pelos jagunços, Sêo Luquinha não se fez de rogado, acompanhando-os sem delongas.

Nesse ínterim, um circunstante que presenciara tão humilhante cena de condução coercitiva, logo localizou o afilhado do Sêo Luquinha – o destemido e intemerato Deca Cavaco (Manoel Ferreira Gama). Imediatamente se dirigiu ao prédio da Prefeitura, onde estavam postados os ditos dois jagunços, obstruindo a entrada de quem quer que fosse. O Deca era um sujeito alto, espadaúdo, saruê, e de temperamento em constante ebulição.

Ao pressentir  que os dois  desavisados jagunços iriam  impedir o seu acesso ao prédio e escadaria que conduzia ao pavimento superior, logo tratou de dar duas vigorosas mãozadas nos peitos dos dois jagunços do Benedito Saldanha. Eles caíram ruidosamente no chão, sem esboçarem nenhuma reação, dado a famosa valentia do Deca Cavaco.

O Deca irrompeu aos gritos na sala do prefeito Saldanha, tendo encontrado o mesmo com um rebenque (chicote) à mão, mandando Sêo Luquinha engolir três bolas de papel, feitas com o dito exemplar do jornal “A razão”. E sentenciou:  “Vim buscar o meu padrinho e quero ver se tem homem que me empate de levar comigo. Como o falso valentão Benedito Saldanha já tivera uma altercação com o Deca Cavaco, que lhe “agarguelara” pelo pescoço e o levantara com as duas mãos, deixando-o com as pernas balançando, não teve outra saída a não ser ficar resmungando, ruminando sua raiva entre esgares.

Três meses depois, o Benedito Saldanha era demitido do cargo de prefeito-interventor.

O certo é que o Benedito só apresentava valentia quando se encontrava comandando sua jagunçada composta por cerca de 40 cabras, geralmente foragidos de distantes lugares da Paraíba e de Pernambuco.

Com o covarde assassinato do seu irmão, coronel Francisco Pinto, ocorrido em 03 de Maio de 1934, o coronel Lucas Pinto empunhou a bandeira de luta e passou a comandar a política e os destinos administrativos do Apodi. Sua derrocada política aconteceu em 1962, quando o seu filho – doutor Newton Pinto – perdeu a eleição para o Sr. Isauro Camilo, cria político dele. Camilo havia rompido com o antigo  líder, após pegar todas as manhas e artimanhas da velha raposa política da ribeira do Apodi.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

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domingo - 03/02/2019 - 11:52h

A eleição de 1934-1935 no Rio Grande do Norte

Por Honório de Medeiros

Em uma avaliação muito pessoal penso que a década de 20, no Rio Grande do Norte, acabou quando o Partido Popular elegeu o Governador do Estado após a vitoriosa campanha de 1934-1935 e a aristocracia rural cedeu, assim, o Poder à burguesia mercantil/industrial que se instalava em terras potiguares.

Esse novo Brasil que surgia após a Revolução de 30 – hoje tão esquecida – e se consolidou na Era Vargas, mas cujo ideário “tenentista” pode ser rastreado até o Golpe de 1964, no Rio Grande do Norte encontrou, quando da redemocratização depois aviltada por Getúlio, uma estranha situação política configurada de forma radical no embate político partidário de 34/35: de um lado, liderado por Mário Câmara, união entre cafeístas, que poderiam ser posicionados à esquerda do espectro político, e coronéis do interior do Estado, proprietários de terras e criadores de gado, acostumados ao mando mais absoluto em seus redutos eleitorais; e, do outro, a burguesia mercantil e industrial cuja base maior, surgida a partir do cultivo e beneficiamento de algodão e exploração do sal, era o Oeste e Alto Oeste do Rio Grande do Norte, com epicentro em Mossoró e liderada pela família Fernandes, e o Seridó, grande plantador e fornecedor do denominado “ouro branco”, liderado pelo ex-governador José Augusto Bezerra de Medeiros.

Mário Câmara: terror pelo poder (Foto: reprodução de Rostand Fernandes)

Não por outra razão, concluído o pleito, foi eleito Governador do Estado, pela Assembleia Legislativa, Rafael Fernandes, líder político no Oeste e Alto Oeste, em detrimento de José Augusto.

É deprimente constatar a pouca literatura acerca desse período por demais importante da história do Rio Grande do Norte. Excetuando um ou outro opúsculo, desaparecido das vistas dos pesquisadores e somente encontrados, depois de muita luta, em sebos que como é sabido, primam pela desorganização e falta de higiene, três livros, apenas, bastante antagônicos entre si, jogam alguma luz sobre o período aludido:

“A história de uma campanha”, de Edgar Barbosa; “Vertentes”, autobiografia de João Maria Furtado; e “Do Sindicato ao Catete”, autobiografia de Café Filho.

O primeiro, visceralmente ligado aos líderes do Partido Popular; o segundo, cafeísta histórico.

Aqui não cabe uma incursão na história dos anos vinte e trinta do Rio Grande do Norte. Não é essa a intenção. O que se pretende, aqui, é mostrar o contexto político de exacerbada violência vivida no Estado naquela época, na qual o coronelismo como conhecido, cuja erradicação era uma promessa de campanha da Revolução de 30, vivia seus últimos esgares.

Essa violência, não esqueçamos, na campanha política de 34-35, foi posterior à invasão de Mossoró por Lampião, fato ocorrido em 1927. Para se ter uma ideia, o livro de Edgar Barbosa começa com uma página na qual se lê seu oferecimento e indica fielmente o que há de vir pela frente:

À memória imperecível dos sacrificados na campanha de civismo e redenção do Rio Grande do Norte; a Francisco Pinto, Otávio Lamartine, Miguel Borges, José de Aquino, Francisco Bianor, Manoel dos Santos, Luís Soares de Macedo e Adalberto Ribeiro de Melo; às vítimas da covardia dos cangaceiros, aos seviciados pela barbaria policial, a todos os que sofreram humilhações e injúrias, aos perseguidos, aos ameaçados, aos coagidos no seu trabalho e nos seus lares, aos que morreram com fome e sede de liberdade. Homenagem do Partido Popular.

Dentre os mencionados na homenagem chama a atenção o nome do Coronel Francisco Pinto, parente, compadre e correligionário político do Coronel Rodolpho Fernandes, a àquela altura já assassinado, e que escapara da morte – ainda hoje não se sabe como – quando da invasão de Apodi em 1927 pelo bando de Massilon([1]), e Otávio Lamartine, ninguém mais, ninguém menos que filho do ex-Governador, deposto pela Revolução de 30, Juvenal Lamartine.

Otávio: assassinato (Foto: reprodução)

Não se vai entrar nos meandros dos dois assassinatos.

Entretanto é inegável que suas mortes somente aconteceram em decorrência da campanha política de 34-35. Mesmo aqueles que se posicionaram em lados opostos ao abordar a questão se negariam a contradizer essa afirmação.

Outro fato que demonstra a exacerbada violência daqueles tempos é pungentemente narrada por Amâncio Leite em carta dirigida a Sandoval Wanderley, diretor de “O Jornal”, em Natal, aos 20 de janeiro de 1937, publicada em forma de opúsculo pela “Coleção Mossoroense”[2].

Nessa carta famosa, à época, Amâncio Leite, eleito deputado estadual pela situação([3]) na campanha de 34-35, protesta por sua prisão e a de seu colega Benedito Saldanha, acusados de “extremismo” e “comunistas”, acusação essa acatada pela Assembleia Legislativa do Estado em sessão do dia 10 de setembro de 1936, na qual todos os deputados do Partido Popular votaram pelo acatamento, em um claro revide aos seus adversários, tão logo chegaram ao Poder.

O coronel latifundiário Benedito Saldanha acusado de “comunista”. Ironia do destino…

A presença da violência, portanto, era algo comum na política daqueles anos. O homicídio em decorrência de disputas pelo Poder, também o era. Como negar esse fato se um pouco mais atrás, em 26 de julho de 1930, o assassinato de João Pessoa por João Dantas deflagara a Revolução de 30?

Muito embora João Dantas tenha morto João Pessoa em decorrência do aviltamento que sofrera com a publicação em jornal oficial de sua correspondência íntima com Anaíde Beiriz, é fato que isso somente ocorrera porque ambos eram fidagais inimigos políticos. E da presença da violência ocasionada por disputas políticas não estava livre, naqueles anos 20, o Rio Grande do Norte.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

[1] Consta que as mesmas lideranças políticas que estavam por trás da invasão de Apodi em 1927 também o estavam em 1934, quando do assassinato do Coronel Chico Pinto.
[2] Série B, nº 768.
[3]Aliança Social, liderada por Mário Câmara.
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domingo - 09/08/2015 - 11:26h

Cangaço na região Oeste do RN

Por Marcos Pinto

Em  15 de  Abril de  1925, com  o  seu  eleitorado  sofrendo  contínuas  ameaças  veladas,  chibateamentos  e  tropelias  praticadas  pelos  jagunços  de  Décio  Holanda  e seu  sogro  Tilon  Gurgel,  deliberou  o  Coronel  João Jázimo Pinto  ir  até Natal  para, em  audiência  com  o  governador  Dr.  José  Augusto  Bezerra  de  Medeiros, narrar-lhe  a  triste  situação de  apreensão   pela  qual  estava  padecendo a  grei  Apodiense, com  as  frequentes  incursões  da  jagunçada  comandada   pela  satânica  dupla,  na  cidade,  e  nos  sítios  pertencentes  aos  eleitores  da  sua  facção  política  pacifista.

Após  minuciosa  exposição  feita  pelo  Cel. Jázimo,  o governador  prontamente  enviou   para  a  cidade  de  Apodi  um  contingente  policial  formado  por  40  praças, comandada  pelo  respeitado  e  temido  Capitão  Jacinto Tavares  Ferreira, onde  ficou  aquartelada.

Casa de Quincas Saldanha (Foto: reprodução)

No dia  imediato  à  sua   chegada, o  Capitão  Jacinto  fez  uma  varredura  no prédio/sobrado  pertencente  ao Sr.  Martiniano  de  Queiroz  Porto (Natural do Ceará), truculento  capitalista  que  compunha  a  virulenta  facção política   oposicionista  comandada  por  Tilon  Gurgel, Sebastião  Paulo  Ferreira  Pinto, João  de  Deus  F. Pinto, Juvêncio  Barrêto,  e  os  irmãos  Benedito  Saldanha  e  Quincas  Saldanha.

Na  incursão  feita  à  residência  do  Martiniano, foram  encontradas  farta  munição e  30  fuzis, razão  pela  qual  despertara a  atenção  do  Capitão  Jacinto  para  a  possibilidade  de que  o  mesmo  estava  intentando  formar  milícia particular.  Martiniano  tinha  um jagunço  que  residiu  muitos  anos  com  ele  e  que atendia  pelo  nome  de  Júlio  Porto, que  em 1927  já  integrava o  bando  de  Lampião, quando  este  acoitou-se  na  fazenda  Bálsamo, no  Pereiro-CE, preparando-se  para  os   ataques  à  Apodi  e  Mossoró.

Há  quem  afirme  que  a  fazenda  “Bálsamo”  tinha  uma  parte  que  pertencia  a José  Cardoso.

Com  a  atuação  de  eficaz  comando  e  vigilância  do  Capitão  Jacinto, que  os  celerados  Benedito  e  Quinca  Saldanha  referiam-no   como sendo  “O Jacintão”,(Pela  estatura elevada) os  sicários  Juvêncio  Barrêto  e  Martiniano  Porto  mudaram-se  do  Apodi,(Final de Maio  de 1925). O  primeiro  voltou  para  Martins, de onde  era  natural,  e  o segundo fixou  residência  em  Pau  dos  Ferros-RN, onde  o  seu  genro  Dr. José  Vieira  era  o  Juiz  de  Direito  da  comarca.

Sentindo-se  coibidos  na  prática  contumaz  da  intimação, a  horda  virulenta  comissionou  a  Tilon  Gurgel  e  a Benedito  Saldanha  para  parlamentarem  com  o  governador, sob  a  falsa  alegativa  de  que  a  força  policial  estava  a  causar transtornos  na  região  do  Apodi, cuja  arguição  visava  retirar  a  força  policial  sediada  em  Apodi.

Quando  encontravam-se  em  audiência  com  o  governador, recebem  telegramas  informando-os  da  ocorrência  do  “Fogo de Pedra de Abelhas”. Na  manhã  do  dia  12  de  Maio  de  1925  a  tropa  policial  dirigiu-se  até  a  povoação  de “Pedra  de  Abelhas”, objetivando  efetuar  as  prisões  de  Décio, Tilon  Gurgel  e  toda  a  jagunçada.

Antes  da  força  policial  chegar  ao  seu  destino, já  Décio  e  Tilon  eram  sabedores  de  que  o  contingente  estava  vindo  aos  seus  encontros,  por  mensageiro  enviado  por  Martiniano  Porto  e  Sebastião  Paulo.

Massilon: com Lampião (Foto: reprodução)

Quando  Décio  Holanda preparava-se  para  debandar  com  seus ” cabras”, empreendendo  fuga rumo  ao Ceará, eis  que  surge  a  tropa  policial, travando-se  cerrado  tiroteio, no  lugar  “Barrocas  do  Boqueirão”, culminando  com  a   desesperada  fuga  da  jagunçada no  rumo  do  rio  Apodi,  situado  nas  imediações.

Na  ocasião  do  embate, morreu,  afogado, um  “cabra”  de  Tilon  Gurgel, de  nome  Mamédio  Belarmino  dos  Santos, da família  dos  “Caboclos”,  do  sítio  “Brejo  do  Apodi”. Após  este  entrevero bélico,  a  tropa  policial  retornou  ao  Apodi,  com  a  missão  de  retornar  no dia  seguinte, o que  não  se  efetivou  pela  informação  concreta  de  que  o  grupo  armado  do  Décio  se  homiziara  no Ceará.

Depois  desta  ocorrência coibitiva, a  paz  voltou  a  reinar  naqueles  rincões, mas, por  pouco  tempo, pois  em  10  de  Maio  de  1927  o  Tilon  Gurgel  arquitetou, via  Décio  Holanda,  o  ataque  de parte  do  grupo  de  Lampião ao  Apodi, comandado  por  Massilon, cujas  minudências  serão objeto  de  outro  artigo.

Marcos Pinto é advogado e escritor

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Categoria(s): Artigo
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