domingo - 11/02/2024 - 09:30h

Misofonia

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa do próprio autor da crônica

Foto ilustrativa do próprio autor da crônica

Desde criança me interessei por colecionar todo tipo de coisa que você possa imaginar: selos postais, moedas, cédulas, cartão telefônico, álbuns de figurinhas, revistas em quadrinhos, embalagens de cigarros, lata de cerveja etc. Em relação a esses dois últimos, registre-se, não fiz uso. Pelo menos não naquele tempo.

Por volta dos meus 12 anos de idade, comecei a cultivar outro hábito: guardar recortes de jornal.O que ia achando interessante, ou guardava a folha inteira do jornal, ou passava a tesoura e guardava o que me interessava. Alguns colava na porta do meu guarda-roupa.

Após tantos anos, restaram apenas um imagem de Noel Rosa, Luiz Gonzaga, o Nogueirão e um recorte sobre fobias.

Por sinal, minha mãe ainda conserva meu velho guarda-roupa num dos quartos da casa dela, apesar de destoar de todos os outros móveis feitos sob medida.

Numa das portas, ainda está bem conservado um recorte de jornal que colei, lá pelos meus dezesseis anos de idade, onde consta mais de sessenta fobias dispostas em quatro colunas. Tem de fobia pra tudo. Sabia que um dia me serviria.

Recentemente, por volta das 14h de uma quarta-feira, eu e minha namorada fomos almoçar num restaurante aqui em Mossoró. Um bristô bem aconchegante e reservado na Nova Betânia, e que não é tão movimentado nesse horário, de modo que poderia ficar aguardando enquanto ela ia ao salão fazer as unhas e aproveitar o restaurante vazio, com um ar-condicionado geladíssimo para aplacar esse calor infernal do verão e, assim, fazer render esse tempo de espera.

Aproveitei para continuar lendo uma tese de doutoramento sobre sátira na literatura brasileira contemporânea que achei bastante interessante e havia guardado – sim, agora coleciono textos digitais -, aproveitando o gancho que escrevi sobre sátira no texto anterior (Concórdia //blogcarlossantos.com.br/concordia/ ).

Após uns vinte minutos de leitura, entrou um casal; ele aparentando ter por volta de 25 anos de idade e ela, 20.

Pelo adiantado da hora, só tinha a minha mesa ocupada, e o único som que podia escutar, além da música estilo lounge ambiente, era o do tilintar da louça sendo lavada na cozinha do restaurante, mas algo suportável.

Ocuparam uma mesa ao lado da minha. Para o meu azar.

Pediram dois croissants. Para beber, o rapaz pediu um refrigerante; ela um suco.

Conversavam a meio tom, trocando sorrisos e olhares de soslaio enquanto comiam. Ela aparentava estar bem encabulada. Tensa.

Você deve estar pensando, caro leitor, o porquê de eu estar tão curioso, observando o jovem casal. Decerto.

Entretanto, o motivo era outro mais obscuro, e tive a prudência de proceder com olhares rápidos e discretos.

O que me chamou a atenção, na verdade, foi o mastigado do rapaz, que me desconcertou a leitura a ponto de não conseguir mais prosseguir.

Era um mastigado mole, intercalado com diálogos com a boca cheia de croissant e coca cola; chupados esquisitos, uns assobios: um tipo de simbilado bem esquisito.

Alguém já me disse que sofro de misofonia. Penso que deva considerar procurar uma fonoaudióloga ou uma neurologista.

Agora, pondere. Quem nunca se irritou com mastigado de boca mole, chupado de canudo, bicada em café e sopa quente feito aspirador de pó; gente mastigando gelo ou comida crocante em um ambiente não adequado, como sala de aula, biblioteca, e até mesmo, no ambiente trabalho?

E mais! E aquelas pessoas falando com a boca cheia, roçando o talher nos dentes para arrancar a comida dele e o famigerado palitar dos dentes?

Calma! Você, por acaso, já reparou na quantidade de gente que arrasta os pés no supermercado? À vezes observo para ver se estão tentando tirar algo preso na sola do calçado.

Ledo engano meu: é a mania irritante da pessoa que parece estar sendo arrastada a força pelos corredores do supermercado em direção à guilhotina. Antes fosse. Justificaria, e até me compadeceria com o seu final.

Enquanto isso, no restaurante, a situação só se agravava. Pensei em abordar o rapaz e perguntar se ele estava bem, no intuito de interromper aquela sinfonia em dó sustenido maior.

Porém, abortei a ideia, pois, certamente, estragaria o encontro amoroso. Poderia ferir de morte o galanteio.

Não vendo uma solução compatível com a urbanidade, me fiz de covarde e bati em retirada decorosamente.

Antes o calor que fazia fora do restaurante, a permanecer naquela tortura ou estragar o encontro amoroso.

Ponderei a situação e pensei no futuro de uma família. A minha, claro! Poderia sair dali direto para o xilindró.

Minha namorada quando me viu sentar num banco em frente ao salão, no calor, já mudou a fisionomia. Sabendo como sou calorento, decerto já imaginou que algo de grave ocorrera para eu não estar no restaurante.

Perguntou, via mensagem de texto, se eu estava bem. Apenas disse que estava com dor de cabeça. Desconversei. Vi de longe que ela não acreditou.

Não sei se, de fato, sofro de misofonia ou mesmo de fonofobia. Agora, toda vez que abro o velho guarda-roupa e ponho os olhos no recorte de jornal, mais me identifico.

Lembrei o fato de que na tradição japonesa, tomar sopa sem sugar fazendo um barulho terrível é sinal de má educação e que não gostou da sopa. Entretanto, o rapaz não tinha feições nipônicas.

Talvez o ditado de que o costume de casa vai à praçaesteja em pleno vigor no caso do tipo de cena que vi no restaurante.

Entretanto, penso que não seria o caso. Sei da tarefa que os pais têm de combater isso. E me incluo nessa peleja.

Apesar de tudo, a conclusão que tive foi a de que aquela garota teve, em verdade, muita sorte, pois o rapaz poderia ter pedido uma refeição acompanhada com farofa; e, a considerar a empolgação da conversa, teria sido um desastre. Apesar de que há quem até assobie chupando cana, numa harmonia impressionante.

A bem da verdade é que, misofônico ou não, é melhor manter a calma e sair de perto numa situação dessa.

Perder a calma fará com que apenas você saia prejudicado. Ainda que a tentação seja grande e possa valer a pena em certos momentos.

Melhor não arriscar.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
sexta-feira - 15/10/2021 - 07:32h
Campo Grande-RN

Aos 25 anos, Instituto Gentil começa ‘segundo tempo’ de sua vitória

Comemorando 25 anos de atuação em benefício de crianças e jovens da cidade de Campo Grande, no Médio Oeste potiguar, o Instituto Gentil vai inaugurar sua nova sede marcando um novo tempo no exercício do “Conhecimento que transforma”. A solenidade festiva será na sexta-feira (dia 15), a partir das 18h, na sede da instituição.

Instituto Gentil em sua nova roupagem será apresentado por Antônio e Marluce Gentil (Fomontagem do Canal BCS)

Instituto Gentil em sua nova roupagem será apresentado por Antônio e Marluce Gentil (Fomontagem do Canal BCS)

A criação do Instituto Gentil foi uma iniciativa do empresário Antônio Gentil, que teve a colaboração de Marluce Gentil, Neuraci Vieira e Graça Souza (in memoriam). Antônio também é fundador da Gentil Negócios, empresa que administra 100 pontos de vendas das marcas O Boticário, quem disse Berenice? e Swarovisk em cidades nordestinas e é mantenedora do Instituto.

Na sua origem, o Instituto levou o nome de Espaço Cultural Cleto Souza, uma homenagem ao falecido escrivão e poeta campo-grandense, que hoje batiza o novo prédio. “Começamos com uma pequena biblioteca, montada com doações de amigos, e na medida do possível fomos criando um museu, escolinha de informática, escolinha de balé, o relicário de Sant’Ana, a pinacoteca e a escola de música e flauta doce”, conta Antônio Gentil.

Conhecimento que transforma

“O instituto quer fazer a diferença no futuro das crianças e dos jovens de Campo Grande e, por isso, adotou o lema ‘conhecimento que transforma’ e elegeu três eixos para atuar: empreendedorismo, arte/cultura e sustentabilidade”, diz a presidente Marluce Gentil, acrescentando que o conhecimento é disponibilizado por meio de cursos, oficinas, palestras e seminários que continuarão sendo realizados.

O novo prédio tem projeto doado pelo arquiteto Felipe Bezerra e a maquete pelo suíço Álvaro Negrello. Manteve a centenária fachada da casa onde morou Cleto Souza e é composto por quatro pavimentos, incluindo um moderno auditório – preparado para realizar eventos presenciais e virtuais – e um solário descoberto no último piso para pequenos eventos.

Leia também: Um ato de amor de Antônio Gentil por sua terra;

Leia também: Instituto Gentil passa por reforma para preservar sua essência.

“Antônio Gentil gosta de comparar a vida do Instituto Gentil a uma partida de futebol, dizendo que jogamos um bom primeiro tempo, fizemos um intervalo para construir a nova sede e vamos para o segundo tempo com muita vontade de continuar ganhando o jogo, mas que para isso precisamos envolver no planejamento a comunidade e as pessoas que já passaram pelo instituto e sabem o quanto ele contribuiu para suas histórias e para sua evolução pessoal e profissional”, afirma Marluce Gentil.

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Categoria(s): Cultura / Gerais
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domingo - 29/01/2012 - 13:41h
Homenagem

“Biblioteca Nilo Santos” entre nós

Servidores da Justiça do Trabalho, em Mossoró, firmaram compromisso. Fecharam questão. Sua biblioteca no fórum trabalhista local já tem nome para batismo: Nilo Santos.

Quem me adianta a boa nova é Deusdedith Júnior, dos quadros da Justiça do Trabalho.

A homenagem lembra o servidore concursado e jornalista Nilo Santos, falecido no dia 23 de junho de 2010.

“Nilão” ou “Mestre”, como o tratávamos carinhosa e respeitosamente, era areia-branquense da gema, mas logo jovem aportou em Mossoró, iniciando profícua carreira no jornalismo, com passagens por Diário de Natal, InterTV Cabugi, Gazeta do Oeste etc.

Morreu por complicações cardíacas, aos 59 anos.

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Categoria(s): Comunicação / Cultura
quinta-feira - 05/01/2012 - 07:49h
Com Serejo e Rejane

“Devoção” à inveja na biblioteca alheia

Natal sempre me reserva novidades, boas surpresas, o belo. Confesso, logo, um gosto diferente pelo lugar. Telúrico, sim.

Mas, também, às vezes me prega alguma “peça. Agora, veja só, fez emergir em mim um dos sete pecados capitais: sou “devoto” da inveja.

Como não desejar a Biblioteca de Vicente Serejo e Rejane Cardoso, no Morro Branco, sob uma paz celestial e seus 16 mil livros? Estão arrumados ao lado de quinquilharias por todos os lados, numa harmonia que deixa até um jacaré petrificado à sua entrada, com cara amistosa e inofensiva. Se ele serpenteasse, ganhando vida, não me assustaria.

O café, o vinho do Porto, a conversa sem pauta, eira nem beira, tudo empurra o relógio para frente – sem que percamos o passado de vista. O odor do charuto de Serejo no ar, longe dos livros, forma uma atmosfera de filme ‘noir’. Um preto-e-branco expressionista.

Nas paredes com fotos, gravuras e até um par de autênticas alpercatas sertanejas (em moldura), o tempo acaba dando meia-volta. Fica para trás. E é essa ampulheta entranha, que faz os minutos correrem.

Nesse labirinto projetado pela própria jornalista Rejane, tudo parece estar em seu lugar: Câmara Cascudo, Eloy de Souza (seu avô), Drummond, Proust, Hemingway…

É-me dado o direito de também compor “Bibliô”, um livro que há anos está em formatação pelo casal,  que o entrega aos visitantes para que manifestem de próprio punho algum tipo de relato ou reflexão sobre a visita. “É uma fotografia de próprio punho”, identifiquei.

A ideia é simples, por isso muito luminosa.

Senti-me perpetuado ao dissipar meu hieroglifo em suas páginas.

Fiquei de voltar.

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Categoria(s): Crônica
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