“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”
Caetano Veloso
Jornalismo com Opinião
“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”
Caetano Veloso
“Eu sou otimista por determinação. Eu decidi ser otimista.”
Caetano Veloso
A Feira de Vinil e Afins de Mossoró, que reúne colecionadores e vendedores de discos de vinil, CDs, fitas K7 e antiguidades em geral, chega à sua 20ª edição.
O evento será realizado no próximo sábado (16), a partir das 18h, no Cafezal Café e Bistrô (Av. Rio Branco, Memorial da Resistência, Centro). Nesta edição, a feira contará com um show-homenagem a Caetano Veloso, celebrando a vida e a obra do artista baiano, que completou 83 anos no dia 7 deste mês.
A apresentação ficará por conta do cantor Kauê Tavares, a partir das 18h30, com entrada gratuita.
Sobre a feira
A Feira de Vinil de Mossoró é organizada pelo Clube do 5, coletivo de colecionadores e vendedores de discos de vinil da cidade, e vem sendo realizada desde 2023.
Além da parceria com o Cafezal Café e Bistrô, a feira também conta com o apoio da Prefeitura Municipal de Mossoró, que oferece suporte logístico à iniciativa.
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Por Caio Barretto Briso (Do Canal Meio)

No palco, resultado de trabalho árduo, exigência máxima de si e equipe para qualidade no show (Foto: Tempo Rei)
Gilberto Gil está no centro do palco, braços cruzados, guitarra no ombro, ouvidos atentos. É sexta-feira, dia de Oxalá, e o filho de Xangô veste branco dos pés aos cabelos. Não escolheu medicina, como o doutor José Gil sonhou, mas está mais sério do que médico em hora de cirurgia. “Tá esquisito. Não tô sentindo a harmonia”, diz o baiano de Ituaçu, 82 anos no mundo, quase 83.
O efeito de Gil insatisfeito é imediato e faz a banda emudecer. Bem Gil, baixista e diretor musical que escolheu cada um dos 15 músicos que os acompanham, responde rápido: “Vamos passar de novo e ver a harmonia pro meu pai”, e todos recomeçam Funk-se Quem Puder.
Tocam apenas três segundos. “Peraí, peraí, peraí, peraí”, interrompe Gil, erguendo os braços como um maestro. “Nesse tam tam ram ram tam tam tam tem uma coisa complicada”, repara, e todos tentam descobrir o que está complicado, ou quem está complicando. “Não é só a harmonia. Tem uma intervenção de alguém aí. Não sei se são as cordas.” Se o próprio Gil não sabe, como descobrir? Um a um, cada músico repassa suas notas. Depois de alguns minutos examinando as partes e o todo, Gil dá o diagnóstico: o problema “não é a execução, é a escrita” — a partitura da música.
Ninguém lembra a última vez que Gil cantou essa canção, gravada há 42 anos no álbum Extra. Ele mesmo demora a recordar os versos e pede ajuda à Nara Gil, sua primogênita, backing vocal e mãe do guitarrista João Gil, também no palco. Finalmente os músicos chegam ao primeiro verso: “É imperativo dançar”, ele canta, antes de parar o ensaio de novo, repetindo o verbo “dançar”, esticando a última sílaba, entoando a palavra de jeitos diferentes, buscando no baú da memória o tom exato.
Arrisca um agudo em “sentir o ímpeto”. “A nota é lá em cima”, observa, pedindo à filha e à nora Mariá Pinkusfeld, cantora e mulher do baterista José Gil — oitavo e último filho, também no palco —, que cantem mais alto.
Sua voz não estava alcançando o agudo desejado.
Ensaio e detalhismo
São os primeiros minutos de um ensaio da turnê Tempo Rei, a última de Gil, que está arrebatando multidões e lotando estádios por onde passa. Se o show tem sido definido como catártico e muitos outros adjetivos por quem o assiste, o ensaio no meio da turnê é, por sua vez, uma obra para poucos e ajuda a explicar o sucesso do espetáculo grandioso.
Flora Gil, mulher do artista há 43 anos e diretora da Gege Produções, já disse que ensaiar é o que Gil mais gosta de fazer na vida. Cada ensaio é uma costura, um dia de trabalho que começa difícil e vai se resolvendo aos poucos, ponto a ponto, linha a linha. No desafio de “repetir, repetir, até ficar diferente”, como escreveu o poeta Manoel de Barros, Gil tem a manha.
Por ser um processo com imprevistos e segredos, como os nomes dos convidados daquele fim de semana — Anitta no sábado e Caetano Veloso no domingo, nomes que precisam ser mantidos em sigilo até o momento final —, é incomum a presença de jornalistas nesse momento. E, ainda assim, lá estava eu, assistindo a um espetáculo particular de aperfeiçoamento. Aquele era um dia difícil para o artista e sua equipe, que também tem a filha Maria Gil na produção.
O motivo é que Preta Gil, que trata um câncer no intestino há dois anos e a princípio ensaiaria naquela sexta-feira para cantar a música Drão com seu pai no domingo, teve de ser internada em São Paulo e só ganhou alta no dia 17. Por isso Caetano foi convidado, fato que provocaria o momento mais emocionante desde a estreia da turnê, em março: os dois amigos cantando Super-homem (A Canção), no show do dia 7, com Gil muito emocionado e Caetano inseguro, segundo ele próprio, por Djavan estar na plateia.
Esperado no palco às 13h30 naquele ensaio de sexta-feira, véspera do show, Gil entra em cena às 13h29, mas estava no camarim havia uma hora. Cumprimenta de longe os músicos, que começaram a passar o som 20 minutos antes, enquanto é observado por uma legião de técnicos, produtores e assessores nas coxias, na frente do palco e até embaixo dele. Gil precisava ir embora às 16h e aproveitou até o último minuto para ensaiar.
Funk-se Quem Puder foi incluída naquela tarde no setlist para marcar a entrada de Anitta. A música entraria no meio de Aquele Abraço, um dos clássicos da música brasileira que ele escreveu logo após saber, no início de 1969, que iria para o exílio. Após Anitta subir ao palco ao som de Funk-se, a banda voltaria a tocar Aquele Abraço, só que num tom diferente: a pedido da cantora, em Sol maior em vez de Dó.
A “deusa-música”
A obsessão de Gil pela “deusa-música” — como ele a chama em Palco, primeira canção do espetáculo — está na forma minuciosa de Gil trabalhar. É um artista do detalhe. Não à toa o ensaio em que precisaria passar apenas três músicas — Funk-se Quem Puder, Super-homem (A Canção) e Aquele Abraço em outro tom — dura o mesmo tempo que um show inteiro, no qual ele canta 30 sem contar algumas vinhetas, como Retiros Espirituais.
“Ainda não tá clara essa harmonia pra mim”, diz ele, após 45 minutos passando Funk-se. Fora do microfone, Bem conversa com os músicos e combinam algo inaudível. De repente, a magia acontece e a música assenta. Nada mais incomoda Gil e tudo parece fluir. Mesmo assim, ele continua ensaiando a música por uma hora e meia no total — até ficar diferente. “Está bom”, diz, de repente. “A entrada da Anitta vai ser um alvoroço. O que temos agora?”, indaga, antes de Bem respondê-lo. “A mudança em Aquele Abraço e depois Super-homem.”
Além de mudar o tom, é preciso puxar o andamento de Aquele Abraço um pouco mais para frente. “Vamos cantar até a metade. Quando você sambar, a gente muda para uma levada de funk. Anitta entra e continuamos em Sol”, anuncia Bem, de 40 anos, mais velho dos três filhos de Gil com Flora. Bem cresceu sentindo um certo distanciamento do pai.
Era comum ele e seus irmãos passarem mais tempo com a empregada e o motorista — que apresentou a Bem, por exemplo, o Flamengo — do que com Gil, embora o jantar em família fosse sagrado. A música os aproximou. Aos 18 anos ele já tocava com o pai no Carnaval de Salvador. Aos 21, virou integrante oficial da banda. Hoje é um multi-instrumentista e braço direito do pai, seu herói, sua maior inspiração.
Gil pergunta que horas são. “Quinze horas”, alguém grita. “Temos tempo”, aquiesce, gostando da brincadeira. Ele está em pé há uma hora e meia e agora começa a dançar no palco, cantando em um tom mais agudo para fazer o papel de Anitta. Esse homem completará 83 anos em dois meses e parece de outro mundo. Não parou nem mesmo para beber um gole de água.
Enquanto isso, José, também diretor musical do show junto com Bem, fica de pé para se alongar. Apenas na hora de tocar Super-homem, Gil olha o banquinho ignorado antes de sentar. Logo nos primeiros acordes, um efeito especial é acionado sem querer, soltando faíscas para o alto a poucos metros do cantor. Ele está tão concentrado que não olha para as faíscas, nem sequer se move. “Ok?”, pergunta Gil às 15h54. “Ok”, responde Bem. Fim do ensaio.
O show
É sábado, dia do show. Para que tudo saia como planejado na véspera, um novo ensaio é marcado às 15h, desta vez com Anitta. Dura pouco tempo, cerca de 30 minutos. A cantora se empolga com a ideia de Gil repetir o verso Funk-se Quem Puder oito vezes, para que ela tenha mais tempo de subir ao palco entre uma e outra vez. “Assim é perfeito, Gil”, comemora Anitta.
O show está marcado para 20h, mas começará às 20h30. Enquanto Gil e a banda descansam nos camarins, um batalhão de bombeiros, seguranças, faxineiros, recepcionistas e vendedores de bebidas começa a chegar para o trabalho. Por volta das 17h, chegam também os primeiros fãs, que ficam horas esperando do lado de fora da Farmasi Arena, palco dos quatro primeiros shows no Rio de Janeiro.
Tempo Rei é a consagração de seis décadas de carreira de um dos gigantes da música, fruto de uma geração de artistas de fazer inveja a qualquer outra, de qualquer época, de qualquer país. Uma geração da qual também fazem parte Caetano Veloso, Milton Nascimento, Chico Buarque, Maria Bethânia, Paulinho da Viola, além de outros já falecidos, como Gal Costa e Tim Maia. De todos, ninguém está em melhor forma do que Gil — um homem, segundo sua comadre Fernanda Torres, de quem ele é padrinho do filho mais velho, “talhado para o palco, que nasceu para a estrada, com alma de Chuck Berry”.
Antes de estrear em Salvador, a turnê foi preparada ao longo de um ano inteiro. O diretor artístico, Rafael Dragaud, ainda tem no celular as anotações que fez durante a primeira reunião, no dia 1º de abril de 2024, quando Flora o convidou para a missão. “Estreia em março de 2025. Fazer algo histórico, mas não linear. Pensar na equipe de luz e cenografia. Apesar de ser a última turnê, uma despedida, tudo é recomeço, tudo evolui e retrocede ao mesmo tempo, o tempo todo”, lê Dragaud. Diretor e roteirista de TV experiente, responsável por reformular o Criança Esperança, da TV Globo, ele compara o convite a uma convocação para a seleção brasileira de futebol.
Após aquela reunião, Dragaud começou a pensar no conceito do show. Conversou com Bem e José, que tinham suas próprias ideias. Decidiram que o conceito seria o próprio Gil. “Eu tinha na cabeça que precisa ter um início impactante, começar pelas essências musicais de Gil, o início de carreira, chegar a Londres e depois enlouquecer de ácido — e, a partir de então, virar um flow musical, para que fosse histórico, para que fosse Gil, para que fosse não-linear e, principalmente, para que não fosse um show de despedida. Não é um fim de tarde, é um alvorecer”, reflete.
Para a equipe técnica, convidou profissionais como Daniela Thomas (cenografia) e Samuel Betts (iluminação). Daniela pensou em um vórtex, uma espécie de escultura em dois painéis que se entrelaçam sem se tocar. Além disso, há três telões gigantescos em LED no palco que transmitem o show em tempo real, a partir das imagens de 14 câmeras, entre elas um drone que sobrevoa Gil, sua banda e a plateia. É uma forma de usar as câmeras como nunca se viu em um show no país.
Além disso, houve um esmero nos vídeos que são exibidos: as imagens de uma romaria, na música Procissão, foram gravadas na cidade natal de Gil. O céu que aparece nos telões não é de qualquer lugar: é o céu de Ituaçu, da infância do pequeno Beto, como era chamado em casa.
Temperatura altíssima
Às 20h30, o show começa. Não por acaso, o primeiro verso cantado é “subo neste palco”. É a música que Gil compôs nos anos 80 quando pensou em parar de cantar. As primeiras três canções (Palco, Banda Um e Tempo Rei) já abrem o espetáculo com a temperatura altíssima — e ela não cai em momento nenhum.
Em seguida vem o mergulho na história do menino que sonhava ser Luiz Gonzaga, o moleque que começou na música tocando um dos instrumentos mais difíceis, o acordeon. Como a ordem das músicas não é cronológica, a canção que representa a influência de Gonzagão é um forró de Dominguinhos e Anastácia (Eu Só Quero um Xodó), que Gil gravou em 1973.
Gil tocou sanfona no grupo Os Desafinados, em Salvador, entre 1959 e 1961. O ano em que a banda nasceu foi o mesmo em que João Gilberto lançou seu álbum seminal, Chega de Saudade. Gil, que já estava encantado com o violão de Dorival Caymmi, apaixonou-se pela batida do pai da bossa nova. Logo o violão Di Giorgio que dona Claudina comprou na Mesbla para o filho se tornou seu amigo inseparável.
Enquanto alguns músicos têm rituais estranhos antes dos shows — Keith Richards, por exemplo, sempre come uma torta inglesa com carne e creme de batatas, enquanto Beyoncé reza e usa uma cadeira de massagem enquanto é maquiada —, o que Gil gosta de fazer é tocar violão. E como ele vai embora assim que o show acaba — para não ficar preso nos abraços e depois no trânsito —, costuma receber convidados antes das apresentações.
Um dos momentos emocionantes é quando Gil canta Refazenda, que ele apresenta como parte de uma espécie de trilogia de sua obra, que inclui também Refavela e Realce. Gil conta que ele e sua irmã, Gildina, não foram à escola no primário porque a avó os alfabetizou em casa. A Refazenda refere-se a Ituaçu, base de toda a permanência do mundo rural que não sai de Gil. “Todos os lugares do interior que vi no mundo me remetiam a Ituaçu, que ocupa uma função mítica na minha vida”, disse uma vez. Ele considera Refazenda a primeira música filosófica de sua obra.
A impressão que se tem durante o show é que se trata de um espetáculo cênico que não deve nada às grandes produções internacionais que chegam ao Brasil. E que se coloca acima de outras grandes turnês recentes, como A Última Sessão de Música, que marcou o adeus de Milton Nascimento dos palcos. O show de Gil é uma raridade: mal acaba e já dá vontade de ver outra vez. Passa uma semana e seu eco continua reverberando em quem o assistiu, como um bom filme ao qual voltamos em pensamento involuntariamente.
Para quem tem ao menos 35 ou 40 anos de idade, é um mergulho na própria história, embalada pelas músicas de Gilberto Gil em suas muitas fases.
Quando o show caminha para o fim, as luzes iluminam a plateia e o que se vê é uma multidão de olhos marejados sob impacto de algo profundo que acabou de acontecer — algo que nos torna maiores do que antes do show e que poucos conseguem definir com exatidão. Não é raro ouvir frases como “é o melhor show da minha vida”. Todos os grandes temas da obra de Gil estão presentes: amor, separação, liberdade, morte, Deus, tempo.
A vida é sempre ruim e sempre boa ao mesmo tempo, acredita Gil, com seu estoicismo baiano, seu taoísmo sertanejo. Enquanto todos se deslumbram com o que viram, ele volta correndo para o camarim já sabendo o que precisa melhorar para o dia seguinte. Marca um novo ensaio às 15h de domingo, antes de mais uma noite inesquecível.
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Por Bruno Ernesto
Há instantes que, aparentemente, são insignificantes. Porém, inexplicavelmente, ficam gravados em nossa memória e nos acompanham pelo resto da vida.
Uns vêm em formato de déjà-vu, outros reaparecem do fundo de nossa memória ao sentirmos um determinado cheiro, sabor, chegar num lugar ou escutar uma música.
É o que chamam de memórias afetivas, algo bem distinto da nostalgia.
Há também aquela sensação esquisita de que não temos bem certeza se sonhamos o mesmo sonho outras vezes.
Eu mesmo já cheguei a anotar um determinado sonho que parece se repetir há anos, para ter certeza que sonhei a mesma coisa. Se bem que faz alguns meses que esse déjà-vu dos sonhos não me ocorre.
Um desses momentos que guardo na memória, foi uma pescaria numa espécie de lagoa formada nas proximidades do rio Mossoró, onde havia uma pequena ponte no meio daquela mata onde passavam os trilhos da ferrovia que ligava Mossoró a Souza, na Paraíba.
Essa lagoa não tinha ligação direta com o rio, mas estava na várzea entre o grande Alto de São Manoel e o Alto da Conceição e era repleta de peixes, e que, após, não sei como, eu e alguns amigos termos descoberto sua existência, fomos lá pescar num final de semana bem cedo, num comboio de bicicletas BMX.
Para não perder a viagem, também levamos as nossas baladeiras e os bornais de pano repletos de pedras. Passarinhos, calangos e qualquer ser vivente que entrasse em nossa mira, viraria caça.
Por volta das sete horas da manhã, nos reunimos na casa do meu amigo Lawrence Davi, que era uma espécie de ponto de encontro dos meus amigos, e após a turma toda se fazer presente, tomamos bastante água e fomos organizando a saída para aquela que seria mais uma aventura de um grupo de uns cinco ou seis crianças que sumiam no meio do mundo com as bicicletas, para o desespero de nossos pais.
No momento que saímos da casa, tocava a música “Meia-lua inteira,” de autoria de Antônio Freitas e Carlinhos Brown, e interpretada por Caetano Veloso.
Naquele instante, olhei para meus amigos em suas bicicletas, numa conversa descontraída; uns sorrindo, outros empinando a bicicleta, e tudo parecia estar em câmera lenta para eu poder gravar para sempre na memória aquele instante, o que de fato ocorreu.
Não demoramos para chegar à lagoa e de cima da ponte, pescamos a manhã inteira até a moleira não aguentar mais o sol, e no momento de irmos embora, resolvemos tomar um bom banho nessa lagoa e, claro, passamos a pular da ponte.
Jamais voltamos lá. Fomos apenas aquela vez.
Tempos depois, já adulto, me atentei para o significado daquela música e me surpreendi.
O título da música remete a um movimento da capoeira e ela se refere à identidade cultural e à liberdade do capoeirista desaparecendo na mata, sempre em movimento, e que não se deixa ser contido, tal qual fazíamos quando saíamos em nossas aventuras naquela época, o que é muito difícil de ser feito pelas as crianças de hoje.
Infelizmente, a realidade é outra.
Entretanto, basta escutar essa música que lembro daquele dia e dos meus amigos de aventura, como se acabasse de ter ido lá com eles. Foi surreal.
Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor
Por David de Medeiros Leite
Nas eleições de 1970 a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) elegeu os dois senadores no Rio Grande do Norte: Dinarte Mariz e Jessé Freire. Para governador não houve eleição, o regime militar iniciara o ciclo dos governadores indiretos, método que se repetiria em 1974 e 1978.
Em 1974, a disputa majoritária deu-se por uma vaga ao Senado. Os candidatos foram, respectivamente pela ARENA e Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Djalma Marinho (1908 – 1981) e Agenor Maria (1924 – 1997). Seus suplentes: empresário José Nilson de Sá e a senhora Maria Lucena (esposa do então deputado federal Pedro Lucena)
Pela conjuntura política nacional e estadual, a candidatura de Djalma Marinho configurou-se com tanto favoritismo que o partido oposicionista teve dificuldades em encontrar um nome disposto a encarar tal disputa. Agenor Maria surge como um “azarão”. Ambos já militavam na vida partidária do RN.
Djalma Marinho havia sido deputado estadual e deputado federal. Era jurista de formação e, na Câmara Federal, ganhou notoriedade no episódio “Márcio Moreira Alves”.
Em 1968, Djalma Marinho exercia a presidência da Comissão de Constituição e Justiça, quando o governo militar, para processar o deputado Márcio Moreira Alves junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), protocolizou um “pedido” de autorização e esperava o apoio de Djalma que compunha a bancada governista. Djalma surpreendeu ao votar contra e, inspirado no poeta e dramaturgo espanhol Calderón de la Barca, pronunciou a célebre frase:
– “Ao rei tudo, menos a honra”.
Como consequência do referido episódio, o presidente Costa e Silva baixou o AI-5 recrudescendo o regime de exceção.
Agenor Maria, além de ter participado da criação da Cooperativa dos Produtores de Algodão do Rio Grande do Norte, na década de 1960, tinha militância política, pois se elegera vereador, em 1954 e 1958, e deputado estadual, em 1962. Em 1966 foi candidato a deputado federal, ficando como suplente, chegando a exercer por alguns meses o mandato via convocação.
Porém, em 1974, não estava em seus planos a disputa por um cargo majoritário. Levava a vida na boleia de seu caminhão, “fazendo feiras” nas cidades seridoenses. Foi surpreendido pelo convite de se candidatar ao Senado, e aceitou o desafio avisando que não dispunha de dinheiro algum.
No decorrer da campanha, seu desempenho surpreendeu positivamente. Manoel Mário, candidato a deputado estadual na referida campanha, relembra que quando chegavam aos municípios a caravana se instalava na casa do chefe político local, para lanches e conversas preliminares, até a hora do comício.
Agenor Maria não cumpria tal ritual, preferia sair caminhando pela cidade, conversando no mercado e outros logradouros públicos. Quando subia ao palanque seu discurso chamava atenção pela forma com a qual abordava os problemas da cidade e da região.
Na eleição de 1974, o MDB venceu dezesseis das vinte e duas disputas para o Senado no Brasil. Entre essas vitórias, contabiliza-se a de Agenor Maria, escolhido para representar os potiguares na Câmara Alta do país. Tal resultado fez o Regime Militar instituir o “senador indireto”, ou “biônico”, nas eleições de 1978, onde dois terços do Senado seriam renovados. Mas isso é conversa para outro texto.
No livro Brossard: 80 anos na história política do Brasil (Editora Artes e Ofícios, 2004), às folhas tantas, o jurista e senador Paulo Brossard (1924 – 2015) registra que ficou atento ao discurso de estreia de Agenor Maria no Senado e comentou: “Agora entendo por que meu amigo Djalma Marinho perdeu a eleição, esse homem fala a linguagem do povo”.
Tanto Djalma Marinho como Agenor Maria seguiram na vida pública. Djalma voltou à Câmara Federal em 1978 e posicionou-se a favor da Lei da Anistia, ingressando no PDS com a reforma partidária do governo João Figueiredo que restituiu o pluripartidarismo.
Seu último ato político foi a candidatura à presidência da Câmara dos Deputados, em 1981, numa dissidência apoiada por parlamentares de oposição, sendo derrotado por Nelson Marchezan.
Genro de Djalma Marinho, o saudoso ministro Francisco Fausto, também em livro de memórias, relata que, após o escrutínio da disputa pela presidência da Câmara, vários deputados foram ao apartamento de Djalma. Eram velhos amigos que com ele conviveram na UDN, ARENA e, naquele momento, no PDS, mas que não votaram em seu nome por orientação do comando partidário.
Pediam a Djalma que não guardasse mágoas, e ouviram uma resposta em tom de blague: “Eu nunca consegui guardar nem dinheiro…”. Pano rapidíssimo.
Agenor Maria não disputou a reeleição em 1982, optando por concorrer à Câmara Federal, onde cumpriu seu último mandato eletivo. Desse período, existe um significativo discurso de um colega seu, Raimundo Asfora, figura expressiva na vida pública do vizinho estado da Paraíba, que, naquela legislatura, considerava o colega potiguar como sendo “a mais bela voz rústica do parlamento brasileiro.”
Em texto recente, em meio aos fatos políticos, relembrei “jingles” (Leia: Emery Costa em 1972 – “Lá se vão…“, o que resultou em comentários positivos de amigos leitores, pela leveza que enseja. Pois bem, das eleições de 1974, a paródia do candidato Agenor Maria ficou bastante conhecida, a dizer mais ou menos assim:
– “Não é burguês, marinheiro foi, nem é um dotô, marinheiro foi, mas vai pro Senado, marinheiro foi, nosso Agenor… ”
Para contextualizar a paródia, Clementina de Jesus, em 1973, lançou pela Odeon o LP “Marinheiro só”. Produzido por Caetano Veloso, o disco trouxe do folclore popular a faixa “Marinheiro só”, com adaptação do próprio Caetano.
Por outro lado, Agenor tinha servido à Marinha; inclusive, seguindo velha tradição dos marinheiros, levava uma âncora tatuada em um dos braços. Isso serviu de mote para a paródia de sua campanha senatorial.
David de Medeiros Leite é professor da Universidade do Estado do RN (UERN) e Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha
Por François Silvestre
Conhecer pessoalmente o cineasta e escultor Vladimir Carvalho foi de uma alegria inescondível, como diria o erudito “seu” Valdomiro. Vlado, como é tratado pelos amigos, é daquelas pessoas que você, ao conhecê-la, imagina ser amigo de infância. De uma simplicidade cativante, sem qualquer pose que o currículo e a história de vida naturalmente autorizariam.
Vem à memória a figura de outro amigo também possuidor do dom da simplicidade. Dominguinhos.

Vladimir Carvalho é um sertanejo do mundo, que não por acaso nasceu no Nordeste (Foto: Sérgio Amaral)
Vladimir teve vida difícil, típica de nordestinos retirantes. Seu pai, Mestre Luís, faleceu muito jovem. Sua mãe, Dona Mazé, ficou viúva com um filho de colo. Walter, que é uma espécie de irmão-filho de Vladimir. Também artista igual ao pai e ao irmão. Família de arte e genialidade.
O filme “No país de São Saruê” foi censurado e preso. Vladimir viveu a clandestinidade, com o apelido de Zé dos Santos, viveu de esculpir esculturas sacras.
Foi ele quem deu guarida e conseguiu evitar a prisão da viúva de João Pedro, Dona Elizabete, cuja morte do marido motivou o filme “Cabra Marcado para Morrer”. Vladimir participou da elaboração do filme.
Sua obra é vastíssima. E a convivência também. Com Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Caetano Veloso, Ruy Guerra e muitos outros. “O homem de Areia”, sobre José Américo de Almeida. “O Evangelho segundo Teotônio”, sobre Teotônio Vilela. O “Engenho de Zé Lins” e vários outros filmes.
Dentre obras curtas e longas, é reconhecido, por colegas e críticos, um craque da cinematografia de roteiros. Além de ser, herança do pai, um excelente escultor.
Vladimir Carvalho é um sertanejo do mundo, que não por acaso nasceu no Nordeste. Um paraíba da Paraíba, que orgulha a cultura do Brasil.
François Silvestre é escritor
A boa música tem endereço certo à noite desta quinta-feira (2) em Mossoró.
A partir das 20 horas, no Teatro Municipal Dix-huit Rosado, Igor Fortunato apresenta seu novo show: “Escândalo”.
“Igor Fortunato canta Caetano Veloso” é o subtítulo da produção desse intérprete e ator de origem mossoroense, mas que há tempos está radicado em Natal, de onde irradia seu talento.
A direção é de Lígia Kiss e iluminação de Júnior Félix.
Daya é responsável pelo figurino e Chrystian de Saboya assina cenário e endereço.
Vamos, vai!
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Por François Silvestre
Da descrença que angustia, à pluralidade que conforta. Creio em vários deuses. Tupã é o meu preferido. Depois, Tempo. O Orixá. De onde vejo a lua agora, ela está vestida de amarelo queimado com uma faixa de preto, formada por uma nuvem. São as cores de Tempo.
Caetano Veloso homenageou meu Orixá com uma bela e singela canção. “És um senhor tão bonito, quanto a cara do meu filho, Tempo…Tempo…Tempo”. Sou filho de Tupã e Tempo.
O nome original de Tempo é Iroko. A primeira das árvores, daí sua irmandade com Tupã. Um da África sofrida e o outro da América assaltada. Dos seus filhos, diz o Candomblé:
“Os filhos de Iroko são tidos como eloquentes, ciumentos, camaradas, inteligentes, competentes, teimosos, turrões e generosos.
Gostam de diversão: dançar e cozinhar; comer e beber bem.
Apaixonam-se com facilidade e gostam de liderar.
Dotados de senso de justiça, são amigos queridos, mas também podem ser inimigos terríveis, no entanto, reconciliam-se facilmente.
Um defeito grande, é o facto de não conseguirem guardar segredos.
Iroko Kisselé; Eró Iroko issó, eró”!
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“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”
Caetano Veloso
Sobram-me motivos para exaltar: Alegria, alegria. A letra de Caetano Veloso parece infindável em sua capacidade de motivar, mexer, não nos deixar à parte.
O vídeo é de sua apresentação no Festival da TV Record em 1967.
Em pleno regime militar, a poesia cortante de Caetano sai ziguezaguando em alegorias e metáforas, para dizer que vale a pena seguir em frente.
Como ele mesmo diz… “O sol é tão bonito. Eu vou!
Aproveite bem o domingo e a semana. Vamos em frente?:
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou
O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento
Eu vou
Eu tomo uma Coca-Cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou
Por que não, por que não
Por que não, por que não
Por que não, por que não
Por que não, por que não
A política do Rio Grande do Norte, vista do alto de uma arquibancada de campo de futebol, é como se dois times jogassem sem camisa.
Difícil saber quem é quem.
E de perto, como definiu bem Caetano Veloso, “ninguém é perfeito”.
//www.youtube.com/watch?v=d4d4QKJhohw
Samba-enredo da Escola de Samba União da Ilha (Rio de Janeiro) de 1982, É hoje de Didi e Maestrinho foi gravada por diversos artistas.
Com razão, é uma música inesquecível, que fala de alegria, num tom motivacional. Faz da alegoria do Carnaval, da passarela e do ritmo alucinante da bateria, um conjunto de figuras que saúdam a vida.
(…) Acredito ser o mais valente, nessa luta do rochedo com o mar
E com o ar!
É hoje o dia da alegria
E a tristeza, nem pode pensar em chegar
Diga espelho meu!
Diga espelho meu
Se há na avenida alguém mais feliz que eu.
Para sua semana começar em alto astral, curta essa interpretação de Caetano Veloso, gravada em 1983, em apresentação do artista na Itália.
Tenha uma ótima semana. A minha, farei minha parte, para ser estelar como a que passou.
Veja a letra na íntegra AQUI.


