domingo - 04/03/2018 - 04:10h

Controlar ou ser controlado

Por Honório de Medeiros

Não é fácil compreender que o capitalismo é um subsistema (um fato), e o socialismo uma ideologia. A outra face ideológica do socialismo é o liberalismo, mas ambos são produto do subsistema que é o capitalismo.

O capitalismo, que é um fato, como dito acima, engendra soluções adaptativas para se manter e/ou ampliar seu espaço. Uma delas é a criação de instrumentos ideológicos, como o Estado, por intermédio dos quais os homens são manipulados em suas circunstâncias de vida específicas.

Tampouco é fácil compreender a ontologia de um sistema.

Desde a “Teoria Geral dos Sistemas”, de Ludwig von Bertanlaffy, que “a besta”, como ele a denomina, preenche o tempo dos estudiosos de todos os campos do conhecimento, desde a virologia à linguagem de programação dos computadores quânticos, passando pelas ciências ditas sociais. Embora compreender o que é um sistema não seja fácil, não é tão difícil perceber que tudo quanto nos cerca é uma realidade em processo, um sistema dinâmico.

Basta ler, por exemplo, “Emergence (The Connected Lives of Ants, Brains, Cities and Software)” de Steven Johnson, que a tradutora optou por traduzir como “Emergência (A dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares).

Do quê trata Johnson em seu livro?

Em síntese: do surgimento de complexos sistemas adaptativos, tais como formigueiros, cérebros, cidades, softwares, e assim por diante.

“O que une esses diferentes fenômenos é uma forma e um padrão recorrentes: uma rede de auto-organização, de agentes dessemelhantes que inadvertidamente criam uma ordem de nível mais alto”, diz ele. Leia De formigas, cérebros, cidades e softwares, no qual faço um resumo da obra de Johnson.

Ele chama esse tipo de “surgimento”, no qual um organismo complexo pode se aparecer sem que haja um líder para planejar e dar ordens, sem hierarquia e comando, via a “mão invisível e fantasmagórica da auto-organização”, de “comportamento emergente”.

As raízes dessa densa teoria repousa no solo fértil do pensamento de Adam Smith, Charles Darwin, Alan Turing e, embora não citado pelo autor, Ilya Prigogine e sua teoria do caos e do atractor. E, claro, Richard Dawkins e seu antológico último capítulo de “O Gene Egoísta”, no qual propõe a teoria do “meme” que, por si só, é um “meme”, esse inesperado momento zero do surgimento de um novo subsistema cultural dentro de outro maior.

Pois bem, enquanto tais discussões ocupam o tempo e o pensamento da vanguarda da ciência, os homens ainda se ocupam em tentar firmar um debate de natureza ideológica entre socialismo e capitalismo. Nada mais arcaico.

Aliás, nada tão arcaico quanto a produção intelectual na área de ciências sociais. Ou ciências humanas.

Mal sabem eles que a apropriação da mais-valia produzida pelo homem, esse fato inerente ao subsistema capitalista, existe sob qualquer ideologia, sob qualquer bandeira, sob qualquer credo.

O que difere, de um para o outro, é o conto-da-carochinha com o homem que será enganado por aqueles que pensam controlar as circunstâncias, a realidade, quando na verdade por elas são controlados.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Artigo
domingo - 12/03/2017 - 09:10h

Qual regime?

Por François Silvestre

O Brasil é capitalista? É socialista? Ou é tico-tico no fubá? Dezenas de partidos, inúteis e desnecessários na grande maioria, esbanjam denominações a todos os gostos. Tem nome pra tudo. E “programas” que nem os filiados conhecem. Nem os eleitos, dos partidos chamados grandes, conhecem os programas dos seus partidos.

Não conhecem nem têm preocupação no cumprimento desses programas. São estatutos de letras mortas. Ou melhor, natimortas. Já nasceram pra não serem lidas.

Vejamos. São princípios basilares do capitalismo a valorização do indivíduo, a livre iniciativa, o direito à propriedade, o direito à privacidade, a segurança pessoal, a inviolabilidade da moradia e do patrimônio.

Pergunto. Esses princípios são preservados e efetivados no Brasil? Se a resposta é negativa, não somos capitalistas.

Outro lado. São princípios basilares do socialismo a igualdade de acesso aos bens públicos, valorização e prevalência do coletivo sobre o individual, a inexistência de exploração do trabalhador, a representatividade social sob controle da justiça econômica, e o Estado como árbitro das relações em sociedade no apaziguamento de conflitos e na redução do acúmulo de riquezas entre poucos, diminuindo as distâncias entre remunerações gigantescas e salários de miséria.

Pergunto. Esses parâmetros são observados no Brasil? Se a resposta é negativa, não somos socialistas.

São defeitos sistêmicos do capitalismo a exploração do trabalho do hipossuficiente, a distância remuneratória entre castas e trabalhadores não corporativados, a ganância que atrofia a emulação entre os fracos, protegendo os fortes, a prevalência do egoísmo sobre a solidariedade.

Essas condições se aplicam ao Brasil? Se a resposta for positiva, nós somos capitalistas.

São defeitos históricos do socialismo o atrofiamento do indivíduo diante de um Estado impessoal e tirano, da despersonalização individual diante de uma abstração chamada povo, que nunca se materializa na figura da pessoa, pois ela só existe para justificar o Estado.

Isso ocorre no Brasil? Se a resposta for positiva, nós somos socialistas.

Finalmente o que nós somos? Não somos capitalistas no que há de bom no capitalismo nem somos socialistas no que há de louvável no socialismo.

Somos capitalistas no que há de mais cruel no capitalismo e socialistas no que o socialismo tem de mais execrável.

Híbrido na ruindade. Hermafrodita econômico, com dois sexos servindo a um monstro eunuco. Em que a reprodução é nula nos benefícios e fecunda nos malefícios.

Seria essa constatação uma adesão ao pessimismo? Uma pá de adubo na cova da depressão? Não.

É apenas e tão somente a imagem que um surrado daguerreótipo consegue registrar no meio do tumulto.

Ou o Brasil se refaz ou sangra. Só a refeitura estancará a sangria.

Té mais.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

François Silvestre é escritor

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