domingo - 19/05/2024 - 04:30h

Fazendo comércio pelo avesso

O comércio que resiste, a seu modo, à modernidade on-line (Foto do autor da crônica)

O comércio que resiste, a seu modo, à modernidade on-line (Foto do autor da crônica)

Por Paulo Procópio

A resistência respira. Ninguém tá sozinho na luta. Nessa pisada a “Venda” de Júnior ou a “Venda de Leivinha”, que são a mesma pessoa, atravessa décadas sem perder a tradição no bairro Doze Anos, em Mossoró. A Venda, de modo inusitado, também é conhecida por Cantinho Bar pelos frequentadores mais antigos, numa referência (ou reverência) ao antigo comércio da família Freitas, que existiu no local há dez mil anos atrás.

Leivinha não aceita pix nem cartão de crédito, e pronto. O aviso tá fixado na entrada pra todo mundo ver. Entrar na venda também é privilégio de poucos. Os estranhos são atendidos do lado de fora, através das grades, por uma portinhola. Esse sistema foi introduzido por prevenção, depois de um assalto.

A Venda só aceita pagamento em espécie. Dinheiro vivo. A única exceção é anotar algumas compras daqueles fregueses cativos do bairro numa caderneta. Esses pagam na quinzena ou no final do mês. Desse jeito ele vai mantendo a velha tradição dos bodegueiros, que herdou do pai. Como um Dom Quixote, enfrenta os moinhos do capitalismo triturador dos costumes locais. Tá nem ai para as praticidades do mundo moderno. Bom mesmo é o papel bordado.

E lá se vende de tudo. Material de limpeza, higiene pessoal, alimentação, refrigerantes, água mineral, cerveja, cachaça, vinho, velas, chocolates, balas, drops, queijos, embutidos e carne de jabá. Tem lápis, borracha, lapiseira, régua, caneta, cola, cadernos e cadernetas. Alfinetes, agulhas, linhas, friso, cortador de unhas, tesouras e lixas. Cigarro, fumo, papel de seda, isqueiro, rádio portátil, pilhas, headphones, carregadores de celular, e o que mais você possa imaginar.

E messe mundo avesso, pelo avesso a Venda funciona. O horário é anticonvencional. Abre das 11h às 14h, quando fecha para uma sesta esticada, e reabre das 18h à meia-noite, com uma clientela cativa.

É assim de domingo a domingo, com algumas exceções, naqueles finais de semana que ele resolve armar a rede na praia de Redondas, depois da divisa, no bom Ceará. Nesses dias a senha para a freguesia é a ausência da placa em tripé com a legenda: Venda, na calçada da Rua Frei Miguelinho, bairro 12 Anos, no Mossoró Grande que eu gosto demais.

Paulo Procópio é jornalista e advogado

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Categoria(s): Crônica
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