domingo - 18/02/2024 - 12:34h

Uma receita ensaística

Por Marcelo Alves

Michel de Montaigne (Reprodução revista Cult)

Michel de Montaigne (Reprodução revista Cult)

Michel de Montaigne (1533-1592) é considerado o exemplo do intelectual moderno. Talvez tenha sido o primeiro da sua estirpe. Como bem define Carlos Eduardo Ortolan (em “Montaigne: um ensaísta refinado”, Cadernos EntreLivros 4 – Panorama da Literatura Francesa, 2007), ele foi um “cavalheiro elegante que, recluso em sua propriedade em Bordeaux e cercado por vasta biblioteca como um herói solitário do pensamento, produziu reflexões sobre os temas mais variados.

Montaigne forneceu o tom para o estudioso erudito, o trabalhador intelectual incansável, às voltas com a leitura e a redação de seus artigos”. Montaigne foi um sábio, no que de mais positivo possa ter essa palavra. Praticante da “epoché” do ceticismo clássico, a suspensão do juízo diante da antinomia de duas formulações igualmente razoáveis e fundamentadas, evitava, entre outras coisas, falar tolices.

E Montaigne foi – ou, melhor, é – o autor de uma obra considerada seminal das letras universais, “Os ensaios” (“Les Essais”, 1580), que tratam de quase tudo e que fundam um novo gênero literário. Como anota o citado Carlos Eduardo Ortolan, “uma breve vista de olhos por suas páginas nos brindará com um cortejo imenso, heterogêneo e vazado, no melhor estilo clássico de uma variedade de temas que faria inveja a qualquer enciclopédia moderna. (…) Esse é um dos encantos da obra: os ensaios podem ser lidos sem compromisso com uma ordem rígida, abertos ao acaso e fruídos em sua sabedoria e elegância, mesmo nos tempos atuais”.

Mas, a partir do exemplo de Montaigne, o que faz alguém ser um bom ensaísta? E, em tempos tão “líquidos”, que pedem textos mais curtos, o que faz um bom cronista/ensaísta? Existe uma receita para um “fino corte ensaístico”?

Certamente, ensaios/crônicas devem ser sistemáticos somente até certo ponto. Os textos, espalhados em jornais e revistas, ou mesmo reunidos em livro, podem possuir um ou mais núcleos temáticos, é verdade. Mas o que realmente importa é que eles sejam o resultado das reflexões mais íntimas do autor, das suas preferências na vida ou mesmo do momento, enfim, do seu estado anímico, quando ele, tinta e papel à mão, ou defronte a uma tela de computador, deixa fluir suas ideias e sua imaginação.

O ensaísta/cronista não deve cair na tentação da rigidez acadêmica, embora não deva abrir totalmente mão dos elementos indispensáveis a uma formulação de ideias fundamentada e crítica. Nesse ponto, basta ser sensato.

Ele deve ser informativo. Conhecer o mundo, as pessoas e as ideias. Mas deve ser também opinativo. Ter posição. Não precisa – aliás, não deve – ser extremista. O ensaísta/cronista deve ter a coragem de ser moderado.

Pode ser irônico, até sarcástico, mas na medida certa. A ironia oferece expressividade a qualquer discurso. E o riso, para desespero dos casmurros de hoje, nos une.

Por derradeiro, o ensaísta/cronista de gênio deve saber interpretar o mundo. Para além de saber das ideias, é necessário compreendê-las. Deve sobretudo descobrir e dizer o ainda não dito a partir daquilo que já foi dito. Mark Twain (1835-1910) certa vez disse algo como: “Não existe uma nova ideia. É impossível. Nós simplesmente pegamos um monte de ideias antigas e, então, as colocamos em um tipo de caleidoscópio mental”. E assegurava o revolucionário Picasso (1881-1973): “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam”.

E, claro, o ensaísta/cronista deve concluir o seu raciocínio ou, pelo menos, sugerir alternativas coerentes de conclusão para o leitor. Pois essa é a minha receita de “fino corte ensaístico”. Que, confesso, copiei ou roubei, por partes, de muita gente.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/02/2024 - 08:52h

Pósdromo carnavalesco

Por Bruno Ernesto

Foto do Blog Jair Sampaio

Foto do Blog Jair Sampaio

Um bom carnaval produz duas coisas: ressaca e boas histórias.

O sonho de todo estrangeiro é curtir o carnaval no Brasil.

O famoso carnaval de Caicó, com seus bloquinhos de rua, não poderia ficar de fora do desejo de um amigo meu italiano que resolveu passar um carnaval em Caicó.

Naquele longínquo carnaval, ele sendo um grande apreciador de boas farras, correu para o Brasil e disparou para Caicó na sexta-feira de carnaval.

Findo o carnaval, na Quarta-Feira de Cinzas aportou em Mossoró com o grupo de amigos que aproveitaram a folia em Caicó.

Quando chegou, eu estava na casa da minha mãe aguardando o almoço e fui recepcioná-lo, pois fazia tempo que não nos víamos.

Quando desceu do carro, me deu um abraço, falou do grande carnaval que aproveitou, da bebedeira e, lá pelas tantas, caqueou os bolsos atrás do telefone celular.

Entrou no carro que veio e revirou tudo atrás desse celular, e nada de achar o bendito celular.

Como um bom italiano, perdeu logo a paciência e passou a disparar toda sorte de xingamento e, gesticulando, disse que furtaram seu celular lá em Caicó.

Naquela situação, saquei meu celular do bolso e perguntei qual era o número do celular dele e tratei de ligar a fim de ver se alguém atenderia à ligação e, assim, talvez conseguisse reaver o aparelho telefônico.

Por sorte, alguém atendeu de imediato. Ele arrebatou meu celular da minha mão e passou a interrogar a pessoa no outro lado da linha.

Enfurecido, ressacado e cansado após 5 dias de farra, numa mistura de português e italiano, passou a dizer que tinha sido furtado, que foi vítima de um rapina e que ia denunciar para a polícia.

Como não sabia o que o outro interlocutor falava, eu só podia ver a reação do meu amigo, cada vez mais enfurecido.

Num certo momento ele disse gritando e gesticulando:

– Maluco? Não sou louco! Você que rapinou meu celular!

– Vou ligar para polícia! Você vai ser preso!

Após uns minutos dessa peleja, o meu amigo olhou indignado para mim e, com o telefone ainda no ouvido disse:

– Bruno, o cara desligou! Perdi o telefone!

A alegria do carnaval dele acabou ali.

Tentei consolá-lo dizendo que daríamos um jeito de arrumar outro telefone para ele usar enquanto estivesse no Brasil.

Lá para as tantas, ele pediu para ligar novamente para o número do celular dele.

Imaginei que ele quisesse negociar com o “rapina” e reaver o celular, e tratei de ligar novamente.

Dessa vez ninguém atendeu. Entretanto, um telefone tocava dentro de uma bolsa que estava na calçada.

Meu amigo, ainda com o meu telefone ao ouvido, se agachou e abriu a dita bolsa; enfiou a mão e sacou o celular dele.

Ele me olhou e pediu para conferir o número do telefone que havia ligado antes e, furioso, disse:

– Bruno, você ligou para o número errado na outra ligação!

– Por isso que o cara estava me chamando de louco!

– Estava chamando ele de ladrão, rapina, e ele não entendia!

Até hoje quando chega a Quarta-Feira de Cinzas lembramos dessa história e damos altas gaitadas.

Carnaval é carnaval.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 18/02/2024 - 06:46h

Inúteis notas de inutilidade pública

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Web

Ilustração da Web

Esta semana, precisamente na terça, fui convidado a não participar de uma magnífica antologia com os mais expressivos e baludos contistas, poetas e cronistas de nossa província. Todos eles, devo admitir, mestres de uma poeticidade e ficção bacanas, medalhões da alta-roda destes confins do mundo.

Os romancistas ficaram de fora desse divisor de águas da pujança editorial de Mossoró, claro, porque romance é romance e não aceita compartilhar holofotes com os demais gêneros.

O livro, que pode atingir as quatrocentas páginas, sairá com uma musculosa tiragem de dez mil exemplares e selo da conceituada Pombagira, casa publicadora com sede em Salvador. Os integrantes da antologia vão custear cinquenta por cento da edição. Os outros cinquenta ficam por conta da Pombagira.

Metade da tiragem, assim, entrará na algibeira dos autores. Está programada uma glamourosa noite de autógrafos na imensa área de festas do hotel cinco estrelas Cabaré Palace. A estimativa de público é de mil convidados. O DJ Alouco, aclamado internacionalmente, virá do Rio de Janeiro para animar o megaevento.

O bufê, o cachê do artista carioca, o aluguel do espaço recreativo do Cabaré e metade dos cinquenta por cento das despesas gráficas que rolam para os escribas serão patrocinados pela Construtora Irmãos Pindaíba, pela Secretaria de Cultura e Câmara de Vereadores. A imprensa escrita, televisiva, falada e digital fará uma cobertura maciça.

Após o lançamento da coletânea, a obra ficará disponível para aquisição na livraria do Bodega Shopping, perto do Condomínio Alfavela, e nas plataformas de gigantes do e-commerces como Amazon e Mercado Livre.

No total, entre contistas, poetas e cronistas, a seleta reúne trinta nomes de notória inventividade literária. Quase todos são imortais das academias de letras de Mossoró e do Rio Grande do Norte. Cinco dessas cabeças pensantes, para a glória do nosso mundo das palavras, já conquistaram o prestigioso Prêmio Tartaruga, a mais cobiçada honra da literatura tupiniquim.

A Feira do Livro de Mossoró, desde sempre, é uma vitrine exclusiva e fiel dos nobres bruxos e bruxas do Cosme Novo.

Considero uma tremenda sacanagem o fato de tantos e tão bons escritores do Brasil nunca terem ganho um Nobel. Outra baita injustiça é nenhum literato da terra dos monxorós sequer ser indicado para o galardão da Academia Sueca. Absurdo do absurdo! Bom! Enquanto o Nobel não chega para algum dos meritórios autores mossoroenses, e sem nada de mais importante para fazer, hoje eu resolvi divulgar (na melhor das intenções!) estas inúteis notas de inutilidade pública.

Quem sabe num futuro não muito remoto, quando os algarismos da loteria enfim caírem na minha cuca, eu seja convidado para fazer parte de uma segunda antologia mossoroense dessa magnitude. A menos que não me considerem um escritor.

Mas com Deus, saúde e dinheiro tudo é possível. Deixem estar.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 18/02/2024 - 04:34h

Ficar em casa

Por Carlos Drummond de Andrade

O poeta/contista/cronista em seu apartamento em 1980 (Foto: Rogério Reis)

O poeta/contista/cronista em seu apartamento em 1980 (Foto: Rogério Reis)

Passar quatro dias e quatro noites em casa vendo o carnaval passar; ou não vendo nem isso, mas entregue a uma outra e cifrada folia, que nesta quarta-feira de cinzas abre suas pétalas de cansaço, como se também tivéssemos pulado e berrado nos clubes.

Não ligar televisão, esquecer-se de rádio; deixar os locutores falando sozinhos, na ânsia de encher de discurso uma festa à base de movimento e de canto. Perceber apenas o grito trêmulo, trazido e levado pelo vento, de um samba que marca a realidade lúdica sem nos convidar à integração.

Beneficiar-se com a ausência de jornais, que prova a inexistência provisória do mundo como arquitetura de notícias.

Ter como companheiro o irmão gato Crispim, exemplo de abstenção sem sacrifício, manual de silêncio e sabedoria, aventureiro que experimentou a vertigem da luta livre nos telhados e homologa a invenção da poltrona.

Penetrar no vazio do tempo sem obrigações, como num parque fechado, aproveitando a ausência de guardas, e descobrindo nele tudo que as tabuletas omitem.

Aceitar a solidão; escolhê-la; desfrutá-la. Sorrir dos psiquiatras que falam em alienação do mundo e recomendam a terapêutica de grupo. Estimar a pausa como um valor musical, o intervalo, o hiato. O instante em que a agulha fere o disco sem despertar ainda qualquer som.

Andar de um quarto para outro, sem ser à procura de objetos: achando-os. Descobrir, sem mescalina, as cores que a core esconde; os timbres entrelaçados nos ruídos.

Olhar as paredes, ou melhor: olhar as paredes, em torno dos quadros.

Sentir a casa com um todo e como partículas densas, tensas, expectantes, acostumadas a viver sem nós, à nossa revelia, contra o nosso desdém.

Habitar realmente a casa, quatro dias: como ilha, fortaleza, continente: infinito no finito.

Reconsiderar os livros; arrumá-los primeiro com método, depois com voluptuosidade, fazendo com que cada prateleira exija o maior tempo possível; verificar que é preciso antes tirar a poeira de um, remover a boba capa de celofane que envolve a encadernação de outro.

Reler dedicatórias; abrir ao acaso os livros de poetas que preferimos e que infelizmente não são os mais modernos nem os mais célebres; copiar meia estrofe por onde corre um arrepio verbal; separar volumes que não nos falam mais nada e que devem tentar seu destino em outras casas.

Sentir chegada a hora dos álbuns de pintura com pouco ou nenhum texto, e dos volumes iconográficos que nos contam Paris ou a vida de Mallarmé.

Viajar em fotografias; sentir-se imagem flutuando entre imagens; a terra domesticada em figura, tornada familiar sem perda de sua essência enigmática. Reconhecer que muitos livros comprados a duras penas, pedidos ao estrangeiro ou longamente minerados nos sebos, não têm mais do que essa oportunidade de comunicação durante o ano; deixar que fiquem a sós conosco e nos confiem seu segredo.

Admitir a fome, sem exigência de horário, e matá-la com o que houver à mão; renunciar à ideia de almoço e jantar, em reverência ao sagrado direito que assiste a todos, inclusive e principalmente às cozinheiras, de brincarem o seu carnaval, achar mais gosto nessa comida, porque não é a regulamentar nem é seguida de nada: todas as obrigações estão suspensas, e só valem as que soubermos traçar a nós mesmos.

Descortinar na preguiça um espaço incomensurável, onde cabe tudo; mas não enchê-lo demais, devassá-lo à maneira de um explorador que não quer ser muito rico e sente tanto prazer em descobrir como em procurar.

Assim vosso cronista passou o carnaval: sem fugir, sem brincar, divertido em seu canto umbroso.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi poeta, farmacêutico, contista e cronista brasileiro

*Texto originalmente publicado em 3 de março de 1960 no jornal Correio da Manhã do RJ.

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
terça-feira - 13/02/2024 - 16:34h
No sertão

Todos se pintam de alegria

BR-405 à tarde de 8 de fevereiro, Oeste do RN (Foto: BCS)

BR-405 à tarde de sexta-feira (9 de fevereiro de 2024), Oeste do RN (Foto: BCS)

Carlos Santos

Na boleia, caroneiro, testemunho o sertão no seu momento mais sublime.

A chuva abre caminho na BR-405, em pleno Oeste do RN. Pede passagem. Seja bem-vinda, porque resolvi ir no seu rastro.

Vou-me embora para a paz das horas que não têm fim, em busca da conversa despreocupada na calçada e daquelas crianças que vivem estórias da Terra do Nunca.

O Carnaval por lá não tem pierrô nem colombina. A gente não vai atrás do trio-elétrico.

Mas, todos se pintam de alegria.

Eu, também.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 11/02/2024 - 10:22h

Direito, séries e seriados – papel e tela

Por Marcelo Alves

Ilustração Web

Ilustração Web

Sou um efusivo defensor das superpotencialidades das séries e dos seriados de TV para fins de estudo sério do direito. Voluntariamente confesso.

Todavia, devo reconhecer o fato de que o direito se desenvolveu ao longo de sua história, fundamentalmente, na forma escrita. A prática do direito e o compartilhamento do saber jurídico se deram, não podemos negar a história, essencialmente com “a tinta posta no papel”. Se o direito é uma ciência, se é uma arte, se é um gênero literário, ela ou ele se fez (e ainda se faz), sem dúvida, majoritariamente através da escrita.

Mas tem de ser necessariamente assim? Ou tem de ser somente assim? Como indaga Julio Cabrera (em “O cinema pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes”, Editora Rocco, 2006): “Existe alguma ligação interna e necessária entre a escrita e a problematização filosófica [no nosso caso, jurídica] do mundo? Por que as imagens não introduziriam problematizações filosóficas [ou jurídicas], tão contundentes, ou mais ainda, do que as veiculadas pela escrita?”.

Não enxergo qualquer coisa na essência do direito que o “condene” a se manifestar tão somente pelo meio da escrita como conhecemos, muito menos apenas através de enfadonhos códigos ou tratados. Pelo contrário.

Já disse, entre outras coisas, que: (i) as séries e os seriados jurídicos testemunham a visão sobre o mundo do direito existente em determinada sociedade em certa época, e esse testemunho é bem mais acessível ao cidadão, para fins de reconstrução da imagem que se tem do direito e de seus atores, do que os áridos estudos achados em livros de caráter estritamente científico; (ii) eles podem ser um bom instrumento para que os estudantes e os profissionais no mundo real repensem e reconstruam com aprimoramento os seus papéis e as suas imagens na sociedade; (iii) esses legal dramas de regra resolvem satisfatoriamente problemas jurídicos intrincados, sendo frequentemente, a partir da dramaticidade casuística, excelentes aulas de direito; e (iv) a produção televisiva, ao mesmo tempo em que reproduz o direito posto e o imaginário popular, também influencia a construção desse direito, subversivamente antecipando muito das modernas teorias e tendências do direito, tais como a ética jurídica, o ambientalismo, o biodireito, o feminismo, a transexualidade etc.

Aqui adiciono: a TV até possui uma linguagem mais adequada que a linguagem da escrita, sobretudo da nossa escrita técnico-jurídica, para expressar nuances, intuições e elementos afetivos que também permeiam – e assim deve ser – o direito. Como explica Julio Cabrera, diferentemente da letra fria da lei e dos manuais de direito, os conceitos-imagem do cinema (e da TV, ajunto), por meio da “experiência instauradora e plena, procuram produzir em alguém (um alguém sempre muito indefinido) um impacto emocional que, ao mesmo tempo, diga algo a respeito do mundo, do ser humano, da natureza etc.”. E assim eles têm um valor cognitivo e persuasivo não só pela informação objetiva que transmite, mas também – e muito – pelo seu componente emocional.

Com certeza não estou só nessa empreitada transdisciplinar. No final do ano passado, eu mesmo prefaciei um maravilhoso livro, “O Direito e as séries – temporada 2”, organizado por Adelmar Azevedo Régis e Nicole Leite Morais, que serve como perfeito libelo para que os profissionais do direito incluam as séries e seriados, incluindo as obras de ficção, em suas formações e atividades jurídicas, na academia e na vida profissional cotidiana.

Veja sequência de crônicas sobre esse tema

Leia também: Direito, séries e seriados – uma introdução

Leia também: Direito, séries e seriados – uma paixão

Leia também: Direito, séries e seriados – vale a pena?

Leia também: Direito, séries e seriados – a emoção

Leia também: Direito, séries e seriados – os recursos.

Parafraseando palavras de André Karam Trindade e Roberta Magalhães Gubert (em “Direito e literatura: aproximações e perspectivas para se repensar o direito”, texto constate do livro “Direito & literatura: reflexões teóricas”, Livraria do Advogado Editora, 2008), a ficção, o cinema e a TV abrem o “universo de análise do fenômeno jurídico, na medida em que este deixa de ser descritivo, conforme exige o positivismo, e torna-se narrativo e prescritivo”, demonstrando “que o direito é um sistema cultural, do qual participam a imaginação e a criatividade literária [e cinematográfica/televisiva], como componentes da racionalidade jurídica”.

E assim grito, em prol da unidade dessas duas culturas, o direito e a arte, viva!

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 11/02/2024 - 09:30h

Misofonia

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa do próprio autor da crônica

Foto ilustrativa do próprio autor da crônica

Desde criança me interessei por colecionar todo tipo de coisa que você possa imaginar: selos postais, moedas, cédulas, cartão telefônico, álbuns de figurinhas, revistas em quadrinhos, embalagens de cigarros, lata de cerveja etc. Em relação a esses dois últimos, registre-se, não fiz uso. Pelo menos não naquele tempo.

Por volta dos meus 12 anos de idade, comecei a cultivar outro hábito: guardar recortes de jornal.O que ia achando interessante, ou guardava a folha inteira do jornal, ou passava a tesoura e guardava o que me interessava. Alguns colava na porta do meu guarda-roupa.

Após tantos anos, restaram apenas um imagem de Noel Rosa, Luiz Gonzaga, o Nogueirão e um recorte sobre fobias.

Por sinal, minha mãe ainda conserva meu velho guarda-roupa num dos quartos da casa dela, apesar de destoar de todos os outros móveis feitos sob medida.

Numa das portas, ainda está bem conservado um recorte de jornal que colei, lá pelos meus dezesseis anos de idade, onde consta mais de sessenta fobias dispostas em quatro colunas. Tem de fobia pra tudo. Sabia que um dia me serviria.

Recentemente, por volta das 14h de uma quarta-feira, eu e minha namorada fomos almoçar num restaurante aqui em Mossoró. Um bristô bem aconchegante e reservado na Nova Betânia, e que não é tão movimentado nesse horário, de modo que poderia ficar aguardando enquanto ela ia ao salão fazer as unhas e aproveitar o restaurante vazio, com um ar-condicionado geladíssimo para aplacar esse calor infernal do verão e, assim, fazer render esse tempo de espera.

Aproveitei para continuar lendo uma tese de doutoramento sobre sátira na literatura brasileira contemporânea que achei bastante interessante e havia guardado – sim, agora coleciono textos digitais -, aproveitando o gancho que escrevi sobre sátira no texto anterior (Concórdia //blogcarlossantos.com.br/concordia/ ).

Após uns vinte minutos de leitura, entrou um casal; ele aparentando ter por volta de 25 anos de idade e ela, 20.

Pelo adiantado da hora, só tinha a minha mesa ocupada, e o único som que podia escutar, além da música estilo lounge ambiente, era o do tilintar da louça sendo lavada na cozinha do restaurante, mas algo suportável.

Ocuparam uma mesa ao lado da minha. Para o meu azar.

Pediram dois croissants. Para beber, o rapaz pediu um refrigerante; ela um suco.

Conversavam a meio tom, trocando sorrisos e olhares de soslaio enquanto comiam. Ela aparentava estar bem encabulada. Tensa.

Você deve estar pensando, caro leitor, o porquê de eu estar tão curioso, observando o jovem casal. Decerto.

Entretanto, o motivo era outro mais obscuro, e tive a prudência de proceder com olhares rápidos e discretos.

O que me chamou a atenção, na verdade, foi o mastigado do rapaz, que me desconcertou a leitura a ponto de não conseguir mais prosseguir.

Era um mastigado mole, intercalado com diálogos com a boca cheia de croissant e coca cola; chupados esquisitos, uns assobios: um tipo de simbilado bem esquisito.

Alguém já me disse que sofro de misofonia. Penso que deva considerar procurar uma fonoaudióloga ou uma neurologista.

Agora, pondere. Quem nunca se irritou com mastigado de boca mole, chupado de canudo, bicada em café e sopa quente feito aspirador de pó; gente mastigando gelo ou comida crocante em um ambiente não adequado, como sala de aula, biblioteca, e até mesmo, no ambiente trabalho?

E mais! E aquelas pessoas falando com a boca cheia, roçando o talher nos dentes para arrancar a comida dele e o famigerado palitar dos dentes?

Calma! Você, por acaso, já reparou na quantidade de gente que arrasta os pés no supermercado? À vezes observo para ver se estão tentando tirar algo preso na sola do calçado.

Ledo engano meu: é a mania irritante da pessoa que parece estar sendo arrastada a força pelos corredores do supermercado em direção à guilhotina. Antes fosse. Justificaria, e até me compadeceria com o seu final.

Enquanto isso, no restaurante, a situação só se agravava. Pensei em abordar o rapaz e perguntar se ele estava bem, no intuito de interromper aquela sinfonia em dó sustenido maior.

Porém, abortei a ideia, pois, certamente, estragaria o encontro amoroso. Poderia ferir de morte o galanteio.

Não vendo uma solução compatível com a urbanidade, me fiz de covarde e bati em retirada decorosamente.

Antes o calor que fazia fora do restaurante, a permanecer naquela tortura ou estragar o encontro amoroso.

Ponderei a situação e pensei no futuro de uma família. A minha, claro! Poderia sair dali direto para o xilindró.

Minha namorada quando me viu sentar num banco em frente ao salão, no calor, já mudou a fisionomia. Sabendo como sou calorento, decerto já imaginou que algo de grave ocorrera para eu não estar no restaurante.

Perguntou, via mensagem de texto, se eu estava bem. Apenas disse que estava com dor de cabeça. Desconversei. Vi de longe que ela não acreditou.

Não sei se, de fato, sofro de misofonia ou mesmo de fonofobia. Agora, toda vez que abro o velho guarda-roupa e ponho os olhos no recorte de jornal, mais me identifico.

Lembrei o fato de que na tradição japonesa, tomar sopa sem sugar fazendo um barulho terrível é sinal de má educação e que não gostou da sopa. Entretanto, o rapaz não tinha feições nipônicas.

Talvez o ditado de que o costume de casa vai à praçaesteja em pleno vigor no caso do tipo de cena que vi no restaurante.

Entretanto, penso que não seria o caso. Sei da tarefa que os pais têm de combater isso. E me incluo nessa peleja.

Apesar de tudo, a conclusão que tive foi a de que aquela garota teve, em verdade, muita sorte, pois o rapaz poderia ter pedido uma refeição acompanhada com farofa; e, a considerar a empolgação da conversa, teria sido um desastre. Apesar de que há quem até assobie chupando cana, numa harmonia impressionante.

A bem da verdade é que, misofônico ou não, é melhor manter a calma e sair de perto numa situação dessa.

Perder a calma fará com que apenas você saia prejudicado. Ainda que a tentação seja grande e possa valer a pena em certos momentos.

Melhor não arriscar.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 11/02/2024 - 06:46h

Viva a quarta-feira de cinzas!

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Antes de começar a escrever estas linhas, sentindo-me sem saco e sem tesão para mexer com literatura, pensei em pedir socorro aos escritores Bruno Ernesto e Odemirton Filho. Quem sabe algum deles tivesse sobrando, num escaninho do computador, uma crônica que eu pudesse assinar como minha. Só por hoje.

Depois, já livre deste meu fastio, eu retribuiria a gentileza com um texto inédito que eles também pudessem assinar como deles. Vizinhos (cronistas) são para essas coisas.

Porém me lembrei de que Bruno Ernesto e Odemirton têm uma impressão digital muito peculiar e já bastante conhecida pelos leitores deste blogue do Carlos Santos. Decerto o embuste seria facilmente notado. O mesmo poderia acontecer a qualquer um deles assinando uma crônica minha, cuja impressão digital não expõe uma vírgula sequer da leveza literária do Odemirton Filho nem dos bem narrados resgates históricos do Bruno Ernesto.

Essa literal troca de papéis ficaria menos crível do que uma cédula de cento e cinquenta reais. O jeito, então, é admitir que não tem jeito e me virar. O tempo está correndo e tenho prazo curto para realizar o serviço.

Isto porque o meu Editor, por motivo de viagem à Cidade Maravilhosa, quando marcará presença na Marquês de Sapucaí, pediu-me para adiantar a página que costumo produzir (no mais das vezes) apenas no início das tardes de sábado. Assim, com ou sem saco, com tesão ou sem tesão, retorno ao batente.

Hoje, entretanto, eu estava mais interessado em curtir um bom e bocejante ócio. Nada de leituras ou escrevinhar. Só ouvir um blues baixinho, preparar uma xícara daquele café de altíssima qualidade com que Elias Epaminondas me presenteou, deixar a casa à meia-luz, aproveitar o silêncio que (ao menos neste momento) os vizinhos me oferecem, travar o cadeado no portão e desligar o telefone.

Mais tarde, cerca de nove da noite, assistir a um filmezinho da Netflix com Preciosa ressonando sobre meu peito. A gatinha é um grude! Deus me livre de notícia de carnaval! Seja pela televisão ou internet. Gosto mesmo é da quarta-feira de cinzas. E de ouvir falar da ressaca etílica e financeira dos foliões.

Mas que Deus, o Todo-Poderoso, socorra os bolsos desses pierrôs e colombinas contritos.

E viva a quarta-feira de cinzas! Aleluia!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 11/02/2024 - 04:32h

Inspiração para uma crônica

Por Odemirton Filho

Ilustração da Enciclopédia Humanidades

Ilustração da Enciclopédia Humanidades

Dia desses encontrei o doutor Roncalli Guimarães, colaborador do Nosso Blog, num restaurante à beira-mar, pelas bandas da praia de Pernambuquinho, na cidade de Grossos. Estávamos em mesas próximas, com o “marzão” à nossa frente, e, lá para as tantas, Roncalli me falou:

– “Uma paisagem dessa merece uma crônica, hein?”

Concordei e, desde então, fiquei matutando. Para escrever uma crônica basta olhar as coisas simples do cotidiano que, muitas vezes, não percebemos. Reunir-se com os amigos ou com a família, tomar um café, “tomar umas”, viajar, ir ao sítio, à praia; relembrar fatos do passado, ficar sozinho em casa, curtindo a nossa companhia, tudo é inspiração para uma crônica.

Toda vez que escrevemos mostramos um pouco de nossa alma, nossas poucas virtudes e inúmeros defeitos. Entregamos ao leitor um pouco do que carregamos na vida; dividimos ideias, momentos, alegrias, tristezas, lembranças, saudades.

Creio ser na simplicidade da vida que encontramos o que realmente tem valor. É tão prazeroso ficar ao lado de quem amamos; curtir a infância de nossos filhos, dos netos; vê-los crescer pessoal e profissionalmente; abraçar um filho que vem nos visitar; a felicidade de ter os nossos pais ainda vivos e, dentro das limitações naturais da idade, com saúde, tudo isso não tem preço.

Segundo o Dicionário online de Português, a crônica é um gênero literário que consiste na apreciação e narração pessoal dos fatos da vida cotidiana; cronologia, narrativa, prosa. Embora muitos a considerem um gênero menor, não vejo assim. De acordo com a professora Beatriz Resende, “as crônicas devem ser envolventes, sedutoras, comoventes, provocantes e divertidas”.

Além disso, recomenda-se usar um vocabulário simples. Observar os detalhes que muitas vezes passam despercebidos, deve ser a marca da crônica. O leitor deve encontrar familiaridade ao ler o texto, refletindo, muitas vezes, o que também viveu e sentiu, acompanhado uma narrativa leve, que faça bem a sua alma, suavizando o corre-corre do cotidiano. Todavia, cada cronista tem o seu estilo, o que devemos respeitar.

Pois é, meu caro Roncalli, a sua pergunta inspirou-me. Devemos ter cuidado para não deixar passar sem perceber as coisas simples da vida que são, na verdade, extraordinárias.

Valeu pela dica.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/02/2024 - 15:48h

Lembranças de um pretérito imperfeito

Ilustração Psicoonline

Ilustração Psicoonline

Por Odemirton Filho

De vez em quando, ao encontrar um dos vários leitores deste Blog, tenho uma grata surpresa. Alguns me dizem que leem minhas crônicas, e gostam de lembrar fatos do passado que, aqui ou acolá, trago a este espaço. Segundo me dizem, revivem um pouco a infância e juventude.

Como sabemos, o ato de escrever não é fácil. Contudo, para não faltar ao nosso compromisso dominical com os leitores, buscamos no fundo da alma algo que faça despertar bons sentimentos e lembranças, quiçá algumas saudades.

Ora, até o nosso querido escritor Marcos Ferreira, vez ou outra, diz que enfrenta uma peleja medonha para escrever, imagine. Só que Marcos, mesmo quando afirma estar sem inspiração, consegue escrever de modo genial. De minha parte, entretanto, procuro resgatar aquilo que vivi, pois, além de lembrar bons momentos, sei que muitos dos fatos coincidem com o que foi vivenciado por alguns leitores.

Por vezes, nas conversas com os meus pais, procuro saber sobre o passado. E vejo que seus olhos brilham ao lembrar das festas do Clube Ipiranga e da ACDP; quando falam sobre o Cine Jandaia, o Cine Cid, o Caiçara, o Cine Pax; dos carnavais de tempos passados. Meu pai lembrou do Pavilhão Vitória e da lanchonete de seu Fenelon, na qual se servia a famosa “bananada”; do restaurante Umuarama e da sorveteria Oásis. Falou-me que, quando criança, brincava no horto florestal e tomava banho no rio Mossoró, à época, não poluído.

Entre os momentos dos quais me lembro, vem à memória o forró chique na ACDP, as festas da AABB, o Clube Realce, o Ferrão, o Burburinho, as vaquejadas nas cidades circunvizinhas, a pizzaria de Patrício português, a sorveteira do Juarez, os vesperais no Cine Pax, os comícios no largo do Jumbo e da Cobal. Além das brincadeiras com os meus primos na casa de nossos avós; das brincadeiras com os amigos no patamar da igreja de São Vicente e do veraneio na praia de Tibau, onde vivi doces dias da minha infância e juventude.

Por outro lado, não devemos ficar remoendo o que passou; “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Das lembranças de um pretérito imperfeito que todos vivemos, talvez, seja de bom tom extrair lições para não cometermos os mesmos erros. O edificante, creio eu, é carregar no peito boas lembranças e algumas saudades para aquecer o coração.

Para mim, lembrar fatos do passado é ver a fotografia da nossa vida, feita de ângulos diversos, certos ou errados. Sendo assim, transcrevo algumas palavras de um texto rabiscado por mim e publicado neste Blog, em 2018:

O passado sempre visita o presente na vã tentativa de reviver. Esqueçamos o pretérito imperfeito. Resgatemos, do passado, somente os melhores momentos.

Agradeço, de coração, aos leitores que embarcam comigo nessas viagens aos tempos de outrora.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 04/02/2024 - 07:28h

Sinal de fumaça

Screenshot_2024-02-04-08-31-24-056_com.google.android.gm-editPor Marcos Ferreira

Querido amigo João Bezerra de Castro, saudações.

Desejo que esteja em paz e gozando de plena saúde.

Dou a mão à palmatória. Sei que estou em falta com você e com os nossos amigos e leitores, com os quais você gentilmente compartilha minhas crônicas domingueiras. Lamento pelo silêncio e falta de, ao menos, um sinal de fumaça. É muita coisa por aqui me roubando tempo e o pouco juízo que me resta.

O psiquiatra mexeu outra vez nos meus remédios; o neurologista decretou a volta do Rivotril. Passo a manhã quase toda fora de combate, hibernando, chapado. Não assumo compromissos nesse período. Exceto por força de um exame de sangue (naturalmente em jejum) ou por consulta médica que não consigo agendar para o horário da tarde. Existem ainda, afora a minha torturada escrita, os afazeres domésticos. Pois é. Parodiando o marketing daquela ex-primeira-dama da República, também sou recatado e do lar. Falta-me só a beleza física, mas isso é problema do espelho.

Tenho esse vínculo com o reputado blogue do Carlos Santos aos domingos, algo que valorizo bastante e que Natália não aceita desculpas de que estou sem a verve necessária, contudo eu lhe digo que atualmente o meu maior ardor nas letras é aquela literatura de ficção mais complicada: romances e contos.

Como não disponho de meios para bancar meus “best-sellers” confinados no notebook (pagar o serviço do diagramador e do capista, mandar imprimir essas produções em uma gráfica bacana), resta-me o peneirão de prestigiosos concursos literários do País para obras inéditas. Sim, amigo, eles existem. Mesmo em municípios muito menores que Mossoró e Natal. Então, além de publicar o livro vencedor, os certames nacionais costumam oferecer um bom prêmio em dinheiro ao literato.

Sabemos que ninguém, em raríssimos casos, assegura o pão de cada dia apenas escrevendo livros. Isso não quer dizer, todavia, que devemos silenciar, meter o rabo entre as pernas, e não cobrar dos governantes, dos gestores, ações que fomentem e promovam a produção e o engrandecimento da arte da palavra.

Neste RN de políticos (salvo exceções!) arrivistas e avarentos, donos de um vernáculo obtuso e uma lábia poderosa, não existem concursos literários. E quando aparece algum é oferecendo nonadas, mixaria, troféus e medalhas ordinários, pedaços de cartolina com uma suposta distinção de honra ao mérito. Vergonha! Mesquinhez! O escritor precisa ser recompensado na alma e também na carteira.

É isso, amigo João. A literatura, como outros ramos de arte, resistirá sob paus e pedras. Porque seguiremos escrevendo e escrever é preciso. O resto que se dane futebol clube. Eis agora um sinal de fumaça para você e nossos amigos Bernadete Lino, Francisco Nolasco, Evandro Agnoletto, Marcos Campos, Vânia Granja, Gilberto Monteiro, Raimundo Gilmar, Israel Carvalho, João Bosco Costa, Nivaldo Caravina, Julimar Mendonça e Fernando Costa Filho. Desculpe se me esqueci de alguém. Porque minha memória tem a durabilidade de um Sonrisal num copo d’água.

Fico por aqui. Já são quase cinco horas desta tarde de sábado e nem comecei a escrever a crônica de amanhã. O pior é que estou sem assunto. Acho que vou falar sobre a coqueluche do Big Brother. Melhor não tocar nesse vespeiro. Deus me livre! A lavagem cerebral foi muito bem-feita e é irreversível.

Depois eu mando outras fumacinhas.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 28/01/2024 - 09:04h

Direito, séries e seriados – a emoção

Por Marcelo Alves

Fotomontagem/Arquivo

Fotomontagem/Arquivo

Como descobri por meio de Julio Cabrera e de sua obra “O cinema pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes” (Editora Rocco, 2006), há aspectos bastante sutis que militam em prol das séries e dos seriados de TV como meios adequados para o tratamento do direito. Uma assertiva constante do citado livro é a de que, para se apropriar de um problema filosófico – e, no nosso caso, de um problema jurídico –, “não é suficiente entendê-lo: também é preciso vivê-lo, senti-lo na pele, dramatizá-lo, sofrê-lo, padecê-lo, sentir-se ameaçado por ele, sentir que nossas bases habituais de sustentação são afetadas radicalmente”.

De fato, há frequentemente um componente “experiencial”, relacionado às nossas histórias de vida, que nos torna mais ou menos sensíveis e engajados a uma questão jurídica. Em não sendo possível viver todas as experiências, o cinema/TV, com a sua dramaticidade, que nos faz “viver” a questão contada, pode nos ajudar no desenvolvimento dessa sensibilidade, nos fazendo apaixonar por uma tese ou por toda uma temática jurídica. Nas séries e seriados jurídicos somos mais do que espectadores da história/estória. Quase participamos da trama. Sentimos medo, raiva e alegria. E há os dilemas éticos e morais. O que faríamos no lugar da personagem X?

É verdade que a temática jurídica ajuda bastante. Como tenho seguidamente dito, as questões judiciais geralmente envolvem dinheiro, violência, sexo, pessoas ilustres, o que, sabemos, é algo que sempre atiça a nossa curiosidade e nos faz, muitas vezes, tomar o partido de X ou Y. O crime em si, do mais banal ao mais grave, normalmente chama a nossa atenção. A perversidade do crime praticado é suficiente para, sem o acréscimo de qualquer recurso dramático, emprestar emoção a uma série ou seriado. A personalidade do criminoso, assim como a sua conduta antes e depois do crime, é também motivo de interesse.

Temos ainda a própria teatralidade dos operadores do direito – policiais, juízes, jurados, promotores e advogados: a atmosfera de uma corte de justiça em pleno funcionamento é tensa e ao mesmo tempo encantadora. De fato, a mise en scène do processo penal, em alguns casos, assemelha-se a uma tragédia grega. Já a busca pela justiça, que é uma busca pela verdade, sempre envolve angustia. E até a execução da pena, na trágica realidade carcerária existente mundo afora, é marcadamente perversa para invariavelmente nos tocar fundo.

Ademais, atualmente há uma certa tendência de os seriados jurídicos contarem suas estórias com um toque de humanismo. Um grande sofrimento ou injustiça prévia pode até explicar/justificar o comportamento do seu anti-herói. E, claro, abordam, mesmo que lateralmente, questões atualíssimas, como igualdade e justiça social, gênero, classe, raça e por aí vai.

Mas, para além disso, a verdade é que o cinema e a TV possuem linguagens mais adequadas que a linguagem da escrita, sobretudo a nossa enfadonha escrita técnico-jurídica, para expressar as nuances, intuições e elementos afetivos que permeiam – e assim deve ser – o direito.

Como explica Julio Cabrera, diferentemente da letra fria da lei e dos manuais de direito, os conceitos-imagem do cinema (e da TV), por meio da “experiência instauradora e plena, procuram produzir em alguém (um alguém sempre muito indefinido) um impacto emocional que, ao mesmo tempo, diga algo a respeito do mundo, do ser humano, da natureza etc.”

Ilustração da página Direito ao cinema

Ilustração da página Direito ao cinema

Veja sequência de crônicas sobre esse tema

Leia tambémDireito, séries e seriados – uma introdução

Leia tambémDireito, séries e seriados – uma paixão

Leia tambémDireito, séries e seriados – vale a pena?

A produção cinematográfica/televisiva tem um potencial cognitivo e persuasivo não só pela informação objetiva que transmite, mas também – e muito – pelo seu componente emocional. É o que Cabrera chama de abordagem “logopática”, lógica e pática ao mesmo tempo.

Boa parte disso – falo da dramaticidade que nos envolve e da emoção que nos toca no cinema e também perante a tela pequena – está relacionada aos recursos técnicos pertinentes a tais artes visuais, como a pluriperspectiva, a capacidade de manipular tempos e espaços, o corte cinematográfico, os chamados efeitos especiais etc., que superpontencializam, para o espectador, os dados sensoriais da vida real.

E sobre esses recursos técnicos, devidamente ilustrados com a querida série “Cold Case” (2003-2009), falaremos na semana que vem.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London (KLC) e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL)

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  • Art&C - PMM - Abril de 2026
domingo - 28/01/2024 - 08:24h

Concórdia

Por Bruno Ernesto

Igreja de São Pedro, Zurique/Suíça (Foto: Bruno Ernesto)

Igreja de São Pedro, Zurique/Suíça (Foto: Bruno Ernesto)

Não é de hoje que há determinados temas que devem ser abordados de forma cautelosa, tais como futebol, política e religião.

Como é natural, cada pessoa tem suas preferências, convicções e posicionamentos ideológicos. Algo que beira a cosmovisão, ou seja, a forma que determinado indivíduo enxerga o mundo.

Essa tríade tem um potencial enorme para desencadear sentimentos antagônicos, beirando o radicalismo e, em certas ocasiões, o extremismo.

Sou um profundo admirador de quem respeita a opinião do outro, embora discordando do ponto de vista de seu interlocutor, afinal, todos nós temos o direito de acreditar em algo e ninguém tem o direito de impor ideias, opiniões e crenças a ninguém. E quando impõe, a história tem inúmeros registros de verdadeiras revoluções mundo afora.

Decerto que as questões relacionadas à convicção e práticas religiosas sempre enfrentaram e continuam enfrentando, um grande desafio.

Atualmente, é corrente o debate e constatação de que as designações religiosas vêm, cada vez mais, perdendo espaço em meio a debandada de fieis e o surgimento de uma geração pouco afeita às práticas religiosas, embora não se julguem ateus.

Há quem procure abordar temas espinhosos, do ponto de vista artístico e literário, de modo a lançar uma análise ou mostrá-lo sob uma outra perspectiva, diferente daquela que é comum de observarmos.

Veja, por exemplo, que a sátira é o estilo literário mais utilizado para fazer esse tipo de abordagem, que nada mais é, ao final, que uma maneira de se fazer uma crítica aos costumes sociais em forma de ironia e sarcasmo, beirando por vezes a comédia, mas que, no fundo, aborda um tema espinhoso e delicado.

Esse estilo remonta à Grécia antiga, e com as redes sociais, explodiu na forma de memes e pequenos vídeos e que, certamente, você já deve ter repassado para alguém conhecido. Nem que tenha sido na forma de uma figurinha de WhatsApp.

No Brasil, um clássico desse estilo é o Auto da Compadecida, de autoria do paraibano Ariano Suassuna, que, apesar de ter sido um homem bastante religioso, não deixou de lançar mão desse estilo literário, quando condicionou o recebimento da herança da cadela ao seu enterro com exéquias em latim.

Na década de 1960, surgiu o grupo de comediantes inglês chamado Monty Python, que produziu uma série de vídeos e filmes, abordando temas sensíveis, como filosofia e religão, dentre os quais, o filme “A Vida de Brian” (1979), uma sátira bastante ácida sobre o cristianismo, na qual o jovem Brian, nascido no mesmo local e período de Jesus Cristo, foi confundido com o verdadeiro messias, e que na época de seu lançamento gerou grande repercussão e reações dos cristãos.

Para quem se interessar e quiser assistir ao filme, o mesmo está disponível na íntegra no YouTube na versão dublada do estúdio Maga, que pode ser acessado por este link: //www.youtube.com/watch?v=Cv3qr1yD0Ao&t=76s  .

A intolerância religiosa que se espalha nas redes sociais hoje, e que antes parecia bem distante de nós e de pessoas do nosso convívio, em verdade, apenas deixou de ser velada, passando a ser tangível, de certa forma, o que tem causando bastante espanto, independentemente da religião que se professe, ou mesmo naqueles que sequer são adeptos a alguma prática religiosa ou mesmo num ateu.

Um episódio que gerou bastante repercussão em Mossoró, ocorreu no ano de 1886, três anos após o Ministro evangelista norte-americano, Dr. De Lacy Wandlaw, primeiro missionário protestante celebrar um culto na cidade, ter retornado à Mossoró.

Após a primeira celebração protestante em Mossoró, no ano de 1883, com o casamento de Ricardo Vieira do Couto com Maria Tereza Davina de Jesus, em 1885, efetivou-se instalação da congregação religiosa da igreja presbiteriana na cidade, sob o comando de João Mendes, que passou a ser hostilizado pelos locais, chegando, inclusive, a ponto de o telhado da casa do ministro evangelista, por diversas vezes, ter sido apedrejado por radicais, fanáticos, desocupados e até por ateus.

O ponto máximo da intolerância, se deu em 1886, como acima dito, quando o evangelista norte-americano, Dr. De Lacy Wandlaw, tendo retornado à cidade de Mossoró para assumir a igreja presbiteriana local, também passou a ser hostilizado, tal qual seu antecessor.

Diante da situação, formou-se um grupo que, em resposta às hostilidades, aguardaram mais um ataque ao telhado da casa de Dr. De Lacy, para revidá-lo.

Entretanto, ao invés de pedras, revidaram com disparos de armas de fogo, e mesmo que o embate daquele dia não tenha deixado ninguém de corpo ferido, a confusão pôs fim às hostilidades crescentes, reinando, até hoje, a concórdia em Mossoró, ficando esse infeliz episódio apenas nos registros históricos.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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domingo - 28/01/2024 - 07:46h

O café-soçaite no Beco das Frutas

Por Marcos Ferreira

Ilustração Web

Ilustração Web

Outra vez, falhando em uma disciplina que almejo, deixei esta moita pornográfica, indecente, ficar deste tamanho. Aqui estou (carrancudo) parecendo com o rosto de um porco-espinho. Invejo, até certo ponto, aqueles indivíduos de carinha andrógina, sem barba nenhuma. Às vezes, quando muito, exibem uns fios ralos, finíssimos, quase imperceptíveis. Admiro os sujeitos que, diariamente, como cumprissem uma promessa inquebrável, enfrentam o espelho, fazem um pouco de espuma, dão de garra da navalha e raspam a cara de novo, eliminando vestígios dos pelos.

Os meus heróis da resistência (a pouca telha que me resta) também carecem de uma poda cuidadosa, cirúrgica. Preciso ir ao Beco das Frutas, entregar-me aos cuidados do senhor Fernandes, e readquirir as feições de um ser humano. O salão é de primeira. Aí está o poeta Aluísio Barros que não me deixa mentir. Há mais ou menos dois meses me deparei com Aluísio no referido espaço. O poeta, agradável e gentil como sempre, avaliou o meu jeitão pé-na-cova, falou que estava sem pressa e me convenceu a ficar com a vez dele. Isto é, fui inserido no atendimento preferencial.

Recordo bem que era uma tarde de segunda-feira. Guardo essa lembrança porque foi justamente quando (embora eu não saiba dizer qual santo baixou em mim) resolvi fazer uma caminhada. Então, me fiando nos meus cambitos, coloquei uma roupinha apropriada, calcei o meu único e malhado par de tênis, deixei o Conjunto Walfredo Gurgel e desci a Presidente Dutra na contramão. Cheio de gás!

O meu plano era mesmo aproveitar a viagem e cuidar das fuças. Então prossegui avenida abaixo. Dessa forma, compensando o meu frágil condicionamento físico, utilizei-me da ladeira. Porque descendo todo santo é puxa-saco. Ao fim e ao cabo, sem querer contar vantagem, mas contando, cheguei ao meu destino. Consciente, no entanto, de que o retorno seria através de um telefonema para o número 192: o velho e bom Samu. Como raras vezes acontece, o salão estava quase que vazio.

Depois do cabelo cortado e da barba feita, animei-me, recobrei as forças e fui parar na TecMicro, loja e oficina de informática dos amigos Nilson e Marquinhos Rebouças, situada na Alberto Maranhão, defronte do ginásio de esportes. Riram bastante da minha aventura e ousadia, mas arrumei uma carona com eles.

O senhor Fernandes, ao lado da sua equipe de mulheres, todas reconhecidas profissionais da beleza, oferece tudo o que um salão de responsa deve oferecer. O corte de cabelo (ao menos o masculino) custa dez reais. A barba, vinte. Não é, portanto, algo para quem quer; é para quem pode. Ignoro os preços dos demais serviços. O que sei é que a alta-roda mossoroense só pisa naquele beco a fim de melhorar o visual. Ali, em meio ao cheiro das frutas e ao ruído do comércio, encontramos destacadas figuras do âmbito político, empresarial, literário e religioso desta cidade.

É no Beco das Frutas, de segunda a sábado, onde muita gente cuida da aparência e da autoestima. Só não revelo o nome do estabelecimento para não abespinhar marqueteiros, publicitários, relações-públicas e colunistas sociais, dignos arautos da honra, solidez e glória do café-soçaite destes confins do mundo.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 21/01/2024 - 12:30h

Diário de um Voluntário – CCXLIII

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior e Viviane (Foto: redes sociais)

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior e Viviane (Foto: redes sociais)

Confesso que não consegui dormir. “E se ela desistisse de vir comigo comer carne de sol com manteiga da terra o resto de sua vida?”…

A apreensão tomava conta de mim e também pudera, ela estava deixando seus 2 empregos, como nutricionista, no Rio, e ainda toda sua família para vir morar na cidade do sol.

Olhava a cada segundo para o relógio… o voo sairia às 09h, e eu, desde às 5:30h, estava esperando por ela, no Galeão.

De repente, a vejo – linda como sempre: um verdadeiro anjo que apareceu na minha vida e com seus os olhos de cristal, me enfeitiçou e assim, eu jamais soube o que seria a solidão…

Toda sua família estava lá, como que querendo passar a mensagem: “cuide muito bem dela, porque você jamais encontrará outro tesouro na sua vida!!”.

As lágrimas rolavam no seu rosto ao se despedir deles. E ali fiz uma promessa para mim mesmo: “cuidarei dela com o maior carinho do mundo e NUNCA deixarei o nosso amor envelhecer”…

Há 30 anos, exatamente, desde o dia 21/01/1994, que eu cumpro fielmente essa promessa. Somos grudados um no outro e contamos as horas para nos ver: um acorda e espera pelo outro para tomar café; andamos de mãos dadas, como dois namorados, nos beijamos em público e rimos, rimos muito das maluquices que nos acontece, como duas crianças que sabem que esse amor não acabará jamais…

Nossa história é um “Caso do acaso / Bem marcado em cartas de tarô. Meu amor, esse amor/ De cartas claras sobre a mesa, é assim … Signo do destino / Que surpresa ele nos preparou / Meu amor, nosso amor / Estava escrito nas estrelas / Tava, sim”.

Escrito nas estrelas e o que é melhor: escrito mais ainda no coração das nossas almas… E por isso, viveremos infinitas vidas juntos!

Te amo, minha bonequinha!!!

*Para Viviane Silveira Pinto

Francisco Edilson Leite Pinto Júnior é professor, médico e escritor

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domingo - 21/01/2024 - 11:32h

O último gole

Por Odemirton Filho

Ilustração Freepik

Ilustração Freepik

Corria o mês de janeiro de 2022.

Sentado à mesa com um amigo apreciávamos a bela paisagem, ornada por coqueirais e pelo mar de Tibau.

Conversávamos sobre tempos idos; sobre a nossa infância e juventude que ficaram lá atrás.

Tomávamos umas. O amigo insistiu para que tirássemos uma foto. Talvez, pressentisse que seria o nosso último encontro.

Entre um gole e outro, brindávamos à vida. Cada um carregava no peito as suas alegrias e tristezas. Ríamos dos arroubos da juventude; dos porres homéricos; dos sonhos que sonhávamos.

É a vida com seus encantos e desencantos; erros e acertos. Era um amigo querido, que sempre fazia questão de me visitar durante o veraneio, ocasião que resgatávamos alguns momentos do junho de nossas vidas.

Ao chegar, muitas vezes “triscado”, trazia uma dose de alegria. Para ele, a vida era pra ser vivida.

Naquele janeiro de 2022 a nossa preocupação era encaminhar os filhos e netos, pois sabíamos que o caminho a percorrer era menor que o percorrido. Tínhamos razão. Infelizmente, o amigo nos deixou em outubro de 2022. Nem imaginávamos que estávamos tomando o nosso último gole.

Agora, corre o mês de janeiro de 2024. Tomo umas. Continuo a vislumbrar do alpendre da velha casa dos meus pais uma belíssima paisagem, sentindo o gosto amargo da saudade.

Entretanto, as lembranças permanecem vivas, pois, segundo o poeta Mario Quintana, “a amizade é um amor que nunca morre”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 21/01/2024 - 09:22h

Vindita

Por Bruno Ernesto

Parte interna da Catedral de Santa Luzia (Foto: Glauber Soares)

Parte interna da Catedral de Santa Luzia (Foto: Glauber Soares)

Até que ponto a convicção, ou seja, a opinião firme sobre algo, influencia nossa vida?

Todos nós, uns mais, outros menos, temos nossas convicções.

A convicção, normalmente, se dá com base em provas ou razões íntimas e, às vezes, por persuasão de outro. O famoso convencimento.

Entretanto, nesse contexto, há uma instituição milenar, digo, de tempos imemoriais, multicultural, hereditária e pluralista, e que está presente em todas as sociedades; civilizadas ou incivilizadas: teimosia.

Em outra oportunidade, destaquei que na tradição cristã, especificamente católica, até meados do século XIX, ante a inexistência de cemitérios como estamos acostumados a ver hoje, os sepultamentos se davam nos adros, uma vez que todo cristão deveria ser sepultado em chão sagrado. Se tivesse muito prestígio naquela época, era enterrado de pé e dentro da igreja, de modo a descansar eternamente entre os santos.

Com o crescimento populacional e a ocorrência de epidemias e, por vezes, desastres, que passaram a vitimar mais pessoas num curto espaço de tempo, os adros já não mais comportavam as inumações, como antes a tradição católica exigia e, a partir de meados do século XIX, foram construídos os primeiros cemitérios nos moldes que ainda podemos ver, com túmulos ornamentados, alamedas, epitáfios e, por vezes, esculturas, havendo uma, digamos, uma reacomodação e readequação do que venha a ser um local espiritualmente digno para o descanso do cristão que fez sua Páscoa definitiva.

No texto de minha autoria intitulado Passado Longino (//blogcarlossantos.com.br/passado-longino/), destaquei que nem só de fé e devoção se viveu na terra de Santa Luzia e que há muita história interessante e pouco conhecida que ocorreu nos arredores da Catedral de Santa Luzia.

Como sabido, a cidade de Mossoró nasceu da fé e devoção à Santa Luzia, e o povo mantém a tradição e religiosidade até hoje, sendo a festa em homenagem à padroeira da cidade, no mês dezembro, o ápice das comemorações e demonstração de fé dos seus devotos.

Entretanto, a teimosia, como acima destaquei, é uma tradição imemorial; e algumas pessoas elevam a um nível extremo. Há quem chegue a ponto de perder a sua salvação divina a ter que torcer o braço.

No ano de 1867, faleceu na cidade de Mossoró, um cidadão chamado Álvaro Marreiro, mais conhecido por Cocão e faleceu sem o perdão divino.

Cocão, repetida e solenemente, recusou a confissão ao Vigário Antônio Joaquim, que o alertou repetidamente e condicionou o seu sepultamento no adro ou dentro da Catedral de Santa Luzia ao recebimento do sacramento da reconciliação e, assim, ter seus pecados perdoados. Era inegociável.

Não se sabe o motivo, mas o dito cidadão, tinha uma intriga com outro cidadão em Mossoró, cuja intriga ele julgava irreconciliável. Não havia meio termo. Nem do Vigário, nem do fiel.

Apesar da insistência e alertas do Vigário Antônio Joaquim, de que se não se confessasse, ao morrer, não seria enterrado no adro da catedral, Cocão foi irredutível, e, por fim, morreu sem perdoá-lo, e, não tendo se confessado, levando a intriga ao extremo, a ponto de não se reconciliar e não ter o perdão divino.

Pode parecer absurdo, ou até mesmo engraçado para os desavisados.

Cocão poderia até ser chamado de ingrato, louco, herege, imponderável, insensível e até de teimoso. Até poderia fazer sentido alguém pensar dessa forma, afinal, quem não queria a salvação divina e o descanso eterno num santo lugar, ainda mais em pleno século XIX, onde a religiosidade ditava a vida e atitude de todos?

Porém, uma coisa é certa: jamais poderiam lhe taxar de ser incoerente. E, ao contrário do que possa parecer, em verdade, Cocão era muito temente a Deus.

Ora, como se confessar, recebendo o sacramento da confissão para ser aceito de direito no mundo divino, se não era capaz de, genuinamente, cumprir o mandamento de amar, e, pois, perdoar o próximo? Naquele tempo, meados do século XIX, a fé, atos e atitudes, guardavam extrema coerência.

Diante do passamento de Cocão, e o fato de ter se recusado a se confessar, o Vigário Antônio Joaquim outra alternativa não teve, senão proibir o sepultamento de Cocão no adro ou dentro da capela de Santa Luzia, pois, se autorizasse, estaria ele, Vigário, descumprindo uma determinação superior, permitindo um impuro habitar a eternidade e um solo sagrado sem ter remido.

Assim, determinou que fosse o defunto sepultado numa mata que existia nos fundos da capela, impedindo, portanto, que Cocão repousasse eternamente em chão sagrado. Não havia alternativa.

Entretanto, por obra do destino, ou divina, no ano de 1878, com a ampliação da Catedral de Santa Luzia, cujas dimensões são as mesmas que podemos ver hoje, o altar-mor da Catedral foi construído em cima do local de sepultamento de Cocão, e, ao que parece, o cidadão Álvaro Marreiro, obteve o perdão divino de forma transversa, havendo a sua teimosia sido convolada em puro perdão, sendo agraciado com o altar-mor, tal qual a Basílica de São Pedro, no Vaticano, ganhou o Altar Baldaquino.

Assim, ao pé e ao final, a coerência de Cocão, digo, Álvaro Marreiro, foi sua salvação espiritual. Que descanse em paz. Afinal, nemini parco.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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domingo - 14/01/2024 - 10:24h

Passado Longino

Por Bruno Ernesto

Catedral de Santa Luzia em Mossoró (Foto: autoria não identificada/Blog de telescope)

Catedral de Santa Luzia em Mossoró (Foto: autoria não identificada/Blog Telescope)

Você já reparou que é crescente a prática de se rememorar algum acontecimento do dia?

Essa prática é especialmente adotada por uma enciclopédia digital muito conhecida, a Wikipedia, desde que iniciou as suas atividades.

Para mim, o dia 14 de julho é um dia bastante especial, pois é a data de nascimento do meu pai. Dia 14 de julho, também é a data que se comemora a queda da Bastilha, ocorrida em 1789, evento central que marcou a Revolução Francesa, ocorrida durante o reinado de Luis XVI e da famosa rainha Maria Antonieta, aquela a quem se atribui a famosa e controversa frase de que “Se não há pão, que o povo coma brioche.” A respeito de Maria Antonieta, reputo como melhor biografia a de autoria de Antonia Fraser.

Na primeira metade do Século XIX, havia em Mossoró um padre de nome Francisco Longino; nascido em Mossoró no dia 15 de março de 1802, batizado na então Capela de Santa Luzia, atual Catedral de Santa Luzia, em 04 de abril de 1802, e, depois de ordenado em novembro de 1826, exerceu o sacerdócio em Mossoró, e que, apesar de ser padre, colecionou muitas inimizades em Mossoró, em especial com a família dos Ferreira Butrago.

A situação se agravou tanto com o passar dos anos, que o padre Longino teve que arregimentar um grupo armado para não ser morto pelos seus inimigos. Chegando, inclusive, a renunciar ao mandato de vereador da cidade de Apodi, cargo a que foi eleito na época, após tantas emboscadas no trajeto de Mossoró a Apodi.

Tanto o padre Francisco Longino, quanto os Ferreira Butrago, se enfrentavam feroz e constantemente, no intuito de exterminar um a outro. Em bom vernáculo: um queria matar o outro por rixa pessoal, algo muito comum naquela época. E dessa rixa, de fato, muitos morreram na cidade de Mossoró. Tudo correu nas imediações da Catedral de Santa Luzia e do Mercado Público Municipal, no Centro da cidade.

Há um fato que ocorreu na noite do dia 14 de julho de 1841 na cidade de Mossoró, que reputo igualmente marcante. Embora pouco conhecido dos mossoroenses.

Num desses embates ocorridos entre o padre Francisco Longino e os Ferreira Butrago, o ocorrido no dia 14 de julho de 1841, foi um dos mais violentos. O fato se deu em frente à então Capela de Santa Luzia, onde se localizava a casa do padre Francisco Longino.

No intento de assassinar o padre, João Ferreira Butrago e seu grupo, por volta de catorze homens armados, na total escuridão daquela noite, deitaram-se no patamar da Capela de Santa Luzia e, de tocaia, atacaram logo que a porta de uma casa se abriu e, ao avistarem aquela pessoa, abriram fogo.

O infeliz que foi o primeiro a ser assassinado naquela noite, sangrenta, foi o sacristão da Capela de Santa Luzia, Felipe de Mendonça, que guardava o costume de orar toda noite na capela e acabou sendo confundido com o padre Francisco Longino. Estava no lugar errado e na hora errada.

Após esse primeiro assassinato, o grupo dos Ferreira Butrago avançaram em direção à casa do padre Longino, sitiando-a  e, durante a noite toda, travaram um feroz combate, trocando tiros uns contra os outros, havendo baixa de ambos os lados. Porém, o padre Francisco Longino sobreviveu ao feroz ataque.

Há registros de que a casa do padre Longino, que foi alvo daquele embate, e que anos depois passou a ser a morada do famoso Jeremias da Rocha Nogueira, fundador do primeiro jornal impresso de Mossoró, em 17 de outubro de 1872, preservava 63 marcas de tiros que foram disparados naquela noite de combate.

Decerto que muitos outros combates ocorreram após esse do dia 14 de julho de 1841, além de que o padre Francisco Longino não recuou em seus malfeitos, como a história tem registrado.

Assim, quando você estiver nos arredores da Catedral de Santa Luzia ou do Mercado Central, olhe em sua volta. Ali tem muito mais história do que você pode imaginar.

Ao que parece, nem só de fé e devoção o homem viveu na terra de Santa Luzia.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

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domingo - 14/01/2024 - 09:34h

Direito, séries e seriados – uma paixão

Por Marcelo Alves

Foto ilustrativa do Direito Profissional

Foto ilustrativa do Direito Profissional

Parodiando uma constatação do jurista belga Bruno Dayez (autor de “Justice & cinéma”, editora Anthemis, 2007), de que o direito “é um dos temas favoritos do cinema”, posso afirmar que o direito é também um maravilhoso tema para as séries e os seriados de TV.

As razões para tanto são muitas. As questões judiciais muitas vezes envolvem dinheiro, violência, sexo, o que, sabemos, é sempre algo interessante de se explorar na TV. O crime em si, do mais banal ao mais grave, normalmente chama a nossa atenção. Muitas vezes, a própria perversidade do crime praticado ou o envolvimento de pessoas ilustres no fato, por exemplo, já são o suficiente para, sem o acréscimo de qualquer recurso dramático, emprestar qualidade e interesse a uma série ou seriado. A personalidade do criminoso, assim como a sua conduta antes e depois do crime, constitui-se geralmente em excelente matéria-prima para a ficção.

A competência e a teatralidade dos operadores do direito – policiais, juízes, jurados, promotores e, sobretudo, advogados – é fascinante. A atmosfera de uma corte de justiça em pleno funcionamento é tensa e ao mesmo tempo encantadora. A mise en scène do processo penal, em alguns casos, assemelha-se a uma tragédia grega. A busca pela justiça, que é uma busca pela verdade, sempre envolve um suspense. Até mesmo a execução da pena, na trágica realidade carcerária existente mundo afora, é marcadamente perversa para invariavelmente prender nossa atenção. E por aí vai.

Aqui entra até uma questão mais ampla: o gênero ou temática a ser adaptada/roteirizada para as séries/seriados de TV. Estes parecem ser muito mais exitosos, qualitativa ou financeiramente falando, quando adaptam/roteirizam a literatura/ficção de gênero, em especial as estórias de suspense/mistério, para as suas maravilhas de imagem e som. Aliás, certa vez li no site literário Goodreads um belo artigo sobre o tema, de autoria de Adrienne Johnson, intitulado “Mystery Solved: Why Hollywood Is Obsessed with the Whodunit [leia-se ‘quem fez isso’]?”. E tudo fez sentido. E não são só os canais de TV e as plataformas de streaming que estão obcecadas por mistérios. Nós também estamos. Não conseguimos parar de assisti-los, mesmo com mil coisas a fazer ou necessitando dormir.

Pode ser coisa do enredo forte, típico dos whodunit, dos thrillers e por aí vai. Quem fez isso? Por que fez? Como fez? Isso sem falar nas reviravoltas a cada instante, capítulo ou episódio. Perfeitas para os chamados “cortes” cinematográficos/televisivos. Tudo isso deixará você grudado ali se perguntando: O que houve? O que vai acontecer? Os filmes/séries de mistério nos tornam mais do que espectadores da estória.

Em meio ao suspense, quase participamos da trama. Sentimos medo, raiva e alegria. E, claro, há os dilemas éticos e morais. O que faríamos no lugar da personagem X? Aliás, hoje há uma tendência nas séries/seriados “jurídicos” de contar sua estória com um toque de humanismo, mesmo quanto ao seu anti-herói. Um grande sofrimento ou injustiça prévia explica/justifica o seu comportamento. Além disso, também abordam, mesmo que lateralmente, questões atualíssimas, tais como igualdade e justiça social, gênero, classe, raça e por aí vai.

Mas se seriados como “Law & Order”, “Murder One”, “Arrested Development”, “Suits”, “Ray Donovan”, “How to Get Away with Murder” e “Better Call Saul”, apenas para citar algumas produções mais recentes, são ludicamente apreciados por aqueles que possuem formação jurídica – as suas enormes audiências e o número cada vez maior de seriados do tipo em exibição hoje mostram bem isso –, elas também se prestam a propósitos que vão além do divertimento? São instrutivos sob o ponto de vista do conhecimento jurídico? Sendo mais específico: as séries e os seriados de TV são realmente meios adequados para o tratamento sério do direito?

É minimamente seguro embarcar nessa tendência ou moda (diriam alguns mais críticos) da interdisciplinaridade, aqui entendida como a interação, nos mais diversos níveis de complexidade (multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade em sentido estrito e transdisciplinaridade), entre o direito e as séries/seriados de TV, visando à compreensão (e até mesmo ao aperfeiçoamento) daquele através da linguagem destes?

Nossa resposta virá, se o destino permitir, na semana que vem.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London (KCL) e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL)

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domingo - 14/01/2024 - 08:22h

Duplo resgate

Por Marcos Ferreira

Preciosa em um momento de relaxamento, mas sempre alerta (Foto: Marcos Ferreira)

Preciosa em um momento de relaxamento, mas sempre alerta (Foto: Marcos Ferreira)

Sempre alerta, disposta a dar a vida por mim, Preciosa cuida da minha segurança vinte e quatro horas por dia. Exceto quando não estou em casa. Isso significa um problema, pois ela detesta ficar só. No resto do tempo não sai do meu pé. Se vou tomar banho ou fazer outra coisa, a porta tem que ficar aberta. Antes eu buscava esse momento de privacidade, mas Preciosa se queixava muito miando, arranhando a madeira, até que eu liberei a entrada de vez.

Deita-se no chão, gosta do friozinho da cerâmica, e monta guarda, como se temesse acontecer algo de mau comigo.

Aqui não preciso de muros altos, cerca elétrica, câmeras de vigilância. Nada. Nenhuma intrusa ou intruso penetra o sofisticado esquema proteção desta casa sem ser detectado. Quem entra é porque recebeu convite e passou no detector de quizila, quebranto, olho-grande, pé-frio. O indivíduo precisa emanar boas vibrações para ser bem-vindo. Preciosa é assim, capta logo se a pessoa tem o espírito carregado ou alma sebosa. Não apenas isso. Os gatos nos proporcionam um bom estado emocional, são seres mágicos, mediúnicos. Os cães também oferecem esse conforto, transmitem bastante carinho, lealdade. Porém os bichanos têm uma graça, um charme a mais.

Preciosa havia sido abandonada. Era uma filhotinha com menos de dois meses. Natália foi quem a encontrou. Não pude deixá-la no abandono. Meu coração, mais uma vez, assumiu o caso. Indefesa, rifada num mundo comumente insensível e cruel, possuía mínimas chances de sobrevivência sem o amparo de um lar. Estava doente. Mal conseguia se locomover. Nem mesmo aceitava a comida. Durante algum tempo ficou aqui desse jeito, quietinha, fraca. Fomos ao veterinário. Ministrei a medicação prescrita na dose e horários indicados. Ela reagiu, recuperou a saúde.

Daí a pouco tornou-se elétrica, forte, brincalhona, correndo a casa e o quintal, comendo a ração direitinho. Agora, enquanto escrevo, ela sobe na mesa, fica por trás do notebook. Aproveita para tirar um cochilo. Mas é bem leve. Levíssimo. Tem os sentidos aguçados. Mexe as orelhas e entreabre os olhos ao menor ruído. À noite, entretanto, depois do meu banho sob a vigilância dela, chega o ponto alto do dia: assistir a Terra e Paixão e algum filme da Netflix.

Na sala, com a rede armada, à meia-luz e no aconchego dos cobertores, começa a ronronar, volta a conferir meu cheiro, pressiona meu peito com as patinhas, como se revivesse a distante e curta época da amamentação. Sim. Isso é uma afetividade que eles carregam pelo resto da vida.

Nessas horas os papéis se invertem. De protetora ela passa a protegida. Então adormece profundamente, emite uns murmurinhos, mergulha no seu universo de inocência e leveza. E aí eu me sinto privilegiado, feliz por receber, por contar com esse tipo de amor tão sincero, tão benévolo e imensurável. Ao resgatarmos um bichinho desses que sofrem nas ruas, passando fome e sede, também somos resgatados de algum modo. Porque o bem que eles nos devolvem é ainda maior.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 14/01/2024 - 06:48h

O que vale a pena

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Tudo vale a pena, se alma não é pequena”.

(Fernando Pessoa)

Caminhavam na areia com a brisa tocando os seus rostos, como se fosse um beijo suave. Diariamente, à tardinha, gostavam de andar na beira da praia, com o mar molhando os pés.

Há anos tinham largado a cidade grande. Mudaram-se para a comunidade-praia e desfrutavam a paz do local. Buscavam sossego, pois já estavam aposentados.

A rotina raramente mudava. O marido acordava cedo, o sol nunca o encontrou dormindo, como diria Rui Barbosa. Preparava um café coado e tapiocas. A mulher se levantava um pouco mais tarde. Conversavam sentados à mesa, sem pressa. Depois cumpriam as tarefas da casa e faziam o almoço.

Algumas vezes, pela manhã, esperavam uma jangada vindo do alto mar e compravam peixes, já eram conhecidos dos pescadores e moradores da pequena localidade. As compras da casa eram realizadas na mercearia de Zé de Niel, que ficava próximo, ainda no sistema da “caderneta”.

Antes do almoço o marido gostava de tomar uma “pra lavar”.  Depois, deitavam-se nas redes e iam curtir a “sesta”. No meio da tarde tomavam um “pingado”, acompanhado com pães e bolo.

À noite, após o jantar, deitavam-se juntos no alpendre com o vento balançando a rede, embalando os momentos mais íntimos.

Tinham um filho e dois netos que os visitavam uma vez por ano, nas férias, pois moravam longe, lá pelas bandas do sul do país. Para não ficarem incomunicáveis possuíam um telefone celular.  Assistiam a televisão, de vez em quando, para verem o noticiário.

Liam muito. Sobretudo, os romances, contos e as crônicas do bruxo do Cosme Velho. A sós, conversavam sobre a vida. Lamentavam-se. Eram para ter dançado mais. Viajado mais.

Entretanto, a correria do dia a dia e o trabalho fizeram com que consumissem boa parte da vida. O tempo passou depressa. Os anos avançaram e olhavam para trás, com saudade, principalmente, daquilo que não viveram. Agora, já não tinham o viço da mocidade.

Somente o tempo nos faz amadurecer. Os valores da vida são repensados. Valeu a pena correr tanto em busca de bens materiais? Perguntavam-se. Vivemos tempos da economia do desejo, não da necessidade.

Infelizmente, ou felizmente, ninguém transfere sua experiência ao outro. Erros e acertos precisam fazer parte da vida de cada um. Se pudessem voltariam no tempo e viveriam de outra forma. Mais leves. Mais soltos.

Final da tarde. Era hora de ir à praia, caminhar na areia e sentir a brisa. Juntos, viram o pôr do sol refletir sobre as águas do mar.

Descobriram que nunca é tarde para viver o que vale a pena.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 07/01/2024 - 08:48h

Direito, séries e seriados – uma introdução

Por Marcelo Alves

Law and Order está em evidência desde 1990 (Reprodução Blog LFG)

Law and Order está em evidência desde 1990 (Reprodução Blog LFG)

Interagir o direito com a arte, interdisciplinarmente, faz parte de uma tendência cada vez mais popular no mundo jurídico contemporâneo. Na Europa, nos Estados Unidos da América e, promissoramente, no nosso Brasil, os estudos de “law and literature” (direito e literatura) e “law and cinema” (direito e cinema) vêm ganhando, paulatinamente, cada vez mais destaque na teia dos “movimentos” interdisciplinares, com a publicação de livros e artigos voltados à temática e mesmo com sua inclusão nos currículos dos cursos de direito.

É dentro desse contexto promissor que gostaria de falar um pouco sobre a presença do direito – e o seu consequente estudo – em “séries” e “seriados” produzidos pela/para TV tradicional ou mesmo pelas/para plataformas de streaming (Netflix, Amazon Prime, Apple TV etc.). Aliás, considero “séries” e “seriados” de TV categorias sutilmente distintas, basicamente porque, no segundo caso, cada um dos seus episódios possui uma trama quase completamente autônoma.

No mundo “líquido” de hoje, as séries e os seriados para a tela pequena (a TV, grosso modo) viraram uma paixão. E a razão disso está, para além da qualidade da obra em si, na flexibilidade dos formatos e do tempo de execução. Uma série/seriado poderá ter inúmeros episódios e ser dividida em várias temporadas. A duração de cada episódio, algo em torno de trinta ou quarenta minutos, bem menor que a dos filmes, é o suficiente para gostarmos da estória sem cansar.

Some-se a isso que cada episódio, via de regra, certamente nos seriados, é um mundo em miniatura para se viver, com começo, meio e fim. Com a explosão dos serviços de streaming, pululando nas TVs, isso é uma mão na roda, para a indústria e para a audiência.

Para aqueles com formação em direito, essa paixão muitas vezes se direciona para aquilo que vou chamar de séries ou seriados “jurídicos”, produções cujos enredos têm uma considerável ou mesmo uma fortíssima ligação com o mundo e as profissões do direito. Nessas séries e seriados, as histórias/estórias se passam, pelo menos em parte, perante uma corte de justiça em funcionamento ou em torno de algum escritório de advocacia, com as personagens realizando suas performáticas peripécias jurídicas.

Os enredos da série e/ou de cada episódio do seriado costumam focar a vítima, o réu/criminoso, o advogado brilhante, o promotor que busca incessantemente a Justiça, o juiz justo, o controverso júri, o procedimento judicial em si, o crime praticado, a questão civil tratada e por aí vai. Quase sempre temos uma tensão entre a falibilidade do sistema ou da “justiça humana” e a noção do que é a verdadeira Justiça. Sem prejuízo de termos também alguns dramas pessoais misturados (uma pitada romântica, por exemplo, quase sempre vai bem, claro).

Especificamente quanto aos seriados, com graus de pertencimento “jurídico” variados, a depender da centralidade do direito na coisa, os exemplos são muitíssimos, conforme se pode constatar de uma breve consulta a publicações do tipo “1001 TV Shows You Must Watch Before You Die” (editado por Paul Condon, Universe Publishing, 2015).

Vão desde o pioneiro “Perry Mason”, o seriado, “TV show” (como gostam de chamar os ianques) que, originalmente apresentado pela rede de TV americana CBS de 1957 a 1966 em 271 episódios, definiu o formato dos seriados jurídicos (“courtroom dramas”, “legal dramas”) como ainda conhecemos hoje; passando por “Rumpole of the Bailey” (Reino Unido, 1978-1992), “Night Court” (EUA, 1984-1992 e 2023-), “L. A. Law” (EUA, 1986-1994), “Law & Order” (EUA, 1990-2010 e 2022-), “Murder One” (EUA, 1995-1997), “Arrested Development” (2003-2006, 2013 e 2018-2019), “Boston Legal” (EUA, 2004-2008), “Mandrake” (Brasil, 2005-2007 e 2012), “Garrow’s Law” (Reino Unido, 2009-2012), “Accused” (Reino Unido, 2010-2012), “Vampire Prosecutor” (Coreia do Sul, 2011-2012), “Silk” (Reino Unido, 2011-2014), “Suits” (EUA, 2011-2019), “Ray Donovan” (EUA, 2013-2020), “How to Get Away with Murder” (EUA, 2014-2020), entre outros; e chegam a produções do tipo “Better Call Saul” (EUA, 2015-2022), que, não por mera coincidência, entre outras coisas, ganhou três troféus no Critics Choice Awards 2023 (Melhor Série de Drama, Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama).

Mas o que explica essa novel paixão “jurídica”? Isso veremos na nossa próxima conversa.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London (KCL) e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL)

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