domingo - 16/02/2025 - 03:46h

Quando eu crescer

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa Web

Arte ilustrativa Web

Estamos às portas do carnaval, infelizmente. Falo por mim, claro. Há ocasiões em que imagino que não sou deste planeta. Bom. Não é da minha conta o fato de um mundo e meio de indivíduos curtirem o momo. É uma espécie de cartão de visita do Brasil. Eu, entrementes, desprezo essa tradição com todas as minhas forças. Tanto o carnaval oficial quanto os ditos “fora de época”.

Sim, sou avesso a multidões, a fuzarcas, furdunços, frevos, pândegas, etc. Agrada-me, todavia, uma boa roda de amigos, que prefiro com a ausência ou sem excessos alcoólicos. Possuo, tenho meus motivos, um forte desconforto (um trauma, na verdade) quanto à cultura etílica.

Esqueçamos o carnaval e o álcool. Fui bobo ao tocar nesse ponto nevrálgico, pois pretendo discorrer acerca de outras coisas. Aqui estou, nos acréscimos do segundo tempo, com mais um desafio de produzir uma crônica para este meu domingo de bocejos e de preguiça. Bocejo é um negócio contagiante. Ao ver alguém bocejar, dificilmente a gente não boceja. Só de pensar já estou abrindo a boca.

Fixando-me agora no compromisso da escrita, confesso que estou enchendo linguiça, conforme o ditado. Careço extrair dos meus quatrocentos ou quinhentos neurônios uma página minimamente atrativa, digna da atenção do leitor. No mais tenho plena consciência de que escrever sobre o ato de escrever é um legítimo lugar-comum, um tema pisado e repisado, um tipo de artimanha tão desagradável e perniciosa quanto o ogro Donald Trump. Desta vez, observem só, aqui me vejo ocupando, gastando tinta com o lodaçal, o charco político que voltou à Casa Branca.

Num domingo como este cai bem certas amenidades, um bocado de pacatez, uma escrita branda. Nada de mau humor, de ranço ou polêmicas. Isso, em particular o âmbito da política partidária, finda abespinhando alguém. Quando eu crescer, por exemplo, quero que a minha pena adquira determinadas qualidades.

Assim sendo, suponhamos que meu texto possuiria a suavidade e leveza de Odemirton Filho, que é o cronista mais cuca-fresca que vejo no Blog Carlos Santos. É o que estou dizendo. Odemirton escreve macio como algodão. O homem demonstra a fleuma, a mansuetude de um peixinho de aquário. Sou fã dele tanto quanto Natália Maia e Bernadete Lino.

Quem quiser, talvez por mera inveja, que diga que sou puxa-saco. Não me importa. Estou sendo tão somente franco e justo. Assim como devo aplausos à memória prodigiosa de nosso confrade Rocha Neto. Essa benquista figura (eis mais um puxão de orelha) está nos devendo um livro com suas reminiscências faz muito tempo. Não sei por que tanto protela. Falta de estímulo é que não é.

Ambiciono, no bom sentido, o fôlego e a inventividade de Clauder Arcanjo e Ayala Gurgel, dois escritores versáteis e fecundos. E o que dizer do causídico Bruno Ernesto? Ora! O rapaz é ilustrado, carrega no quengo uma rara ciência das coisas de antanho, fortuna histórica, amplo conhecimento relativo ao passado desta nossa capital do embuste. Coisa mesmo das priscas eras. É um cronista-historiador e vice-versa. Não menos me encanta a prosa cristalina e saborosamente erudita do meu xará Marcos Araújo. Como diria o saudoso cronista e filólogo José Nicodemos, sou-lhe macaca de auditório. Favor nenhum. O sujeito faz jus aos seus predicados.

Admiro, também, o verbo de Antonio Alvino da Silva Filho, pensador, filósofo contemporâneo e autor do livro de crônicas intitulado Contrapontos — Reflexões a partir da vida em rebanho, cujo prefácio tive a honra de escrever. Permitam-me alongar a lista de meus escribas diletos, a maior parte articulistas deste blogue. Isto porque não posso esquecer de maneira alguma do senhor delegado da Polícia Civil (homem de armas e de letras) Inácio Rodrigues, cuja escrita ficcional me encantou logo de cara. Esta não é a primeira vez que destaco o talento de Inácio.

Quando eu crescer, pois, quem sabe meu estro amarre as chuteiras dos beletristas ora citados. Neste universo das palavras, como ninguém é de ferro, almejo até uns vestígios, uns mínimos resquícios de um Graciliano Ramos e de um Machado de Assis. Exatamente nesta ordem. Além de mestres do gênero crônica como Otto Lara Resende e Rubem Braga. Mas, repito, só quando eu crescer.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 09/02/2025 - 10:20h

Depoimento – II

Por Ayala Gurgel

Arte criada com recursos de Inteligência Artificial – AI Meta – BCS

Arte criada com recursos de Inteligência Artificial – AI Meta – BCS

B.O: N° 02-7871/2019

NATUREZA: COMUNICADO DE AÇÃO CRIMINOSA OU SUSPEITA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 22 DE NOVEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: MARIA DO ROSÁRIO ANDRADE FREITAS

A senhorita Maria do Rosário Andrade Freitas, conhecida pela alcunha de Rose Mary, quarenta e dois anos, solteira, empregada doméstica e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia de polícia acompanhada de advogado, devidamente identificado, e solicitou ser ouvida pelo delegado responsável. A depoente narrou, diante de mim, escrivã de polícia, que trabalhou nos Estados Unidos por dez anos, onze meses e seis dias, sendo os últimos dez anos e cinco dias na mesma residência, que disse pertencer a um capelão do presídio do condado de Riverside, Califórnia, de onde partiu, após a morte dele. Que começou a trabalhar naquela residência um mês depois que seu patrão assumiu o posto de capelão e que ele lidava diretamente com os condenados que estavam no corredor da morte. Que era um homem respeitado, amado pela comunidade, levando uma vida cristã exemplar e participava de eventos de caridade. Deu como testemunho da boa fama dele o fato de que não apenas a igreja de Riverside o convidava para pregações e orientação de retiros, como também as igrejas de condados vizinhos. Não poucas vezes, disse a depoente, o capelão passava a semana fora, administrando retiros espirituais, e que, quando isso acontecia, ela ficava sozinha, na casa que pertenceu a ele, visto que confiava nela. Do ponto de vista físico, era bonito, alto, branco, asseado, com dentes ajeitados e voz calma e grossaboa de ouvir. Acrescentou que não sabe por qual razão um homem daquele porte não tinha se casado, e jurava, pela hóstia consagrada, que não era gay. Ao dizer isso, a depoente fez questão que constasse que ele vivia de forma celibatária e não havia nada que maculasse a honra dele como pastor e guia daquelas almas condenadas por crimes tão horrendos, a ponto de merecerem pena de morte. Que chegou à casa dele por meio de uma agência na qual ela trabalhou nos Estados Unidos e deveria ser um trabalho rotativo, como nas outras residências, mas ele exigiu mudança no contrato e ela ficou fixa, como doméstica. Que o trabalho do capelão junto aos condenados era o de levar conforto espiritual. Que mais de uma vez ele contou a ela sobre detalhes da missão, como fazia com cada um, sobre o que conversavam e como pedia que os condenados escrevessem cartas para Deus, nas quais deveriam confessar os crimes, e outras para as famílias das vítimas, declarando o arrependimento, ou, pelo menos, contando o que elas desejavam saber. Que o capelão lhe contava que as famílias, às vezes, queriam apenas saber onde estava o corpo, se a vítima tinha sofrido, quais foram as últimas palavras ou se o criminoso havia se arrependido do que fez. Que ele ouvia das famílias quais eram seus desejos e repassava aos condenados, com esperança de que lhes escrevessem ou dissessem algo que pudesse levar conforto aos enlutados. Que alguns condenados aceitavam escrever tais cartas, tanto aquelas endereçadas a Deus, confessando os crimes, tudo nos mínimos detalhes, tal como o capelão solicitava, quanto as endereçadas às famílias, de acordo com o que elas pediam. Que isso durou todo o tempo em que ele serviu no presídio. Em seguida, a depoente disse que a razão de estar na delegacia hoje, na presença de seu advogado, é que tem a intenção de devolver a quem de direito as cartas, que estão sob sua custódia desde que deixou a casa do falecido, dias depois da sua morte. Que foi ele mesmo que pediu em segredo para que ela não deixasse que as cartas viessem a público caso algo de ruim lhe acontecesse, e ela apenas cumpriu sua vontade, mas agora, passado o tempo que passou, se arrepende. Que não sabe exatamente como ele morreu, mas ouviu que foi infarto. De acordo com a depoente, ela ficou com as cartas e muitas memórias ruins do que viu naquela casa e não acha mais certo manter o segredo, de modo que decidiu confessar tudo à polícia e não pretende voltar aos Estados Unidos. Que hoje só consegue dormir à base de remédios e já pensou em se matar. Que as cartas endereçadas às famílias nunca foram entregues, embora o capelão tenha repassado uma ou outra informação aos interessados, dizendo tê-la obtido de ouvido. As cartas endereçadas a Deus, que ela chegou a ler algumas, são de perturbar qualquer alma cristã com tanto mal que há nos detalhes descritos. A depoente contou que o capelão ficava com as cartas para deleite próprio. Que lia e relia diversas vezes, enquanto tomava vinho. Que mais de uma vez presenciou ele cheirando o papel e se masturbando enquanto lia as cartas. Que, nessas horas, não era o mesmo homem que estava acostumada a ver como um amado pastor de almas, era outra pessoa, da qual tinha medo e não se atrevia sequer a lhe dirigir a palavra, menos ainda fazer qualquer comentário sobre o que viu. Que foi ele mesmo que chegou junto a ela e explicou o que fazia: aquelas cartas eram a única forma de obter prazer na vida. Era por meio delas que ele se sentia vivo, como se os crimes tivessem sido cometidos por ele, com a diferença de que não era ele que estava no corredor da morte. Que ele acompanhava a vida de cada um daqueles infelizes como se fosse a sua, se imaginando no lugar deles em cada cena do crime, cada gesto, cada sentimento. Tão logo o condenado era executado, procurava outro, para reviver tudo de novo. A depoente também disse que nunca falou com ninguém sobre o assunto com medo de colocar a própria vida em risco. Que ele não dizia nada, mas ela se sentia ameaçada pelo jeito que contava seus segredos. Que até hoje tem medo que ele possa perturbá-la, nos sonhos ou como alma penada. Que vai à missa todos os domingos e ao psiquiatra a cada três meses com a intenção de sair dessa situação e ter uma vida normal. Que ouviu o conselho do advogado e por isso veio entregar tudo o que tem e dizer tudo o que sabe. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).

Leia também: Depoimento (02/02/2025)

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance / Crônica
  • Repet
domingo - 09/02/2025 - 09:30h

Os roubos de Shakespeare

Por Marcelo Alves

Arte criada com recursos de Inteligência Artificial - AI Meta - BCS

Arte criada com recursos de Inteligência Artificial – AI Meta – BCS

Estes dias, xeretando a Internet, dei de cara com um verbete da enciclopédia “Britannica”, intitulado “Fontes de Shakespeare”, que interessantemente afirma:

“Com algumas exceções, Shakespeare não inventou os enredos de suas peças. Às vezes, ele usava histórias antigas (Hamlet, Péricles). Às vezes, ele trabalhava a partir de histórias de escritores italianos relativamente recentes, como Giovanni Boccaccio — usando histórias bem conhecidas (Romeu e Julieta, Muito Barulho por Nada) e outras pouco conhecidas (Otelo). Ele usou as ficções em prosa populares de seus contemporâneos em Como Gostais e Conto de Inverno. Ao escrever suas peças históricas, ele se baseou amplamente em tradução de Sir Thomas North de Plutarco, Lives of the Noble Grecians and Romans, para as peças romanas, e nas crônicas de Edward Hall e Holinshed para as peças baseadas na história inglesa. Algumas peças lidam com história bastante remota e lendária (Rei Lear, Cimbelino, Macbeth). Dramaturgos anteriores ocasionalmente usaram o mesmo material (houve, por exemplo, as peças anteriores chamadas The Famous Victories of Henry the Fifth e King Leir). Mas, como muitas peças da época de Shakespeare foram perdidas, é impossível ter certeza da relação entre uma peça anterior perdida e a sobrevivente de Shakespeare: no caso de Hamlet, foi plausivelmente argumentado que uma ‘peça antiga’, conhecida por ter existido, era meramente uma versão inicial da própria peça de Shakespeare”.

Aliás, o fato de William Shakespeare (1564-1616) ter, digamos, as suas “fontes” já era algo sabido e falado à sua época, como atestam documentos contemporâneos referidos no curioso verbete.

Bom, teria então sido o grande Shakespeare um “plagiador”?

O que se sabe, com segurança, acerca da vida de Shakespeare, é muito pouco. Até a sua própria existência, embora isso seja um evidente exagero, é às vezes contestada, com várias teorias conspiratórias sendo sugeridas. Quem sabe algum dia não falaremos sobre elas? Certamente, em Shakespeare, há mais mistérios do que ousa imaginar nossa vã filosofia.

Mas, de logo, afirmo: o Bardo não era um plagiador.

Ao contrário. Ben Jonson (1572-1637), contemporâneo de Shakespeare e durante certo tempo até mais aclamado que ele, considerava Shakespeare um escritor premiado pela natureza com o dom da genialidade. Dizer, sim, que Shakespeare foi um gênio e que ele representa o que de mais sublime há na língua inglesa ou mesmo na natureza humana é afirmar uma verdade hoje quase “científica”.

E, se Shakespeare é considerado um gênio natural, autodidata, isso se deve, em grande medida, à sua capacidade de rapidamente extrair maravilhas das suas fontes, reformulando-as, em tragédias e comédias, quase ao ponto da perfeição. É dito que “Shakespeare provavelmente estava muito ocupado para estudos prolongados. Ele tinha que ler os livros que podia, quando precisava”. Mas há também evidências de que ele, quando necessário, lia acuradamente os clássicos gregos, para fins de elaboração de cada uma de suas peças, assim como as reescrevia e revisava frequentemente.

Na verdade, o escritor de gênio deve ter suas boas fontes. Deve saber das muitas ideias e compreendê-las. Deve interpretar esse seu mundo junto a outros universos e épocas. Deve sobretudo descobrir e dizer o ainda não dito a partir daquilo que já foi dito.

O genial Mark Twain (1835-1910) certa vez disse: “Não existe uma nova ideia. É impossível. Nós simplesmente pegamos um monte de ideias antigas e, então, as colocamos em um tipo de caleidoscópio mental”. E assegurava Picasso (1881-1973): “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam”.

Pois então Shakespeare era o gênio que tinha o dom de roubar/transformar o que já era muito em muito mais do que muito.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 09/02/2025 - 08:40h

Justo

Por Bruno Ernesto

Chico Anísio e seu personagem Justo Veríssimo (Reprodução do Diário Popular-MG)

Chico Anísio e seu personagem Justo Veríssimo (Reprodução do Diário Popular-MG)

É muito difícil encontrar alguém que não goste de um bom humor.

Particularmente, sendo bom, não dispenso uma boa piada, especialmente as sarcásticas e de humor ácido.

A despeito da inteligência artificial estar no ápice das discussões em todos os seguimentos, em especial na produção intelectual e científica, que são as áreas formadoras da sociedade moderna, o que mais preocupa o cidadão comum é se, num futuro muito próximo, o que Karl Marx denominou de classe trabalhadora, ou seja, aqueles que vendem a sua força de trabalho em troca de uma contraprestação para sobreviver, terão seu emprego ou atividade econômica garantidos quando a inteligência artificial se estabelecer como ferramenta autônoma.

Estamos vivendo uma nova corrida espacial, tal qual se deu na década de 1960, quando os Estados Unidos e a União Soviética, travavam uma guerra tecnológica para enviar o homem ao espaço e estabelecer novas fronteiras.

Muitas tecnologias desenvolvidas durante a corrida espacial hoje são utilizadas pelo cidadão comum sem nem mesmo supor a sua origem, e que trouxeram avanços práticos como, por exemplo, o revestimento teflon, que impede que o ovo grude na panela ao ser preparado no café da manhã, ou o GPS que você usa no carro.

Claro que ao falarmos de uma tecnologia tão mais complexa e tão mais impactante para economia de um modo geral, pois é possível que impacte sobremaneira o mercado de trabalho, penso que a inteligência artificial, inevitavelmente, terá o mesmo desfecho.

Entretanto, segundo dizem os especialistas, há dois aspectos cuja inteligência artificial encontra óbice: os sentimentos e a criatividade.

Embora possa ser treinada para ter emoções, o que a inteligência artificial faz é, basicamente, pensamento analítico, o que fará com que o conhecimento seja transformando numa commodity como é o café, arroz, soja ou ferro.

Não por onde, o recente lançamento da inteligência artificial chinesa DeepSeek – que tem o código aberto e foi desenvolvida por uma fração do preço da norte-america ChatGPT – causou, num só dia, um prejuízo de um trilhão de dólares nas empresas de tecnologia norte-americanas, dando um recado claro que o futuro da economia global está indiscutivelmente atrelado à inteligência artificial.

Bem, pelo menos nesse primeiro momento quem suportou o prejuízo foram as empresas e não o trabalhador, para a alegria dos marxistas.

A despeito da piada e do humor ácido, lembro muito bem de um episódio em que o brilhante Chico Anysio interpretava o personagem Justo Veríssimo, um deputado sem meias palavras ou subterfúgios quando o assunto era ter vantagem, e que tinha horror aos pobres e trabalhadores.

Na ocasião, durante uma reunião em que se debatiam as novas perspectivas de emprego, o deputado Justo Veríssimo disse que o futuro era dos robôs.

O interlocutor, apreensivo, retrucou dizendo que as pessoas iriam perder os empregos para os robôs e o deputado, de imediato, retrucou dizendo que era melhor ter robô mesmo trabalhando, pois robô não faz greve, não recebe salário, não precisa de descanso, nem namora a filha do patrão.

Nada mais justo.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Blog
  • Repet
domingo - 09/02/2025 - 07:22h

Sino da vitória

Por Odemirton Filho

Paciente agradece a cura, após tocar sino (Foto: Arquivo do Primeira Página)

Paciente agradece a cura, após tocar sino (Foto: Arquivo do Primeira Página)

Na semana passada, assisti a uma reportagem bastante emocionante, que tocam o nosso coração e a nossa alma. Em um hospital para tratamento de câncer em Cuiabá, salvo engano, ao final do tratamento os pacientes batem um sino, comemorando a remissão.

O ato é de um simbolismo sem igual. Comemora-se a vitória, após um longo e doloroso tratamento. Quem já padeceu desse mal ou acompanhou o sofrimento de uma pessoa querida, sabe o quão é importante agradecer e festejar a recuperação.

Muitas são as batalhas da vida, as quais travamos diuturnamente. Enfrentamos lutas de todos os tipos, num embate sem trégua pela nossa sobrevivência. Cada um de nós tem a sua labuta individual, uns mais, outros menos.

E vencer uma batalha, por vezes desigual, é motivo de regozijo. Quantas pessoas não estão a padecer nos leitos de hospitais ou de suas casas? Muitos venceram, muitos perderam. A ciência, infelizmente, ainda não conseguiu descobrir a cura para o câncer. Há, sem dúvida, investimentos de bilhões em pesquisas, mas, até o momento, não se conseguiu a cura para todos os tipos, embora existam tratamentos.

Entendo as famílias que passam por esse momento delicado da vida, pois há mais de vinte anos perdi um sobrinho quando ele ainda era criança. A nossa família sofreu demasiadamente, foi um dor sem igual, até hoje sentimos o gosto amargo da saudade. Ao ver a vitória de pessoas que lutam contra esse mal, fiquei imensamente feliz.

Certa vez, John Donne (1572 – 1631), um dos maiores poetas da língua inglesa, escreveu:

“Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntai: Por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”.

Aliás, foi inspirado nesse texto, que Ernest Hemingway, escritor norte-americano, escreveu um dos seus mais famosos romances. Que muitas pessoas possam continuar batendo o sino da vitória. Afinal, a vitória de um é a vitória de todos.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 09/02/2025 - 05:52h

Traquinices de Juju

Por Marcos Ferreira

Juju entretida com um de seus brinquedinhos  (Foto do autor da crônica)

Juju entretida com um de seus brinquedinhos (Foto do autor da crônica)

Nasceu no dia 24 de novembro. Há dois meses e quinze dias, portanto. Sabemos precisamente a data porque foi justo no aniversário de Andrea, esposa de meu amigo Marquinhos Rebouças. A mãe de Juju deu à luz nove rebentos, entre os quais adotei essa feroz devoradora de ração. É cheia de inocência, de amor, de pureza, no entanto adora mordiscar os meus calcanhares e os de Natália.

Fui orientado a presenteá-la com alguns brinquedinhos de borracha. Fiz isso, adquiri três brinquedos de cores e formatos diversos e ela gostou bastante, de maneira que os meus tornozelos quase não são lembrados. Juju é uma autêntica vira-lata, característica que me agrada. Já adotei, além de Juju, três gatinhas de rua, pequeninas e sem amparo nenhum, obviamente. Cuidei das felinas, levei-as a veterinários, que ministraram medicamentos e realizaram as castrações quando as bichanas atingiram a idade apropriada. Asseguro que essas companhias só me fazem bem.

Com tantas criaturinhas por aí necessitando de acolhimento, de um lar, de água e comida, não vou a lojas do ramo comprar um gatinho ou um cachorrinho. Não critico de forma alguma quem paga por um pet de raça, com pedigree, como se diz. Pois também receberão amor, cuidados, zelo. Acredito que São Francisco de Assis, o santo protetor dos animais, deve ficar feliz do mesmo jeito.

Juju é tipo uma criança. Tem as suas traquinices, os seus comportamentos que geram um certo caos doméstico. É preciso retirar das suas vistas uma variedade de objetos, a exemplo de tênis e chinelos. Como durmo de rede na sala, onde gosto de assistir a filmes e séries, tinha por hábito pôr uma cadeira perto da rede para colocar o telefone, o controle da tevê e meus óculos. Quando o sono batia, simplesmente desligava a televisão e capotava. Até que uma noite eu me dei mal.

Acordei por volta das oito da manhã. Ao procurar as sandálias, tinham sumido. O mesmo aconteceu com os óculos e o celular. Fiquei logo aflito, sobretudo, pelo desaparecimento dos óculos novinhos, substituídos no mês passado. Juju despertara mais cedo, claro. Encontrei o celular junto da porta da frente, separado da capinha de proteção. Senti uma dor na alma quando vi os óculos diante da geladeira. Os vidros ficaram em contato direto com o piso grosso, ainda sem cerâmica. Não teve escapatória. As duas lentes estão repletas de arranhões profundos. Um prejuízo! Os chinelos, estes completamente intactos, ela carregara para debaixo da escrivaninha.

O celular também ficou um pouquinho arranhado. Apesar disso tudo, Juju continua dormindo dentro de casa, em uma caminha fofa, quadrada, com bordas altas e acolchoadas. Algumas vezes, entretanto, ela adormece sob minha rede. Além disso, inocente que é, uma hora ou outra a danada faz as suas “necessidades” em qualquer lugar da casa. Ao menos o cocô é durinho e fácil de limpar.

Quanto à urina, restrita à sala e a cozinha, já que agora mantenho o quarto e o banheiro com as portas fechadas, eu resolvo com água sanitária e um limpador perfumado. Escrevo esta crônica com os arranhões das lentes atrapalhando o serviço. No mais aprendi a lição. Não marco mais bobeira. Juju não perdoa. Quando meu orçamento permitir, trocarei novamente os vidros dos óculos.

Sendo ainda uma filhota, nutro a expectativa de que adquira bons modos no tocante às referidas peraltices e aos inconvenientes fisiológicos. Descobrirá o quintal como lugar adequado para suas dejeções e micções. Porque nosso bem querer se mostra mais firme e forte à medida que Juju vai crescendo.

Marcos Ferreira é escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 02/02/2025 - 09:26h

Depoimento

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

B.O: N° 01-7871/2019

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 15 DE NOVEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: PAULO FERREIRA DE SOUZA

O senhor Paulo Ferreira de Souza, trinta e cinco anos, comerciante, técnico em contabilidade, viúvo e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia, em data e hora previamente agendadas, em companhia do seu advogado, tendo sido ambos identificados na forma da lei, e narrou perante mim, escrivã de polícia, que se encontra profundamente abalado com o ocorrido e sob efeito medicamentoso, de modo a apresentar pedido prévio de desculpas por explosões emocionais. O advogado do depoente pediu a palavra e destacou que, não fosse de extrema urgência o depoimento do seu cliente no presente momento, preferia voltar outro dia, quando este se encontrasse menos abalado, o que não foi aconselhado pelo delegado encarregado, para o próprio sucesso da investigação. Sobre o fato ocorrido, o depoente declarou ter conhecimento do medo que a vítima, sua esposa há cinco anos, tinha de cobra, afirmando não conhecer outra pessoa com tanto medo, razão pela qual sempre evitou brincadeiras envolvendo essa espécie peçonhenta. Que no dia do ocorrido havia três pessoas dentro do carro, de propriedade do casal e sob seu comando – o depoente, a esposa e uma prima dela, de nome Rosanir Ferreira Alencar – e que se encontravam na estrada carroçável que dá acesso à granja da família da esposa quando a senhora Rosanir passou o seu celular à vítima, com o vídeo de um gato mexendo num cesto de vime, algo que o depoente descreveu como “fofo” e passou cópia a esta delegacia. O vídeo, de acordo com o depoente, deve ter sido feito por alguém que ele não sabe afirmar quem, e se encontra disponível em vários sites, sendo amplamente compartilhado nas redes sociais, de onde provavelmente a senhora Rosanir o recebeu. Que o referido vídeo é feito de tal forma a prender a atenção do espectador, que se empolga com a brincadeira do gato com o cesto, ao som de música infantil, mas termina com uma cobra saindo do cesto e dando o bote em direção à câmera, ao som de um grito de filme de terror. Que o vídeo é uma pegadinha de mau gosto e até mesmo as pessoas que não têm medo de cobra costumam se assustar. Que não sabia do que se tratava quando a senhora Rosanir passou o celular à esposa, sua atenção estava focada na estrada, visto que havia chovido na noite anterior e o terreno se encontrava escorregadio. Que, se soubesse, nunca teria permitido. Que, no momento em que a esposa tomou o susto, jogou fora o celular, que caiu em algum lugar dentro do carro, e se agarrou a ele, puxando o volante e fazendo-o perder o controle, de modo que o carro veio a sair da estrada e capotar. Que tudo foi muito rápido, não teve como reagir e não viu nada. Que não sabe em que momento a vítima foi arremessada do carro ou quanto tempo durou a capotagem, apenas que foi muito rápido e quando se deu conta, estava de cabeça para baixo, preso pelo cinto, e viu ao longe o corpo da esposa, jogado no chão, próximo a uma moita de capim. [O depoimento, a pedido do advogado do depoente, precisou ser interrompido por alguns minutos para que o seu cliente pudesse ser assistido, uma vez que começou a apresentar dificuldades para respirar e crise de choro. Recomposto, o depoente continuou, perante mim, a narrativa da sua versão dos fatos]. Disse que a cena que viu e se encontra registrada na sua memória o apavora todos os dias. Que não consegue tirar da cabeça a imagem da esposa jogada no chão, suja de lama, com a cabeça inclinada em sua direção, a boca aberta e os olhos esbugalhados, como se gritasse por socorro ou de dor. Que, ao deitar todas as noites, costuma vê-la, ao seu lado, com a mesma expressão facial daquele dia. Que se não fosse a medicação que vem tomando regularmente, não conseguiria dormir ou ter algum momento de paz. Que pede a Deus todos os dias que apague tudo isso, que seja só um pesadelo e que se acorde, para descobrir que nada daquilo aconteceu. Disse que esse tipo de vídeo não deveria existir, que deveria ser proibido por lei fazer esse tipo de coisa, que o vídeo foi o responsável por tudo isso. Mesmo sem ser perguntado, confessou guardar rancor da senhora Rosanir, bem como de quem faz e compartilha esse tipo de vídeo. Não soube informar se, no momento do acidente, a vítima estava ou não com o cinto de segurança. Por fim, o depoente disse que não sabia e se mostrou bastante surpreso ao tomar conhecimento de que a causa da morte da vítima tinha sido não em virtude do acidente, com o pescoço quebrado, como ele supunha, mas de uma picada de cobra. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).

Compartilhe:
Categoria(s): Conto/Romance / Crônica
domingo - 02/02/2025 - 08:38h

Odoyá!

Por Bruno Ernesto

Estátua de Iemanjá da Praia do Forte, Natal/RN (Foto: Jorge Andrade, 14/11/2010)

Estátua de Iemanjá da Praia do Forte, Natal/RN (Foto: Jorge Andrade, 14/11/2010)

No dia 2 de fevereiro comemoramos o dia de Iemanjá, a rainha do mar, e, talvez, o orixá do candomblé que mais contribui para o sincretismo religioso no Brasil.

No catolicismo, é Nossa Senhora dos Navegantes ou Nossa Senhora da Conceição. Na língua Iorubá significa mãe dos peixes. Protege os pescadores, favorece o amor e representa o amor materno.

A primeira vez que pus os olhos numa estátua de Iemanjá foi na companhia dos meus pais em Natal.

Quando criança, nas férias, meus pais me levavam para tomar banho de mar na praia do meio em Natal, nas proximidades da estátua de Iemanjá, e como gostava de pescar, já naquela época, levava minha vara de bambu com linha e anzol para pescar no recife da praia do meio.

Lembro que, ao passar por ela, rumando para as proximidades do forte dos Reis Magos, ficava curioso com aquela estátua gigantesca de uma mulher com cabelos longos, pretos, vestido azul com detalhes brancos nos punhos e na gola, uma tiara com uma grande estrela prateada, de braços abertos e de mãos espalmadas, na iminência de falar algo, e olhar penetrante.

Para mim, naquele tempo, não significava algo além de uma grande estátua. Entretanto, não sei por qual motivo, tinha uma admiração e até certo respeito por ela. Talvez achasse que era uma santa. Algumas vezes havia flores aos seus pés.

Passava a manhã inteira na praia tomando banho, brincando com meus irmãos, além de, é claro, pescar, e, vez ou outra, olhava Iemanjá de longe. Aquele vestido azul dela sempre se misturava com o azul do mar ou com o azul do céu.

Anos depois, foi que me dei conta de que já praticava o sincretismo religioso sem nem saber o que era. Apenas sentia, como muitas pessoas hoje também o fazem com Iemanjá ao jogar flores e oferendas em seu dia.

Talvez, quem sabe, até tenha sido salvo por ela de um afogamento naquela mesma praia quando, ao final de mais uma pescaria, descendo do recife junto com minha irmã, já com a maré cheia, caímos no num canal de retorno chamado Poço do Dentão.

Por mais que nadássemos, não conseguíamos sair da água. Já perdendo o fôlego, eu e minha irmã, fomos agarrados pelas mãos por um homem, que para nós, surgiu do nada e nos tirou do mar para alívio dos meus pais. E, depois, muita bronca de minha mãe. Meu pai, como sempre, estava calmo. Hoje penso que só aparentava estar calmo.

Apesar do episódio, voltamos inúmeras vezes à praia do meio e naquele mesmo local e eu continuei a admirar Iemanjá.

Uma coisa é certa: naquele dia, minha mãe foi a verdadeira Iemanjá, pois percebi, depois, que foi ela quem alertou e buscou socorro para nós. Ela foi nossa Iemanjá, protegendo aquele pequeno pescador e representado o verdadeiro amor materno.

Hoje até brinco com aquele episódio, dizendo que Iemanjá não me levou pois refugou a oferenda. Ainda bem! Odoyá!

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 02/02/2025 - 07:28h

Das vantagens de ser bobo

Por Clarice Lispector

Arte ilustrativa da página doce limão

Arte ilustrativa da página doce limão

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado, quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.

Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.

O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.

Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.

Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

É quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector (1920-1977) – foi escritora e jornalista

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 02/02/2025 - 05:38h

O crítico

Por Marcelo Alves

Karl Raimund Popper (Foto: Web)

Karl Raimund Popper (Foto: Web)

Karl Popper (1902-1994) é provavelmente o maior vulto da filosofia da ciência e um dos grandes nomes da filosofia dita liberal. Nascido em Viena, à época uma das capitais do Império Austro-Húngaro, sua família era culta e politizada. Sofreu deveras com a debacle do seu país na Primeira Grande Guerra. Na Universidade de Viena, envolveu-se com o marxismo e o Partido Comunista austríaco. Decepcionado com a morte de jovens companheiros, refutou e rompeu com essa ideologia. Fez-se professor.

Doutorou-se em filosofia em 1928. Com o nazismo, em 1937, deixou a Áustria rumo à Nova Zelândia. Passada a Segunda Grande Guerra, em 1946, foi viver no Reino Unido, para ensinar na London School of Economics. Como filósofo da ciência, sua obra mais importante talvez seja “A lógica da pesquisa científica” (1934), em que expõe o seu “princípio da falseabilidade”. E junto a Ludwig von Mises, Friedrich Hayek e Milton Friedman, entre outros, Popper foi um dos grandes defensores do liberalismo clássico.

É de Popper uma das mais conhecidas e belas assertivas sobre a democracia, a liberdade e a tolerância. Basicamente, em seu livro “A sociedade aberta e seus inimigos” (1945), no que ficou conhecido como o paradoxo da tolerância, ele defendeu que, em ultima ratio, a intolerância não deve ser tolerada, uma vez que, se a tolerância permitir que a intolerância triunfe numa sociedade que não consegue se defender contra o ataque dos intolerantes, a própria tolerância seria destruída. Uma filosofia intolerante – que pregue, por exemplo, a incitação ao assassinato de governantes, o racismo, a eugenia ou a ruptura com o Estado Democrático de Direito – deve ser considerada ilegal e combatida até criminalmente. Reflitamos…

Mas é de outra sacada política e especialmente de outro livro de Popper, a sua “Autobiografia intelectual” (em publicação das Editoras Cultrix e da Universidade de São Paulo, 1977, que ando lendo), que gostaria de falar. Uma autobiografia que focaliza sobretudo as ideias do autor. “Um estudo pessoal da evolução das ideias popperianas e do ambiente intelectual onde se desenvolveram”, um ambiente onde “desfilam vultos como Carnap, Einstein, Godel, Polanyi, Russel, Schrödinger, Tarski, Wittgenstein, Woodger e outros de igual eminência”, com os quais Popper muito debateu, aprendeu e inspirou.

Na sua “Autobiografia”, Popper anota que foi criado em ambiente indiscutivelmente livresco: “Meu pai (…) tinha uma grande biblioteca e havia em casa livros por toda parte. (…) Assim, os livros fizeram parte de minha vida muito antes que eu pudesse lê-los”. E, para o grande filósofo da ciência: “Aprender a ler e, em menor grau, a escrever são, naturalmente, os acontecimentos mais significativos no desenvolvimento intelectual de uma pessoa”.

Como que antecipando a lição da menina filósofa Mafalda, para quem “viver sem ler é perigoso; te obriga a crer no que te dizem” – embora ele atribua isso não só à leitura, já que outros fatores, em especial a Primeira Grande Guerra, os anos de conflito e suas consequências, também entrariam na conta –, o fato é que Popper, desde jovem, tornou-se “um crítico das opiniões correntes, especialmente das políticas”. Agradeçamos…

Na Europa de então, havia a utopia do comunismo/marxismo, “um credo que promete a concretização de um mundo melhor. Diz-se basear-se em conhecimento: conhecimento das leis do desenvolvimento histórico”. Mas a própria história, ao submeter o marxismo à prova, anota Popper, refutou-o como pseudociência. Doutra banda, “por aquela época, poucas pessoas sabiam o que a guerra significava. Corria por todo o país um ensurdecedor brado de patriotismo, pelo qual até mesmo alguns membros do nosso grupo, anteriormente alheio às provocações de guerra, foram envolvidos”. E não muitos anos depois veio o degenerado cabo Hitler.

O problema estava – como de resto quase sempre está – nos extremos. O anticomunismo da época de Popper – assim como o atual anticomunismo tupiniquim, de baixíssimo nível e com complexo de vira-lata – se mostrava bem parecido, nas suas práticas e simbologias, com os movimentos autoritários que Popper denunciou como fascistas. E estes, sabemos, eram ontem – e são hoje – piores do que tudo!

Parodiando o criticado Marx, é de se indagar: a história agora se repete como tragédia ou como farsa? Leiamos e pensemos. Sejamos críticos…

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 02/02/2025 - 03:30h

Quando fevereiro chegar

Por Odemirton Filho

Ilustração

Ilustração

Um dia desses um amigo me disse: “rapaz, quando você escreve sobre Tibau das antigas, me dá uma vontade danada de chorar”. Eu respondi que um dos meus objetivos era escrever sobre coisas que nos faziam bem, como lembranças, saudades e sentimentos.

Aliás, lembro-me dos ensinamentos do saudoso Inácio Augusto de Almeida que me dizia: “escreva com sentimentos, tente passar emoção ao leitor”. No mesmo pensar, o dileto editor deste Blog gosta de ressaltar que a leitura aos domingos deve ser leve.

E é o que tento fazer quando resgato do baú da memória lembranças de Mossoró e Tibau. Não com melancolia, mas com o propósito de fazer com que o leitor navegue por tempos idos.

Noutro dia, num supermercado, outro amigo me falou: “gosto de ler suas crônicas, pois remetem aos bons tempos”. E me contou histórias de tempos passados, as quais algumas também vivenciei; qualquer domingo desses, eu compartilho com o leitor.

Confesso que fiquei feliz, uma vez que já bastam os problemas cotidianos, as notícias sobre corrupção, o radicalismo político-partidário e a toxicidade das redes sociais. É claro que precisamos enfrentar a vida com pragmatismo, vivendo o presente, não do passado, nem no futuro. Contudo, aqui ou acolá, uma pitada de boas lembranças faz um bem danado.

Como sabemos, “todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação”. Assim, continuemos nessa jornada de encontros e despedidas, afinal, não sabemos quando será o último adeus.

Certa vez, o cronista Fernando Sabino escreveu sobre o tempo pretérito. Segundo ele, um tempo em que as areias das praias eram mais claras. Em que as letras impressas eram maiores. Em que as ladeiras eram mais suaves. Em que as distâncias eram mais curtas. Em que os dias eram mais longos. Em que o amor era mais puro. Em que a mocidade era eterna”.

É a mais cristalina verdade. Quando estamos na flor da idade, a vida parece ser eterna, apesar do entardecer dos nossos dias chegar tão depressa.

E fevereiro chegou.

Vamos à luta, já que “saudade já não mata a gente”. Nessa breve caminhada pela vida, “a gente ri, a gente chora…

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 26/01/2025 - 07:28h

O intelectual

Por Marcelo Alves

Bertrand Russell (Foto da Getty Images)

Bertrand Russell (Foto da Getty Images)

Ainda durante o verão estou lendo “As ideias de Bertrand Russell” (Editoras Cultrix e da Universidade de São Paulo, 1974), livro de autoria do também filósofo A. J. Ayer (1910-1989).

Conheci Bertrand Russell (1872-1970), o 3º Conde Russell, aristocrata, matemático, lógico, filósofo, historiador, professor, popularizador da ciência/filosofia, escritor Prêmio Nobel de Literatura, liberal múltiplas vezes casado, ativista, pacifista e muitas coisas mais, quando, há muitos anos, encantado, li sua “História da filosofia ocidental” (1945) e sua “História do pensamento ocidental” (1959). Revisitei esses livros algumas vezes na vida. Eles consagram o dito: “Um livro que não merece ser relido não merece ser lido”.

Tenho Russell como um perfeito exemplo do que Horácio Gonzalez (1944-2021), em “O que são intelectuais” (Editora Brasiliense, 1981), chama de “intelectual cosmopolita”, uma vez que ele concebia “a vida cultural como uma forma de comunicação acima das particularidades nacionais, regionais e locais”. Acreditando que o objetivo da prática intelectual é o aperfeiçoamento tanto do patrimônio cultural como social da humanidade, ele era também um “intelectual iluminista”, já que buscava trasladar, para todos os cantos do mundo, uma “cultura” que achava a melhor. Era deveras engajado. E, por fim, embora sofrendo a crítica dos puristas, para nosso deleite ele soube fazer ciência/filosofia e escrever deliciosamente para os leigos.

Muitas vezes perseguido, impedido de lecionar, proibido de viajar e preso, tudo em razão das suas ideias, Russell passou por alguns perrengues na vida. Em boa medida, a “História da filosofia ocidental” foi o que os ingleses chamam de “turning point” na sua vida, já que, financeiramente um sucesso, livrou o autor, daí em diante, de problemas com dinheiro. E foi sobretudo na virada dos anos 1940 para os 1950 que as atividades de Russel ganharam vulto.

Foi merecedor de “favores oficiais”, como a Ordem do Mérito e a eleição para várias sociedades britânicas. Em 1950, veio o Prêmio Nobel de Literatura. As publicações não pararam. Junto com Albert Einstein (1879-1955) e outros grandes cientistas, militou em favor da cooperação pacífica e do desarmamento nuclear.

Como anota Ayer, Russell “correspondia-se com chefes de Estado e interveio tanto na crise cubana de 1962 como no incidente sino-indiano, provocado por questão de fronteiras. Defendeu a causa dos judeus na Rússia, dos árabes em Israel e dos prisioneiros políticos na Alemanha Oriental e na Grécia”. Criou até um “Tribunal Internacional de Crimes de Guerra”, do que qual Jean Paul Sartre (1905-1980) foi o integrante mais badalado. E por aí vai.

Como lembra o “biógrafo intelectual” Ayer, Russel “é figura singular entre os filósofos de nosso século, por haver combinado o estudo de problemas especializados não apenas com o interesse pelas ciências naturais e sociais, mas também com a dedicação a questões de educação, tanto primária como superior, e, ainda, com ativa participação em política. A celebridade internacional, de que gozou no fim da vida, teve, sem dúvida, por principal motivo, sua atividade política e a ação de pregador de ideias morais e sociais; contudo, o lugar que venha ocupar na história, ele o deverá a sua obra filosófica e, especialmente, à que produziu na juventude e nos primeiros anos de maturidade. (…). Em verdade, com a possível exceção de seu discípulo Ludwig Wittgenstein, não há filósofo de nosso tempo que tanto tenha inovado, não somente no que respeita ao tratamento de particulares problemas filosóficos, mas ainda no que concerne à colocação global da matéria”.

De toda sorte, impossibilitado de “entender” os seus “Principia Mathematica” – que,  publicados de 1910 a 1913 em coautoria com Alfred North Whitehead (1861-1947), muito provavelmente são sua obra-prima –, homenageio aqui as “Histórias” da filosofia e do pensamento de Bertrand Russell. Confesso que elas são em grande medida responsáveis pela minha paixão pela história das ciências e das artes e, em especial, do direito.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 26/01/2025 - 05:30h

Entre céu e mar

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa da Meta AI do BCS

Arte ilustrativa da Meta AI do BCS

Amyr Klink é um navegador brasileiro e escritor. Foi pioneiro na travessia, a remo, do Atlântico Sul, em 1984. No livro que narra a sua saga (Cem dias entre céu e mar), Amyr mostrou-se resiliente para alcançar os seus objetivos. Enfrentando mares revoltos, sozinho dia e noite, com a companhia de baleias e tubarões, ele soube vencer os desafios.

“Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer”.

Querer. Talvez, seja a palavra-chave. O desejo de vencer um obstáculo, a força motriz que nos faz alçar voos. Muitas vezes, ficamos amuados, desiludidos com os problemas da vida. E são muitos. Quem não pensou em “chutar o balde”? Às vezes, parece que nada dá certo.

Entretanto, é preciso paciência. Persistência. Querer. Conheço muitas pessoas que reclamam da vida. Porém, nada fazem para sair do lugar que se encontram. Não há vitória sem luta, como dizem por aí.

Vou dar um exemplo: tive muitos alunos e alunas que sonhavam em ser aprovados em um concurso público. Contudo, quando não conseguiam ser aprovados na segunda ou terceira tentativa, desistiam. Faltou o querer. Concurso se faz até ser aprovado, não importa quantas vezes, se realmente é isso que se quer. Essa persistência serve para tudo que se almeja na vida.

E mais: quantos empreendedores não fracassaram? Aqui em nossa cidade, empresários já foram à bancarrota, mas conseguiram se reerguer. Somos forjados na labuta diária, no sol a pino que aquece nossa cabeça e alma.

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”; “o brasileiro não desiste nunca”. Mais do que frases de efeito, são verdades. O brasileiro enfrenta uma luta renhida para sobreviver, sobretudo num país marcado pela desigualdade social e corrupção.

E assim, solitário no meio do oceano, por vezes sentindo um frio de rachar, Amyr Klink pensava no percurso a ser vencido; nas inúmeras remadas para concluir o trajeto. Todavia, continuou descortinando o horizonte à sua frente.

“O horizonte, linha perfeita e segura, fronteira do destino que se renova eternamente e que abriga nossos objetivos, passou a ser meu ponto de apoio e companheiro de viagem”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 26/01/2025 - 03:44h

Ponta Negra

Por Bruno Ernesto

Embarcação holandesa em escala. Exposição Rijksmuseum (Foto do autor da crônica)

Embarcação holandesa em escala. Exposição Rijksmuseum (Foto do autor da crônica)

Certamente você já deve ter chegado a algum lugar e pensado o que de interessante ocorreu ali num passado remoto. Pelo menos eu sempre tive essa curiosidade.

Também já deve ter lido e escutado inúmeras vezes que conhecer o passado é abrir as portas para o futuro ou mesmo não repeti-lo, quando ruim.

Embora seja uma colocação um tanto filosófica para muitos, é importante que conheçamos, na medida do possível, nossa história local.

No meu caso, umas das maiores surpresas que tive quando comecei a me interessar pela história do Rio Grande do Norte em seu período colonial, foi saber que muitos dos lugares que me são familiares desde que me entendo por gente, foram palcos de muitos acontecimentos importantes não só para a história local, mas também para história mundial, e que hoje, infelizmente, são desconhecidos por muita gente.

No meu caso, com a recente conclusão da engorda da praia de Ponta Negra, lembrei-me de um dos episódios mais interessantes que aconteceu no Rio Grande do Norte.

Foi lá que muitos navios franceses aportaram para contrabandear o pau Brasil no século XVI. Ali, praticamente ao pé do famoso Morro do Careca.

Entretanto, foram os holandeses que fincaram os pés na história do Rio Grande do Norte, embora pouco se fale.

Hoje, ao que parece, os holandeses são lembrados no Rio Grande do Norte apenas pelo episódio denominado massacre de Cunhaú e Uruaçu, ocorridos em 16 de julho e 3 de outubro de 1645, transformado em feriado estadual, celebrado todo dia 3 de outubro, em homenagem aos mártires, que foram canonizados em 15 de outubro de 2017, pelo papa Francisco.

Em outra oportunidade (veja AQUI), escrevi sobre a presença e o papel dos holandeses na indústria salineira de Mossoró que, até hoje, tem muita relevância na economia do estado do Rio Grande do Norte e, infelizmente, pouco se fala sobre.

Foi lá na praia de Ponta Negra que os holandeses, a partir de 1631, tentaram capitular Natal, recém estabelecida pelos portugueses.

A primeira tentativa por parte dos holandeses ocorreu em 21 de dezembro de 1631, quando catorze navios vindos do Recife aportaram na pequena enseada que se forma bem em frente ao morro do Careca, em Ponta Negra e marcharam em direção ao forte dos Reis Magos, passando por onde hoje é a Via Costeira e que está abarrotada de hotéis luxuosos. Sim, aquele mesmo forte que até hoje podemos visitá-lo e que está localizado na praia do Meio.

Muito embora essa primeira tentativa, dois anos antes, não tenha sido bem-sucedida, em 12 de dezembro de 1633 – da mesma maneira que a tentativa anterior – os holandeses desembarcaram novamente na praia de Ponta Negra, rumaram para a foz do rio Potengi e lá, com a ajuda dos índios, capitularam o Forte dos Reis Magos, rebatizando-o de Castelo de Keulem, e ali Natal passou a ser denominada de Nova Amsterdã, tal qual a cidade de Nova Iorque, rebatizada no ano de 1625.

A par disso, é interessante ter em mente que não só temos belíssimas paisagens naturais ou pontos turísticos históricos, como a praia de Ponta Negra ou o Forte dos Reis Magos, mas também histórias interessantes, as quais devem ser contadas e recontadas. Caso contrário, realmente, ninguém se interessará e, de fato, serão esquecidas.

Nem todo conhecimento individual deve ser voltado exclusivamente para se transformar em dinheiro; monetizado. O prazer de conhecer por conhecer também é muito importante.

Do contrário, ninguém visitaria lugares históricos ou museus para conhecer a história. Qual seria o sentido?

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 19/01/2025 - 04:22h

Lembranças e esquecimento

Por Marcelo Alves

Arte ilustrativa com recursos da Inteligência oficial do BCS

Arte ilustrativa com recursos da Inteligência Artificial do BCS

Se a memória não me falha, já é o quinto verão seguido que passo na companhia do australiano Morris West (1916-1999), um dos meus romancistas favoritos. Invariavelmente bestseller, West sempre combinou entretenimento com boa literatura, no conteúdo e na forma. E, se de fato sei o que fiz nos verões passados, acho que já escrevi aqui sobre “As sandálias do pescador” (“The Shoes of the Fisherman”, 1963), “Os fantoches de Deus” (“The Clowns of God”, 1981) e “A eminência” (“Eminence”, 1998), livros que, bem ao estilo do autor, ex-seminarista que manteve a sua fé católica, premonitoriamente mistura as coisas da Igreja, sua mística e sua política, com as ideologias e a política internacional.

Desta feita, ao avaliar minhas opções na biblioteca de casa, foi por um singelo insight – que explico logo a seguir –, que decidi trazer para a praia “O advogado do Diabo” (“The Devil’s Advocate”, 1959), para muitos a magnum opus do autor, numa antiga edição de bolso da Editora Rio Gráfica (de 1986), muito leve, já surrada, perfeita para adormecer com a gente, sem maiores consequências, na preguiça de uma rede.

E é da contracapa dessa minha sofrida edição que podemos, sem fazer spoiler, dar uma ideia da trama em que se mete o “Advogado” de West: “O sacerdote inglês Blaise Meredith recebe do Vaticano uma das maiores missões da sua vida: investigar a fundo a história de Giacomo Nerone, legendário eremita venerado pela população de um miserável lugarejo da Calábria. Na busca de elementos que impeçam a canonização de Nerone, o padre depara com as estranhas personagens: a amante e o filho do eremita, um médico ateu, um pintor homossexual, uma condessa rica e entediada. Todos fazem parte de um passado que não desejam revelar – cabe a Meredith desvendar o mistério que cerca o silêncio daquela gente”.

Uma trama, aliás, que transversalmente perpassa a ciência jurídica, suas ramificações e suas inusitadas personagens. Afinal, para a beatificação de um Servo de Deus, como aponta West, seria necessária a designação de dois cultos sacerdotes como verdadeiros “profissionais do direito”, “um, como Postulador da Causa, para iniciar a investigação e levá-la avante e, o outro, como Promotor da Fé, ou Advogado do Diabo, para submeter as provas e as testemunhas a severo escrutínio, segundo as cláusulas pertinentes do direito canônico”.

Mas não foi a excelência de “O advogado do Diabo”, nem muito menos suas passagens jurídicas, que me fez escolhê-lo como releitura de verão. Afinal, tinha várias outras boas opções na estante e fiquei sobretudo na dúvida em trazer “As sandálias do pescador”, já que, também pelo que me lembro, havia escrito mais sobre o filme homônimo de 1968, direção de Michael Anderson (1920-2018), do que sobre o livro propriamente dito. O que me fez optar por “O advogado do Diabo” foi uma lembrança instantânea, quando da seleção do livro, que chamei acima de insight, do nosso Servo de Deus Padre João Maria (1848-1905).

Com uma vida consagrada em prol dos mais necessitados – escravos, retirantes da seca, vítimas da varíola, doença que acabou contraindo e dela falecendo –, o “Anjo de Natal” está, faz já alguns anos, com as devidas intervenções do Postulador da Causa e do Advogado do Diabo, em processo de beatificação, com inúmeras graças a ele atribuídas sendo canonicamente registradas. E li ainda dia desses – pelo menos é a minha lembrança – que a Arquidiocese de Natal teria finalizado a fase local/diocesana do procedimento, sendo então a causa enviada ao Vaticano para análise e definição. Numa terra de tantos pecadores, roguemos que tenhamos pelo menos um santo.

De toda sorte, depois de tantas lembranças, ao começar a releitura de “O advogado do Diabo”, constatei algo deveras curioso: lido há muitos anos, já não me lembrava de mais nada do “Advogado” de West. É verdade que alguns “esquecimentos” têm sido comuns depois que passei dos 50 anos.

Depois dessa idade, dizem, tudo que entra na nossa cabeça implica a saída ou esquecimento de outra. Tenho às vezes me queixado disso. Mas, desta fez, tomei o esquecimento como uma verdeira dádiva (dizer milagre do Padre João Maria seria talvez um exagero). Pois agora vivo o romance tão maravilhado como se fosse uma primeira vez.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 19/01/2025 - 03:34h

O Estado é invenção do tinhoso

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa (Reprodução)

Arte ilustrativa (Reprodução)

O ESTADO – com “E” maiúsculo, é uma invenção do tinhoso.

Não existe de fato, não é uma “coisa”, é uma abstração, uma ruma de leis e homens no Poder, massacrando, espoliando, manipulando os outros – a imensa maioria, em proveito próprio…

No começo, disseram que o total do “pacto social”, pai do Estado, era necessário para defender os homens comuns dos criminosos,  das doenças, e da ignorância.

A Igreja entrou nessa, para alegria dos reis e seus cortesãos.

O tempo mostrou que é somente conversa fiada, coisa do tinhoso. O que eles – os criadores desse lero – queriam, era ficar por cima da carne seca, no bem-bom, fazendo maldade.

E assim tem sido, desde que o homem deixou de rastejar e passou a andar em pé. Nada mais, nada menos. Tanto é que nada mudou, de lá para cá.

Mas Deus tá vendo!

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 19/01/2025 - 02:44h

Auschwitz-Birkenau

Por Bruno Ernesto

Auschwitz-Birkenau sob o foco do autor da crônica

Auschwitz-Birkenau sob o foco do autor da crônica

O próximo dia 27 de janeiro marcará oitenta anos da libertação de Auschwitz-Birkenau, o mais famoso e emblemático campo de concentração nazista, onde foram mortas mais de um milhão de pessoas, a maioria delas judeus.

Qualquer fato histórico sobre a Segunda Guerra Mundial é impressionante, porém – tenha certeza -, por mais que você leia, escute ou assista qualquer coisa sobre Auschwitz-Birkenau, nada se compara a andar por aquelas instalações e pôr as mãos em suas paredes. Até o sol e as sombras são diferentes.

Embora seja uma história bem relatada e documentada, com vasto material escrito, diversas vezes retratada no cinema, documentários, e em incontáveis histórias, imagens e imaginário, andar por suas instalações é indescritivelmente angustiante.

Originalmente, primeira parte do complexo – denominada de Auschwitz I e composta por 28 edificações de tijolos aparentes -, era uma instalação militar no sul da Polônia e que, após a invasão alemã em 1939, foi transformada em uma prisão para presos políticos e, somente a partir de 1941 é que teve início a utilização das câmaras de gás, e é lá onde está localizado o famoso letreiro com a infame frase “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta), que representa o sadismo dos nazistas.

Para quem, assim como eu, se interessa pela história da Segunda Guerra Mundial, nada mais marcante que poder conhecer pessoalmente onde a história se materializou.

Cada prédio, suas salas e pátios, por si, já permite contar um infindável numero de histórias macabras como, por exemplo, as experiências médicas de Josef Mengele no bloco 10.

O terror do bloco 11, conhecido como o bloco da morte, onde os prisioneiros infratores eram submetidos a um julgamento sumário, e cuja sentença invariavelmente era a morte por fuzilamento, logo ao lado da sala de julgamento. Bastava o sentenciado sair da sala, despir-se na sala ao lado, descer uma pequena escada para o pátio lateral e ser posto de frente ao pelotão de fuzilamento para encontrar o seu fim.

No bloco mais à frente, já em direção à câmara de gás e um pouco antes dela, pode-se ver a trave de enforcamento.

Horror maior foi ter entrado na câmara de gás, correr as pontas dos dedos em sua parede e sentir que os veios escavados nela eram, em verdade, as marcas de arranhadura das unhas de suas vítimas, agonizando em busca de fuga enquanto o gás cianídrico obtido do pesticida Zyklon B as sufocava e, logo ao lado, o crematório lhes aguardava.

Ao lado, via-se a pomposa casa de Rudolf Höss, o comandante encarregado de Auschwitz, onde ele sua família desfrutavam de uma vida em outra dimensão, separados do inferno por ele comandado e que, ele próprio, encontrou o seu fim em 16 de abril de 1947, numa forca posta bem na entrada da câmara de gás do campo de extermínio que ele comandou.

Em verdade, o complexo de Auschwitz-Birkenau é bem maior que se possa imaginar, pois esses 28 blocos que compõem Auschwitz são apenas a primeira parte da máquina de morte nazista, sendo o campo de Birkenau, localizado logo ao lado dele, e que pode ser alcançado em poucos minutos de carro, muito maior, e cuja primeira visão de quem vão visitá-lo são os trilhos nos quais chegavam os vagões abarrotados de prisioneiros. Simplesmente é inacreditável.

Como já pontuei em outras oportunidades, a história, por vezes, é muito irônica, pois, naquele 27 de janeiro de 1945, Auschwitz foi libertada pela Primeira Frente Ucraniana, que na época fazia parte da União Soviética, e era comandada com mão de ferro por Stalin, e hoje é a Ucrânia quem luta para se ver libertada da Rússia.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 05/01/2025 - 11:30h

Bougainville

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica

Foto do autor da crônica

Praticamente não há quem não admire plantas. Entretanto, mais uma vez recorro a Liev Tolstoi e sua inigualável percepção de mundo: Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira.

É inegável que qualquer paisagem ou ambiente fica mais ameno e agradável se tiver plantas, e que andar por entre elas é reconfortante e as flores são mais que simbólicas; tanto na alegria, quanto na tristeza.

Posso dizer que fui privilegiado por, desde sempre, viver por entre elas e ver minha mãe manter e cuidar do seu jardim; sempre diverso, perfumado, exuberante e colorido.

Já vi inúmeros jardins com a assinatura do famoso paisagista Burle Marx, e digo, sem modéstia, que o da minha mãe é muito mais bonito. Pois é.

Quem chegasse à minha casa, inevitavelmente, o primeiro assunto abordado era o seu jardim, ainda que não estivesse na pauta.

Ela sempre fala com orgulho dele e contava com a assistência do meu pai, tanto física – mudando os jarros de posição, podando ou adubando – quanto técnica – era engenheiro agrônomo.

Quando criança, costumava regar com auxílio de um pequeno balde um batalhão de plantas cultivadas em jarros, além de outras tantas encravadas diretamente no solo por todo terreno da casa, e finalizava o serviço aspergindo água por cima delas, feito chuva de final de tarde, só para sentir o cheiro de terra molhada. Embora meu pai protestasse dizendo para economizar água.

Tempos depois, descobri que esse cheiro característico tem até nome científico: petricor. Aliás, ainda hoje, quando ela viaja, tenho que ir à casa para regá-las.

De todas as plantas para se ter no jardim, a que mais me fascina é a bougainville. É de encher os olhos. Em qualquer parte do mundo você verá bougainville, acredite.

Nunca deixo de admirar essa trepadeira, que também pode ser cultivada como se tivesse um tronco firme, com os seus galhos se agarrando em tudo em busca do céu, com folhas de um verde intenso e flores que parecem ser feitas de papel machê.

O nome da planta, por si só, passa a impressão de que não é natural do Brasil. Contudo, é brasileiríssima, encontrada especialmente na Mata Atlântica.

Sua fama mundial se deu após ser encontrada pela naturalista francesa Jeanne Baret, que integrava a expedição do navegador francês Louis Antoine de Bougainville, que liderou a primeira circum-navegação mundial a mando do rei Luís XV, e que aportou na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1767, tendo ele espalhado a sua beleza mundo afora. Daí o seu nome.

Quem mantém um pequeno jardim, também cultiva outra tradição: conseguir mudas, a qualquer custo ou conseqüência, diga-se de passagem.

Invariavelmente via alguém puxando os galhos dos bougainville multicoloridos que alcançavam a rua por cima do muro. Decerto era alguém em busca de uma muda deles.

Pelo que me recordo, quando tinha por volta de oito ou dez anos de idade, quando tocavam a campainha lá de casa, normalmente eu que ia abrir o portão.

Tempos depois, passei a observar que algumas senhoras e moças bem sérias tocavam a campainha e me perguntavam se podiam colher as flores dos bougainville. Eu dizia que sim e elas colhiam tudo que podiam e levavam. Não raro, outras pessoas apareciam com mesmo intuito.

Tempos depois, tocaram novamente a campainha e, dessa vez, quem pediu para colher as flores do bougainville foram umas três crianças, mais ou menos da minha idade.

Antes de autorizar perguntei para que elas precisavam das flores e elas me responderam que era para um velório. Não falei mais nada e disse que podiam pegar as flores que quisessem. Colheram e foram embora. Nunca mais ninguém pediu flores.

O tempo passou, e numa recente viagem à Paris, num dia muito frio e bastante chuvoso, após passar pela célebre livraria Shakespeare and Company, avistar a Catedral de Notre-Dame na iminência de ser reaberta após o terrível incêndio ocorrido em 2019, rumamos a pé, por entre os prédios da Sorbonne, em direção ao Panteão – preterido em outras passagens pela cidade – e lá me deparei novamente com o nome bougainville.

Naquele silêncio ensurdecedor do subsolo do Panteão, percorrendo aqueles corredores a meia-luz, reconheci os nomes de notáveis como Victor Hugo, Voltaire, Émile Zola, Louis Braille, Jean-Jacques Rousseau, Marie Curie, Alexandre Dumas, Josephine Baker, e tantas outras personalidades francesas.

Já de saída, quase por acaso, li numa pequena placa na porta de uma cripta: Vice-Amiral Comte L. A. de Bougainville 1729-1809.

De imediato lembrei-me daquelas pessoas que tocavam a campainha em busca das flores do bougainville lá de casa para homenagear seus entes queridos, sem saber, sequer, os seus nomes.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 05/01/2025 - 10:22h

Os chacais

Por Marcelo Alves

O dia do Chacal (Foto: reprodução)

O dia do Chacal (Foto: reprodução)

“Envolvente em sua indiferença, admirável em sua frieza, pertinaz em sua determinação, ele é o Chacal, um assassino de aluguel contratado pela OAS, Organização do Exército Francês, inimiga da independência da Argélia, para fulminar o General De Gaulle com uma bala de fuzil. Sem identidade, mas com gestos refinados e elegantes, o Chacal trabalha nas sombras e mata friamente quem se interpõe em seu caminho. Um plano macabro. Conseguirá o inominável Chacal executá-lo?”, essa é a chamada da contracapa do célebre romance “O dia do Chacal” (Abril Cultural, 1980), do inglês Frederick Forsyth (1938-2010).

Evidentemente, não vou responder à pergunta. Não faço spoiler.

Quero aqui, na verdade, para além de ressaltar a excelência desse best-seller, falar do seu caráter duplamente “imitativo”, já que ele imita a vida e a vida acaba o imitando.

Segundo consta, Forsyth teria imaginado o enredo de “O dia do Chacal” quando, trabalhando para a agência Reuters, observou a labuta das forças de segurança em torno do General De Gaulle. Escrito em estilo marcadamente jornalístico, o livro principia narrando um fato histórico: a tentativa frustrada, em 22 de agosto de 1962, patrocinada pela OAS (no original “Organisation de l’Armée Secrete”), através do tenente-coronel Jean-Marie Bastien-Thiry, de assassinar o heroico líder francês. Nesse ponto, o livro é um bom exemplo de ficção histórica.

Se a arte imita a vida como no princípio de “O dia do Chacal”, é também danado para, a partir da ficção policial, numa mistura infeliz de loucura com pura criminalidade, a vida imitar a arte. “O dia do Chacal” parece ser um caso clássico desse tipo de influência no mundo real.

O próprio método para adquirir passaporte e identidade falsos, como descrito no romance, restou doravante imitado e conhecido, sobretudo no Reino Unido, como “Day of the Jackal fraud”. Consta que vários assassinos e terroristas eram fanáticos leitores do romance de Forsyth. Com Yigal Amir, que assassinou primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin em 1995, foi encontrada uma cópia em hebraico de “O dia do Chacal”.

Sobretudo temos o caso do terrorista venezuelano Ilich Ramírez Sánchez, notadamente apelidado de “Carlos, o Chacal”, uma vez que também teria sido encontrada uma cópia do romance nos pertences do dito cujo. Tido como marxista-leninista radical, ele foi o responsável por uma série de assassinatos e atentados terroristas nos anos 1970 e 1980, inclusive na França. Esteve entre os criminosos internacionais mais procurados. Foi finalmente capturado no Sudão e transferido para a França, onde atualmente cumpre várias penas de prisão perpétua. Quem sabe algum dia não falamos sobre o caso real de Carlos, o Chacal?

É fato que o romance “The Day of the Jackal”, desde quando originalmente publicado em 1971, tem sido um sucesso de crítica e de público. Venceu o prêmio Edgar, da Mystery Writers of America, no ano seguinte ao seu lançamento. Ainda hoje popular, figura sempre nas listas dos romances mais lidos da literatura inglesa e universal. E, já em 1973, com o mesmo título, foi excelentemente adaptado para a grande tela, com direção de Fred Zinnemann e estrelado por Edward Fox e Michael Lonsdale. O filme ganhou um BAFTA, além de outras merecidas indicações para o mesmo prêmio, para o Globo de Ouro e para o Oscar. Tornou-se um clássico.

Por sinal, acabei de descobrir que o livro de Forsyth foi recentemente adaptado para a TV. “The Day of the Jackal” (2024) é uma nova série da televisão britânica, estrelada por Eddie Redmayne e Lashana Lynch, que, desde a estreia em novembro último, virou sucesso mundial. Logo indicada ao Globo de Ouro (melhor série – drama), batendo recordes de audiência nos Estados Unidos e no Reino Unido, com a segunda temporada já anunciada, ela chegou ao Brasil por meio da plataforma de streaming Disney+. Para quem quer menos badalação no verão, esse “novo” Chacal é uma boa opção, não?

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da Repúblicao, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 05/01/2025 - 08:48h

O prazer de escrever

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa da Inteligência Artificial do BCS

Arte ilustrativa da Inteligência Artificial do BCS

O cronista, por vezes, ressente-se da falta de assunto. Aliás, a maioria já escreveu sobre esse vazio de ideias. Às vezes, sentamos diante da tela do computador e não conseguimos extrair algo para ser dito. Ficamos a matutar. E nada.

Olhamos para um lado, para o outro. Tomamos um gole de café. Olhamos pela janela, e a danada da inspiração não vem. Pensamos até em não enviar texto algum para ser publicado.

Entretanto, temos uma necessidade. Algo que nos impele, força-nos a escrever algumas linhas, e terminamos por fazer. Por obrigação? Não, não, por prazer.

Escrever nos deixa leves. Colocamos a nossa alma nos textos. Deixamos registrados em palavras os nossos sentimentos, o nosso coração, angústias, sonhos, alegrias e tristezas. Como sabemos, entra ano, e sai ano, e a vida se repete.

Por isso, é preciso oxigenar a vida, fazer valer a pena os nossos dias neste plano terrestre. Fazer o que se gosta, amar e ser amado, viver ao lado daquelas pessoas que nos fazem bem.

Como é bom cultivar o que é prazeroso. Assim, eu escrevo sem qualquer pretensão de reconhecimento literário. Sei das minhas limitações. A minha paga é simplesmente o prazer de escrever, de compartilhar um pouco de mim.

As reminiscências que, vez ou outra, trago a este espaço são um deleite para a alma, pois alegram o nosso cotidiano. Lembrar o que nos fez bem é tão bom.

Assim, escrevo este pequeno texto para me manter fiel ao que me dá prazer; livre, como se estivesse em pleno voo.

Tentarei escrever por mais um ano neste espaço plural, repleto de boa gente. Continuarei a oferecer um pouco de mim; o leitor, a sua agradável companhia.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 29/12/2024 - 17:44h

A pessoa que faltava

Por Ivan Lira

Ilustração de crônica postada Instagram do autor

Ilustração de crônica postada no Instagram do autor

Gentil Alves da Silva foi, por muitos anos, o titular do único cartório de registro civil de pessoas de Doutor Severiano, uma pequenina e simpática cidade do oeste potiguar, na fronteira com o Ceará. O termo era vinculado à Comarca de São Miguel, onde fui Juiz de Direito e vivi tempos felizes na década de oitenta.

Seu Gentil era um tipo formidável: gordinho, de estatura mediana, com a cabeleira farta e um bigode bem cuidado. Vinha quase todos os dias a São Miguel, carregando processos de habilitação de casamento ou registros de nascimento fora de prazo, para receber o meu despacho. Colocava-se de forma discreta ao lado do balcão do cartório de Zé Rocha (à época não havia fórum, e o juiz atuava diretamente nos cartórios, sem espaço reservado), observando tudo atentamente.

Aos poucos, conquistou minha confiança e amizade, tanto que, algumas vezes, fui almoçar em sua casa. Confessou-se admirador da poesia popular e, bastante encabulado, mostrou-me alguns versos que havia escrito. A partir daí, de vez em quando, escondia entre os autos cartoriais umas quadrinhas, sextilhas e até décimas. Em seus versos, exaltava a natureza, as belezas da serra, as presepadas de um oficial de justiça “ad hoc”, as desventuras de um bêbado, a beleza das moiçolas e outras trivialidades.

Talvez preocupado com o meu doce exílio voluntário naquela distante Comarca, convidou-me para um baile em sua cidade. Fui, dancei e gostei. Algum tempo depois, repetiu o convite, mas, dessa vez, não pude aceitar, pois estava em viagem à capital.

Quando voltei, o pesar pela minha ausência foi traduzido em versos. Um deles trazia um neologismo que jamais esqueci: masculinizou o qualificativo “bacana” para não perder a rima. O mote era: “A pessoa que faltava era só Doutor Ivan”. E lá veio ele:

“Domingo teve uma festa
em Doutor Severiano.
Veio um grupo ‘bacano’
trazendo uma boa orquestra.
Muitas meninas passando
com as faces cor de romã,
e eu de longe observava
que a pessoa que faltava
era só Doutor Ivan!”

Ivan Lira é professor da UFRN, juiz federal e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL)

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 29/12/2024 - 13:08h

Meu amor de salvação

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa de Bruno Marques (Canção Nova)

Foto ilustrativa de Bruno Marques (Canção Nova)

Após não sei quantas publicações, eis que agora me dou conta de que não escrevi sobre a mais importante personagem que, vez por outra, menciono neste meu exercício de cronista. Pois é, não escrevi. Embora a tenha inserido nalguns textos prolixos acerca de assuntos vários, não a expus, todavia, como protagonista, com uma página apenas dela: minha adorável noiva Natália Maia.

Então, prezado leitor e gentil leitora, peço licença para discorrer, neste domingo de pássaros cantantes e céu azul, sobre alguém que, ao longo dos últimos seis anos (nosso namoro teve início aos 7 de setembro de 2015), só me tem dado alegria e orgulho de tê-la em minha vida. Exatamente! Se em outros momentos a enalteci em merecidos versos, que tornei públicos sem qualquer receio, hoje repito a indiscrição em prosa, nesta crônica de natureza tão pessoal quanto amorável.

Sei do risco que corro, em se tratando do interesse dos leitores, ao abordar um assunto tão íntimo. Tem nada, não. Creio que possuo algum saldo com vocês. Se não, botem aí na conta, que qualquer dia eu pago esse débito literário. Hoje não me furtarei em falar sobre Natália, ela que, antes do meu editor, é quem primeiro lê todas as produções que publico. Exceto esta. Porque é surpresa.

Imagino que agorinha ela acabou de acessar o Canal BCS (Blog Carlos Santos), já tomada banho e decerto bebericando a sua xícara de café matinal, para saber enfim o que danado escrevi para este domingo, posto que desta feita (estranhando desde ontem as minhas esquivas) ela não viu meu texto em primeira mão. Sim, inventei algumas desculpas, escondi-lhe a verdade com esse propósito bem-intencionado, e mantive estas páginas longe dos olhos de Natália até bem pouco.

— Cadê a crônica, hein? — ela perguntava.

Neste minuto, porém, não há mais segredo. O pano caiu; estou a descoberto perante ela. Muito em seu louvor eu gostaria de dizer, contudo sei que nada do que escreva será o bastante para dimensionar as qualidades de Natália Maia, uma pessoa cujo caráter e senso humanitário poucas vezes se encontram em meio ao rebanho da vida em sociedade, como diria o querido amigo Antônio Alvino.

O que mais posso referir sobre Natália? Há tanto o que ser dito de bom a respeito dela, eu que sou o seu maior admirador, mas agora reparo que as palavras começam a me faltar. Acontece. Entre outras coisas, às vezes ela tem o poder, a sutil capacidade de me deixar sem argumentos. Por outro lado, e com firmeza, é a grande incentivadora das minhas letras, da minha escrita. É quem me diz (na saúde e na doença, na tristeza e na alegria) que tenho futuro enquanto escritor.

Não sou um sujeito religioso, nunca fui, entretanto ouso dizer que Natália é um anjo bom que Deus colocou em meu caminho. Hei de ir embora primeiro, sinto que não vim a este mundo caótico para me demorar, mas desejo viver ao lado dela todo o tempo que ainda me resta. Portanto, agradeço ao Altíssimo por todos os dias, horas e minutos que tenho usufruído da companhia de Natália.

Foi ela, com o facho de luz do seu lindo coração, com a aura de um espírito superior, quem me resgatou das trevas em que estive durante tanto tempo, desacreditado de todos e até de mim próprio. Natália, prezado leitor e gentil leitora, devolveu-me a alegria de viver, convenceu-me de que a vida vale a pena, e me trouxe de volta o prazer da escrita, da leitura, meu gosto pela música e pelo cinema. Exatamente, senhoras e senhores, não foi apenas o arsenal de psicotrópicos.

Cheguei ao fundo do poço, a ponto de passar noites amarrado a uma cama de hospício desta cidade, dopado, o corpo cheio de dores, num deplorável estado de semiconsciência e torpor. E quando eu estava lá, caído nas sombras, na sarjeta mental, foi dela a mão que me resgatou. Cuidou dos meus ferimentos e todo dia me ensina a conviver com as cicatrizes que ficaram na minha alma.

É difícil falar sobre esta Natália sem exibir um pouco do meu histórico, por mais que o objetivo destas palavras seja prestar uma simples homenagem à musa do meu coração. Penso que outras mulheres (não culpo ninguém por isso) teriam me voltado as costas, desistido de mim nos primeiros sinais da minha doença. Ela, contudo, não o fez, não me largou naquele manicômio. Apostou no meu restabelecimento, não fraquejou, a todo instante apoiada na sua infinda, inabalável fé.

— Você vai ficar bom! — sempre afirmava.

Por que expor aqui coisas tão íntimas? Alguém deve questionar. Não me constranjo, não há problema algum em sermos justos e verdadeiros. Não perco mais tempo com certos pudores e hesitações. Hoje tenho mais passado que futuro e quero dizer às pessoas — inclusive a Natália — o que penso sobre elas, ainda que publicamente. Deixar isso para amanhã pode ser para nunca mais.

Os pássaros cantam, redemoinham na mangueira da residência aos fundos, numa incessante babel que me serve de trilha sonora para este depoimento em homenagem a Natália. O vento também produz barulho nos ramos e folhas da grande árvore, impulsionando o voejar do passaredo ao redor. Então eu gostaria que este relato fosse leve como o vento, agradável e alegre como o canto desses seres alados que orbitam a velha mangueira da senhora Francisca, minha vizinha.

Não só da mangueira advêm as aves que ouço nas imediações. Aqui próximo, por trás das casas do outro lado da rua, passa um córrego (talvez seco nesta época do ano) de onde vez por outra, além do estrídulo das nhambus, escuto o que me parece o pio de uma sericoia e também das rasga-mortalhas. Sobretudo durante as eventuais horas mortas em que me encontro nesta escrivaninha.

Antes, durante um longo período, eu não mais me dava conta de nada disso, da vida que pulsava no meu entorno, das coisas simples e belas da natureza. Tive que reaprender a enxergar e a ouvir muito do que havia esquecido. Natália, que posso chamar de meu amor de salvação, sem pieguice ou exagero, tal qual no romance do Camilo Castelo Branco, é responsável por tudo de bom que me tem acontecido ao longo destes seis anos que abarcam o nosso namoro e noivado.

É possível que o prezado leitor e a gentil leitora considerem esta declaração algo açucarado, quiçá démodé. Podem achar o que quiserem. Estão no seu direito. Acontece, porém, que de amargo hoje em dia eu só estou aceitando café. No mais, ao menos em literatura, um pouco de açúcar, só uma vez perdida, não faz mal a ninguém. Até porque o amor também é doce e nunca sairá de moda.

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado no BCS no dia 10 de outubro de 2021.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2025. Todos os Direitos Reservados.