Não sei o que é mais iníquo: se questionar o consumo de “cuscuz alegado” nas escolas por professores ou lanche de policiais em serviço.
Só quem não conhece rotina de um professor questiona, legalmente, que ele lanche com alunos, consumindo também a merenda escolar. Melhor deixar tudo apodrecer?
Boa parte dos legisladores e senhores da lei que decidem sobre a vida do professorado, nunca entrou numa escola pública. Nem quer.
Deputados, promotores públicos, juízes, deveriam fazer visita surpresa a escolas públicas, tirar um dia de professor. Sairiam mudados. Contribuiriam mais e melhor com o país.
Já vi gente resmungando por que comerciantes cedem lanche ou outras refeições a policiais em serviço. Quanta mediocridade. Absurdo.
Policial em países mais avançados, como sociedade, é tratado com refino e zelo. O cidadão sabe valorizar sua importância. Aqui, o desdém.
O sujeito ganha soldo modesto para botar o peito como escudo do cidadão, em condições precárias de trabalho e, ainda assim, é desdenhado.
Professor e policial deveriam ser recebidos sob aplauso, tapete vermelho, fidalguia. Julgar todos por alguns, é erro crasso.O comum é a discriminação. O preconceito.
Como sociedade, nação, país, tivemos muitos avanços nas últimas duas décadas. Mas ainda estamos distantes de um Brasil sonhado e necessário.
Emociona-me, até hoje, entrevista nos anos 90, do professor Darcy Ribeiro, com câncer terminal. Dizia que não ia testemunhar esse Brasil do porvir. Mas o mesmo Darcy, criador da Universidade de Brasília (UnB), preconizava que nos orgulharíamos de ser como somos, brasileiros, diferentes.
Falava de um povo tropical, inventivo, miscigenado. Os olhos do professor Darcy brilhavam. Voz quase falhando, não perdia a firmeza.
“Confissões”, livro que Darcy Ribeiro escreveu sem saber se poderia concluir, devido ao câncer, está sempre perto de mim. Quanta sapiência.
Darcy Ribeiro ajuda-me até hoje a acreditar e fazer minha parte, por este país. Melhoramos muito, mas há muito ainda a ser feito, sim.






















