domingo - 23/03/2025 - 17:26h

Um certo darwinismo

Por Marcelo Alves

Darwin e Spencer - estudos que se cruzam (Reprodução BCS)

Darwin e Spencer – estudos que se cruzam (Reprodução BCS)

Devemos a Alfred Russel Wallace (1823-1923) e, mais badaladamente, a Charles Darwin (1809-1892) a ideia da seleção natural. Essa seleção favorece a sobrevivência genética das caraterísticas úteis dos indivíduos, características essas que os ajudam tanto a viver como a se reproduzir. Ademais, na natureza e ao longo de muito tempo, a seleção natural produz novas espécies. E aqui chegamos, nós humanos, teoricamente evoluídos, se comparados aos nossos primos chimpanzés, embora eu muitas vezes desconfie que o inverso é o verdadeiro.

Esse “darwinismo” (como tudo isso também restou conhecido) acabou pulando da natureza para a sociedade, por intermédio, sobretudo, do filósofo, sociólogo e antropólogo Herbert Spencer (1820-1903), que reconheceu ter apenas posto “em prática os pontos de vista do Sr. Darwin no que eles se aplicam à raça humana”. Aliás, segundo registra John Kenneth Galbraith (1908-2006), em “A era da incerteza” (Livraria Pioneira Editora, 1980), “é a Spencer, e não a Darwin, como geralmente se imagina, que devemos a frase lapidar: ‘sobrevivência do mais forte’. Falava ele, não da sobrevivência no reino animal, mas sim da sobrevivência no mundo muito mais exigente, como Spencer o via, da vida econômica e social”.

Spencer foi um escritor fecundo e célebre. Como lembra Galbraith, “seus inúmeros livros tiveram grande influência na Inglaterra, mas nos Estados Unidos chegaram a ser quase uma revelação divina. (…). Spencer tornou-se um evangelho americano porque suas ideias ajustavam-se às necessidades e anseios do capitalismo americano, especialmente às dos novos capitalistas, como uma luva, ou até melhor do que isso”.

Graças a Spencer, de uma hora para a outra, ninguém precisava mais sentir-se culpado por sua boa sorte. Ela era o resultado inevitável da própria capacidade de adaptação. Todo aquele que tinha sucesso na vida era simplesmente premiado pela sua própria excelência. Ao desfrute da riqueza, foi assim acrescentado o prazer, talvez até maior, de saber que esse gozo era merecido, sem culpa, simplesmente porque se era melhor. Para alguns: “Viva o darwinismo social”.

Só que isso, meus amigos, ao longo da história, acabou nos trazendo alguns problemas. Basta mencionar o nazismo e a ideia de pureza e superioridade de raça. Aliás, nesse processo de seleção, através do qual a humanidade estaria sendo purificada e melhorada, ninguém poderia mexer, a não ser que fosse para acelerá-lo: leia-se eugenia, como forma de seleção humana artificial. E nós sabemos as barbaridades que aqueles “puros”, de raça, vieram a praticar.

Hoje em dia, eu vejo por aí, sobretudo entre pessoas de meia idade, muitos “darwinistas sociais”, seguidores tardios, mesmo sem o saber, do tal Spencer. Acreditam-se melhores porque “tiveram sorte na vida”. Desprovidos de qualquer sentimento de solidariedade, são contra os pobres. Os índios. Os portadores de necessidades especiais. Os idosos. As empregadas domésticas. São contra, boquirrotamente contra, o que eles não são a favor.

Curiosamente, muitos deles nunca precisaram, enfrentando as dificuldades que a vida dá, lutar/trabalhar para sobreviver. Nem mesmo quiseram, já que, nascendo em uma família “remediada”, seria uma obrigação buscar ser melhor hoje do que foram ontem. E, para além disso, são antropologicamente ignorantes, porque desconhecem que o que nos fez evoluir como espécie homo sapiens não foi sermos fortes fisicamente (os neandertais eram muito mais), mas, sim, uma revolução cognitiva que nos ensinou a cooperamos uns com os outros.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL)

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Categoria(s): Crônica
terça-feira - 06/03/2012 - 10:48h
Natal angustiada

Intolerância que inexiste, mediocridade que não se esconde

Rosalba Ciarlini (DEM) e seus ‘cabras da peste’ vendem perigosa justificativa para sua reprovação em Natal: a culpa é do natalense que odiaria os mossoroenses. Rosalba seria a encarnação dessa antipatia gratuita, espécie de mentalidade extraída do ‘darwinismo social’ ou de uma ‘eugenia’ política.

Quanta bobagem. Estupidez estratosférica!

Daqui a pouco, Rosalba terá que percorrer ruas, avenidas, becos e ruelas de Natal, tendo que se explicar e provar desse “ódio” xenofóbico.

Claro que a rejeição maciça de Natal ao governo não é culpa do natalense ou suposta repulsa aos mossoroenses. O discurso é um escapismo criminoso. Retórica baseada na síndrome da transferência de culpa, uma alternativa comum à nossa classe política que adora se apossar do mérito alheio e transferir seus pecados pros outros ou fatores conjunturais e até metafísicos.

Natal não reprova uma mossoroense e, sim, o governo medíocre e chinfrim que ela promove. Natal elegeu Rosalba ao Senado e Governo do Estado (e bem). Ela derrotou seus adversários (inclusive alguns natalenses) em 2006 (Senado) e 2010 (Governo do Estado), dentro de Natal. Com votos dos natalenses, que em sua maioria a viram como melhor nome.

Se o governo der um “cavalo de pau” e melhorar, Natal puxará Rosalba para cima novamente. Não tenho dúvidas. Mas continuando assim, a empurra para baixo.

Faz parte da cultura, a história revela. Sociologia, psicologia e psicologia social explicam rivalidades entre cidades, povos etc. Quem estuda um pouco sabe, que tudo isso é comum, absolutamente normal e compreensível.

João Pessoa e Campina Grande, na Paraíba; Natal e Mossoró ou Rio de Janeiro x São Paulo eternizam rivalidades. Entretanto, tudo que exacerba passa a ser pura idiotia ou doença. São desvios psicossociais ou estratégia intencional com fins baixos.

Reprovação à Rosalba e Micarla prova que critério não é intolerância

Na Alemanha pós-Primeira Guerra, em recessão estelar e com baixa estima do seu povo, Hitler encontrou nos judeus a causa desses males. Com uma pregação anti-semita e xenofóbica, incitou a população contra essa etnia, arrimando parte de sua campanha até chegar ao poder. O resto da história nós a conhecemos.

“Na Paraíba existe rivalidade João Pessoa-Campina Grande. Não impediu Cássio Cunha Lima (que é de Campina) ser duas vezes governador e agora senador”, lembra-me o webleitor João Fransa.

“Sou natalense radicado em Mossoró há 8 anos e nunca sofri qualquer hostilidade. As brincadeiras sempre foram saudáveis”, exulta o jornalista Bruno Barreto.

Difícil um natalense não se sentir em casa em Mossoró e mossoroense não ser abraçado afetivamente por um natalense. Isso é fato. Amamo-nos. A piada sadia e a troça entre mossoroenses e natalenses sempre existiram e devem existir.

Eu, particularmente, muitas vezes sou muito melhor tratado entre os natalenses do que em minha terra natal. E, agradeço Natal por acolher meus filhos tão bem. Uma mãe gentil.

Volto a lembrar o que tenho dito há meses, mesmo antes da posse da ‘Rosa’ de Mossoró: “O Estado não é a Prefeitura de Mossoró e o RN não é Mossoró”.

Esparta e Atenas sempre trocaram farpas, até brigaram. Mas uma era a extensão da outra. Uma militarizada e fechada. Monossilábica; outra lírica e aberta. Elouquente nas ágoras.

Natal e Mossoró congregam-se com naturalidade, não obstante suas naturais diferenças. A pilhéria faz parte da camaradagem. O bom humor é um traço de inteligência. Além disso, só encontraremos recalques e má-fé.

Natal adora Mossoró, mas é intolerante com a farsa e a incompetência. Eis a própria natalense da gema, Micarla de Sousa (PV), prefeita com quase 100% de reprovação, que não me deixa mentir nem exagerar.

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Categoria(s): Opinião da Coluna do Herzog
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