Por Marcos Araújo
Em tempos de tecnologia, as notícias (boas ou ruins) vêm por aplicativos eletrônicos. Recebi uma mensagem do Prof. Benedito Vasconcelos reproduzindo uma nota do Departamento de Geografia da Universidade do Estado do RN (UERN), lamentando a morte do Prof. José Romero Araújo Cardoso.
Em Fortaleza, onde curso um doutorado, entre uma tarefa acadêmica e outra, brota uma lágrima nos olhos e paro para fazer uma prece para Romero. Rezo para sua alma. Rogo pela intercessão de Nossa Senhora para lhe dar acolhida.
Rezo também pela incompreensão que ele foi vítima. Preto e pobre, Romero foi alvo do estigma e do preconceito. Na Uern, creio – lastimo pelos alunos que se julgam sábios -, nunca recebeu a atenção devida.
Louco por Josué de Castro – outro negro, que travou uma luta contra a fome (acreditem os que veneram Lula, foi ele quem pensou antes do PT a renda mínima como combate à pobreza!) -, odiava o regime militar por ter impedido a indicação do autor de Geografia da Fome ao prêmio Nobel da Paz.
Genial por excelência, sofreu também as contingências de um casamento fracassado. Enveredou pelo caminho tortuoso das drogas, em busca de um alento pelo desprezo conjugal. Sofreu, e muito!
Lembro de sua mãe e de sua tia. As duas largaram suas casas e passaram meses em Mossoró. Nessa luta, merece relevo a pessoa de Dona Chiquita, de saudosa memória, que assumiu a recuperação de Romero como meta de vida.
Naquela época não se entendia a dependência química como doença e a Uern até ensaiou um processo demissional, obstado depois por puro bom senso. Nesse tempo, recebia ele quase todo dia em nosso escritório. Eu e Lindocastro Nogueira, advogado da Associação dos Docentes da Uern (ADUERN).
Ouvimos as lamúrias do seu coração dezenas de vezes.
Depois de recuperado, convidei ele pelo menos cinco vezes para falar aos meus alunos no Curso de Direito. Dizia repetidas vezes: um dos homens mais inteligentes que tinha conhecido em vida.
Contudo, essa sociedade europeizada, branca e mesquinha, legatária genética de europeus de quinta categoria, não admite a inteligência dos descendestes de africanos. Um preto genial é uma ameaça. E ainda mais quando esse “preto” tem vícios comportamentais…Era mais Romero, na sua bizantinice de homem pecador do que muitos “Santos” de conduta impoluta.
Como lembrava o lisboeta Fernando Pessoa, gostava de Romero porque “tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril”.
Romero era gênio. Como tal, vivaz entusiasta dos seres humanos, sem cor, raça ou qualquer atributo de gênero.
Só incensava um deles: Vingt-Un Rosado! Para ele, nunca houve ninguém mais inteligente…Escrevia como ninguém, e, assim como o negro Castro Alves, tinha sede do saber.
Lembrando Castro Alves,
“Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
– As almas buscam beber…
Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar”.
Requiescat in pace, Romero!
Deus te acolha e cure tuas mágoas.
Seu amigo, Marcos Araújo
Marcos Araújo é professor, escritor e advogado






















