domingo - 11/01/2026 - 10:42h

Boa romaria faz, quem em sua casa está em paz

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa

Arte ilustrativa

Na época da minha juventude, lá pela década de oitenta, comecinho dos anos noventa, qualquer coisa era motivo para sair de casa, fosse um bate-papo na calçada de um amigo, fosse uma festa, eu fazia tudo para comparecer. No entanto, com o passar dos anos, percebemos que pouquíssimos lugares valem o aconchego do nosso lar. Na verdade, não sei se ficamos ranzinzas ou seletivos com o tempo.

Contudo, para garantir o devido processo legal, deixe-me apresentar defesa. Hoje, nem todo lugar me apraz. Penso duas ou três vezes antes de sair de casa. Explico:

As festas de hoje em dia raramente têm mesas e cadeiras para que a gente possa descansar um pouco. Do início ao fim da festa, somos “obrigados” a ficar em pé, com os pés e a lombar doendo, ou seja, uma verdadeira tortura. Compramos a entrada da festa e ainda temos que pagar por uma mesa para colocar a bebida.

Além disso, as filas para se comprar bebidas e tira-gostos são intermináveis. Os banheiros? Ora, ora, são químicos.

Se estamos na praia, principalmente nesse período de veraneio, as barracas e restaurantes estão sempre lotados. Normalmente, esperamos uma eternidade para ser servidos, e ficamos rezando pra cerveja não está quente; e nem vou falar sobre os preços. É claro que existem exceções, há locais com bom atendimento, preço justo e festas organizadas.

Nunca é demais lembrar que a insegurança e a violência são outros motivos pelos quais pensamos com redobrada cautela antes de sair de casa.

Sim, eu sei deve que ser a idade, pois, quando era jovem, todo e qualquer lugar me agradava. Pra se ter ideia, já tomei cerveja quente numa vaquejada; dormi dentro de um carro a noite inteira, e normalmente somente saía das festas quando “pegava o sol com a mão”.

Atualmente, na maioria das vezes, prefiro ficar em casa, tomando umas doses de uísque, acompanhado de tira-gostos. Ao lado da minha mulher, dos meus filhos e neto, escuto as músicas do tempo da minha juventude.

Quando não tô a fim de sair ou beber, deito na minha rede, “curiando” as redes sociais ou assistindo a Netflix, porque, como diz o ditado popular, boa romaria faz, quem em sua casa está em paz.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 09/11/2025 - 06:22h

Descanso

Por Bruno Ernesto

Cemitério São Sebastião no Centro de Mossoró (Foto: Bruno Ernesto/02-11-2025)

Cemitério São Sebastião no Centro de Mossoró (Foto: Bruno Ernesto/02-11-2025)

Visitar cemitérios vai muito além de prestar homenagem aos entes queridos, seja ele um familiar, um amigo, um ídolo ou um anônimo.

Nos últimos anos, uma pesquisa que venho gestando com muito cuidado, me leva constantemente aos cemitérios por onde ando, e procuro registrar o máximo possível em cada oportunidade.

Inegavelmente já vi cenas muito tristes, lamentáveis, serenas, curiosas, mas também engraçadas. Assim dando continuidade à pesquisa, no último Dia de Finados, fui ao cemitério São Sebastião, o cemitério velho de Mossoró, para fazer mais alguns registros.

Percorri diversos corredores e ruas, cada vez mais difíceis de andar diante do amontoado de túmulos, e ali pude observar atentamente os visitantes e os túmulos. Alguns deles continuam sem qualquer visita. Muitos já abandonados, sequer caiados.

Encontrei várias pessoas conhecidas que agora lá repousam. Vi alguns de meus ex-professores do Colégio Diocesano. Vários amigos, personalidades e conhecidos de vista. Cada um deles evocou uma lembrança.

Quando já me preparava para ir embora, enquanto me posicionava para fotografar uma belíssima estátua, ao longe, avistei uma pessoa gesticulando incisivamente para duas senhoras que estavam sentadas aproveitando a sombra de uma árvore ao pé de um túmulo.

Como já beirava o meio-dia, tive dificuldade de achar um bom ângulo para fotografá-la, de modo que tive que me aproximar cada vez mais daquelas senhoras. Foi então que percebi que a pessoa que gesticulava elevava o tom da voz cada vez mais, num ataque de fúria e disparou:

– Era cabra ruim! Pior que fel!

– Não é porque tá morto e enterrado aí, que vou passar a mão na cabeça!

– Deu um trabalho da peste para a família! Foi é um alívio!

– Quem descansou fomos nós!

Não sei quem eram – Nem os vivos nem o morto -, nem interrompi aquela conversa. Apenas escutei, tirei a foto da escultura e fui embora.

“Está morto, podemos elogiá-lo à vontade”, a ironia do Bruxo do Cosme Velho, não veio a calhar.

Que descansem em paz.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

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Categoria(s): Crônica
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