sexta-feira - 03/01/2020 - 11:48h
Sucessão municipal

Eleição vai confrontar grupo profissional e nova oposição

Pleito de 2020 terá pela segunda vez consecutiva protagonistas que quebram ciclo de Rosado x Rosado

Para os que se apressam em análises sobre o papel da oposição em Mossoró na pré-campanha 2020, sua força ou falta de vigor, união ou fracionamento, é preciso uma pausa para conhecer minimamente a história.

Além disso, entender o elementar em política e da politica paroquial. De saída, uma observação visível: os Rosados são políticos profissionais e vivem da política, pontificando no município de forma contínua desde o fim dos anos 40, perdendo apenas dois pleitos à municipalidade em quase 72 anos.

A oposição não-Rosado que segue espalhada e tenta formar chapa (ou chapas) competitiva vai para sua segunda eleição consecutiva como protagonista e polarizadora num pleito, inclusive reforçada por novos personagens como os deputados Isolda Dantas (PT) e Allyson Bezerra (Solidariedade). Até então, ela (a oposição) era apenas figurante com voz ativa (franco-atiradora), mas sem votos ou mínima chance de êxito.

Literalmente amadora e às vezes até caricata.

Está aprendendo a andar, andando.

A primeira campanha em que oposicionistas fora desse círculo familiar conseguiram se sobressair nas últimas décadas foi mesmo a passada, em 2016. Praticamente não existiam.

Eleições caseiras e familiares

Até então, desde 1988 (há 31 anos), todas as eleições municipais foram caseiras e familiares, entre Rosados e Rosados, primos e primas. Era o grupo da ex-deputada federal e atual vereadora Sandra Rosado (PSDB) contra o grupo do primo Carlos Augusto Rosado.

Uma exceção é a eleição suplementar de 2014, quando o prefeito interino Francisco José Júnior (PSD) venceu a então deputada estadual Larissa Rosado (PSB, hoje no PSDB). Ele era governo e teve o apoio subliminar de boa parcela dos eleitores do rosalbismo, estimulados pela hoje prefeita Rosalba Ciarlini Rosado (PP), que precisava derrotar a filha da prima Sandra Rosado.

O último confronto municipal em que uma chapa de oposição não-Rosado tinha tentado se confrontar à altura com esse sistema familiar e oligárquico tinha sido em 1982 (há quase 38 anos).

Naquela disputa, o ex-senador Dix-huit Rosado (PDS) e o empresário Sílvio Mendes de Souza (PDS) foram eleitos prefeito e vice-prefeito, derrotando adversários do sistema Maia e do aluizismo.

Entretanto é preciso se contextualizar essa disputa, para se entender como essa campanha foi atípica e não representou, de verdade, um embate entre Rosados e não-Rosados.

Dix-huit: eleição em 1982 (Arquivo BCS)

Eleições 1982

– Dix-huit Rosado (PDS) – 21.510 (41,68%);
– João Batista Xavier (PMDB) – 15.466 (29,97%);
– Canindé Queiroz (PDS) – 4.388 (8,50%);
– Mário Fernandes (PT) – 428 (0,83%);
– Paulo R. Oliveira (PTB) – 48 (0,09%);
– Brancos – 8.145 (15,79%);
– Nulos – 1.621 (3,14%);
– Abstenção – 15.435 (23,02%);
– Maioria Pró-Dix-huit – 6.044 (11,71%).

* O eleitorado habilitado ao voto era de 67.041, em 275 secções. Compareceram 51.606 (76,98%) eleitores. A abstenção atingiu um recorde com 15.435 (23,02%) votantes.

Em 1982 também ocorreram eleições para Governo do Estado, deputado estadual, deputado federal, além de uma vaga ao Senado e Câmara Municipal. Foram as primeiras eleições com a retomada do pluripartidarismo, na reta final do regime militar de 1964.

Com a existência do casuístico instituto da sublegenda, cada partido poderia lançar mais de um candidato a prefeito. Foi o que ocorreu em Mossoró. O grupo Rosado, ainda aparentemente unido, lançou Dix-huit Rosado pelo PDS.

“Voto Camarão” e “Voto Cinturão”

Já o sistema Maia apresentou o jornalista Canindé Queiroz, pelo mesmo partido, para dar suporte à candidatura a governador do engenheiro e ex-prefeito indireto de Natal José Agripino Maia (PDS). Agripino venceu seu principal adversário, o ex-governador Aluízio Alves (PMDB), com mais de 107 mil votos de maioria no estado.

A chapa de oposição municipal mais forte contra os Rosados, com o professor João Batista Xavier (MDB) e Rogério Dias (MDB), foi cristianizada pelo próprio líder peemedebista e candidato a governador Aluízio Alves. Ele trabalhou para derrotá-la.

Vamos ao porquê: Aluízio recebia em troca o apoio do grupo Rosado e do líder Vingt Rosado (PSD), na tentativa de derrotar os Maias no estado. Vingt Rosado defendeu o denominado “Voto Camarão” (seu eleitor deixaria o voto a governador em branco, na cabeça da chapa).

Assim, o líder Rosado contribuiu indiretamente com a vitória do ex-adversário histórico Aluízio Alves, em Mossoró. Em troca, Alves deu apoio velado à eleição de Dix-huit – sucessão do prefeito Alcides Belo.

Os votos que João Batista-Rogério Dias tiveram foram reação dos aluizistas mais puros contra o “acordão” dos dois líderes (Aluízio e Vingt).

Importante ser assinalado, que a legislação eleitoral tinha dispositivo que tornava nula a chapa impressa de votação, caso o eleitor votasse em candidatos de outros partidos. Todos os votos teriam que ser para nomes de uma mesma legenda. Era o voto vinculante. Por isso, que a alternativa de Vingt e Aluízio para burlarem a norma foi essa manobra com Voto Camarão e o “Voto Cinturão” (eleitor de Aluízio deixaria em branco o voto a prefeito, que aparecia no meio da chapa).

Mossoró Melhor

Em meados de 2015, 33 anos depois, o movimento “Mossoró Melhor”, nascido pelas mãos dos empresários Michelson Frota, Tião Couto e Jorge do Rosário, foi um alento à mudança no ambiente político-familiar de Mossoró. Nenhum dos articuladores nunca estivera no front político.

A partir de discussões e articulações preliminares, além de pesquisas quantitativas e qualitativas, surgiu a chapa Tião (PSDB, hoje no PL) e Jorge (PL) em 2016, a prefeito e vice, que protagonizou prélio de verdade entre Rosados e não-Rosados, depois de décadas.

Mesmo imberbes em política e estreando numa campanha, tiveram desempenho que chegou a assustar o favoritismo de Rosalba e sua vice Nayara Gadelha (PP). Nas mesmas eleições ainda houve a boa performance do empresário Gutemberg Dias (PCdoB) e de sua vice Rayane Andrade (PT).

Eleições 2016

– Rosalba Ciarlini (PP) – 67.476 (51,12%)
– Tião Couto (PSDB) – 51.990 (39,39%)
– Gutemberg Dias (PCdoB) – 11.152 (8,45%)
– Josué Moreira (PSDC) –  1.370 (1,04%)
– Francisco José Júnior (PSD) – 602 (Votos inválidos)
– Branco – 2.974 (2,06%)
– Nulo – 9.416 (6,54%)
– Válidos – 131.988 (91,40%)
– Eleitores Aptos – 167.120
– Abstenção – 22.683 (13,59%)
– Maioria pró-Rosalba Ciarlini de 15.486 (11,73%).

Os números finais das eleições de 2016 revelam que o campo político da oposição deu uma resposta positiva aos principais nomes e chapas que se apresentaram como opção fora do eixo Rosado-Rosado. A maioria de Rosalba sobre Tião, segundo colocado à prefeitura, foi de 15.486 (11,73%).

Entre seus seguidores, a aposta no início da campanha é de que teria vitória acachapante acima dos 40 mil votos de maioria. Erraram feio.

Tião e Jorge em 2016 assustaram Rosados (Foto: arquivo)

Diferença deu mostras de que a família que brigou por mais de 30 anos não podia mais estar em palanques contendores, trocando farpas. Estão quase esgotados; trabalham por sobrevida.

O apogeu já passou.

Quando o clã Rosado resolveu se reagrupar, com todas suas diferenças e antipatias mútuas, o fez por uma questão de preservação da espécie e consciência de visível perda de força.

O que há de mais verdadeiro entre eles é uma sincera hipocrisia – repetimos há tempos.

Porém um racha nesse momento se repetiria como farsa. O jeito é se aguentarem.

Multidão silenciosa e maioria modesta

Mas descuida-se quem pensa que as eleições de 2016 passaram. Precisam ser melhor estudadas.

Um dado que passa despercebido à maioria, é que no cumulativo dos candidatos oposicionistas, em comparação com os 67.476 (51,12%) votos de Rosalba, o triunfo dela foi por apenas 2.362 votos. Em termos percentuais, 51,12% sobre 49,38%.

A soma de votos branco, nulo e abstenções chegou a 35.073 eleitores.

Uma multidão que ignorou nomes, partidos e a própria eleição. Não levou a sério Rosalba e deu as costas para os candidatos oposicionistas.

Uma massa silenciosa que não se sabe, hoje, que rumo poderá tomar em 4 de outubro de 2020 – data das próximas eleições municipais.

Leia também: Rosalba não pode perder; oposição não precisa ganhar;

Leia também: A mãe de todas as eleições para os Rosados;

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Categoria(s): Política / Reportagem Especial
terça-feira - 25/07/2017 - 10:30h
Eleições 2018

Tião caminha à disputa estadual desconectado da realidade

Ex-candidato a prefeito aparece como um bom nome, mas distante ainda de ser um bom candidato

O empresário e ex-candidato a prefeito de Mossoró em 2016 Tião Couto (PSDB) tem se mexido fora de Mossoró para ser o candidato do seu partido ao governo estadual no próximo ano. Peregrina da capital ao interior. Até aqui, Tião segue como um bom nome, mas não um bom candidato.

O simples fato de existir desgaste cumulativo e robusto da política tradicional, dos partidos e dos políticos, não o credencia a ocupar esse espaço como algo novo, alternativo e diferenciado. A administração estadual de Robinson Faria (PSD) reprovada popularmente, ajuda-o a marchar, sem que instantaneamente o faça favorito à sucessão no próximo ano.

Francisco José perdeu contato com a realidade; Tião marcha para nova disputa com mesmo pecado (Foto: Mossoró Notícias)

A própria votação cevada empalmada por ele na disputa à prefeitura – 51.990 (39,39%) votos -, não o credencia “naturalmente” à concorrência estadual.

Basta aprender com os erros crassos de avaliação de voto, cenário e conceitos sobre a política e os políticos, vivenciados pelo ex-prefeito Francisco José Júnior (PSD).

Em 4 de maio de 2014, Francisco José Júnior foi eleito à prefeitura em disputa suplementar, com 68.915 (53,31%) votos. Em outubro de 2016, quase dois anos e cinco meses depois, só foram contabilizados 602 votos válidos a seu favor, em face até de sua desistência pública de candidatura, por detectar falta de apoio popular ao seu nome.

Ativo frágil

Tratássemos do “voto” pela ótica das Ciências Econômicas, poderíamos afirmar com segurança que é o caso típico de um “ativo” frágil. Seria uma “moeda” flutuante, sujeita às volatilidades de riscos, conforme o momento ou externalidades referentes às eleições e à dinâmica da própria política.

Francisco José Júnior não entendeu, que o DNA dos seus votos excepcionais em 2014 guardava composição heterogênea, resultado de uma conjuntura particular e favorável a seu projeto. Vestiu-se de líder e assumiu para si o capital que de verdade não lhe pertencia no todo.

Dois dias após sua eleição, o Blog Carlos Santos traçou o código genético de seu triunfo e alertou-o. Fomos ignorados. Vaidade embaciou seus olhos. Já estava tomado por uma certeza: era um líder.

Os votos derivavam de sua surpreendente gestão interina na prefeitura; do impedimento à nova candidatura da prefeita eleita, cassada e afastada Cláudia Regina (DEM); de uma corrente histórica anti-Rosado/anti-oligarquia; do apoio maciço do eleitor da então governadora Rosalba Ciarlini (PP), que queria derrotar outra vez a deputada estadual Larissa Rosado (PSB) e da incerteza de legalidade da própria postulação da parlamentar adversária.

Sandálias do bom senso

Com Tião, tudo indica, acontece igual pecado de análise dos números e desconexão da realidade dos fatos e do contexto em que esteve envolvido. Empavona-se com uma atmosfera política pontual e com votação que pode ser avaliada sem maior esforço. Foram votos anti-rosalbismo, anti-Rosado, anti-união Rosado-Rosado e em favor do perfil que procurou representar como homem de sucesso.

Daí é precipitado acreditar, que os 51.990 (39,39%) votos que recebeu à prefeitura em 2016, fazem parte do seu patrimônio particular como político da nova safra. Precisa refazer contas, reavaliar cenário e calçar as sandálias do bom senso.

Francisco José Júnior em 2014 obteve numérica e percentualmente, a maior vitória eleitoral em disputa municipal em todos os tempos, superando a própria Rosalba Ciarlini que em 1996 atropelou Sandra Rosado (PSB, então no PMDB). Compreensível, em parte, seu delírio com o poder.

Votos, liderança e perdas

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Àquele ano de 1996, Rosalba Ciarlini (filiada ao PFL) teve 57.407 (52,64%) votos, botando maioria de 31.289 votos sobre a prima Sandra.

Em 4 de maio de 2014, o prefeito interino Francisco José Júnior foi mais além. Destroçou Larissa Rosado com a soma de 68.915 (53,31%), numa maioria de 31.862 sobre ela.

Sandra e Larissa Rosado deixaram a oposição sem "dono" (Foto: Arquivo do Blog Carlos Santos e Costa Branca News)

Para provar como voto é um bem instável e de difícil manutenção e multiplicação, o ex-prefeito Francisco José está aí vivo para contar o enredo pós-urnas. Se tiver um espasmo de humildade, pode até reconhecer pecados e que chegou a ser avisado sobre o fenômeno.

Estuário

Na prática, os votos da oposição não têm dono e não possuem referência desde que o grupo de Sandra Rosado capitulou, convertendo-se em “neorosalbista”. Podem crescer ou não, dependendo de vários fatores, como a gestão Rosalba. Até aqui, não há um estuário para esses eleitores.

O ex-prefeito sonha em retornar à política e sabe que precisará investir muito mais para obter outro mandato eletivo. Um detalhe: Francisco José Júnior venceu a primeira eleição a prefeito da qual participou. Tião, não.

São dois momentos distintos, dois personagens muito diferentes, claro. Porém não custa estudar a história e respeitar os ensinamentos que ela oferece. Os fatos estão aí.

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