domingo - 29/11/2020 - 10:14h

A negação da morte

Por Honório de Medeiros

Adolescente, recém-chegado a Natal, apaixonado por livros, não sabia por onde começar na biblioteca de minha tia, que me acolhera em seu apartamento lá pelo início da década de 70.

Li muito, ali. Alguns livros, várias vezes. Naquele tempo não havia celular, e a televisão ainda engatinhava.

Dia desses me perguntei quais daqueles livros, alguns ainda em minha posse, me marcaram. Não precisei procurar tanto nos desvãos já meio empoeirados da memória. Foram três, não tenho dúvida.

Igreja de São Jesus do Monte, Braga, Portugal, 2013 (Foto do autor)

Um deles é um clássico: O Meio é a Mensagem, de Marshall McLuhan. Na época, quando o li, não compreendi quase nada, mas o conceito de “Aldeia Global”, um meme de McLuhan, fixou residência definitiva em meu cérebro.

Outro foi um romance de Rabindranath Tagore, A Casa e o Mundo. Uma estória de amor vivida na Índia, escrito com uma sutileza incomum, e uma prosa densamente poética.

Mas o fundamental, aquele que me marcou para sempre, foi A Negação da Morte, de Ernest Becker, que ao autor valeu o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção Geral de 1974.

É traumatizante a leitura de A Negação da Morte para um adolescente, quase rapaz. Pelo menos para mim, foi.

Muito do que li, na primeira vez, também foi incompreensível. A custo, entretanto, de relê-lo, e ir em busca, na obra de Freud, que jazia completa nas estantes de minha tia à minha disposição, dos conceitos-chaves utilizados por Becker, terminei entendendo o núcleo de sua argumentação.

Platão põe na boca de Codro, no Banquete: “Supondo acaso que Alcestes… ou Aquiles… ou o próprio Codro teriam buscado a morte – afim de salvar o reino para seus filhos – se não tivessem esperado conquistar a memória imortal de sua virtude, pelo qual, em verdade os recordamos?”

Para Becker, é isso que há de fundamental no ser humano: o medo da morte. Esse receio, temor, medo, que está em cada um de nós desde o início, é o motor que nos impulsiona e a fonte de nossa permanente angústia.

Agimos, em consequência, para reprimir esse medo, construindo “mentiras vitais” que nos permitam enfrentá-lo sob a ilusão de imortalidade histórica, e explicam, assim, a conduta do homem.

Uma dessas condutas, a mais importante, é a ânsia por heroísmo, que em acontecendo, nos permita sobreviver na memória dos outros.

Creio, mas posso estar enganado, que Becker bebeu na fonte instigante de Sir Bertrand Russel que mina do seu Power: A New Social Analysis, onde ele expõe a teoria de que os acontecimentos sociais somente são plenamente explicáveis a partir da ideia de Poder.

Não algum Poder específico, como o Econômico, ou o Militar, ou mesmo o Político, mas o Poder com “P” maiúsculo, do qual todos os tipos são decorrentes, irredutíveis entre si, mas de igual importância para compreender a Sociedade.

A causa da existência da busca pelo Poder, para Russel, é a ânsia infinita de glória, inerente a todos os seres humanos. A glória de quem a alcança, essa “mentira vital”, que supostamente iludiria a morte, por sobreviver na memória dos homens.

Se o homem não ansiasse pela glória, não buscaria o Poder. Infinita é essa busca, posto que o desejo humano não conhece limites.

Essa ânsia de glória dificulta a cooperação social, já que cada um de nós anseia por impor, aos outros, como ela deveria ocorrer, e nos torna relutantes em admitir limitações ao nosso poder individual.

Como isso não é possível, surge a instabilidade e a violência. Em tempos mais modernos, nos quais a ideia de heroísmo e glória pessoal parece ultrapassada, foi substituída pela incessante busca por notoriedade.

Talvez haja uma forte distinção entre uma e outra, calcada no caráter moral. No primeiro caso parece haver o anseio de passar para a história pelos feitos realizados a partir de uma concepção do Bem, em oposição ao Mal. No segundo, as ações parecem determinadas puramente pelo narcisismo.

O certo é que Becker criou raízes fundas em mim, seja pelo impacto de uma teoria que tudo explicava no que diz respeito à conduta dos homens, seja pela angústia e prazer intensos que a tentativa de voar alto, nas coisas do espírito, originou. Nunca mais fui o mesmo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Artigo
domingo - 10/02/2019 - 07:24h

Da tentativa de voar alto nas coisas do espírito

Por Honório de Medeiros

Adolescente, recém-chegado a Natal, apaixonado por livros, não sabia por onde começar na biblioteca de minha tia, que me acolhera em seu apartamento lá pelos meados da década de 70.

Li muitos, ali. Alguns livros, várias vezes. Naquele tempo não havia celular, e a televisão engatinhava.

Dia desses me perguntei quais daqueles livros, alguns ainda em minha posse, hoje, me marcaram. Não precisei procurar tanto nos desvãos já meio empoeirados da memória. Foram três, não tenho dúvida.

Um deles é um clássico: “O Meio é a Mensagem”, de Marshall McLuhan. Na época, quando o li, não compreendi quase nada. Mas o conceito de “Aldeia Global”, um meme de McLuhan, fixou residência definitiva em meu cérebro.

Outro foi um romance de Rabindranath Tagore, “A Casa e o Mundo”. Uma estória de amor vivida na Índia, escrito com uma sutileza incomum, e uma prosa densamente poética.

Mas o fundamental, aquele que me marcou para sempre, foi “A Negação da Morte”, de Ernest Becker, que ao autor valeu o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção Geral de 1974.

É traumatizante a leitura de “A Negação da Morte” para um adolescente. Muito do que li, quando o peguei pela primeira vez, também me era incompreensível. A custo, entretanto, de relê-lo muitas vezes, no período, e ir em busca na obra de Freud, que jazia completa, nas estantes de minha tia, à minha disposição, dos conceitos-chaves utilizados por Becker, terminei entendendo o núcleo de sua argumentação.

Para Becker o que é há de fundamental no ser humano é o medo da morte.

Esse receio, temor, medo, que está em cada um de nós desde que construímos nossas primeiras noções, é o motor que nos impulsiona e a fonte de nossa permanente angústia. Agimos, em consequência, para reprimi-lo, construindo “mentiras vitais” que nos permitam enfrentar a morte sob a ilusão de permanência histórica e explicam, assim, a conduta do homem.

Uma delas, a mais importante, é a ânsia por heroísmo, que em acontecendo, nos permite sobreviver na memória dos outros.

Creio, mas posso estar enganado, que Becker bebeu na fonte instigante de Sir Bertrand Russel que mina do seu “Power: A New Social Analysis”, onde ele expõe a teoria de que os acontecimentos sociais somente são plenamente explicáveis a partir da ideia de Poder.

Não algum Poder específico, como o Econômico, ou o Militar, ou mesmo o Político, mas o Poder com “P” maiúsculo, do qual todas os tipos são decorrentes, irredutíveis entre si, mas de igual importância para compreender a Sociedade.

A causa da existência do Poder, para Russel, é a ânsia infinita de glória, inerente a todos os seres humanos.

Se o homem não ansiasse por glória, não buscaria o Poder. Infinita essa busca, posto que o desejo humano não conhece limites.

Essa ânsia de glória dificulta a cooperação social, já que cada um de nós anseia por impor, aos outros, como ela deveria ocorrer e nos torna relutantes em admitir limitações ao nosso poder individual.

Como isso não é possível surge a instabilidade e a violência.

Em tempos mais modernos, a incessante busca por notoriedade substituiu o impulso pelo heroísmo.

Talvez haja uma forte distinção entre uma e outra calcada no caráter ético.

Enquanto no primeiro caso as ações parecem determinadas pelo narcisismo, no segundo pode haver o anseio de passar para a história pelos feitos realizados em prol de uma ideia de Bem.

Ou será que a causa primeira nada mais seria que o narcisismo?

O certo é que Becker criou raízes fundas em mim, seja pelo impacto de uma teoria que tudo explicava, mas nada devia a mitologias, seja pela angústia e prazer intensos que a tentativa de voar alto, nas coisas do espírito, origina.

Nunca mais fui o mesmo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
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