domingo - 03/08/2025 - 08:50h

Seu Lula Nogueira

Por Honório de Medeiros

Reprodução de foto do autor da crônica

Reprodução de foto do autor da crônica

Ali e acolá, em livros que somente alguns leem, seja porque deliberadamente os procuram, seja por um desses acasos da vida, me deparo com seu nome.

Está posto em um pé-de-página, ou em algum parágrafo.

Recentemente, ao reler a literatura norte-rio-grandense acerca da saga lampiônica em Mossoró – Raul Fernandes e Raimundo Nonato da Silva – lá estava seu nome, “en passant”, como teria dito, trazendo expressões próprias do jogo de xadrez, que tanto amava, para o cotidiano.

Foi exatamente o jogo de xadrez que me levou a conhecê-lo. Eu e vários de minha geração, a quem ele pacientemente ensinou a jogar.

Tínhamos em torno dos oito anos e nosso mundo era muito simples: brincar no Colégio Diocesano, brincar no patamar da Igreja de São Vicente, brincar em casa nas raras vezes em que a rua nos era proibida.

Assim como brincar de aprender a jogar xadrez nas tardes provincianas de Mossoró, anos sessenta, na pequena casa onde Lula Nogueira – “Seu” Lula – vivia sozinho com o filho solteirão – uma figura misteriosa a quem quase nunca víamos e acerca de quem falávamos aos sussurros.

“Seu” Lula morava nessa casinha branca que tinha uma área de entrada diminuta, porta e janela dando imediatamente para a salinha de visita e jantar, ao mesmo tempo. Do lado esquerdo de quem entrava dois quartos: o primeiro, com janelão para a rua, era o seu; o outro, do filho.

A sala emendava com uma pequena cozinha dela separada por uma mureta onde pontificava um filtro de água de cerâmica e um varal de madeira de empilhar pratos, meio escondidos por um pano.

Tudo muito normal, tudo muito comum, não fosse uma mesa oficial de xadrez colocada perpendicularmente à janela da sala para aproveitar a luz do sol, na qual ficavam postados, desde sempre, livros e revistas argentinas acerca do jogo, além de majestosas e manuseadas peças tipo “Stauton”, para os embates enxadrísticos.

Embora possa lembrar de “Seu” Lula conversando na nossa rua, principalmente na roda de “Seu” Napoleão, onde o escutei, entre perplexo e admirado, certa vez, afirmar enfaticamente que somente morreria após a passagem do ano 2000, tais incursões eram raras.

Certo, mesmo, era passar em frente à sua casinha, fosse manhã ou tarde, e encontra-lo defronte ao tabuleiro de xadrez, mão esquerda com dedos polegar e indicador apoiando a cabeça, cigarro esquecido embora aceso entre os dedos médio e anular, enquanto a mão direita movia as peças para cima e para baixo, para um lado e para o outro, ou na diagonal, na tentativa de criar ou solucionar problemas enxadrísticos que já haviam lhe granjeado reputação nacional.

Podia, também, ser o caso de estar, simplesmente, reproduzindo uma partida de xadrez de grandes mestres internacionais.

Depois eu, como os outros, fui embora. O mundo nos esperava. Entretanto, nunca esquecemos – aqueles que fomos seus alunos – nosso professor de xadrez.

A ele ofereci, em silêncio, minha primeira medalha de ouro nos Jogos Estudantis do Rio Grande do Norte, disputando pela então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte.

Basta, ainda hoje, ver peças tipo “Stauton”, ou mesmo um tabuleiro oficial, que volto no tempo para aqueles dias já longínquos quando um menino magro, tímido, e um ancião de mãos nodosas, emoldurados pela claridade solar que ultrapassava a janela da sala e escandia a fumaça dos muitos cigarros fumados ou esquecidos, jogavam intermináveis partidas nas quais somente a profunda gentileza do professor impedia uma humilhação contínua ao aluno.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

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Categoria(s): Crônica
segunda-feira - 26/09/2022 - 07:40h
Orgulho potiguar

O engenheiro de Areia Branca que é a fera dos motores da Fórmula 1

Topo de matéria especial sobre engenheiro areia-branquense Jonas Cândido da Federação Internacional de Automobilismo - Fia - 26-09-2022 -Por Julianne Cerasoli (Do UOL)

Quando você escuta falar de um brasileiro na Fórmula 1, você deve imaginar Ayrton Senna e não Jonas Cândido. Não tem problema. Potiguar de sorriso fácil, mas muito tímido, ele não é de ficar se vangloriando do papel que tem na categoria mais importante do automobilismo mundial.

Jonas é o guardião dos segredos dos motores dos carros mais rápidos do mundo. De todos eles.

Ele nasceu na pequena Areia Branca, uma cidade de pouco mais de 25 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte, e se tornou a referência dentro da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para a parte mais complicada do motor que a categoria usa desde 2014.

Hoje, o engenheiro brasileiro é a ponte de contato entre quem faz as regras e as equipes.

“Metade do caminho entre Fortaleza e Natal. São 300 quilômetros de cada lado”. Areia Branca é vizinha a Mossoró e foi lá que Jonas Cândido morou até os 14 anos. Foi em Areia Branca, também, que nasceu o gosto pela F1 e pela matemática. “Lembro que, quando era pequeno, ia para a missa de manhã cedo e a gente tentava negociar com minha mãe para sair cinco minutos antes para não perder a largada”, conta.

Quando saiu da cidade em nasceu, Jonas foi para Natal estudar no Centro Federal de Educação Tecnológica, uma escola técnica. Quando terminou o Ensino Médio, entrou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sempre no ensino público, tinha sido aceito como estudante de engenharia. Na faculdade, conseguiu uma bolsa para fazer parte da graduação na França por meio do convênio CAPES-Brafitec. Foi a primeira vez que ele entrou em um avião na vida. Ao chegar, ainda pegou um trem “mais longo do que o quarteirão da minha rua lá em Areia Branca”.

“A gente só tinha quatro vagas para a UFRN. A seleção era baseada na entrevista, nas notas e no domínio do francês. Mas eu não falava nada. Dos quatro que foram, eu era o único que não falava. Mas me mandaram porque eu preenchia todos os outros requisitos.”

Olhando assim, parece que o brasileiro sempre esteve focado em chegar até a Fórmula 1, mas não foi bem isso.

“Quando estava terminando meu período na França, um professor me perguntou com que eu queria trabalhar. Disse que queria a F1, mas sabia que era impossível. Ele disse que eu tinha potencial para chegar lá. Até esse dia, para mim, era outro mundo”.

Jonas Cândido

Carro de Fórmula 1, máquina levada à grande exigência e com muita competitividade (Reprodução do UOL)

Carro de Fórmula 1, máquina levada à grande exigência e com muita competitividade (Reprodução do UOL)

A frase do professor mudou a cabeça de Jonas. O sonho passou deixou de ser impossível para virar apenas distante. De volta ao Brasil para terminar sua graduação, ele começou a pensar qual seria a melhor estratégia para chegar à categoria máxima do automobilismo.

Estamos falando de 2011 e a engenharia brasileira da Fórmula 1 tinha, sim, uma grande referência justamente na área de motores, que Jonas gostava. Ricardo Penteado também tinha ido estudar em Paris e, por meio da Renault Brasil, chegou ao Instituto do Petróleo da França, que no começo dos anos 2000 era o lugar para quem queria chegar à Fórmula 1 no país estudar. Da equipe de testes da Renault, Ricardo foi para o time de pista, e em 2011 tinha chegado à posição de líder da equipe que operava o motor Renault na Lotus.

Seguir o caminho de Ricardo Penteado parecia fazer todo o sentido, mas Jonas Cândido percebeu que o cenário estava mudando. Em 2014, a Fórmula 1 adotaria o V6 turbo híbrido, com um motor a combustão e dois sistemas de recuperação de energia. No lugar de tentar uma vaga no Instituto do Petróleo, ele se candidatou a um mestrado na Fundação Renault. “Era um mestrado profissionalizante na área de tração elétrica de carro elétrico. Eu sabia que a F1 ia mudar para um motor híbrido e eu gostava dessa área”.

No primeiro dia na nova aventura, ele pediu a uma das líderes do programa de mestrados que seu objetivo era chegar à F1. “Ela perguntou se eu estava sonhando, porque a Renault era um lugar muito fechado, que não pegava estagiário. Mas todo mês eu escrevia uma carta perguntando o que eu tinha que fazer, mas ela dizia que não tinha jeito. Depois de nove meses, a gente teve uma reunião em que todos os engenheiros podiam mostrar seus projetos, mas não apareceu ninguém da F1. Fiquei muito triste”.

Jonas resolveu, então, mudar de estratégia. Aproveitou as férias de dezembro para escutar todos os podcasts e vídeos que a Renault fazia, foi anotando os nomes dos profissionais que eram citados, deduzindo seus e-mails, e conseguiu a lista de contatos. Jonas conseguiu: tinha uma entrevista marcada.

“Eu lembro que estava nevando muito. O cara que ia fazer minha entrevista até falou na época que eu poderia ter algum problema de transporte por conta da neve, e eu disse a ele: ‘Nem que for de carroça, eu vou chegar lá!’. Deu tudo certo para chegar, tirando as duas horas que passei num frio do cão. Com sete minutos de entrevista, ele parou e disse que a vaga era minha. Lembro de ligar para a minha mãe, de voltar felizão no ônibus. Mas não fiz festa. O que eu tinha na cabeça era que, mesmo com todo o esforço para chegar naquele momento, tinha chegado a hora de começar a mostrar serviço de verdade”.

Jonas Cândido, sobre o dia 17 de fevereiro de 2012, quando completou 24 anos e conseguiu uma vaga na divisão de motores que o levaria para a F1.

 

Silverstone, onde o areia-branquense teve experiência inesquecível na Fórmula 1 (Reprodução da F1)

Silverstone, onde o areia-branquense teve experiência inesquecível na Fórmula 1 (Reprodução da F1)

Direto na fonte

No ano seguinte, Jonas teve sua primeira experiência trabalhando na pista, em Silverstone, circuito que sediou a primeira corrida da história da F1, e logo com a Red Bull, que dominava o esporte na época. “Foi fantástico, eu lembro como se fosse hoje. Eu sentado no meu lugar, esperando o teste começar, e o Sebastian [Vettel, então bicampeão mundial, a caminho do tri] veio apertar a minha mão. Hoje, é normal para a gente falar com os pilotos. No começo, eu ficava muito impressionado. Até hoje, quando entro na garagem da Red Bull, eu me lembro exatamente de onde estava sentado naquele dia e volta tudo na minha cabeça”.

Em 2014, Jonas trabalhou no time de pista da Toro Rosso (hoje AlphaTauri). Foi um ano importante para engenheiros como ele, que trabalham na parte híbrida. E principalmente para quem era da Renault, que não começou bem. “A gente teve muito perrengue. Teve um teste em que tivemos que trocar as baterias cinco vezes. Dava até vergonha de falar para os mecânicos que não estava funcionando. E teve uma corrida em que um abandono foi bem por causa de uma peça em que eu estava trabalhando. Nem quis ver o resto da corrida”.

“Quando o motor começou a funcionar pela primeira vez, foi como se eu tivesse tido um filho Era o meu bebê. E quando a peça começou a quebrar no banco de provas, eu não dormi por um mês e meio para resolver. Foi gás total, igual quando você estuda para o vestibular. E no final a gente conseguiu resolver.”

Seu trabalho chamou a atenção da FIA, que lhe fez uma proposta no final de 2018. Era a hora de Jonas sair do campo das equipes e ir trabalhar para quem faz as regras e é uma espécie de ‘polícia’ dos times.

Guardião de segredos

Trabalhando na federação como o principal engenheiro da parte híbrida do motor, Jonas se encontrou. “Não tem a emoção de pensar se você vai ganhar a corrida, não tem aquela vibração toda. Mas é um grande desafio do ponto de vista da engenharia porque cada equipe tem um exército de 1000 pessoas pensando, enquanto a gente tem de tentar prever o que eles estão buscando quando vêm fazer uma consulta conosco sobre o regulamento. A gente tem que saber o que está por trás de cada pergunta”.

Jonas fala da emoção de uma data em 2012 (Foto: arquivo pessoal)

Jonas fala da emoção de uma data em 2012 e a volta para casa, onde come baião de dois (Foto: arquivo pessoal)

Isso porque Jonas é o primeiro ponto de contato entre as equipes e a FIA para todas as questões relacionadas ao sistema híbrido. Então, se uma equipe descobriu algo novo e quer consultar a FIA para entender se isso está dentro do regulamento, é na porta de Jonas que eles batem. E também quando uma equipe quer reclamar de algo irregular que acredita que um rival está fazendo, ele é a primeira pessoa que vai fazer essa avaliação.

Recentemente, Jonas teve muito trabalho fechando com as equipes o regulamento das unidades de potência de 2026. Com cada montadora tentando obter vantagens, as reuniões para fechar o pacote de regras anunciado em agosto se estenderam por mais de um ano.

Com tanto conhecimento, é natural que Jonas seja procurado pelas próprias equipes para mudar de lado novamente. Isso aconteceu por exemplo com Laurent Mekies, que estava sendo preparado para ser o substituto do diretor de prova Charlie Whiting na FIA, mas decidiu ir para a Ferrari dirigir o time de corrida. O know-how de Jonas é valioso principalmente agora que as montadoras já estão se debruçando no projeto do motor de 2026, que vai ter ainda mais potência vinda da recuperação de energia elétrica.

Mas ele percebeu que gosta mesmo é de ter essa visão global que só é possível trabalhando para a federação. “Em dezembro, você já sabe o que todo mundo vai estar falando em fevereiro. Quando você está em um time, só consegue ver o seu sistema. Na FIA, você vê tudo o que está acontecendo. É outro ponto de vista. Além disso, o networking é gigantesco, porque a FIA não é só F1”.

Da escola pública à F1

A trajetória de Jonas parece incrível, mas se repetiu. Leonardo da Silva, hoje estrategista na Mercedes, se destacou na escola pública em Patos de Minas e conseguiu uma bolsa de estudos em uma escola particular. De lá, fez sua graduação na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e, também por meio de um convênio, foi estudar na École Polytechnique em Paris, sem falar uma palavra de francês.

Leonardo foi outro que encheu a caixa de e-mail de pessoas que trabalhavam na Fórmula 1 até conseguir uma entrevista na Mercedes, onde o chefe de estratégia, James Vowles, o pinçou para sua equipe. E o resto é história: ele ficou conhecido no Brasil quando subiu ao pódio para representar a Mercedes na vitória maiúscula de Lewis Hamilton no GP de São Paulo do ano passado.

As coincidências entre os dois não ficaram só na formação. Leonardo da Silva já levou pamonha escondida na bagagem para ficar com menos saudade de casa. Jonas também. “Tudo o que é de milho e que a gente não encontra em Paris, eu levo. Já levei canjica, pamonha, aqueles flocões de milho. Na época da faculdade, eu comia tanto daquilo que até fiquei com medo do meu sangue ficar amarelo”, se diverte o potiguar.

Jonas só não conseguiu recriar duas coisas na Europa. Uma é o clima do São João. A outra, o baião de dois que Erian, que ajudou por muitos anos sua mãe, Neide, a cuidar da casa enquanto ela vendia lanche no mercado municipal de Areia Branca, faz quando ele volta à sua cidade. “Nos primeiros dias quando eu volto, não quero saber de carne, não quero comer mais nada. Em nenhum lugar eu fico tão feliz ao comer um baião de dois quanto em casa.”

O rapaz de sorriso espontâneo, mas tímido, posa ao lado de carros da Fórmula 1 (Foto: edição do UOL)

O rapaz de sorriso espontâneo, mas tímido, posa ao lado de carros da Fórmula 1 (Foto: edição do UOL)

Nota do Canal BCS (Blog Carlos Santos) – Que história emocionante a gente tem o prazer de reproduzir e, também, se encantar. Que outros Jonas possam frutificar com o ensino público, para que ele não seja exceção, mas o comum. Amém!

*Reportagem publicada dia 24 de setembro último.

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domingo - 10/11/2019 - 07:48h
Conversando com... Gutemberg Dias

Economia do RN pode ser retomada com indústria petrolífera

Por Sandra Monteiro (Agência .COM Comunicação)

Gutemberg Dias é dirigente da Associação Redepetro/RN. Está à frente de um dos mais importantes eventos da área econômica do RN, com amplitude além das fronteiras do estado. É o Mossoró Oil & Gas Expo, que acontecerá entre os dias 26, 27 e 28 no Expocenter.

Dias possui Mestrado em Recursos Naturais pela Universidade do Estado do RN (UERN), graduação em Geografia também por essa instituição e curso técnico em Geologia pela antiga Escola Técnica Federal do RN (ETFRN).

É atualmente é Diretor Executivo da empresa Projetos Geológicos Ltda (PROGEL), Conselheiro do Conselho Curador da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ) e professor assistente na Uern. Tem experiência na área técnica em Geociências, com ênfase em geologia e geografia, atuando principalmente nos seguintes temas: meio ambiente, prospecção geológica de rochas carbonáticas, geoprocessamento, geografia urbana e geografia da saúde. Na área administrativa tem experiência em gestão de negócios e planejamento estratégico.

Nessa entrevista, o bate-papo com ele está focado no Mossoró Oil & Gas Expo. Em sua ótica, “2020 será o marco para essa retomada da produção” petrolífera em terra.

Gutemberg Dias aponta números iniciais da retomada de investimentos no setor no RN (Foto: Marcelo Bento)

Por que 2020 é considerado por especialistas o ano da virada da produção de petróleo e gás em terra (onshore) no Brasil?

Gutemberg Dias – O Ministério de Minas e Energia lançou, dia 22 de agosto deste ano, em Brasília, o Reate 2020, que é o Programa de Revitalização das Atividades de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural em Áreas Terrestres (REATE). No lastro do Reate 2020, a meta do governo é quase duplicar a produção onshore (em terra) no país, dos atuais 270 mil barris de óleo equivalente por dia para 500 mil barris até 2030. Essa meta pode ser atingida, e acredita-se que até em menos tempo. E 2020 será o marco para essa retomada, para a virada do onshore. Sem contar que existe uma convergência muito forte de todo o setor.

Mas, 2020 já se avizinha. Existem ações práticas nesse sentido?

Gutemberg Dias – Sim, e exemplifico o Rio Grande do Norte, outrora líder nacional da produção onshore, que está sendo protagonista para essa retomada. A mudança já começou, novas empresas estão entrando no Estado em duas frentes: uma é a partir das aquisições dos ativos da Petrobras em função do programa de desinvestimento dela, no Projeto Topázio. A outra, é a partir da aquisição de blocos exploratórios por empresas em leilão da Oferta Permanente da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Poderia detalhar um pouco esses negócios?

Gutemberg Dias – Na venda dos ativos da Petrobras no Estado, o Polo Riacho da Forquilha, na Região Oeste, foi comprado pela Potiguar E&P, dia 31 de maio de 2019; o Polo Macau foi adquirido pela SPE 3R Petroleum, dia 9 de agosto deste ano, e os campos Ponta do Mel e Redonda foi comprado pela Central Resources do Brasil Produção de Petróleo Ltda., mais recentemente. Já no leilão da Oferta Permanente da  ANP, 19 blocos no Rio Grande do Norte foram arrematados pela Phoenix, Geopark, Imetame e Petro-Victory, último dia 10 de setembro. E outras áreas na bacia potiguar deverão ser arrematadas em novos leilões, que a ANP já está preparando. Ainda, destaco a venda do polo de Fazenda Belém, no estado do Ceará, que já está fase vinculante, ou seja, esperando apenas o aporte financeiro do comprador para fechamento do negócio por parte da Petrobras.

Na prática, o que essa movimentação pode produzir para o Rio Grande do Norte?

Gutemberg Dias – Com essas políticas de incentivo, nossa produção poderá dobrar nos próximos cinco anos, garantindo a retomada da economia do estado, a partir da indústria petrolífera. E isso é algo extremamente necessário, porque no passado chegamos a produzir mais de 100 mil barris/dia e hoje nossa produção é menos da metade, ou seja, 38 mil barris. É um cenário muito promissor para o Rio Grande do Norte e, sobretudo, para a cadeia de fornecimento, que vem sofrendo bastante nos últimos quatro anos. Um dado importante que merece muita atenção é o volume de recursos que serão aplicados nos próximos anos que superarão 1 bilhão de reais.

Dias: Reate reforça trabalho (Foto: Marcelo Bento)

Então, será em um momento bem oportuno que Mossoró receberá o maior evento do onshore do país…

Gutemberg Dias – Não tenho dúvida. Toda a cadeia onshore está mobilizada e, certamente, estará em Mossoró para esse evento que é genuinamente potiguar. O Mossoró Oil & Gas Expo, será realizado dias 26 e 27 deste mês, no Expocenter e é uma parceria da Redepetro RN e SEBRAE. Posso afirmar que é um evento estratégico para o onshore brasileiro. Nele, será apresentado o Plano de Ações do Reate 2020. Esse plano foi concluído na última reunião nacional do Reate, em Vitória (ES), da qual também participamos.

Qual a dimensão desse evento?

Gutemberg Dias – O Mossoró Oil & Gas – IV Fórum Onshore Potiguar mobilizará aproximadamente 150 reuniões de negócios, 80 estandes de empresas, mil visitantes, e ainda programação científica e conferências. Mais informações podem ser obtidas no site do evento (//mossorooilgas.com.br/). Para se ter ideia da relevância desse evento, todos os estandes já foram negociados e hoje já podemos dizer que é a maior feira de negócios de Mossoró e a maior feira de petróleo onshore do Brasil.

E em termos de emprego, o que essa virada do onshore representa para o Rio Grande do Norte e, especialmente, para a região de Mossoró, que tantas vagas no segmento perdeu nos últimos anos?

Gutemberg Dias – Quanto mais se produz óleo, mais se demanda mão de obra. Um recente levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo (ABESPETRO) mostra que, para cada emprego gerado direto na indústria do petróleo, outros dois são induzidos na cadeia de fornecimento e mais oito postos são gerados pelo efeito renda. Isso em um cenário em que os salários na indústria petrolífera chegam a ser três vezes maiores que os demais segmentos industriais. Portanto, é inegável a importância do reaquecimento do setor para o emprego e a economia da região. Mossoró já começou a sentir esse reaquecimento, com a chegada da Potiguar E&P empresas fornecedoras da cadeia já iniciaram novas contratações para atender as demandas, um exemplo claro é minha empresa que ampliou recentemente cinco novos postos de trabalho.

É um momento como há alguns anos não se via no setor…

Gutemberg Dias – Todo esse contexto cria a ambiência favorável, que há tempos a cadeia produtiva de petróleo e gás ansiava. Para esse setor, é a garantia de geração de novos negócios e, consequentemente, retomada do processo de contratação de pessoal especializado e reaquecimento da economia de um modo geral, já que grande parte das compras dessas empresas será de forma localizada. E a Associação Redepetro RN vem participando ativamente desse processo, presente em reuniões, visitas técnicas, lançamentos, enfim, em todos os eventos relacionados, acompanhando de perto toda a movimentação. Por estar in loco, ouvindo autoridades, especialistas e empresários, posso garantir que todo o segmento considera 2020 o ano da virada do onshore brasileiro.

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domingo - 31/12/2017 - 03:52h

Política, xadrez e futebol

Por Honório de Medeiros

Cheguei em Natal, vindo de Mossoró, para estudar, em 1974. Escolhi, depois de alguma hesitação, a antiga Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN), e não o Marista, para onde foram meus amigos de infância. Na Etfrn dei três passos no rumo do que seria onipresente em minha vida, de uma forma ou de outra: escrever e ser lido, mesmo que por (muito) poucos, o jogo de xadrez, e a política.

Na Etfrn eu e Rui Lopes criamos o jornal mural “A Capa”, sucesso entre os alunos, que causou alguns incômodos à administração da imensa figura humana que foi o Professor Arnaldo Arsênio por sua postura, digamos assim, meio inconformista, ao ponto de sermos chamados a seu gabinete para uma “admoestação” carinhosa.

Fui, também, para meu orgulho, Presidente do Centro Cívico Escolar Nilo Peçanha, o que me introduziu na política estudantil.

Naquela época, plena ditadura, implantamos na Etfrn uma experiência inédita: debate direto entre a direção e os alunos realizado sempre no Ginásio de Esportes, o que me levou a ser convidado pelo Padre Sabino Gentilli para dar uma palestra aos colegas do Salesiano.

O primeiro deles foi exatamente com o Professor Arnaldo Arsênio.

Por outro lado representei, após o maior enxadrista norte riograndense de todos os tempos, Máximo Macedo, as cores da Etfrn nos disputadíssimos Jogos Estudantis do Rio Grande do Norte, o JERNS, com Alexandre Macedo, e sua hegemonia de nove anos obtendo a medalha de ouro.

Naquele ano, 1975, conseguimos acrescentar a décima medalha de ouro consecutiva à coleção da Escola.

Ironia do destino: no ano seguinte quebramos, eu e Gilson Ricardo de Medeiros Pereira, outro depois notável enxadrista potiguar, a hegemonia da Etfrn, e a conseguimos para o Winston Churchill, creio que sua primeira medalha de ouro no xadrez.

Gilson Ricardo, eu, Maurício Noronha, Wilson Roberto, Dilermando Jucá, João Maria “Tarrasch” e Jairo Lima constituíamos a turma mais jovem que frequentava o P4BR Clube de Xadrez, de saudosa memória, do qual cheguei a presidente.

Funcionava no último andar do Edifício Barão do Rio Branco, no mesmo andar onde Manxa, excepcional artista plástico do nosso Estado, tinha seu estúdio, e, assim como nós, invadia as madrugadas nos dias-de-semana e sábados até a hora de irmos embora a pé, sem medo de absolutamente nada, por uma Natal adormecida.

Tigran Petrosian (Foto: Web)

Conversávamos muito, na época, acerca de xadrez: seus jogadores do passado, os grandes feitos, a história do esporte/arte, a situação local, quais torneios participaríamos, mas o importante mesmo era discutir a grande questão: a qual estilo nós, individualmente, nos filiávamos: seríamos posicionais ou táticos? Privilegiávamos a defesa ou o ataque?

Quem defendia o estilo posicional tinha, como ídolo, Tigran Petrosian; quem assumia o tático incensava Mikhail Tahl. Ambos eram, se podemos dizer assim, os maiores representantes de cada um dos estilos, segundo o entendimento dos estudiosos do assunto.

Hoje sei que eu, mesmo mediocremente, poderia ser considerado um jogador de estilo posicional, aos moldes de Petrosian, apesar de todas as limitações que um amador ingênuo possa ter. Cheguei a essa conclusão muito mais pelas características da personalidade de Petrosian que, propriamente pelo seu belo e estranho estilo de jogar.

O “insight” veio quando li uma frase por ele proferida em algum momento de sua vida: “Em meu estilo, como em um espelho, está refletido meu caráter”.

Caráter não enquanto moral, mas, sim, como forma-de-ser, muito embora Petrosian fosse muito respeitado por sua dignidade e postura.

De fato seu xadrez era cauteloso, prudente, posicional, defensivo. Mas ele não via o seu estilo defensivo como passivo. Nós dizíamos, no nosso tempo, que ele parecia uma jiboia: envolvia progressivamente seu oponente, e ia triturando-o lentamente, deixando-o sem espaço e, cada vez mais sem opções de jogada, até o arremate final.

Um dos grandes feitos de Petrosian, interromper uma sequência de dezenove partidas ininterruptas de Bobby Fischer em seu auge, originou um precioso comentário do gênio americano em seu My 60 Memorable Games: “Eu estava pasmado no transcorrer do jogo. Cada vez que Petrosian conseguia uma boa posição, ele manobrava para obter uma melhor”.

Petrosian dera um nó no gênio Bobby Fischer! Quando Petrosian derrotou Botvinnik, ganhando o título mundial, este comentou assim o feito: “Petrosian possui um talento único em xadrez. (…) Mas enquanto Tahl tentava alcançar posições dinâmicas, Petrosian criava posições nas quais os eventos se desenvolviam em câmara lenta. É difícil atacar suas peças: as peças atacantes só avançam lentamente, atoladas no pântano que cerca o campo das peças de Petrosian.”

Ou seja, para Petrossian, o primordial era primeiro defender, para depois atacar; enquanto que para Tahl, o ataque era a melhor defesa.

Pois bem, ao longo dos anos, canhestramente, passei a crer que Petrosian tinha razão quando disse que o jogo de xadrez refletia a forma-de-ser de cada jogador. E, ousadamente, ampliei o espectro do alcance de sua teoria: estou convicto que qualquer esporte reflete as características pessoais dos jogadores quando de sua atuação, desde o xadrez até o futebol, passando por pôquer ou pelas artes marciais.

E creio, hoje, que no futebol, por exemplo, estão presentes as duas escolas tradicionais do xadrez, como reflexo da personalidade de seus protagonistas, principalmente os técnicos, quais sejam a posicional e a tática, a postura centrada na defesa, e a postura centrada no ataque.

Com base em Anatol Rapoport, o psicólogo e matemático americano nascido russo, em seu famoso livro de 1960, “Fights, Games, and Debates”, que entende que os princípios que norteiam sua “teoria dos conflitos” se estende, por exemplo, aos debates, vou ainda mais longe: podemos perceber a existência desses dois estilos até mesmo na política.

É o caso, por exemplo, de Tite e Guardiola, no futebol, e de Tancredo Neves e Leonel Brizola, na política. Tudo isso, claro, convicto de que na realidade não há nunca somente preto e branco. Há os infinitos matizes do cinza…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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