domingo - 15/05/2022 - 09:18h

O pensador italiano

Por Marcelo Alves

Norberto Bobbio (1909-2004) foi, na segunda metade do século passado e já entrando neste nosso século XXI, um dos mais badalados pensadores políticos – militando, portanto, para além do conjunto dos “juristas” – da sua Itália e do mundo afora, incluindo o Brasil.

Foto do Corriere Della Sera

Foto do Corriere Della Sera

Bobbio nasceu em Turim, no rico norte da Itália, em uma família de classe média alta. Teve infância confortável e adolescência culta. Estudou na sua cidade. Ensino básico, médio e superior. Foi fascista na juventude (como, de resto, quase todos da sua geração em seu país). Mas, durante a 2ª Guerra, rompeu com a turma de Mussolini (1883-1945) e chegou até a ser preso. Sua praia era a filosofia do direito e, mais amplamente, a filosofia e a ciência política. Foi aluno de Gioele Solari (1872-1952) e influenciado por Pareto (1848-1923) e Kelsen (1881-1973).

Foi professor nas universidades de Camerino, Siena, Pádua e, finalmente, na sua alma mater de Turim. Tornou-se um homem de centro-esquerda. Um socialista crítico. E também um positivista no direito, sobretudo no sentido “positivo” dessa expressão (e me desculpem o jogo de palavras), como estudioso dessa teia de conceitos e termos que formam a ciência jurídica.

Escreveu muitíssimos livros e outros riscados. E recebeu distinções mundo afora, entre prêmios e doutorados honoris causa. Foi até senador vitalício da Itália. Faleceu honrado, quase centenário, na sua Turim.

Eu sempre simpatizei com o Bobbio defensor do estado democrático de direito. Defensor de uma democracia social e liberal (é possível, sim) e crítico dos exageros à direita ou à esquerda. Aquele de “A era dos direitos”, “Liberalismo e democracia”, “A teoria das formas de Governo”, “Direita e esquerda”, “O futuro da democracia” etc.

Posso estar enganado em tema tão caro a Bobbio, mas penso que foi a partir de um verbete do seu “Dicionário de Política” (Editora Universidade de Brasília, 1986) que descobri a diferença entre um sistema de igualdade formal, em que todos os benefícios ou encargos são distribuídos em partes iguais por todos, “o princípio aristotélico da Igualdade numérica – ‘serem igual e identicamente tratados no número e volume das coisas recebidas’ (Política, 1301 b) –, aplicado a tudo quanto cada um deve receber ou renunciar”, e um sistema de igualdade material, que deve superar essa igualdade aritmética para chegar à igualdade substancial, nivelando de forma relativa os homens, por meio de uma legislação que, tratando de modo distinto situações distintas, procura aplicar medidas aptas a evitar as desigualdades naturais, em prol dos hipossuficientes, sob os pontos de vista individual e social. Entre essas duas igualdades, à moda também de um Rawls (1921-2002), fico com a segunda.

Também sou admirador do homem preocupado com as obrigações do intelectual para com a política e a sociedade, como Bobbio fez em vida e expõe no seu livro “Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea” (Editora Unesp, 1997).

Todavia, o que mais me impressiona em Bobbio é outra coisa. Algo que vai além do conteúdo mesmo da sua produção escrita, que, em termos de quantidade, é enorme. Ele e seus livros foram e são muito populares na Itália e fora dela, incluindo o Brasil. E a razão é simples para mim: poucos tiveram a capacidade de tratar de temas tão complexos de forma tão clara e com um poder de síntese tão necessário como Norberto Bobbio.

Peguemos aqui o mais árido dos amores de Bobbio: o positivismo jurídico, especialmente como método analítico de estudo dos conceitos e termos que formam a ciência jurídica, como já dito. Tenho em mãos “Teoria da norma jurídica” (EDIPRO, 2005), “Teoria do ordenamento jurídico” (Editora Universidade de Brasília, 1999) e a síntese da síntese “O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito” (Ícone Editora, 1995), livro no qual, sobretudo na sua segunda parte (a primeira é dedicada à história do positivismo jurídico), ele funde os dois primeiros.

E é deste último livro que retiro uma suma de Bobbio com a qual muito me identifico: “dos três aspectos nos quais se pode distinguir o positivismo jurídico, me disponho a acolher totalmente o método; no que diz respeito à teoria, aceitarei o positivismo em sentido amplo e repelirei o positivismo em sentido estrito; no que concerne à ideologia, embora seja contrário à versão forte do positivismo ético, sou favorável, em tempos normais, à versão fraca, ou positivismo moderado”.

Admiro tanto Bobbio que ando até fazendo umas maluquices. Os livros acima citados, já com a intenção de escrever este texto, eu os comprei dia desses em um sebo da Cidade Alta. Todos seminovos e baratinhos. Menos de dez reais cada. O problema é que eu já os tinha, até na mesma edição. E isso não é coisa de pensador, seja italiano ou brasileiro. É coisa de bibliófilo fuleiro.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador regional da República e doutor em direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
domingo - 20/03/2022 - 10:06h

Tou nem aí

Por Marcelo Alves

Na pandemia, afastado de certas atividades por razões sanitárias, tenho aproveitado o tempo para estudar línguas. Refiz o francês na Aliança de Natal. Comecei o alemão no Senac e, nesta escola, agora reestudo o italiano. Esse tempo dedicado a línguas é um dos poucos efeitos colaterais positivos da peste. Ou, sendo realista, é uma forma de fazer do limão uma limonada.Le tigre di Mompracem - Livro em italiano de Emilio Salgari

O fato é que, estes dias, estudante, saí em busca de livros de italiano. Não precisei ir longe. Num dos sebos da Cidade Alta, já topei com coisas que me satisfizeram. Entre elas, uma edição do romance de aventuras “Le tigre di Mompracem” (Editrice Bosqui, 1967), de Emilio Salgari (1862-1912). Capa dura, seminovo e por 1 real. Acreditem.

Emilio Salgari, italiano de Verona, falecido em Torino, foi um autor bastante prolífico. Para lá de 200 títulos se contarmos os seus contos. Romance de aventuras era o seu forte. Coisas em terras distantes e exóticas. Os ciclos dos romances dos “Piratas da Malásia” e dos “Corsários das Antilhas” são os mais badalados. Fez sucesso em vida. Foi imitado postumamente. Inspirou aventureiros. Foi bater no cinema e na TV um sem-número de vezes. Salgari foi e é pop.

Le tigre di Mompracem”, entre nós “O tigre da Malásia”, é um de seus romances mais cotados. O ano é 1849, está-se na Malásia, e a estória gira em torno do nobre Sandokan (o líder dos Tigres de Mompracem, piratas que lutam contra o terrível poder colonial), seu fiel amigo português Yanez de Gomera e a desejada Lady Marianna Guillonk, a pérola de Labuan. Poder, lutas e uma bela mulher se misturam. O que não faltam são aventuras.

Dito isso, aproveito para fazer algumas observações.

O primeiro livro de fôlego que li em inglês foi um romance de aventuras misturado com ficção científica (um “roman d’anticipation”, diriam os franceses): “Journey to the Center of the Earth”, tradução de “Voyage au centre de la Terre” (1864), de Jules Verne (1828-1905). Tenho certeza de que a sua linguagem simples e divertida, para jovens ou leitores casuais, ainda mais facilitada porque já traduzida para outra língua, produziu enormes ganhos para o meu inglês. Foi fundamental. E também por isso estou lendo agora “Le tigre”.

É verdade que Emilio Salgari, sucesso de público, traduzido para não sei quantas línguas, é muitas vezes esnobado pela “crítica”. No guia “Tutto Letteratura Italiana” (De Agostine Editore, 2005), não encontrei palavra sobre ele. Só fui achar no manual “Gli spilli fissano le idee – Letteratura Italiana 3” (Edizione Alpha Test, 2016), no tópico sobre a literatura para jovens logo após a Unificação italiana, com as seguintes observações – “autor de numerosos contos e romances de aventura: é célebre o ciclo dos corsários (Il corsaro nero, La regina dei Caraibi) e aquele dos piratas da Malásia (Le tigre di Mompracem, I pirati della Malesia, Sandokan alla riscossa). As narrativas, com um estilo fantasioso mas convincente, celebram os valores imortais da honra, da amizade e da defesa dos mais fracos”.

Há nesse esquecimento um bocado de inveja, por não ser ele, Salgari, um “escritor para escritores”, mas, sim, um escritor para o grande público. Ele escrevia aventuras. Romances para jovens. Vendia muito, claro. E tem preconceito, à maneira como se dá com a literatura detetivesca, do tipo Agatha Christie & Cia., por supostamente não se tratar de “alta” literatura.

Bullshit”, diria, em inglês. Parafraseando uma ideia do nosso Geir Campos (1924-1999), em “O que é tradução” (Brasiliense, 1986), lembro, por exemplo, que uma versão do Hamlet, de Shakespeare, em versos, como era de estilo no teatro do seu tempo, com as palavras e expressões de então, mesmo com notas de pé de página, apenas será útil para “um estudo universitário do teatro ou da linguagem ou dos costumes da Inglaterra seiscentista”.

De resto, ela é hoje quase ininteligível. Uma versão em prosa, com as mesmas informações adicionais, melhoraria um tiquinho a coisa.

Mas só uma versão “em linguagem bastante fluente, com as indispensáveis informações adicionais inseridas nas falas dos personagens, a fim de facilitar o entendimento” de quem for ver, ouvir ou ler o Hamlet, seria a ideal, tanto para os fins teatrais de hoje como para o aprendizado da língua ora falada na Ilha Britânia. Partindo daí, afirmo que cada texto – ou literatura – tem o seu objetivo. E alguns visam apenas entreter, divertir e o fazem com grande qualidade.

Em assim sendo, tou nem aí para a crítica. Salgari e o seu Tigre cumprem muito bem as suas funções. Italiano bom e divertido de ler e aprender. E me custaram apenas 1 real.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KLC

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