“Ou progredimos ou desapareceremos.”
Euclides da Cunha
Jornalismo com Opinião
“Ou progredimos ou desapareceremos.”
Euclides da Cunha
Por François Silvestre
Onde fica o Sertão? Ou melhor, onde estão suas fronteiras? Ou o Sertão é só pergunta, onde não mora nenhuma resposta!?
Em Guimarães Rosa o Sertão é linguagem. Fosse ele um pintor, seria o Salvador Dali daqui. Fritaria ovos no sol, antes da gema chegar à frigideira.
Câmara Cascudo vasculhou hábitos, alimentos, apetrechos, locas onde se esconde o destino das tradições e superstições. Mas fez isso também na urbe. Seu interesse era o cotidiano, no mato ou na praça.
Oswaldo Lamartine faz um mapa dos caminhos na crueza da pedra. Seu texto, original e único, é um ferro de ribeira em brasa a marcar o couro cru. Deixando na impressão da leitura um ferro nas ancas, informando ao retirante o dono da rês. Isso eu já disse, noutro texto antigo. Oswaldo é uma catingueira; suave e seca, pouca fronda e muita sombra. O Sertão se aboleta nos desvios dos seus sóis.
Ariano Suassuna faz, na literatura, um plágio universal na colheita do jeito sertão de ser. Com um lençol de apanhar algodão ele foi colhendo gente e jeito, na África e Ibéria. Depois teceu, num tear engenhoso, uma manta para agasalhar informes da cultura do seu povo.
O encontro literário de Pipa, ação merecedora de aplauso e apoio, tocada por Dácio Galvão, teria sua presença. Tudo confirmado, mas não contaram com o gesto inevitável e traiçoeiro da Moça Caetana. Ficou, para Dácio e sua obra meritória, esse “gosto ardido no peito”, como diria Luiz Carrlos Guimarães. Mesmo assim e apesar disso, Pipa é um marco na vida cultural do Rio Grande do Norte. Parabéns a Dácio Galvão.
Rui Facó fez do seu texto uma denúncia. Pôs o Sertão apontando o dedo na ferida da exploração e sacanagem do poder. É o Sertão discursivo e militante, impaciente e cobrador.
Euclides da Cunha, ídolo ímpar de Ariano, mexeu num cipoal de questões e dúvidas. O próprio Suassuna reconhece valor literário em Machado de Assis que Euclides não alcança, mas faz a ressalva de que Euclides é muito mais monumental na arte das letras edificada como marco trágico do povo.
Mas o texto presente apenas tenta descobrir a ausência do Sertão. Onde ele não existe. Posto que, é aí onde ele está.
E dado o direito de cada um buscar o seu sertão; o meu não está onde está, pois o seu endereço é o nunca. Nem os carteiros da China, sob o comando de Castilho da Redinha, conseguirão localizar a morada das grotas.
Descobre-se meu Sertão nas perdas que se escondem nas pedras dos cardeiros. Fernando Torre, da Maravilha, de antes tempos. Tarcísio Caldas, de Viçosa, brincador da vida. Felipe de Floresta do Navio, de sempre. Júnior Targino, do Cangaíra, hoje. Severino Ramos, da Serra Nova, de agora. Bode Lira, da Pedra Rajada, de manhã. Baíto, tão depressa quanto o gol. Décio Holanda, de Uruaçu, tarde e noite.
O meu Sertão é mais tempo do que espaço. Mais gente do que mormaço. Mais dor do que festa. Mais cerveja do que ressaca.
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“Não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora.”
Euclides da Cunha
Por François Silvestre
A palavra favela é de origem botânica, e dá nome a um arbusto existente na caatinga, da região Nordeste do Brasil. Presente em todos os Estados desta região.
Bastante conhecida dos combatentes do Exército na inglória e desumana luta contra os tabaréus de Canudos. Assim definiu Euclides da Cunha a coreografia daquele ambiente: “Uma elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o Arraial de canudos”.
Quando os sobreviventes da matança que dizimou aquele Arraial voltaram para a Capital da República, não receberam o prêmio prometido. Ou os prêmios. Um deles fora a promessa de moradias dignas. Mas o governo já nascera mentiroso, daquele aos tempos de hoje.
Conseguiram com o Ministério da Guerra uma autorização precária para a edificação de barracos no Morro da Providência. E o aglomerado foi subindo, enquanto a dignidade ia baixando. Os moradores começaram a observar semelhanças entre aquela encosta com o Morro da Favela, lá de Canudos.
Daí para dar-lhe o mesmo nome foi só uma comparação, quase metafórica. Em vez de faveleiras, barracos. No lugar de tatus, veados e juritis, comuns na caatinga, farrapos humanos. Estava ali, a rememorar atrocidades e mentiras oficiais, o Morro da Favela, transferido do sertão nordestino para a beira do mar carioca.
Canudos nunca foi vencido nos embates internos. Foi destruído, dizimado, de fora para dentro. Lá, na sua capilaridade, ninguém derrotou Canudos. Nos arredores de suas tocaias, no emaranhado dos seus becos e toscas ruas, Canudos era invencível. Qualquer semelhança com as Favelas cariocas será mera coincidência ou uma brutal metáfora da História?
As forças armadas sofreram três derrotas seguidas, em Canudos. A terceira foi confiada ao coronel Moreira César, figura simbólica da arrogância militarista.
Ainda jovem, ele chefiou o assassinato do jornalista Apulcro de Castro, (na Rua do Lavradio, em 1884), editor do jornal “O Corsário”, que não poupava a vida pessoal dos seus criticados. A informação de que o coronel era filho de um padre, cuja filiação o militar escondia, foi o estopim da sua participação no linchamento.
O mesmo coronel teve papel de relevo na Revolta da Armada, sublevação da Marinha contra Floriano Peixoto. E depois se destacou na luta contra os federalistas, no Sul do país, sob o comando de Gumercindo Saraiva. Tendo inclusive participado da execução do Barão do Cerro Azul, amigo de Gumercindo.
Uma expedição com essa chefia faria tremer qualquer revoltoso. Porém, para Canudos a vida era apenas um intervalo para reencontrar o paraíso de D. Sebastião.
Não havia o Estado em Canudos. Nem escolas, hospitais ou saneamento. Era uma república mística e rústica. De rosários, raízes e bacamartes.
E lá, Moreira César encontrou a morte mais estúpida. O terror dos inimigos, mesmo bem armados, tombou atingido por fragmentos de flandres e cabeças de prego, disparados por um bacamarte, apontado por um tabaréu.
A se continuar na maluquice dessa metáfora, imagine a diferença entre as armas de Canudos e o armamento dos traficantes das favelas de hoje.
Não se derrota a bandidagem de uma favela por dentro dela, no Rio ou em qualquer lugar. Conquista-se com urbanização; escolas, hospitais, lazer, esporte, cultura, saneamento e policiamento eficiente. Policiamento eficiente pressupõe policiais honestos e bem remunerados.
Ou então se destrói por fora, como se fez em Canudos. Criando inúmeras hiroshimas tupiniquins, pois as grandes cidades estão cercadas de Canudos por todos os lados.
Quantas expedições armadas serão derrotadas nas favelas, sem que se aprenda uma lição ensinada em fins do Século Dezenove?
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François Silvestre é escritor
Por François Silvestre
País do futebol, samba, jeitinho, frevo, carnaval, hipocrisia moral, frivolidade religiosa, mungangas e trapaças, das contravenções consentidas, do complexo de inferioridade, da geografia ímpar e da historiografia distorcida.
Somos tudo isso. Democracias de intervalo entre ditaduras criminosas. Também somos isso. Portadores de ingenuidade marota, com método. Espertos no secundário, bobos no fundamental.
Somos incultos e ousamos fazer chacota de quem estuda. Sábio, aqui pra nós, não é o estudado. É o que “vence na vida”. E vencer na vida é demonstração ostensiva de fortuna, vida boa e esbanjamento.
Os estudiosos da nossa índole, na sua quase totalidade, optaram por análises superficiais e conclusões generosas. Geralmente certeiros nas análises, mesmo superficiais, e incertos nas conclusões, mesmo aprofundadas.
Sérgio Buarque viu bondade originária, que produziria índole pacífica. Não precisa muito esforço para se negar essa avaliação. Gilberto Freyre abasteceu-se de assertivas prováveis para emitir conclusões improváveis. Veja-se o caso da sua conclusão sobre a frieza do índio macho e facilidade de acesso ao nu da índia fêmea, que atraíra os navegantes.
Daí ele concluir a importância maior da índia fêmea sobre o índio macho na formação do nosso povo. A assertiva é verdadeira; porém a conclusão é falsa. Nem o índio era frio nem os navegantes vinham de terras pudicas. O índio não era frio, era natural. Desprovido da sensualidade erótica dos europeus. Se os navegantes quisessem erotismo, ficariam na Europa. Lá era o paraíso da putaria.
Darcy Ribeiro optou pela antropologia do otimismo, na crença de um futuro brilhante resultante da miscigenação. Decantava argumentos com base no resultado de um povo do porvir, que sairia de uma mistura ímpar na história da humanidade. A naturalidade do índio, a espiritualidade do negro e a tecnologia do europeu.
E cada um desses vindo de outras misturas antigas. Alanos, suevos, godos, visigodos, árabes, latinos, mouros. Moçambicanos, bantos, haussás. Guaranis, tupis, nuaruaques, carijós, aimorés, marajoaras. Somados aos imigrantes mais recentes.
Euclides da Cunha, numa obra fenomenal, expôs a antropologia da resistência. Fixando sua observação num tipo humano, geograficamente localizado, capaz de reincidir, com abnegação, no confronto a todo tipo de adversidade. Não teve pretensões científicas, mas acabou produzindo ciência. Além da beleza literária de uma denúncia edificante.
Manoel Correia de Andrade, Rui Facó, Josué de Castro, Caio Prado, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e outros cuidaram da índole, costumes, tradições.
Ninguém conseguiu prever o atual teatro de horrores.
Ladroagem, violência, intolerância. Antropologia de símios bípedes. O futuro certamente terá vergonha do nosso presente.
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François Silvestre é escritor
* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.
Por Paulo Linhares
O escritor peruano Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura de 2010, é um dos mais lidos escritores hispano-americanos da geração dos anos ’70 do século XX. Embora menos talentoso e carismático, ele pode ser considerado uma versão direitista de Gabriel Garcia Marquez.
Sim, Vargas Llosa tem aliado a sua atividade literária com a militância política, que começou no campo socialista, em sua juventude, quando apoiava entusiasticamente a Revolução Cubana, porém, mudou a direção para o lado liberal-conservador e chegou a concorrer à presidência do Peru, em 1990, pela coalizão liberal de direita Frente Demócrata (FREDEMO), em que venceu o primeiro turno, porém, perdeu a eleição no segundo turno para Alberto Fujimori.
Desgostoso com o veredito das urnas, deixou sua pátria e obteve a cidadania espanhola em 1993, onde até se tornou um dos pares do Reino da Espanha, agraciado que foi, em 2011, pelo rei Juan Carlos I, com o pomposo título de nobreza de Marquês de Vargas Llosa.
Na militância política cada vez mais conservadora, Vargas Llosa tornou-se um autêntico e não menos chato boquirroto, mesmo porque há sempre seletas plateias e importantes veículos da mídia mundial dispostos a ouvir o que diz alguém que tem o poderoso charming de manter na prateleira uma dúzia dos prêmios literários mais importantes, à frente o Nobel de Literatura. Assim, o Marquês de Vargas Llosa aproveita o prestígio e ‘desce a chibata’ conservadora ao analisar, sobretudo, os altos e baixos da volátil política sul-americana.
Aliás, como pensador político estaria a anos-luz atrás do peruano, um nobre inca, na verdade, chamado Felipe Guamán Poma de Ayala (1534–1615), que escreveu em forma de carta ao rei espanhol Felipe III, entre 1600 e 1616, com inimagináveis 1.180 páginas de texto manuscrito com 397 desenhos de ilustrações, intitulada El primer nueva crónica y buen gobierno (A primeira nova crônica é bom governo), que se constitui o mais importante libelo contra as atrocidades dos colonizadores espanhóis na América.
Lastimavelmente, a crônica nem chegou a ser lida pelo soberano espanhol, que certamente não daria qualquer importância ao escrito de Poma de Ayala, porquanto o manuscrito desapareceu no percurso para a Espanha. Muitos anos depois foram encontrados os originais que hoje fazem parte do rico acervo da Biblioteca Real da Dinamarca.
A leitura dessa crônica faz de tudo que escreveu o Marquês de Vargas Llosa ridículos espasmos literários e do seu autor um liliputiano em dignidade e amor à terra em que nasceu. Certamente, Poma de Ayala jamais seria um par – barão, conde ou marquês – do reino sanguinário que conquistou seu país e escravizou o seu povo.
Doutra parte, em recente artigo escrito para o jornal El País, da Espanha, e replicado, claro, pelo O Estado de São Paulo, referindo-se à atuação do juiz Sérgio Moro, esse novo herói de todos os conservadores, direitosos e direitistas de carteirinha, daqui e de alhures, afirmou o Marquês de Vargas Llosa, entre outras tolices: “É um milagre que continue vivo”.
Somente uma mente politicamente tosca pensaria desta maneira. Ao dizer isso, ele nada mais faz que uma leitura da polêmica atuação do juiz Moro sob o prisma de algumas das novelas de estilo policial que escreveu, inclusive com a característica de uma sempre exagerada dramaticidade.
O escritor (ex)peruano não dá ponto sem nó: busca na discussão de polêmicos temas políticos sul-americanos extravasar as frustrações que adquiriu na militância da política peruana.
A complexa ‘trama’ da Operação Lava Jato e seus múltiplos efeitos e desdobramentos lhe cai como um luva, enquanto mote para estéreis polêmicas e invectivas descabidas. Nesse caso, é ridícula a sua intervenção, sobretudo, por demonstrar enorme desconhecimento da realidade brasileira, ademais de usar modelos já superados e inservíveis para analisá-la.
Óbvio que, do alto de sua fama ‘nobelesca’ e nobiliárquica, pode escrever o que lhe ‘der na telha’, todavia, nada igualmente impede de ser refutado até mesmo por poucos conhecidos escribas provincianos.
A propósito, tome-se como exemplo a sua obra ¿Quién mató a Palomino Molero? A oitava novela de Vargas Llosa, publicada inicialmente em 1986, narra um acontecimento aparentemente desvestido de maior importância incursionando não apenas no terreno obscuro da natureza humana, mas, também, revisita cenários passados da política do Peru dos anos 1950, marcados pela corrupção no mundo da política, pelas práticas autoritárias de gestão do Estado e pelo predomínio de uma elite nativa em nada distante da crueldade e violência com que os espanhóis ensanguentaram os Andes peruanos, no século XVI, em busca de ouro e prata, quando ao lado de milhares de mortes se destacou o martírio do rei Túpac Amaru I (1545-1572), último rei inca da dinastia rebelde de Vilcabamba, perversamente assassinado pelo conquistadores espanhóis mesmo após lhes entregar um rico tesouro destes metais preciosos: depois de barbaramente torturado foi queimado vivo.
Com Palomino Molero, tenente da Força Aérea peruana encontrado morto numa base militar, personagem de Vargas Llosa, não foi assim tão diferente em tortura e assassinato, à exceção do fogo. Num transcurso cheio ambiguidades e situações imprevisíveis que desviam o rumo de quem seria o culpado pelo crime, o leitor é levado ao desenlace da trama apontado na investigação policial que se seguiu.
Sem dúvida, uma bem construída e instigante narrativa.
Inegável que Vargas Llosa é um grande escritor e como tal conhece o apelo popular dos folhetins, sobretudo, algumas das corriqueiras fórmulas de sucesso folhetinescas, como é o caso do açulamento da curiosidade das massas para saber quem teria sido o assassino de certa personagem na trama novelesca.
“Quem matou Odete Roitman?”, foi a indagação feita no final da novela global “Vale Tudo” (1988-1989), de Gilberto Braga, que eletrizou o Brasil por muitos dias e mexeu com a cabeças de milhões de telespectadores da “Vênus Platinada”, ou seja, dois anos após a publicação do livro de Vargas Llosa.
Talvez isto não tenha sido mero acaso, mas, uma inspiração, no mínimo, intertextual, para usar a categoria forjada pelo filósofo russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin, o teórico fundamental da linguística e da literatura. Em linguagem mais simples: Llosa pode ter inspirado Braga no uso dessa eficaz e ardilosa ‘ferramenta’ literária.
Com efeito, na fórmula de Braga – do “quem matou?” – segundo Nilson Xavier, o “objetivo é claro: gerar algum burburinho para despertar a audiência adormecida da novela. Ainda que o recurso seja visto como ‘golpe baixo’, uma vez que já foi usado à exaustão” (disp. em < //bit.ly/2lJauG5 > acesso: 20 fev 2017).
Bem, de todo modo é um subterfúgio que, nos folhetins da teledramaturgia tupiniquins, sempre tem dado certo para incitar a curiosidade das pessoas e aumentar os índices de audiência das telenovelas fracassadas e insossas (só Gilberto Braga já usou – e abusou – desse recurso em cinco das telenovelas que fez na Rede Globo…).
Transposto para o ambiente mais nobre da literatura, o artifício também desperta grande interesse e não é menos chamativo. Por isto que com o “Quem matou Palomino Moleiro?”, de Vargas Llosa, não foi diferente: um absoluto sucesso, tanto que, editado em mais de trinta outros idiomas, além do espanhol, vendeu milhões de exemplares no mundo inteiro.
No entanto, é especulação barateira e descabida essa de Vargas Llosa sobre o “milagre” de o juiz Sérgio Moro ainda não ter sido assassinado. O problema é que ele, do alto de seu marquesado nos enxerga, a nós brasileiros, como nativos de uma inarredável Banana Republic. Ele não sabe que o Brasil não é mais aquele que conheceu quando das pesquisas do seu “A guerra do fim do mundo”, em que narra o episódio de Canudos, sempre na segura trilha de Euclides da Cunha (ainda prefiro mil vezes Os sertões que o romance de Llosa…).
Pois é, senhor Marquês de Vargas Llosa, o Brasil tem mudado muito, de modo que resolvemos nossas querelas dentro dos marcos da legalidade. Quem mataria (ou mandaria matar) o juiz Moro, o ‘espadachim’ da Lava Jato? Idiotice!
Na condição de pessoa que vive num país com alto grau de violência urbana ele pode até ser vítima de ato criminoso, um assalto ou outro tipo de agressão, como têm sofrido muitos outros cidadãos deste país. Agora, em razão de sua atividade profissional de magistrado, sobretudo, de sua atuação frente à “Operação Lava Jato” essa especulação é uma enorme besteira.
Ora, mesmo aquelas pessoas ou grupos que se ressentem da atuação do juiz Moro devem saber que, hoje, se ele “levar uma topada” o Brasil pegaria fogo. Por outro lado, tirá-lo dos processos que envolvem ex-executivos da Petrobras, doleiros, empresários e políticos, envolvidos numa das mais intricadas redes de corrupção que se tem notícia no mundo, seria outra grande besteira: quem o substituísse dificilmente faria diferente do que ele faz e, portanto, as prisões provisórias e as severíssimas condenações seguiriam seu curso normal.
Em resumo, seria isto outra “burrice esférica”, como resumiria o meu amigo juiz Assis Amorim, que faleceu recentemente. E a burrice é esférica, segundo definia com argúcia Amorim, quando se manifesta em todos os ângulos e pontos; onde quer que se toque, ela é burrice absoluta e irritante.
Ao que parece, somente uma prodigiosa mente novelesca conceberia matar um juiz para dar cabo ao processo. As nossas elites podem ser corruptas e perversas, ainda, mas, já ultrapassaram o estágio da violência rasteira “do tempo dos coronéis” e seu jagunços implacáveis.
Claro, não se pode aconselhar ao Dr. Moro que relaxe com sua segurança pessoal e ande desabridamente nas ruas de sua Curitiba ou em qualquer outra grande cidade brasileira: a qualquer instante, estrela global que é, ele pode ser reconhecido e como tal agredido por algum maluco do tipo Mark David Chapman, o esquizofrênico que matou John Lennon, em 8 de dezembro de 1980, apenas para se tornar (tristemente) célebre.
Em resumo, esse besteirol do Marquês sobre o juiz Moro é exagerado, caviloso e sem fundamento. Certamente, impõe o costume republicano absoluto respeito à vida e à dignidade da pessoa humana: que viva em paz com sua família o jovem juiz Sérgio Moro, até quando a natureza lhe permita viver, goste-se ou não do seu agir profissional. E que tenha todo o tempo do mundo para refletir sobre o que fez ao seu país, para o bem ou para o mal.
No mais, com toda essa baboseira parece até que Vargas Llosa deseja mesmo é escrever uma sequência da sua novela anterior, com um título mais ou menos assim: “¿Quién mataria a Sergio Moro?” E venderia muitos exemplares em diversos idiomas.
Por isto, ao aproveitador e falastrão Marquês de Vargas Llosa, é essencial dizer: vire a boca para lá, urubu-da-asa-quebrada!
Vai agourar noutro lugar! Arre!
Paulo Linhares é professor e advogado
“Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.”
Euclides da Cunha


