Por Marcos Ferreira
Hoje, exatamente hoje, completam-se dois anos da trágica morte de um pardal aqui na minha rua. “Que fato irrelevante!” Protestará alguém pregueando a testa, um cristão ou cristã cuja existência é tão concreta e objetiva quanto as quatro operações de aritmética; ciência exata que por anos me assombrou.
Entre outras coisas, jamais me dei bem com os algarismos. Mas isso nunca foi novidade.
Bom. Eu falava sobre a morte do pardalzinho. Ocorreu no fim de uma tarde de sábado, 9 de abril de 2021, horas antes do meu aniversário. Sim, aquilo foi uma tragédia. O coitado não teve a menor chance de empreender fuga. Pousou perto do arame farpado. Eu estava na calçada com uma pequena xícara de café. Assisti a tudo. Fiquei perplexo, o coração aos pulos. Súbito um gato marrom irrompeu de dentro do mato que encobria parte da cerca do terreno e capturou aquele ser alado.
Embora eu tenha instintivamente emitido um grito no intuito de assustar o bichano e ele largar o pobre do pássaro, não pude fazer mais nada. Depois de cravar suas unhas e presas na vítima, logo o felino arrepiou carreira, escafedeu-se rapidamente por entre o matagal e eu fiquei estático, a boca semiaberta.
Por causa do meu aniversário, como podem concluir, gravei essa data na memória. Dali há mais treze meses seria a minha vez de me despedir deste plano físico. Fui vitimado por uma bala perdida quando da troca de tiros entre integrantes de uma facção criminosa e homens da Força Nacional.
O tiro, disparado não sei por qual dos lados, entrou pelas costelas e atingiu meus pulmões. Fui socorrido pelos policiais, levado à urgência do Hospital Regional Tancredo Neves, aqui em Vila Negra, mas era muito tarde. Quando acordei eu já estava num caixão, sendo velado em casa.
Presenciei a minha família em lágrimas. Pude sentir o cheiro das velas e das rosas. Vizinhos entravam e saíam, contudo ninguém se apercebeu da minha presença. Meu rosto estava lívido, empalidecido, os dedos cruzados sobre o peito. Não pude ver, claro, o ferimento das costelas. Hoje, enfim, eu me lembro do pardalzinho. Desde então vago a esmo em meio a uma incalculável multidão sem matéria.
— Sinto muito! — talvez alguém diga.
Marcos Ferreira é escritor























