domingo - 14/09/2014 - 23:14h

Pensando bem…

“Ler é sonhar pela mão de outrem”.

Fernando Pessoa

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domingo - 20/04/2014 - 11:21h

Além do arco-íris

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas…

E o que vejo a cada momento,

É aquilo que nunca antes tinha visto…

Sinto-me nascido a cada momento,

Para a eterna novidade do mundo”

(Fernando Pessoa)

Os despertadores são terríveis! Eles têm a difícil missão de nos alertar de que nem todo dia frio, terá um bom lugar para se ler um livro… Cinco horas manhã, de um sábado, e o danado toca de forma estridente: “Levanta-te e anda! levanta-te e anda!”. Bem que ele até quis não dar ouvidos à intimação do despertador, mas a falta de um cartão corporativo do governo para pagar as suas contas, falava mais alto: “Vai trabalhar vagabundo; vai trabalhar criatura!”.

Chovia lá fora! E mesmo o frio adentrando ao quarto, Não havia outra alternativa. Teve que se levantar, mas não antes de olhar para o lado. Viu a sua bela esposa dormindo como um anjo. Quis ficar abraçado com ela, mas não tinha mais tempo a não ser de fazer um rápido cálculo de quanto a amava… e o resultado foi: 1008! Era o número de Tensões Pré-Menstruais (TPM) de convivência! Isso sim é que é amor!

Ao chegar ao banheiro, ele constatou que não há frio de rachar que não possa piorar: a resistência do chuveiro tinha queimado na noite anterior. “Mas a vida o que quer da gente não é coragem?!” Pensou… Então, ligou o chuveiro e foi para debaixo dele: “tomara que Heráclito tenha mesmo razão quando disse que o universo é uma dança de opostos, onde cada coisa se transforma em outra: coisas frias esquentam”, pensou ele novamente.

Antes de sair, fez o ritual de sempre: beijou o filho e a esposa amada (1008 vezes de TPM solidária), como se fosse a última vez… Afinal, é tudo tão incerto não é mesmo?! E incerto seria o caminho que o levaria ao hospital, para mais um plantão. Pois, a noite toda de chuva, castigando as ruas já tão castigadas de anos de desgovernos, na sua cidade, fazia com que o seu caminho de sempre, tivesse que ser mudado… E haja alagamentos! – Praguejou ele.

Coitado! Esqueceu-se ele do que certa vez disse o filósofo imperador Marco Aurélio: “Todas as coisas são entremeadas umas às outras; um laço sagrado as une; não há uma coisa sequer que esteja isolada de outra”. Então, se por um lado à mudança de rota o fez percorrer um caminho mais longo; por outro, o permitiu de “curar” a sua vista cansada, diagnosticada há tanto tempo, por Oto Lara Resende:

“O que nos cerca, o que nós é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio… nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença”.

Mudança de rota; mudança de visão! Que lindo arco-íris, ele percebeu mais adiante. Olhou para o relógio. Ainda restavam alguns minutos para não chegar atrasado ao seu destino. Por isso, parou o carro, pegou o celular e fotografou o arco-íris. E neste momento, teve a “consciência cósmica” de que algum tesouro o esperava para ser descoberto naquele dia. Sim! Ele se lembrou da sabedoria de Epicuro: “Deus introduziu o homem para ser um expectador de seus trabalhos, e não apenas um expectador, mas um intérprete”…

Chegou ao hospital. Passagem do plantão. Ele ouviu atentamente todos os casos, mas um chamou-lhe mais atenção: 33 anos, era a mesma idade em que seu pai tinha quando faleceu. Trinta e três anos era a idade da jovem paciente, portadora de uma neoplasia avançada, cujo fim se aproximava. Ao chegar à beira do seu leito, ele teve uma surpresa.

A acompanhante da paciente era sua irmã gêmea idêntica (univitelina). Ali ele percebeu: juntas, lado a lado, vida e morte; A que ficava e a que partia. E neste momento, de repente, não mais do que de repente, ele viu o seu tesouro que estava além do arco-íris… Ele presenciou uma das cenas mais belas vistas nestes 25 anos de profissão. Sim! Existe beleza também na tristeza. Pois, “As mais belas harmonias vêm dos opostos”… Vida e morte!

Ele, temporariamente curado da sua vista cansada, viu algo que ficará eternamente guardado em sua lembrança, pois como dizia Drumonnd: “O eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata”… Ele viu a irmã/acompanhante, abrir a sua bolsa, pegar um frasco de creme hidratante e massagear os pés da sua metade que estava morrendo. Massageava e chorava…

Pés… Ele lembrou-se que vem da palavra “podos” em grego, que está relacionado a palavra “paidos”, que significa criança. Ou seja, a irmã/acompanhante – melhor do que muita morfina, ou do que qualquer antibiótico de última geração-, estava cuidando dos pés da sua metade que ia partir. E cuidar dos pés de alguém significa cuidar da criança que está nela… e ninguém retornará ao reino de meu Pai se não voltar a ser criança novamente, não é mesmo?

Pois bem! Ele, diante daquela grande lição de amor, aproximou-se da irmã/acompanhante e perguntou-lhe se poderia fazer alguma coisa por elas duas: a vida e a morte. A resposta foi: “Deixe-me apenas ficar aqui, doutor, junto dela, que o senhor já está fazendo muito por nós duas!”.

Ele tocou no ombro da irmã, ao mesmo tempo em que tocou na mão da paciente. Balançou a cabeça, não apenas como um consentimento, mas sim, como uma reverência àquele momento.

Então, dirigiu-se ao quarto de repouso, com a desculpa de que ia pegar o seu estetoscópio, mas na verdade ele queria mesmo era ficar sozinho, para poder deixar as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, sem ser visto (bobagem! Homem chora sim!)… e ele chorou, agradecendo a Deus por tudo: pela esposa, pelo filho, pela chuva, pela resistência queimada do chuveiro, pelas ruas alagadas, pela sua profissão e mais ainda por poder, naquele dia, conseguir enxergar além do arco-íris…

P.S. Dedico este texto a neta de Fernando Pessoa, a enfermeira Renata Lima Pessoa (ela sabe o porquê…).

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor.

 

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quinta-feira - 03/04/2014 - 23:59h

Pensando bem…

“Não existem amores perfeitos, mas amantes acomodados.”

Fernando Pessoa

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segunda-feira - 24/03/2014 - 23:58h

Pensando bem…

“Segue teu destino, rega tuas plantas, ama tuas rosas. O resto é sombra de arvores alheias.”

Fernando Pessoa

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quinta-feira - 26/09/2013 - 23:50h

Pensando bem…

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

Fernando Pessoa

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quarta-feira - 14/08/2013 - 23:54h

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“A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. ”

Fernando Pessoa

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domingo - 07/04/2013 - 23:47h

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“A renúncia é a libertação. Não querer é poder.”

Fernando Pessoa

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domingo - 21/10/2012 - 06:35h

Poemas ao vento

Por Fernando Pessoa

Sopra o vento, sopra o vento,
Sopra alto o vento lá fora;
Mas também meu pensamento
Tem um vento que o devora.
Há uma íntima intenção
Que tumultua em meu ser
E faz do meu coração
O que um vento quer varrer;
Não sei se há ramos deitados
Abaixo no temporal,
Se pés do chão levantados
Num sopro onde tudo é igual.

Dos ramos que ali caíram
Sei só que há mágoas e dores
Destinadas a não ser
Mais que um desfolhar de flores.

Fernando Pessoa (1888-1935) poeta português

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segunda-feira - 01/10/2012 - 23:56h

Pensando bem…

” O mundo é para quem nasce para o conquistar/e não para quem sonha que pode conquistá-lo , ainda que tenha razão.”

Fernando Pessoa

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Categoria(s): Eleições 2012
domingo - 05/08/2012 - 10:11h

Não sei quantas almas tenho

Por Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa (1888-1935) – Poeta e escritor português

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terça-feira - 29/05/2012 - 23:58h

Pensando bem…

“Vivemos, ou da saudade, ou da esperança…”

Fernando Pessoa

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domingo - 27/05/2012 - 12:47h

Andei léguas de sombra

Por Fernando Pessoa

Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-se as lâmpadas
Na alcova cambaleante.
Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.
Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical. A alcova
Desce não sei por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.

Fernando Pessoa (1888-1935) – Poeta português

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segunda-feira - 07/11/2011 - 23:59h

Pensando bem…

“Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada.”

Fernando Pessoa

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segunda-feira - 03/10/2011 - 23:57h

Pensando bem…

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Fernando Pessoa

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sexta-feira - 07/08/2009 - 10:46h

Soutinho, um bosque espesso por inteiro

Ele quebra o conceito aristotélico, lá da antiguidade, que colocava o indivíduo diferenciado numa medida que tolerava o lado “b”, ou seja, talvez até o mal: “A virtude está no meio”. A moderação com Francisco Ferreira Souto Filho, o “Soutinho”, é diferente.

Não há nele essa composição para fazê-lo alguém “normal”. Soutinho é exageradamente do bem.

Discreto, trabalhador infatigável, polido, leal e acima de tudo decente. É assim o perfil inquestionável de Soutinho, que hoje aniversaria. Chega aos 83 anos.

Como antes, num passado de maior envergadura econômica de banqueiro e industrial, ele não se abre ao deslumbramento. Fecha-se no seu eu. Repete-se numa obviedade que mesmo assim não o faz comum. É acima de tudo um homem de bem, como fora à época em que muitos só o viam pela lente do ter. Pelos bens.

A frivolidade e a pompa nunca desmancharam sua espinha dorsal. Impassível sem se permitir passivo.

O poder, paixões e o radicalismo da política, que viveu ao lado da amada Edith, também não conseguiram desfigurá-lo na manada de contendores, Verdes contra Encarnados. Continuou assim: “souto”. Aqui o sobrenome é tratado intencionalmente como substantivo, extraído de sua origem latina, que significa “bosque espesso”.

Soutinho também não é diminutivo. Parece mesmo um aglomerado florestal. Uníssono, fonte de vida, multiplicador e base de um ecossistema que pode se renovar a partir de sua existência profícua, no sentido mais sublime desse termo, ou seja, a seiva moral.

Revela-se imperecível, inquebrantável, atemporal e umectado de honradez.

Imagino que alguém simultaneamente à leitura desta crônica se pergunte o porquê da homenagem que faço. É simples. É-me uma questão de crença.

Continuo devotado ao humano, não obstante deslealdades, ingratidões e leviandades comuns à natureza do bicho homem. Soutinho é um indivíduo real, em meio a postiços e tartufos, diante da ralé ou do aristocrata.

Recorro a Fernando Pessoa para enxergá-lo no todo, sendo apenas o que é: “Para ser grande, sê inteiro”.  Só isso.

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Categoria(s): Crônica
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