segunda-feira - 06/05/2024 - 23:54h

Pensando bem…

“Se lhe posso dar um conselho, é este: não tente apanhar o fruto verde para que ele não apodreça na sua mão.”

Fernando Sabino

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sexta-feira - 29/03/2024 - 23:50h

Pensando bem…

“Façamos da interrupção um caminho novo.

Da queda um passo de dança,

Do medo uma escada,

Do sonho uma ponte,

Da procura um encontro!”

Fernando Sabino

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domingo - 05/11/2023 - 08:38h

Enquanto o sono não vem (culto à noite)

Por Carlos Santos

Foto ilustrativa da página Perito Animal

Foto ilustrativa da página Perito Animal

Boêmio convicto, o jornalista-compositor pernambucano Antônio Maria cunhou uma frase que virou um culto à boa vida noturna carioca, que ele aproveitou intensamente, sobretudo nos anos 50: “A noite é uma criança”.

É verdade. Eu já a embalei muito e a conheço bem. Contei estrelas sob seu teto, tangi-a por aí, sem destino. Com seu consentimento eu bebi todas, bradando aos quatro cantos a minha felicidade.

Para Cazuza, “o banheiro é a igreja de todos os bêbados”. À noite, é também o vômito espalhado no chão, o batom na gola da camisa, recanto das mais sórdidas confissões e daquele inescapável último pingo na cueca.

“À noite todos os gatos são pardos.” Tenho minhas dúvidas. Muitos cintilam e reluzem, para morrer aos primeiros raios de sol da manhã. Outros têm cores próprias e se renovam ao amanhecer. Tem sete vidas.

Na verdade, a noite tem o poder de revelar pessoas, isso sim. Mas elas não são melhores ou piores por causa da noite. Nem adianta culpar a bebida por sua imagem lasciva declarada, longe da identidade diurna.

A “persona” (máscara) não cabe em qualquer um, é bom que fique claro. Ela se esconde na maquiagem borrada, na moral encardida.

Hemingway disparou: “Paris é uma festa”. Tem sido assim há décadas. E a noite?

Temos muito de Paris, do Sena que nos corta à Bastilha que nos prende. A Champs Élysées que parece infinita é como aquela noite que nunca devia acabar, de tão boa.

A “baladeira” (rede) me aguarda dadivosa. Tadinha, tão surrada, mas acolhedora. A noite engatinha e o sono não chega. É como meu novo bebê, vivo num imaginário dividido e partilhado, pronto para nascer. Estou à sua espera infinitamente.

O que seria da humanidade pós-moderna se não fosse Twitter, MSN, Facebook etc.? Sobreviveria, lógico, mas assim mesmo quero ir para Pasárgada. Sem querer ser esnobe, vou logo avisando: lá não faço questão de ser amigo do rei.

Sou velho mesmo. Do tempo que puxava o sono ouvindo a Rádio Mundial, folheava a Playboy às escondidas, com olhar rútilo, jogava conversa fora à calçada para engolir as horas e fazia do sarro o ápice do “amor”.

Bom tempo.

Sou do tempo que a madrugada insone, de boemia inocente, terminava no Mercado Central, na esquina de casa, na praça com o sol dando “bom-dia”. Feliz pela camisa amarrotada, por sentir outro perfume no corpo ou conformado com a solidão de muitas vozes ininteligíveis, sem que umazinha sequer me acalentasse.

Saudosista? Não. Vivo hoje o melhor dos meus dias terrenos, sem medo de olhar para trás e enxergar minhas próprias pegadas.

O meu tempo não é o da saudade. Fico a falar do que passou, porque passou sem ir embora. É como aquele livro bom, socado entre outros na estante, que a gente sempre consulta numa releitura que se renova.

É, muitas vezes, um volver para rir das próprias desgraças. Passeio por desventuras próximas as de “Geraldo Viramundo”, personagem de Fernando Sabino, sempre envolto em situações picarescas e estapafúrdias. Um Dom Quixote sertanejo.

Ah… e se eu fosse poeta? E se tivesse um violão? Não quero nem pensar. A sarjeta seria minha pátria. Bardo solto por aí, crente na imortalidade, não estaria aqui, balbuciando essas palavras. A noite teria minha vigília permanente à janela de Rapunzel.

Talvez fosse “um menino passarinho, com vontade de voar”, como escreveu Luiz  Vieira. Até pediria que copiassem o próprio Sabino com um etipáfio parecido àquele posto em seu túmulo, para fechar minha história:

“Aqui jaz Carlos Santos, que nasceu homem e morreu menino”.

Boa noite. O sono chegou.

São 3h15… zzzz!!!

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos (Canal BCS)

*Texto originalmente publicado nesta página no dia 13 de fevereiro de 2011 (veja AQUI).

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domingo - 07/06/2020 - 04:30h

Depois de tudo

Por Fernando Sabino

De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre a começar…
A certeza de que é preciso continuar…
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar.

Por isso devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo…
Da queda, um passo de dança…
Do medo, uma escada…
Do sonho, uma ponte…
Da procura, um encontro.

Fernando Sabino foi poeta (1923-2004)

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quarta-feira - 26/04/2017 - 10:12h
Para hoje

Porque tinha que ser assim (Para Honório de Medeiros)

Ele, como eu, não é dado a salamaleques na vida e principalmente em certas datas. Em aniversário, então…

Mas hoje não é o caso.

Honório e eu: nozes (Foto: arquivo pessoal)

Meu registro é uma declaração pública de afeto que, bem sabes, não é da boca para fora. É do fundo d’alma.

Somos irmãos! Somos também um pouco Viramundo de Sabino – que teima em transformar o mundo do seu jeito: parando o trem, colocando ordem no hospício, pegando o touro à mão ou jogando um gambá na tuba.

De verdade, a gente nunca saiu do entorno da Capela de São Vicente, que é um pouco de nós mesmos, ou guia do caminho que percorremos até hoje – sem atalhos.

Somos nozes que o cupim não rói. No fim, sairemos mais vivos do que nunca dessa história que teve longo hiato até ser o que é, porque tinha que ser assim.

Aldeíza e “seu” Chico sabem bem do que falo.

Parabéns!

* Para Honório de Medeiros, meu IRMÂO!

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI.

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Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 10/07/2014 - 23:58h

Pensando bem…

“Antes de mais nada fica estabelecido que ninguém vai tirar meu bom humor.”

Fernando Sabino

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segunda-feira - 17/02/2014 - 23:59h

Pensando bem…

“O otimista erra tanto quanto o pessimista, mas não sofre por antecipação.”

Fernando Sabino

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domingo - 03/03/2013 - 13:09h

Mensagens a Fernando Sabino

Por Hélio Pellegrino

Na juventude, já grande amigo do escritor Fernando Sabino, Hélio Pellegrino lhe escreveu a seguinte mensagem:

“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio.

Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo.

Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome.”

Muitos anos depois, quando completava 60 anos, Hélio reformulou o que havia escrito para Sabino, com muito humor:

“Quando você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros.

A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso.

Você só se conhece conhecendo o mundo.

Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!

Hélio Pellegrino (1924-1988) – escritor e cronista mineiro

* Os textos acima foram extraídos do livro “Hélio Pellegrino – A paixão indignada”, da coleção “Perfis do Rio”, Relume-Dumará / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1998, pág. 11 e seguintes.

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domingo - 04/12/2011 - 12:12h

Empregadas

Por Fernando Sabino

Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou:

— A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar. Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:

— Então isso não pode causar um incêndio?

FALAR DIFÍCIL. A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada. Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira:

— Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas!

Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto:

— Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus.

Os simples de coração. Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria:

— Afinal de contas, a gente diz “ócris” ou “zócris”?

A empregada veio anunciar o almoço:

— Gente, tá na hora de murçá.

— Não é assim que se fala — corrigiu a patroa.

E ela, imperturbável:

— Eu sei que é “armuçá”. Mas eu quero falar murçá.

O TAL DA TELEVISÃO. Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada:

— Telefonou um moço para o senhor.

— Deixou o nome?

— Disse que era o tal da televisão.

Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa… No dia seguinte, a mesma coisa:

— O tal da televisão tornou a telefonar.

— Se ligar de novo, pergunta o nome dele.

Da terceira vez, perdi a paciência:

– Eu não disse que era para perguntar o nome?

— Eu perguntei! — protestou ela.

— Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão.

Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão — que, aliás, estava em perfeitas condições. Até que ele voltou a telefonar — só que desta vez eu estava em casa:

— O tal da televisão está chamando o senhor no telefone. Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan.

COME E DORME. E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

— Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera — mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?

Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

SÓ UMA VEZ. Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão. Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou:

— O padeiro.

— Mas você só foi uma vez à padaria! — estranhou a patroa:

— Como foi acontecer uma coisa dessas?

Ela ergueu os ombros, com um suspiro:

— Deus quis…

Fernando Sabino – Escritor mineiro, já falecido

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domingo - 06/11/2011 - 10:54h

As últimas do Sabino

Por Zuenir Ventura

Nunca acompanhei um enterro como o de Fernando Sabino. Acho que foi como ele queria. Os amigos conversavam, riam, contavam histórias e não iam embora, apesar do forte mormaço. Foi o mais demorado de que se tem memória.

“Se colocarem um copo de cerveja em cima do túmulo, ninguém mais sai daqui”, comentou o deputado Miro Teixeira, marido de Leonora, filha de Fernando. O ponto alto (já ia escrever “da festa”) foi a Ramblers Traditional Jazz Band tocando músicas como nos funerais de negros de Nova Orleans.

O cronista deve ter gostado. Claro que teria preferido participar da apresentação tocando bateria, como fizera um ano antes quando reuniu alguns amigos para comemorar seu 80 aniversário.

Tudo ali no São João Batista fazia lembrar o autor de “O homem nu”, que recriou as divertidas peripécias do dia-a-dia de tal maneira que às vezes o cotidiano parece inspirar-se nele. Há histórias que a gente ouve e diz: “Isso é coisa do Fernando Sabino” — como uma cena ocorrida no cemitério e com a qual ele faria uma deliciosa crônica.

Esbaforido, o jovem repórter, sem saber muito bem quem é o morto e muito menos quem são os amigos a entrevistar, pergunta:— O Hélio Pellegrino mora no Rio ou em Minas?— Mora aqui mesmo — respondeu o informante apontando para as sepulturas.

Vi muita gente rir chorando. Verônica entre lágrimas se lembrava rindo da última vez que estivemos com seu pai no bar da Livraria da Travessa, não faz muito tempo. Com uma boa platéia na mesa, Fernando estava especialmente engraçado.

Como no enterro, não queria deixar ninguém ir embora. Quando alguém ameaçava se levantar, ele perguntava: “Vai fazer um discurso?” E não parava de contar histórias: “Espera aí, ouve só a última do mineiro.”

Eram as minhas preferidas, porque ele conhecia a alma de seu povo como a dele próprio. Dizia que mineiro é tão cauteloso e desconfiado que não gosta de revelar nem a identidade.

— Qual é o seu nome todo? — pergunta o carioca.— Diz a parte que você sabe — desconversa o mineiro. Nessa outra, o escritor conta o diálogo com um motorista mineiro em Nova York:

— Ah, você também é de Minas?

— Sou, sim sinhô.

— De onde?— De Minas mesmo.

Se consegue esconder de onde é, imagina quando lhe pedem uma opinião política.

— Que tal o prefeito daqui?

— O prefeito? É tal qual eles falam dele.

— E o que é que eles falam dele?

— Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo que é prefeito.

Minas vai perder muito de sua graça sem as últimas do Fernando Sabino.

Zuenir Ventura é cronista, jornalista e escritor brasileiro

* O cronista mineiro – genial – Fernando Sabino nasceu em 12 de outubro 1923 e morreu em na véspera de completar 81 anos, dia 11 de outubro de 2004, no Rio de Janeiro. A pedido, seu epitáfio é o seguinte: “Aqui jazz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!” Um gozador até o final.

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domingo - 31/07/2011 - 10:21h

O gato sou eu

Por Fernando Sabino

– Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.

– Continuou dormindo.

– Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.

– Que espécie de gato?

– Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.

– A que você associa essa imagem?

– Não era uma imagem: era um gato.

– Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?

– Associo a um gato.

– Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.

– Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.

– Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.

– Uma projeção do senhor?

– Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.

– Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.

– Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria por em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.

– Em quem o senhor está falando?

– Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.

– Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.

– Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.

– Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?

– Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.

– Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?

– Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.

– E eu insisto em dizer: não é.

– Sou.

– Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.

– Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…

– Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?

– É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.

– Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.

– Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.

– Já disse que o gato sou eu!

– Sou eu!

– Ponha-se para fora do meu gato!

– Ponha-se para fora daqui!

– Sou eu!

– Eu!

– Eu! Eu!

– Eu! Eu! Eu!

Fernando Sabino (1923-2004) era cronista mineiro

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segunda-feira - 13/06/2011 - 23:58h

Pensando bem…

“Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte, da procura um encontro!”

Fernando Sabino

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