segunda-feira - 19/02/2018 - 13:16h
François Silvestre

A economia reage

Por François Silvestre

A reação da economia, mesmo tíbia, começa a buscar jeito. Não por mérito do governo, mas apesar do governo.

Impossível demonstrar isso aos “liberais” tupiniquins que nunca leram Marx. Tudo bem, mas deveriam ter lido Keynes, o que não fizeram.

Os da esquerda leram Gramsci, que nunca entendeu bulhufas de economia. E os da direita leram Olavo de Carvalho, a maior fraude intelectual dos novos tempos.

Sobre Olavo, que conheci pessoalmente, há de se fazer uma justiça: Ele declarou que seus seguidores, no Brasil, são tão idiotas que o fizeram desistir de ideia de uma “nova direita”.

O certo é que a economia começa a espernear, mesmo que os economistas não saibam explicar o porquê.

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domingo - 11/02/2018 - 07:32h

A lição de Canudos

Por François Silvestre

A palavra favela é de origem botânica, e dá nome a um arbusto existente na caatinga, da região Nordeste do Brasil. Presente em todos os Estados desta região.

Bastante conhecida dos combatentes do Exército na inglória e desumana luta contra os tabaréus de Canudos. Assim definiu Euclides da Cunha a coreografia daquele ambiente: “Uma elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o Arraial de canudos”.

Quando os sobreviventes da matança que dizimou aquele Arraial voltaram para a Capital da República, não receberam o prêmio prometido. Ou os prêmios. Um deles fora a promessa de moradias dignas. Mas o governo já nascera mentiroso, daquele aos tempos de hoje.

Conseguiram com o Ministério da Guerra uma autorização precária para a edificação de barracos no Morro da Providência. E o aglomerado foi subindo, enquanto a dignidade ia baixando. Os moradores começaram a observar semelhanças entre aquela encosta com o Morro da Favela, lá de Canudos.

Daí para dar-lhe o mesmo nome foi só uma comparação, quase metafórica. Em vez de faveleiras, barracos. No lugar de tatus, veados e juritis, comuns na caatinga, farrapos humanos. Estava ali, a rememorar atrocidades e mentiras oficiais, o Morro da Favela, transferido do sertão nordestino para a beira do mar carioca.

Canudos nunca foi vencido nos embates internos. Foi destruído, dizimado, de fora para dentro. Lá, na sua capilaridade, ninguém derrotou Canudos. Nos arredores de suas tocaias, no emaranhado dos seus becos e toscas ruas, Canudos era invencível. Qualquer semelhança com as Favelas cariocas será mera coincidência ou uma brutal metáfora da História?

As forças armadas sofreram três derrotas seguidas, em Canudos. A terceira foi confiada ao coronel Moreira César, figura simbólica da arrogância militarista.

Ainda jovem, ele chefiou o assassinato do jornalista Apulcro de Castro, (na Rua do Lavradio, em 1884), editor do jornal “O Corsário”, que não poupava a vida pessoal dos seus criticados. A informação de que o coronel era filho de um padre, cuja filiação o militar escondia, foi o estopim da sua participação no linchamento.

O mesmo coronel teve papel de relevo na Revolta da Armada, sublevação da Marinha contra Floriano Peixoto. E depois se destacou na luta contra os federalistas, no Sul do país, sob o comando de Gumercindo Saraiva. Tendo inclusive participado da execução do Barão do Cerro Azul, amigo de Gumercindo.

Uma expedição com essa chefia faria tremer qualquer revoltoso. Porém, para Canudos a vida era apenas um intervalo para reencontrar o paraíso de D. Sebastião.

Não havia o Estado em Canudos. Nem escolas, hospitais ou saneamento. Era uma república mística e rústica. De rosários, raízes e bacamartes.

E lá, Moreira César encontrou a morte mais estúpida. O terror dos inimigos, mesmo bem armados, tombou atingido por fragmentos de flandres e cabeças de prego, disparados por um bacamarte, apontado por um tabaréu.

A se continuar na maluquice dessa metáfora, imagine a diferença entre as armas de Canudos e o armamento dos traficantes das favelas de hoje.

Não se derrota a bandidagem de uma favela por dentro dela, no Rio ou em qualquer lugar. Conquista-se com urbanização; escolas, hospitais, lazer, esporte, cultura, saneamento e policiamento eficiente.  Policiamento eficiente pressupõe policiais honestos e bem remunerados.

Ou então se destrói por fora, como se fez em Canudos. Criando inúmeras hiroshimas tupiniquins, pois as grandes cidades estão cercadas de Canudos por todos os lados.

Quantas expedições armadas serão derrotadas nas favelas, sem que se aprenda uma lição ensinada em fins do Século Dezenove?

Té mais.

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domingo - 04/02/2018 - 07:10h

O indivíduo indivisível

Por François Silvestre

Cada pessoa é uma consciência universal. Limitada pelo seu caráter, sua instrução e suas conveniências.

E cada um carrega na finitude dos seus limites a dimensão infinita de suas pretensões. Tudo contido num invólucro de sistema, pela multiplicidade; de totum, pela individualidade e de quantum, pela energia. Da mesma forma como Teilhard de Chardin expôs a infinitude universal.

O indivíduo é finito na vida, no alcance, na visão. Mas é infinito na pretensão, nos sonhos e na autoavaliação. Seu universo íntimo, muitas vezes inconfessável, comporta todas as estrelas e ainda sobra espaço para reinventar conquistas alem da compleição espacial.

Talvez por isso, a fugir de sua insignificância, o indivíduo engana-se propositadamente da sua mortalidade. Ao crer no espírito, faz muito mais um exercício de vaidade e soberba do que um gesto de contrição.

Tem uma alma porque é importante e não pode morrer. Mas faz uma concessão.

Um ser superior criou a todos e todos, por ele, serão julgados. E esse ser superior é o guardião de cada um. E cada um se julga o protegido preferencial.

Em todos os lugares e em todos os credos. Na Gurguéia do Piauí, num vilarejo do Nepal ou num edifício dos Emirados Árabes. Claro que na Gurguéia haja mais fantasmas e aparições, pois as almas têm mais tempo livres e mais gente desocupada para vê-las. No Nepal, também. Já nos Emirados, elas nem são notadas.

Mas não se pode viver sem crer. Os deuses são inevitáveis, necessários e imortais. Todos eles. Quando o indivíduo se diz ateu, já está professando um deus. Aquele que ele nega.

Deus existe, mesmo que não exista. Seja como criador do Universo ou criatura da desesperada angústia humana. O deus hebraico, persa, orixá da África ou Tupã do Brasil. Não há homem sem deus. Nem angústia sem sofrimento.

Deus paira impotente no Universo finito da Terra. Cuida do resto e deixa a Terra aos cuidados dos patifes. Tudo sob sua criação.

E negar é uma forma de atestar. Quando o indivíduo nega uma opinião, ele atesta a opinião negada. Até a mentira é uma forma de homenagear a verdade. Ou como disse o Poeta “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”.

O caráter tem cabresto; o desejo, não. Na compleição do caráter a deformação se dá pela ganância. De poder ou de dinheiro. O desejo independe da vontade.

Pois se é o indivíduo uma consciência universal, o que chamamos de sociedade é a soma disso. Ordenada ou não. Institucionalizada pela lei ou bagunçada pelos egos.

O Brasil vive sob o império da mediocridade individual, cuja soma produz o apequenamento do caráter coletivo. Na cabine onde comandam poderes e órgãos, cada um se exibe no seu pedestal de estultice. Consciências universais menores do que as nozes.

Té mais.

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quarta-feira - 31/01/2018 - 06:18h
Hein?

Dá pra comparar?

Por François Silvestre

Juscelino Kubistchek com Luis Inácio Lula da Silva?

Sobral Pinto com Cristiano Zanin?

Carlos Lacerda com Jair Bolsonaro?

Evandro Lins e Silva com Gilmar Mendes?

Sepúlveda Pertence com Cármen Lúcia?

Paulo Brossard com Joaquim Barbosa?

Josaphat Marinho com Renan Calheiros?

Bonifacio Lafayette de Andrada com Carlos Marun?

Odilon de Oliveira com Sérgio Moro?

O casal Prestes com o casal Bretas?

Itamar Franco com Michel Temer?

Marcos Freire com Romero Jucá?

Mário Covas com João Dória?

O Pasquim com o Antagonista?

Millôr Fernandes com Zé Simão?

Eros Grau com Luiz Fux?

Amaro Cavalcanti com Celso de Melo?

Ferreira Gullar com Lobão?

Telegrama com Twitter?

Jornal com Blog?

Saudade com Nostalgia?

Eleição com Pesquisa?

Escolha com Imposição?

Coragem com Violência?

Discussão com Grito?

Patriota com Padioleiro?

Apoio com Bajulação?

Cérebro com Fígado? …

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terça-feira - 30/01/2018 - 07:50h
Opinião

História é a única ciência cultural

Por François Silvestre

Não se confunda História com historiografia. A História é o resultado da ocorrência das relações humanas; que vão desde os desdobramentos das conquistas naturais, sociais, políticas, de conhecimento, de arte e do pensamento.

A historiografia é uma disciplina histórica, narradora, limitada pelo ponto de observação do historiador.

A História produz o fato. A historiografia narra ou interpreta o fato histórico.

Possuir leis e disciplinas é a marca configuradora das ciências. A numismática, a heráldica e a historiografia são algumas das disciplinas da História. A imutabilidade do fato ocorrido é uma lei da ciência histórica.

Na História, o fato ocorrido é único e imutável.

Na historiografia, um mesmo fato pode acolher várias versões. Dizia Thomaz de Aquino que “contra o fato ocorrido nem a interferência de Deus tem eficácia”.

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domingo - 28/01/2018 - 06:22h

Cabra-cega

Por François Silvestre

Saltei do ônibus debaixo de uma neblina que imprensava os ossos. O Alecrim, que conhecia de nome e fama, era mais do que pensara.

Maior de tamanho do que imaginara. Mais gente do que jamais vira tantos juntos. Caicó, a maior vista até então, recolhia-se pequenina.

O Diocesano, que fora instrução e casa, seria apenas retalhos brancos na despedida da inocência. Como nos versos de Navarro: “Vestes pretas cobrem meus pecados mortais./ Roupas brancas, nunca mais”.

Depois, para o Centro. Da avenida Rio Branco até a Casa do Estudante. Uma nova morada? Muito mais do que isso. Uma nova vida pedindo arrancho no mundo. E a novidade é a descoberta diária, a cumplicidade horária e o alumbramento que se estabelece nas relações da vida com a adolescência.

Casa do Estudante. A fisiologia, secundária. A vida cobrava sonhos. E o estômago não se presta ao sonhar. Era preciso ignorar a bóia era escassa.  A bandeja dividida em partes, com poucas delas ocupadas. O sonho indivisível, ocupando todas as partes.

Feijão macaça, preto pela idade, em cujo caldo, de água e óleo, boiavam gorgulhos. Na pequena parte, à direita, uma batata doce. Na parte esquerda, um naco de rapadura. Na parte de cima, a “mistura”, que podia ser farofa de ovo. Nos dias de festas, uma posta de peixe ou um guisado de segunda.

Quando faltava água, descíamos ao Paço da Pátria, onde havia um pequeno cacimbão. Com uma panela de alumínio, amarrada à tampa da cacimba, tomávamos banho.

Ao final da tarde ou início da noite, de roupa trocada, saíamos para a rua. Para o colégio, nos dias comuns; para o passeio, nos fins de semana. Não permitíamos a ninguém o direito à piedade. Pobres e dignos, como dizem ser um mendigo espanhol. Éramos iguais, mesmo entre conhecidos e depois amigos de famílias ricas, que estudavam nos colégios particulares.

O Salão Nobre, de pobre nobreza, amparava estudos e entusiasmo.

Nossos colégios eram públicos. Tão bons quanto os outros. Atheneu, Pe. Miguelinho, Anphilóquio Câmara. Geralmente, os mesmos professores. Disputávamos em pé de igualdade as aprovações nos vestibulares.

Desses colégios particulares; Marista, CIC, CPU, Objetivo, eu vim a ser professor, preparando alunos para o vestibular. Alunos que hoje são muito mais importantes do que eu, e ainda me prestam a homenagem com mimos e elogios. Com amizade e generosa deferência.

Muitos já partiram, pois muitos deles eram bem mais velhos do que eu, principalmente nos cursinhos pré-vestibulares.

Era um tempo de luta. Sem heroísmos. Apenas a oferta que a História faz, a algumas gerações, por escolha do destino, do desafio à edificação de sonhos. E não se edifica um sonho coletivo sem desprendimento e generosidade.

Mas havia uma Pátria, mesmo dividida. Nos porões, o miasma de sangue e sêmen no útero fedido dos seus cárceres.

No escondido das ruas, a penumbra da resistência. “Um estranho cheiro de súplica”, dos versos de Alverga Pollari.

Se não a Pátria ingênua de Olavo Bilac, do Hino à Bandeira, uma Pátria mendigando amparo. E a crença da feitura.

E hoje, cadê a Pátria? Aí está. Brincando de cabra-cega. Té mais.

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quinta-feira - 25/01/2018 - 16:18h
Opinião

Só há um estado policial

Por François Silvestre

Estado policial é como casa dos avós, só muda o endereço. Na casa dos avós todos os netos são felizes. No Estado policial ninguém está seguro, nem os que mandam. Não interessa o tempo ou o espaço, todos os Estados policiais são iguais. Antropofágicos.

Lembra do Estado policial de Robespierre? O terror moral e ético. Ninguém estava seguro. Nem o próprio Robespierre, que acabou executado pelos seus discípulos. Lembram do Estado policial de Salazar, em Portugal?

Quantos dos edificadores da ditadura foram engolidos? E do mesmo Estado policial de Franco, na Espanha? Ou na Alemanha de Hitler?

Ernst Röhm sustentou Hitler e o Nazismo nos momentos mais difíceis, era a menina dos olhos do Nazismo, até cair em desgraça e ser executado.

Quantos criadores do Estado soviético foram mortos pelo Estado policial de Stalin? Ninguém conta.

Cheguemos aqui.

Quem foi o líder carismático e anti-comunista mais eficiente para a consumação do golpe militar de 1964, no Brasil? Carlos Lacerda.

Após a consolidação do Estado policial, que ele ajudara a fundar, Lacerda foi preso e cassado. Morreu humilhado e esquecido.

O Estado policial não poupa nem os seus. O ensaio para a edificação de um Estado policial no Brasil, fantasiado de “reparo moral”, só terá chance de consolidação porque o fanatismo não estuda nem aprende História.

E os moralistas, defensores dessa alternativa, são tão estúpidos que nem imaginam serem eles as vítimas futuras. Tudo vale, desde que haja a exibição idiota e pueril de uma pureza inexistente.

Temperada com mau caratismo ao gosto de cada um.

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domingo - 21/01/2018 - 08:33h

O “ismo” que deforma

Por François Silvestre

O fanatismo é o sarampo da inteligência. Lênin dizia que o esquerdismo era a doença infantil do comunismo. A revolução de 1917, que pariu a União Soviética, desaguou no fundamentalismo stalinista. Uma praga que só serviu ao capitalismo, presenteando-o indevidamente com a bandeira das liberdades fundamentais.

O fanatismo antissemita produziu o holocausto, que de tão violentamente brutal, dispensa comentário. O seu antípoda, o sionismo, tem praticado intolerância e violência a dificultar a implantação do Estado palestino.

Tudo com base em interesses do poder e da economia, onde deuses e religiões, mitos e seitas justificam tudo. E nessa seara tudo é poder e dinheiro. O ser humano, se é que há, fica na rabeira da fila.

Os tiranos não são fanáticos. Fanáticos são os seus seguidores. Os idiotas que se imolam para manter viva a violência fundamentalista. Seja no poder de tiranias de Estado ou de grupos dispersos, onde a estultice fabrica tragédias.

Os chefes ou “líderes”, no fundamentalismo”, agem como os traficantes de droga. Traficam, vendem, mas não usam. O uso fica para os viciados. Nenhum líder fundamentalista se veste  de bombas para explodir junto com suas vítimas. Isso é tarefa dos estúpidos, reduzidos à condição de esterco pensante. Terrorista e torturador são excrementos, que nem pra adubo servem.

A palavra não é só resultado do processo adâmico. Ela tem a força da bomba ou a fraqueza do lodo.

Poucas palavras têm a força da edificação que habita o substantivo “fundamento” e o adjetivo “fundamental”. Pois bem; basta uma desinência para desmoralizá-los.

Há um sufixo prostituto que deforma a semântica dos fundamentos. É o “ismo”. Quando se agrega a uma palavra dificilmente lhe preserva a dignidade originária. Vírus semântico. É o caso do fundamentalismo.

O fundamentalismo está espalhado em todo o mundo. À espreita em cada canto, angariando adeptos e recrutando idiotas.

No Brasil, onde tudo tem um toque de hipocrisia, há formas disfarçadas de fundamentalismo. Basta ver os blogs e twitters durante a última campanha eleitoral. Nos dois lados.

Sem falar no fundamentalismo “ético”, da cretinice que inverte o princípio da presunção de inocência, ao transformar acusação em julgamento. Todo moralista carrega escondido no íntimo da sua alma penada um matulão de “defeitos”, que lhe motivam ira ou preconceito.

Sartre dizia que o inferno eram os outros. Assim também ocorre nas discussões políticas que embalam as redes sócias: fanático é quem discorda de você.

Há também que se levar em conta uma realidade que sai do campo político e vai desaguar nos mananciais da antropologia.

Não somos ainda a Humanidade. Somos o elo intermediário entre os ancestrais de onde viemos e a Humanidade que há de vir. Somos pré-humanos. De tecnologia evoluída e humanidade embotada. Tribais da barbárie, intelectualmente desnutridos.

A Humanidade corre o risco de nunca existir, pois depende da nossa sobrevivência para nos suceder. Ao nos destruirmos impediremos seu nascimento. Té mais.

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quinta-feira - 18/01/2018 - 21:22h
Chove, chuva!

Ouço trovões, e tudo

Por François Silvestre

Sete e meia da noite, daqui na minha rede, neste quarto que dá para o nascente de Cajuais da Serra, ouço trovões. Saudade dos trovões da infância? Não. Desses eu tinha medo. Eram eles os pais da coalhada.

Dela, eu gostava. E da chuva, e tudo. Terminei essa frase imitando Holden Caulfield, como se fosse um adolescente no campo de centeio.

Desses trovões de agora eu gosto muito mais. Matam a saudade e seus estrondos me fazem esquecer que vivo num tempo de merda, num país de merda e num estadozinho de cocô, e nada.

De novo imito o apanhador num campo de esterco, e tudo.

Só a chuva e seus açudes salvam essa noite, dessa terra onde as “autoridades” satisfazem sua necessidades na privada fedida das sua salas, e tudo. E se reúnem para cagar juntos, e nada.

E chamam o povo para limpar-lhes as bundas com sabugos macios, após a colheita do milho esfregado nas fogueiras dos bajuladores. E cuspo.

Chove, chuva. O riacho está encharcado de todo o esterco dessa caganeira, e tudo. Toda água será pouca, e nada.

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quinta-feira - 11/01/2018 - 08:04h
Brasil

A serventia da bagunça

Por François Silvestre

Até a bagunça tem serventia. Nesse caso, é a bagunça institucional que põe uma fresta de luz na escuridão do seu tumulto.

Cristiane e Roberto Jefferson (Foto: Folhapress)

Do que falo? (do verbo falar) Da desnomeação de uma “ministra do trabalho”.

A deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ), a filha de Roberto Jefferson, co-operador do mensalão, sob a chefia de Zé Dirceu, foi nomeada por Michel Temer, que tem prerrogativas para tal, no meio do escambo para mexer na Previdência. Mexer não é reformar.

Aí, um Juiz, devidamente provocado, decidiu suspender a posse da distinta. É uma bagunça institucional? É.

Porém, entretanto mas porém, essa decisão traz a marca da serventia.

Foi um serviço prestado à moralidade.

O tucanato e o peteberato não podem reclamar, posto que aplaudiram essa mesma ação quando o despossado foi Lula, o indicado para a “casa civil”.

Mesmo com a serventia configurada, não se nega o reinado da bagunça.

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domingo - 07/01/2018 - 04:26h

A velhice dos anos

Por François Silvestre

Dizia o professor de Medicina Legal, Milton Ribeiro Dantas, que nós começamos a compreender a vida contando as décadas. E com o passar delas, descíamos a contagem para os anos, meses, semanas e dias.

Lembro ainda dos tempos de criança, quando se queria dizer que alguém estava à beira da morte, usava-se a expressão “está só contando as horas”.

Cada ano começa a contar as horas após a ceia de Natal. E agoniza entre festas, salamaleques, votos, abraços. Há um clima suave de música triste embalada por sinos femininamente sílfides.

É o único período em que a hipocrisia não parece maldosa. Pelo contrário, fica até fantasiada de candura.

O Nazareno certamente não teria tempo suficiente, nestes tempos de agora, nem chibatas disponíveis, para expulsar os vendilhões dos templos. Ou talvez nem o fizesse, pelo simples fato de que esses prédios pomposos, onde se encastelam as igrejas não seriam por ele reconhecidos como a sua edificação sobre a pedra de Pedro.

O Cristo que nós embalamos na manjedoura, aos sinos de Dezembro, para três meses depois o pendurarmos na cruz. Tudo regado a muita festa, comes e bebes; orações decoradas para afugentar medos e labaredas.

Jacques Anatole François Thibault, o popular Anatole France, dizia que as crucificações eram tão comuns naquele tempo, que nem despertavam interesse. Sugerindo que a pompa e circunstância da crucificação de Cristo foi uma invenção posterior.

Porém, nem ele, com seu ferino ceticismo, pôde negar que aquela crucificação produziu a mais profunda influência nas relações da fé humana ao longo do tempo.

O Cristianismo é núcleo e periferia. Vai do belo ao horrendo, da luz às trevas. Depende do tempo e das relações com o poder temporal. Da humanidade plena de um Ângelo Roncalli, o João XXlll,  à barbárie do Bispo Torquemada, na inquisição. Os extremos, com infinidades de configurações entre suas pontas.

Certamente o Cristo merece melhores emissários do que os vendedores de milagres, saltimbancos da fé, que infestam a angústia dos nossos tempos.

Mas eu falava da idade dos anos. Cuja adolescência impúbere despede-se ali por Maio e se veste de noivado; depois, a juventude atravessa as fogueiras a comemorar a colheita, nos folguedos de São João. Chega a maturidade e perdura até por meados de Outubro. E aí começa a velhice.

As rugas dos anos são tristes. É por isso que ele morre fazendo festa. Mas a festa não consegue enganar. Por isso a música da despedida é melancólica.

Mesmo assim, e até por isso, brindemos. Cristo está acima de nós. Da nossa fé ou da nossa descrença.

Morrer não é coisa da morte. Não. É coisa da vida! E pra viver é preciso entusiasmo. Os anos morrem entusiasmadamente.

Recorro a Anatole France, para fechar o texto. “Eu prefiro o erro do entusiasmo à indiferença do bom senso”. Té mais.

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quarta-feira - 03/01/2018 - 08:40h
Crenças e descrenças

Tempo, o Orixá!

Por François Silvestre

Da descrença que angustia, à pluralidade que conforta. Creio em vários deuses. Tupã é o meu preferido. Depois, Tempo. O Orixá. De onde vejo a lua agora, ela está vestida de amarelo queimado com uma faixa de preto, formada por uma nuvem. São as cores de Tempo.

Caetano Veloso homenageou meu Orixá com uma bela e singela canção. “És um senhor tão bonito, quanto a cara do meu filho, Tempo…Tempo…Tempo”. Sou filho de Tupã e Tempo.

O nome original de Tempo é Iroko. A primeira das árvores, daí sua irmandade com Tupã. Um da África sofrida e o outro da América assaltada. Dos seus filhos, diz o Candomblé:

“Os filhos de Iroko são tidos como eloquentes, ciumentos, camaradas, inteligentes, competentes, teimosos, turrões e generosos.

Gostam de diversão: dançar e cozinhar; comer e beber bem.

Apaixonam-se com facilidade e gostam de liderar.

Dotados de senso de justiça, são amigos queridos, mas também podem ser inimigos terríveis, no entanto, reconciliam-se facilmente.

Um defeito grande, é o facto de não conseguirem guardar segredos.

Iroko Kisselé; Eró Iroko issó, eró”!

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terça-feira - 02/01/2018 - 18:32h
"Justiça"

A próxima decisão

Por François Silvestre

A próxima decisão da justiça, ouvidos todos os ministérios públicos, federal, estadual, de contas e de contos será proibir o governo de pagar os salários atrasados de quem ainda não recebeu sequer Novembro.

Venha o dinheiro de qualquer fonte, não poderá pagar.

Será uma decisão para assegurar recursos aos beneficiários dessas categorias, que “legalmente” recebem vencimentos acima do teto constitucional.

Somados todos os tipos de auxílios disponíveis no vernáculo da sabedoria.

Mas o que é um policial diante de um promotor? Nada. O que é um professor diante de um juiz? Nada. O que é um médico diante de um conselheiro de contas? Nada.

Uma coisa é o Brasil do primeiro mundo, com togas e salamaleques a desfrutarem férias em Paris e Nova York. Outra coisa é a ralé. Metida e ingrata, que não vê essa gente sofrida montando processos, fazendo julgamentos e audiências do vazio.

Suados com tanta roupa preta, que nem o ar condicionado evita o auxílio-refrigeração.

A ralé, que antigamente chamava-se povo, que se exploda.

E deixe o Brasil bacharelar-se com toda a pompa de um país do futuro. Mesmo sem futuro…

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segunda-feira - 01/01/2018 - 20:28h
Segurança

O poder civil

Por François Silvestre

O Exército, do qual sou reservista de primeira categoria, pois fui recruta, servindo no Regimento de Obuses, em Santos Reis, onde também fui preso por subversão, é uma instituição merecedora do respeito nacional. Naquela época, o Exército arquivou o direito ao respeito por bancar uma Ditadura que prendeu, exilou, torturou e matou.

Retornando ao estuário da legalidade democrática, sob o comando do poder civil, emanado do povo, o Exército brasileiro merece nossa deferência, respeito e orgulho nacional. Hoje, nas ruas de Natal, região metropolitana e Mossoró, o Exército impõe o cumprimento do poder civil.

E as cidades agradecem, adormecendo mais tranquilas.

E eu, na desimportância da minha pequenez, volto à memória os dias do serviço militar; vendo hoje o Exército que eu imaginara naquele tempo.

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domingo - 31/12/2017 - 04:28h

Caronte

Por François Silvestre

“Quatro rios há nos espaços tenebrosos e subterrâneos dos Infernos: o Estige, o Aqueronte, o Cocito e o Flegetonte ou Piriflegetonte. Os três primeiros levam suas águas lentas, através de marnéis, pântanos e volutabros infectos, cobertos de tristes plantas aquáticas, a gargantas estreitas, onde o ruído das águas se torna espantoso. O quarto rola ondas de enxofre e fogo, arrastando no seu curso rochedos retumbantes”.

“Às bordas do Estige vêm dar as sombras dos que deixaram os corpos na região das luzes. Sobre a onda imóvel desliza, sem cessar, sem ruídos, uma barca com a madeira podre, suja, dirigida por horrenda criatura”. É Caronte, o barqueiro do inferno.

É assim que Tassilo Spalding inicia o verbete que define e expõe à visão gráfica a figura símbolo do que seria o capitalismo na mitologia.

E informa que o filho de Érebo e da Noite, desconhecido de Homero e de Hesíodo, era um deus ancião, mas imortal. Velho, repugnante, intratável e avaro.

Para realizar a travessia dos mortos à outra banda do Estige ou do Aqueronte, cobrava três óbolos, a menor das moedas, que valia uma sexta parte do dracma.

E só carregava os que tinham merecido a honra do sepultamento. Cujas almas, desligadas, tinham a posse das moedas que lhes garantiam a travessia.

As despossuídas vagavam pelas margens dos rios citados, até que um dia conseguissem o pagamento da travessia.

A descrição de Caronte e suas atribuições compõem o mais perfeito retrato do capitalismo e suas navegações pela história humana, a cobrar de cada um os óbolos de sua ganância e devolver a cada um a travessia no barco podre de Caronte.

Quando vejo um rico perdulário ou muquirana, esbanjador ou mealheiro, enojar-se com a palavra comunismo, eu compreendo. O que não compreendo é ver um pobre esganar-se de admiração ao capitalismo.

O comunismo, minha gente, nada tem a ver com pilantras que se definiram comunistas. O comunismo é Marx, não é Stalin.

O comunismo é São Francisco de Assis, Thomaz de Aquino, Padre Vieira, Portinari, Vulpiano Cavalcanti, Carlos Prestes, não é Chaves, Fidel, Dirceu ou Brejnev.

Caronte não recebia seres vivos na sua barca. O capitalismo não recebe seres livres nos seus negócios. Todos são livres, no capitalismo, para servirem aos capitalistas. Fora daí, a liberdade é apenas uma figura retórica. Onde se avolumam nas margens dos rios podres as almas despossuídas de óbolos.

Caronte pagou com a perda de função, durante um ano, por ter transportado Hércules, ainda vivo, e o fizera movido pelo medo.

Aí estão os dois instrumentos do aparato capitalista: a moeda e o medo. Sem a moeda e sem o medo, a exploração fracassaria.

Posta indevidamente nos ombros da ganância capitalista a bandeira das liberdades fundamentais, pelo falso comunismo, o antagonismo do mal se transformou no estandarte justificador do próprio mal.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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quinta-feira - 28/12/2017 - 22:30h
Opinião

Dupla fraude

Por François Silvestre

Vejo nas folhas que o governador Robinson Faria, cujo sobrenome coincide com o condicional do verbo fazer, vai dizer hoje se cumpre a promessa feita de pagar atrasado o mês de Novembro.

Ora, a sua promessa, para o salário de Novembro, independeria da “ajuda” federal.

Posto que vinha pagando com dois meses de atraso sem essa ajuda.

Ocorre que ele precisa da autorização de suas equipes, que são várias, em vários e estranhos setores, para prometer. Se prometer sem autorização, precisa desprometer.

Essa é a mumunha inovadora. Se ele fizer nova promessa, poderá mudá-la ao amanhecer.

Dependerá de uma das equipes concordar ou não.

Igualzinhoa Temer, que se valeu de um parecer ineficaz para mijar pra trás. Por que digo isso? Porque os tribunais de contas não têm competência para julgar contas do presidente nem dos governadores.

É atribuição do Congresso e das Assembleias Legislativas.

Essa ameaça do procurador de contas, tucano do bico faminto, é tão factível quanto o crime impossível, inimputável pela ineficácia do instrumento.

Nem o Ministério Público de Contas nem os tribunais de contas julgam crimes de responsabilidade. Nem são partes legítimas para processá-los.

Temer sabe disso.

O que confirma sua mentira da ajuda.

Tudo para ganhar um votinho a mais na sacanagem da Previdência.

Infelizmente estamos entre duas fraudes, a fraude constitucional de Temer e a fraude administrativa de Robinson.

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domingo - 24/12/2017 - 05:28h

Constituinte Originária ou zorra continuada

Por François Silvestre

Não se reforma uma casa pintando as paredes ou substituindo o teto se o alicerce estiver comprometido. A querer salvar o imóvel, só tem uma saída. É refazer a fundação.

Ou se faz assim, ou adiam-se, ad perpetuam, os mesmos e velhos problemas. A mexer aqui, alterar ali, esconder a sujeira, fazer pose e consolidar a desordem. E nos cantos escondidos do barco “reformado” continuarão a habitar os ratos, senhores do porão, comandando o convés.

É o caso do Brasil. Uma casa que se sustenta numa fundação institucionalmente falida. Superada e esgotada na gambiarra de uma ordem constitucional completamente desadequada no tempo, espaço e realidade social.

A Constituição de 1988 é o Diploma da “boa intenção” a florir o caminho do inferno. Como diria Marx.

Porém, num aspecto é preciso fazer justiça.  O constituinte de 88, sabiamente, percebeu que o momento da feitura da Carta Magna estava comprometido com a frivolidade cívica e a ligeireza jurídica. Onde se engalfinhavam num mesmo saco todas as tendências. Tendenciosas, como é da sua natureza.

O que fez o constituinte? Previu, nos Atos das Disposições Transitórias, uma reforma geral da Constituição. Para cinco anos após a promulgação.

Chegou 1993, ano da reforma prescrita. Não se cumpriu a determinação constitucional. Omissão combinada. Governo, oposição, sociedade “civil organizada”. Todos agasalhados na latada da constituição “cidadã”.  Lula, FHC, Ulisses Guimarães e et caterva. Todos convenientemente quiseram deixar tudo como estava.

Faça-se Justiça a Leonel Brizola, que cobrou essa revisão, para chamar o feito à ordem. É o único que não deve essa conta à História.

A partir daquele ano, a ordem constitucional brasileira, nascida da Constituinte de 1988, entrou no processo de caducidade constitucional. Esclerose institucional.

O quadro aí está para comprovar o dito, sem muito esforço de perquirição. Corrupção fora de controle, economia em frangalhos, educação pública analfabetizante, saúde pública abandonada, segurança pública de fratura exposta, instituições sem prerrogativas claras, legislação caótica. Ninguém sabe quem manda. Nem onde nem no quê.

Essa história de “constituinte” específica para fazer reforma política é uma escrachada demagogia.

Tem saída? Sim. Uma Constituinte Originária Exclusiva de composição aberta para prover uma nova ordem constitucional. Ou isso ou a consumação do caos.

Originária. Isto é, criar nova ordem. Preservando as conquistas democráticas e recepcionando o que se salva. Legitimadora de nova ordem institucional, sem qualquer dependência. Seja política ou jurídica. Com poderes que sejam poderes e órgãos que sejam apenas órgãos e não poderes disfarçados. Como está hoje. Procurador dando parecer sem ser provocado, depois de decisão prolatada. O nome disso é zorra institucional.

Exclusiva. Assembleia Constituinte com a única finalidade de elaborar a Constituição. Dissolvida após a promulgação.

Composição aberta. Com candidaturas avulsas, sem prejuízo dos candidatos partidários.

É a única forma de recuperar a dignidade institucional pela via democrática e pacífica. Sob pena de cairmos na vala comum das sociedades dispersas e sem esperança. Ou na carnificina de revoltas populares ou intervenção de quarteladas. Té mais.

François Silvestre é escritor

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sexta-feira - 22/12/2017 - 19:08h
Reflexão

Tarda, falha, mortalha

Por François Silvestre

Havia nos tempos do sertão profundo um adágio que dizia: “Quem aos vinte não barba, aos trinta não casa, aos quarenta não tem; não barba, não casa, não tem”.

Pois bem.

Prenderam Maluf e Marin. Dois corruptos notórios.

Maluf foi delegado diligente da Ditadura. Marin bancou com dinheiro roubado um esquema de tortura em São Paulo.

Todo mundo sabia disso. Menos a justiça.

Agora, a justiça se fez.

Tardou, falhou e oferece a mortalha.

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quarta-feira - 20/12/2017 - 09:25h
MDB

Farsa ou café requentado?

Por François Silvestre

O MDB nasceu sob o signo da suspeita. Quando a Ditadura aboliu os partidos políticos da ordem constitucional de 1946, criou dois “partidos” para dar feição de normalidade política. Arena e MDB.

Os adversários mais consequentes do regime imposto torceram o nariz para os dois. Um declaradamente a ser “partido do governo” e o outro “partido de oposição”.

Oposição consentida, era o rótulo do MDB.

Passado o tempo, o partido da oposição consentida criou estatura de oposição respeitável. E muitos dos que não se filiavam a correntes ideológicas extremadas abrigaram-se no seu ninho.

E prestou um grande serviço na luta pelo retorno da Democracia.

Com o fim do bipartidarismo, a ditadura imaginou desfigurar o MDB. E legislou exigindo a palavra “partido” em todas as siglas partidárias.

Ao ganhar o “P”, o MDB prostituiu-se. E só piorou ao longo do tempo.

Agora, sem jeito de remendo querem retirar o “P”, como se o fim de uma letra fosse o fim da patifaria.

Não.

É apenas a farsa da tragédia originária.

Café requentado muito tardiamente.

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terça-feira - 19/12/2017 - 19:22h
Reflexão

Justiça ou esmola social?

Por François Silvestre

Após vinte vinte anos de Ditadura Militar, falando de inchar o bolo para distribuí-lo, a redemocratização da Nova República prometendo liberdade e democracia de mentira, a fantasia ética da era Collor roubando a poupança do povo, só do povo, pois os ricos que poupavam foram alertados e sacaram tudo antes da extorsão; a social-democracia do plano real a implantar o neoliberalismo da dependência, o governo petista com seus cúmplices, hoje no poder, anunciando a inclusão social pela esmola, tudo isso resultou na Pátria da Miséria que se estabeleceu.

E aí está.

Executivo ineficiente, legislativo inexistente, judiciário de califas.

Ministério Público a cuidar da sua riqueza privada, brigando por prerrogativas.

Tribunais de Contas sob suspeitas intermináveis.

Pátria dos patriotas?

“O último refúgio dos canalhas”, da lição de Samuel Johnson.

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domingo - 17/12/2017 - 03:28h

Uma noite, na casa de Radir Pereira

Por François Silvestre

* Para Honório de Medeiros

Campanha para senador em 1978. Uma espécie de substituição democrática, posto que o “governador” era “eleito” pelo “colégio eleitoral”, sob o controle do regime militar. “Governador” era apenas o delegado da Ditadura, nos Estados.

O que todos esperavam era uma chapa do MDB imbatível, após a vitória, quatro anos antes, de Agenor Maria sobre o candidato da Arena, Djalma Marinho. Nessa eleição, de 1974, eu estava preso. A chapa dessa espera, em 1978, seria formada por Odilon Ribeiro Coutinho, Radir Pereira e Varela Barca.

Seria um banho de água gelada na fervura do regime de mentira, aqui no jerimunzal. Ficou na ilusão. O MDB, sob o comando da Família Alves, mesmo com três irmãos cassados, resolveu fazer um acordo com o regime que os punira.

Nesse acordo, o MDB aluizista lançou, para a convenção, três candidatos ao Senado, tudo de faz de conta. Olavo Montenegro, Paulo Barbalho e Chico Rocha. Os três renunciariam e o MDB apoiaria a candidatura de Jessé Freire, candidato da Ditadura. A motivação desse acordo será tratada noutro texto.

O grupo autêntico do MDB potiguar, sob a liderança de Roberto Furtado e Odilon Ribeiro Coutinho, não se resignou e lançou as candidaturas de Odilon e Radir Pereira. A luta teria desfecho na convenção.

Contando os votos dos delegados, chegamos à constatação de que, mantidas as duas postulações, os autênticos não indicariam ninguém. O desprendimento de Odilon, retirando a candidatura, garantiu a candidatura de Radir Pereira contra o acordão. (Autêntico foi o nome dado ao bloco emedebista, no Congresso, em oposição ao bloco Moderado).

Resultado da convenção: saíram candidatos Radir Pereira, Olavo Montenegro e Chico Rocha. Olavo Montenegro cumpriu o acerto do acordo e renunciou. Chico Rocha manteve a candidatura.

Radir perdeu as eleições para o Senado, mas venceu em Natal por quase quinze mil votos de maioria. Contra tudo e todos. Governo federal, governo estadual, prefeitura da Capital, federação de indústrias, de comércio, Alves e Maias no mesmo palanque.

Os Maias não tinham votos naquele momento, a invenção de Aluízio Alves os colocou no patamar de liderança. E o inventor pagou caro por isso.

Quatro anos depois foi derrotado para governador. O voto vinculado explica a derrota no interior; mas na Capital, em que ele fora o eleitor maior, desde os anos Sessenta, apenas empatou com o candidato dos Maias.

Radir teve melhor desempenho.

Na casa de Radir, após a conquista da candidatura insurgente, reunimo-nos, naquela noite, para comemorar e montar “estratégias”.

Casa lotada. Todos os ambientes cheios. Delegados do partido, assessores, jornalistas, lideranças municipais, puxa-sacos, espiões, o escambau.

Numa mesa larga, dona Alda, mulher de Radir, nos colocou. O Próprio Radir, o ex-governador Cortez Pereira, primo e concunhado de Radir, Odilon Ribeiro Coutinho, Júnior Targino, Rubens Lemos, Agenor Maria e eu.

Essa mesa ficava o tempo todo cercada de perus. Como se estivessem peruando um jogo de cartas.

Muito uísque Bells, vinho, caipirinhas. E tome papo. Não me lembro do começo da confusão que deu. Ocorre que Cortez Pereira, num certo momento, dirigiu-se a mim. Tínhamos referências anteriores de afetos e brigas.

Tarcísio Maia e Cortez Pereira em 1974 (Foto: arquivo)

Ele fora meu professor. Eu fizera aquele discurso na Casa do Estudante, em que Dona Aída Cortez fez uma visita de proselitismo político para o marido governador.

Estraguei a festa e fui preso no dia seguinte. Não fui preso pelo governo estadual, que não tinha força para prender nem prestígio para soltar. Tempos do torturador Médici. A Polícia Federal me prendeu, sob as ordens do DOPS.

Pois bem. Cortez dirigiu-se a mim e disse: “Nós fomos punidos pelo mesmo regime”. Hoje, eu ficaria caldo. Naquela noite, fui grosseiro e respondi: “Fui punido por um regime que sempre combati. Você foi punido pelo mesmo regime ao qual serviu da forma mais torpe”. Desse jeito.

Eu era muito cabeludo. Meus cabelos desciam sobre os ombros. Ele respondeu: “Só desculpo a infâmia da sua fala porque a inteligência contida nela não tem a mesma dimensão da sua cabeleira”.

Confusão ao redor da mesa. Eu maneirei: “Tudo bem. Eu retiro o torpe”. Cortez aceitou as desculpas. Mas Odilon interveio: “Retire não. Foi muito bem colocado”.

Cortez vira-se para Odilon: “Você declarou que a ditadura se redimira, no Rio Grande do Norte, quando me escolheu governador”.

Radir Pereira (Foto: arquivo)

Odilon rebate: “É verdade, mas depois eu fiz autocrítica e disse que você entrara no Palácio pela porta dos fundos”. Cortez retruca: “Eu li e respondi que entrara pela porta dos fundos para abrir a porta da frente do Palácio a empresários mal sucedidos como você”.

Aí a confusão tomou conta. Todos os ambientes da casa vieram para esse local. Dona Alda, coitada, pedia quase gritando: “Vocês estão de que lado? Do lado dos adversários”? Radir pedia calma. Rubens Lemos cofiava o bigode e ria. Targino sugeriu: “Vamos enchiqueirar eles”.

Serenados os ânimos, houve o enchiqueiramento. Puseram uma mesa ao lado oeste do quintal, longe da festa, onde ficamos Odilon, Cortez, Targino e eu. Varamos a madrugada, entre reflexões de direito, filosofia, história e muita birita.

Cortez e eu, por sugestão de Odilon, combinamos a abertura de um escritório, em Natal, de advocacia criminal. Targino faria parte. Tempos depois, Targino me disse que nunca acreditou naquele empreendimento.

Ele estava certo. O “escritório” nasceu e morreu naquela madrugada. O tempo passou, como é imposição do destino, não ampliou a inteligência da minha fala, mas engoliu a minha cabeleira. Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 10/12/2017 - 07:26h

A maldição da escrita

Por François Silvestre

Ou a “dura escritura” a que se referia Clarice Lispector. É certo que ninguém, do ramo de mesmo, escapa impune dessa maldição.

Tranquilizem-se os que fazem da escrita apenas um exercício de redação, principalmente na internet, onde todas as línguas são maceradas pelas penas infames dos redatores de shoppings. Não serão alcançados pela maldição.

Aliás, nesse caso a maldição atinge o leitor. O coitado pune os olhos e ainda maltrata a escassa instrução. São leitores de copistas que nem sabem de onde vem o palimpsesto. Nem pra onde vai.

Mas essa não é a maldição de que trata o presente texto. Aqui eu quero cuidar da real escrita, maldita e carcereira que mantém sob cadeados os que a usaram ao longo da vida sem perceber que é ela a usá-los e não o contrário.

E quando percebem, já nada podem fazer. Apenas esperneiam, deprimidos e angustiados. Sentindo os grilhões que lhes aprisionam o juízo.

Foi assim com Manoel de Barros. Poeta da desfeitura, do desaprender para atingir o miolo do desconhecimento. Da inutilidade mais útil do que todas as utilidades práticas. Essa inutilidade a que se refere Kerubino Procópio, como exercício do envelhecer.

E o castigo foi a morte do riso do poeta, ainda em vida. Abatido pela depressão que não perdoa nem a poesia.

Com Câmara Cascudo. Escreveu mais livros do que os leitores que tem. Escreveu mais do que a maioria lê durante toda a vida. Também viveu, e o fez intensamente. Mas não se livrou da maldição, ao pronunciar uma única vez a amargura provinciana. “Não consagra nem desconsagra”…

Com José Lins do Rego. Sua escrita é a tentativa frustrada de espantar o fantasma de um garoto a cuja morte lhe deu causa.

Com Ariano Suassuna. A tragédia que abateu sua família, quando um parente seu matou João Pessoa. E o resultado mais brutal foi o assassinato do próprio pai. Diniz Quaderna, d’A pedra do Reino, confirma o revelado. Que nem Sinésio, o alumioso, conseguiu alumiar.

Com Guimarães Rosa, o “reacionário da palavra”, a feitura nova da frase. “Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que fui o primeiro que cri”. Premonitor da própria treva.

Com Drummond de Andrade. A poesia mais chafurdada por críticos e acadêmicos. O esplendor poético na pele de um funcionário tímido, da burocracia oficial.

Com João Cabral de Melo Neto. A poesia de pedra a ser jogada secamente na cara dos sentimentos, para negá-los. E a rendição final, ante a fraqueza física que não se nivelou à fortaleza poética.

Com Mário de Andrade. Angústia antropofágica e partida precoce. As letras e a música modelaram a maldição íntima de um homem além do tempo. “No Pátio do Colégio, afundem meu coração”.

Com Clarice Lispector. “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. A dor invisível do próximo instante desconhecido. Ou presentemente visível. Em Manoel Bandeira, Oswaldo Lamartine, Zila Mamede, Augusto dos Anjos. Nenhum anjo.

E assim é com quem paga o preço dessa maldição. Da palavra escrita com jeito novo, mesmo sendo palavra velha. Do espanto que causa a cópula das palavras a embuchar a frase e parir o rebento.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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