domingo - 02/04/2023 - 07:38h

O golpe adiado…

Por François Silvestre

…e consumado em Primeiro de Abril.

O Exército Brasileiro sempre foi politizado e politicado. Politizado por poucos, alguns oficiais estudiosos, e politicado pela maioria, oficiais frustrados, de vocação politica, com uso da farda para alcançar o poder. Ponto.

Heneral Henrique Lott, um prestígio e força em defesa da legalidade (Foto: FGV)

General Henrique Lott, um freio no golpe (Foto: FGV)

Os tenentes dos anos Vinte são os coronéis dos anos Quarenta e generais dos anos Cinquenta e Sessenta. O Exército dividiu-se, nesse período da História, em duas alas bem nítidas. Uma ala da Direita liderada pelo General Canrobert Pereira da Costa, e a outra, à esquerda, liderada pelo  General Newton Estilac Leal.

Desde o fim do Estado Novo, essas duas alas se enfrentavam. Ora, na surdina. Ora às escâncaras. Não houve uma eleição, após a redemocratização de 1945, que não tivesse um Oficial de última graduação de uma das três forças. Em 45, dois. O General Dutra, pelo PSD, e o Brigadeiro Eduardo Gomes pela UDN. Dois candidatos civis, Iêdo Fiúza e Rolim Teles, sem importância.

Em 1950, Eduardo Gomes novamente, agora contra Getúlio Vargas. Cristiano Machado só pra compor. Em 1955, O general Juarez Távora. Derrotado por Juscelino Kubitschek. Adhemar de Barros e Plinio Salgado completaram o quadro. Foi aí que se tentou o golpe, que veio a ser vitorioso em 1964.

JK não obteve cinquenta por cento dos votos, nem havia comando legal exigindo essa condição. Foi apenas o candidato mais votado. Dentro da regra constitucional. A UDN, useira e vezeira em perder eleições, iniciou uma campanha contra a posse dos eleitos. JK e Jango. Orquestrada pelo jornalista e político Carlos Lacerda.

Um homem inteligentíssimo, fluente, convincente, estudioso, culto; tudo que se diga sobre seu talento ainda é pouco. Porém, dotado de uma ojeriza patológica à Democracia. Fora comunista na mocidade, defensor da ditadura do “Proletariado”. Agora, anticomunista visceral, queria uma ditadura de Direita.

A armação do Golpe. No sepultamento do General Canrobert Pereira da Costa, líder da direita no Exército, Novembro de 1955, o coronel Bizarria Mamede faz um discurso sugerindo intervenção militar para evitar a posse dos eleitos.

O Ministro da Guerra, do Governo Café Filho, General Henrique Batista Dufles Teixeira Lott, estava presente. Contou depois que não dera voz de prisão ao Coronel por respeito à família do morto. Mas exigiu do Presidente que Mamede fosse punido.

Não poderia ele mesmo punir, pois Bizarria Mamede era lotado em área de vínculo com a Presidência. A UDN mobilizou-se para evitar a punição do coronel. Lacerda procura Café Filho. O presidente potiguar não quis comprometer-se pessoalmente com o golpe.

Saiu a seguinte jogada. Café Filho “adoece”, recolhe-se ao seu apartamento, e a presidência é assumida pelo Presidente da Câmara, Carlos Luz. O deputado mineiro, inimigo de JK, aliado dos golpistas, assume o poder.

O General Lott vai ao presidente Carlos Luz. Após um chá de cadeira de mais de duas horas, Lott é recebido. Ao informar do que se tratava, Carlos Luz foi incisivo. “Não há nada a ser punido”.

Lott pede demissão. Aí, Carlos Luz comete o erro fatal. “Aceito sua demissão e marco para amanhã a transmissão do cargo”. Festa na UDN. Se houvesse feito a transmissão naquela hora, o golpe teria se consumado. Ao chegar em casa, Lott usa um rádio de campanha e fala com o general Odylio Denys.

Ao ouvir o relato, Denys comenta. “Vão impedir a posse dos eleitos”. Pergunta quem é o substituto de Lott. Lott responde que só saberá “amanhã”. “Não houve transmissão”? Pergunta Odylio. “Não”. Responde Lott. “Então você ainda é Ministro. Ponha os tanques na rua”.

Foi o que Lott fez. Depôs Carlos Luz, deu posse a Nereu Ramos, presidente do Senado. Lacerda, Carlos Luz e Penna Boto esconderam-se no navio Almirante Tamandaré. Café Filho tentou voltar ao cargo. Recebeu do novo governo a informação de que ele continuaria doente. E Lott pôs um tanque guarnecendo o apartamento de Café Filho.

Em Janeiro de 1956, JK e Jango assumem a presidência e vice-presidência da República. Estava adiado o golpe pra Primeiro de Abril de 1964. E daí vinte anos de trevas. Cassações, exílios, torturas, desaparecidos, censura, prisões e fim do Habeas Corpus. Baixe o pano!

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica / Política
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