segunda-feira - 01/04/2024 - 19:10h
Golpe militar

Não foi ontem, e sim hoje

Por François Silvestre

Foto captada na Web, sem identificação de autoria

Foto captada na Web, sem identificação de autoria

O golpe militar, com apoio ostensivo da imprensa e setores reacionários de civis, inclusive partidos políticos, não se consolidou dia 31 de Março (1964), ontem, mas dia Primeiro de Abril. Ontem não foi o dia de comemorar, para uns, nem condenar, para outros.

Isso tem importância? Sim e não. Até porque datas em dias ou meses não refletem corretamente o que ocorre na História. Esse golpe foi maturado desde a redemocratização, em 1946. A queda da ditadura Vargas deixou sequelas nos seus adversários de sentimentos incuráveis. Pelo motivo simples de explicação.

Todas as eleições seguidas de 1945 em diante, teve um ou mais militar da Direita, sob a liderança do general Canrobert Pereira da Costa, contra alguém getulista ou remanescente do governo ditatorial de Vargas, sob a liderança do general Newton de Estilac Leal.

Em 45, General Dutra contra Eduardo Gomes. O primeiro, ex-ministro de Getúlio, por ele apoiado. O segundo, apoiado pela direita udenista e anti-getulista. Quem venceu? O getulismo. 1950, De novo Eduardo Gomes contra o próprio Getúlio. Venceu o ex-ditador, agora transformado em democrata e líder da luta trabalhista. Em 55, O general Juarez Távora contra o getulista Juscelino Kubitschek. Venceu JK.

Em 1960, finalmente a direita vence. Jânio Quadros derrota o general Teixeira Lott. Sossega o firo? Não. Jânio renuncia, com sete meses de governo, e assume o poder João Goulart, getulista da gema. Espécie de filho político de Getúlio.

Durante todo esse período houve incontáveis tentativas de golpes. Uns esclarecidos e conhecidos, outros abafados. Mas isso é outra história.

Nos fins de Março de 1964, a milicada conspirava a céu aberto. Sob o olhar incompetente e conivente da Esquerda e do próprio Jango. Quando o general Mourão Filho mobilizou tropas em Minas, elas seriam facilmente barradas pelo Segundo Exército, de São Paulo, chefiado pelo general Amaury Kruel, compadre de Jango, que fora seu padrinho de casamento.

Em vez de Jango ir pra São Paulo, de onde barraria o golpe, foi pro Rio Grande do Sul, onde o general Ladário nada podia fazer, pois até o governo local era aliado dos golpistas. Conta-se que Kruel foi cooptado pelo embaixador americano, com uma malinha de duzentos mil dólares. Dali saiu de São Paulo e cercou o Rio.

Foi no dia primeiro de Abril que o golpe se consolidou. Com o ódio antigo de Moura Andrade contra Jango, declarando vaga a presidência da Republica, na condição de presidente do Congresso. Na hora, recebeu uma cusparada do Deputado paulista Roger Ferreira e os gritos de “Canalha..canalha”… de Tancredo Neves. Estava ali consolidado o golpe, com Jango ainda no Brasil, saindo depois para o Uruguai.

Repetição da História; Jango no Uruguai, a tragédia. Bolsonaro na Hungria, a farsa. Hoje (1º de Abril) é o dia.

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domingo - 02/04/2023 - 07:38h

O golpe adiado…

Por François Silvestre

…e consumado em Primeiro de Abril.

O Exército Brasileiro sempre foi politizado e politicado. Politizado por poucos, alguns oficiais estudiosos, e politicado pela maioria, oficiais frustrados, de vocação politica, com uso da farda para alcançar o poder. Ponto.

Heneral Henrique Lott, um prestígio e força em defesa da legalidade (Foto: FGV)

General Henrique Lott, um freio no golpe (Foto: FGV)

Os tenentes dos anos Vinte são os coronéis dos anos Quarenta e generais dos anos Cinquenta e Sessenta. O Exército dividiu-se, nesse período da História, em duas alas bem nítidas. Uma ala da Direita liderada pelo General Canrobert Pereira da Costa, e a outra, à esquerda, liderada pelo  General Newton Estilac Leal.

Desde o fim do Estado Novo, essas duas alas se enfrentavam. Ora, na surdina. Ora às escâncaras. Não houve uma eleição, após a redemocratização de 1945, que não tivesse um Oficial de última graduação de uma das três forças. Em 45, dois. O General Dutra, pelo PSD, e o Brigadeiro Eduardo Gomes pela UDN. Dois candidatos civis, Iêdo Fiúza e Rolim Teles, sem importância.

Em 1950, Eduardo Gomes novamente, agora contra Getúlio Vargas. Cristiano Machado só pra compor. Em 1955, O general Juarez Távora. Derrotado por Juscelino Kubitschek. Adhemar de Barros e Plinio Salgado completaram o quadro. Foi aí que se tentou o golpe, que veio a ser vitorioso em 1964.

JK não obteve cinquenta por cento dos votos, nem havia comando legal exigindo essa condição. Foi apenas o candidato mais votado. Dentro da regra constitucional. A UDN, useira e vezeira em perder eleições, iniciou uma campanha contra a posse dos eleitos. JK e Jango. Orquestrada pelo jornalista e político Carlos Lacerda.

Um homem inteligentíssimo, fluente, convincente, estudioso, culto; tudo que se diga sobre seu talento ainda é pouco. Porém, dotado de uma ojeriza patológica à Democracia. Fora comunista na mocidade, defensor da ditadura do “Proletariado”. Agora, anticomunista visceral, queria uma ditadura de Direita.

A armação do Golpe. No sepultamento do General Canrobert Pereira da Costa, líder da direita no Exército, Novembro de 1955, o coronel Bizarria Mamede faz um discurso sugerindo intervenção militar para evitar a posse dos eleitos.

O Ministro da Guerra, do Governo Café Filho, General Henrique Batista Dufles Teixeira Lott, estava presente. Contou depois que não dera voz de prisão ao Coronel por respeito à família do morto. Mas exigiu do Presidente que Mamede fosse punido.

Não poderia ele mesmo punir, pois Bizarria Mamede era lotado em área de vínculo com a Presidência. A UDN mobilizou-se para evitar a punição do coronel. Lacerda procura Café Filho. O presidente potiguar não quis comprometer-se pessoalmente com o golpe.

Saiu a seguinte jogada. Café Filho “adoece”, recolhe-se ao seu apartamento, e a presidência é assumida pelo Presidente da Câmara, Carlos Luz. O deputado mineiro, inimigo de JK, aliado dos golpistas, assume o poder.

O General Lott vai ao presidente Carlos Luz. Após um chá de cadeira de mais de duas horas, Lott é recebido. Ao informar do que se tratava, Carlos Luz foi incisivo. “Não há nada a ser punido”.

Lott pede demissão. Aí, Carlos Luz comete o erro fatal. “Aceito sua demissão e marco para amanhã a transmissão do cargo”. Festa na UDN. Se houvesse feito a transmissão naquela hora, o golpe teria se consumado. Ao chegar em casa, Lott usa um rádio de campanha e fala com o general Odylio Denys.

Ao ouvir o relato, Denys comenta. “Vão impedir a posse dos eleitos”. Pergunta quem é o substituto de Lott. Lott responde que só saberá “amanhã”. “Não houve transmissão”? Pergunta Odylio. “Não”. Responde Lott. “Então você ainda é Ministro. Ponha os tanques na rua”.

Foi o que Lott fez. Depôs Carlos Luz, deu posse a Nereu Ramos, presidente do Senado. Lacerda, Carlos Luz e Penna Boto esconderam-se no navio Almirante Tamandaré. Café Filho tentou voltar ao cargo. Recebeu do novo governo a informação de que ele continuaria doente. E Lott pôs um tanque guarnecendo o apartamento de Café Filho.

Em Janeiro de 1956, JK e Jango assumem a presidência e vice-presidência da República. Estava adiado o golpe pra Primeiro de Abril de 1964. E daí vinte anos de trevas. Cassações, exílios, torturas, desaparecidos, censura, prisões e fim do Habeas Corpus. Baixe o pano!

François Silvestre é escritor

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domingo - 06/11/2022 - 12:34h
Francamente!

Intervenção ou liberdade, escolha

Patota que segue em vigília em frente a unidades militares federais, pedindo “golpe”, e que defende a “liberdade”, precisa ser esclarecida sobre algo elementar: intervenção militar e liberdade são excludentes.

Ei, acorde.

Uma coisa ou outra.

Francamente.

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terça-feira - 19/07/2022 - 16:14h
Opinião

Golpe zero

Desfile Militar em Brasília no dia 10 de Agosto de 2021, com tanque caquético vomitando fumaça (Foto: arquivo)

Desfile Militar em Brasília no dia 10 de Agosto de 2021, com tanque caquético vomitando fumaça (Foto: arquivo)

Tenho a mesma opinião hoje que tinha há meses: não teremos golpe algum, apesar de ver que o presidente Jair Bolsonaro (PL) adoraria o estado de exceção.

Falta-lhe o elementar: apoio popular, aval internacional e meios armados.

Oposição faz alarido natural e esperado.

Que venham as eleições.

Leia também: Aliados veem reunião de Bolsonaro com embaixadores como ‘tiro no pé’.

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sábado - 21/08/2021 - 20:28h
Anote, por favor

Dias piores virão, mesmo sem golpe

Parte da imprensa e da classe política, de oposição, logicamente, vende tese conspiratória do golpe como ingrediente de um processo estratégico para amplificar imagem negativa de Jair Bolsonaro (sem partido). Assim, toca terror (ainda mais).ditadura_nunca_mais4-750x440Digo com margem de 100% de certeza: o presidente não tem recursos mínimos para promover golpe, não obstante pretender, sonhar e até agir nesse sentido. A conjuntura é bastante desfavorável à aspiração dessa ordem.

Forças Armadas não embarcariam numa aventura sem apoio popular representativo (diferente de 64), com cenário internacional completamente desfavorável e crescente desequilíbrio presidencial.

A guerra fria entre EUA e União Soviética (que se esfacelou), não existe mais. A polarização imperial hoje é entre norte-americanos e China, muito mais com estratégias mercantis do que bélicas ou de amparo a regimes totalitários, à esquerda ou à direita.

Durmo tranquilo quanto a isso, mas não tenho dúvidas também que as eleições de 2022 não vão marcar o fim de um ciclo doentio em nossa política e sociedade, mas seu recrudescimento.

E, provavelmente, teremos campanha banhada em sangue. O clima preparatório é para isso.

Açulam fanáticos de parte a parte para a guerra.

Dias piores virão.

Cuide-se.

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quarta-feira - 31/03/2021 - 20:28h
Padre Sátiro:

“Ditadura, nunca mais!”

Do arquivo pessoal do padre Sátiro Cavalcanti Dantas, uma foto com ele numa pequena moto no Colégio Diocesano

Do arquivo pessoal do padre Sátiro Cavalcanti Dantas, uma foto com ele numa pequena moto no Colégio Diocesano

Depoimento do padre Sátiro Cavalcanti Dantas:

Apenas quero relembrar fatos presenciados por mim como protagonista.

Padre Alcir, alguns internos do Colégio Diocesano e eu passamos a noite quase toda ao pé do rádio ouvindo notícias sobre o acontecimento nacional, movimentação de tropas militares.

No dia seguinte prisões e boatos.

Na mesma semana fui, como diretor de escola, convocado para uma reunião no Tiro de Guerra, estando presentes os importantes da cidade, presidida pelo capitão D’Oh (não sei se escrevi certo) representante do Exército.

Lideranças estudantis e rurais eram acusadas de comunistas. Defendi os que conhecia, entre os quais o presidente do Centro Estudantil Mossoroense (CEM) e o líder ruralista ligado à Diocese. Progressistas sim, comunistas não, pois era o clima do País.

Depois de muita discussão, o Sr.Dix-Neuf Rosado, defendendo a minha posição diz:

– “Pe. Sátiro tem razão, ele assume a responsabilidade.”

Infelizmente em outra reunião para a qual não fui convocado, substituíram o presidente do Centro Estudantil. Houve a comemoração da “Revolução”, organizada por um grupo de senhoras da sociedade.

As escolas se fizeram presentes, entretanto, o Colégio Diocesano não participou. Surgiram as censuras, reclamaram ao Sr. Bispo.

Graças a Deus, o Sr. Bispo respeitou a nossa atitude.

São Fatos!

Tem razão o Sr. Cardeal Dom Evaristo Arns ao proclamar: “Ditadura, Nunca Mais!”

Nota do Blog – Admirável Sátiro. Nunca mais, nunca mais!

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domingo - 01/03/2020 - 13:50h
História

Tentativa de golpe, frustrado, faz pouco mais de 60 anos

Militares rebeldes tinham planos de bombardear palácio de governo e assassinar Juscelino Kubitschek

Por Ricardo Westin, do Poder 360

Há pouco mais de 60 anos, um avião da Panair que havia decolado do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, rumo a Manaus, com escala em Belém, desapareceu durante a madrugada em pleno voo. A bordo, entre passageiros e tripulantes, viajavam 46 pessoas, incluindo o senador Remy Archer (PSD-MA).

Notícias desencontradas logo começaram a correr. Nas primeiras horas da manhã de 3 de dezembro de 1959, um desnorteado senador Victorino Freire (PSD-MT) subiu à tribuna do Palácio Monroe, a sede do Senado, no Rio, para expor sua aflição:

— Preparava-me para sair de casa quando soube que havia desaparecido o Constellation da Panair em que viajavam o senador Remy Archer, meu amigo, e a filha do jornalista Carlos Castello Branco [importante colunista político da época]. Aqui permanecemos numa verdadeira tortura de espera e ansiedade.

O Repórter Esso chegou a divulgar que o avião havia caído. A senhora Archer, com três filhinhos pequenos, em pranto, estava certa de que o marido havia morrido. No mesmo desespero se encontrava aqui nesta Casa o jornalista Castello Branco, também meu velho e querido amigo.

Jornal noticia em 1959 a deflagração da Revolta de Aragarças, tentativa de golpe que não se confirmou (Reprodução)

A fala de Freire está catalogada no Arquivo do Senado. De acordo com documentos do mesmo acervo histórico, os senadores Otávio Mangabeira (UDN-BA) e Afonso Arinos (UDN-RJ) interromperam o colega e avisaram que haviam acabado de receber, de mensageiros anônimos, cópias mimeografadas de um manifesto que explicava tudo, assinado por um grupo que se intitulava Comando Revolucionário.

Não se tratava de desastre aéreo. O avião da Panair, na realidade, havia sido sequestrado no ar —o primeiro sequestro de avião da história do Brasil. Estava em curso uma tentativa de golpe de Estado para derrubar o presidente Juscelino Kubitschek, fechar o Congresso Nacional e instaurar uma ditadura militar. O Comando Revolucionário era formado essencialmente por oficiais da Aeronáutica e do Exército.

Conspiração

A conspiração teve mais duas frentes. Na noite do dia 2 de dezembro, poucas horas antes de o piloto da Painair ser rendido quando atravessava a Bahia, outro grupo roubou da Base Aérea do Galeão, no Rio, três aviões da Aeronáutica repletos de armas e explosivos, e um terceiro grupo levou do Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, um teco-teco pertencente a uma empresa privada também carregado de armamento.

De posse dos cinco aviões, os rebeldes voaram para Aragarças, uma cidadezinha dos confins de Goiás, na divisa com Mato Grosso, assim chamada por localizar-se na confluência dos Rios Araguaia e das Garças. Aragarças seria o quartel-general da revolta. O plano mais imediato era bombardear o Palácio do Catete e matar JK. O movimento, que duraria só dois dias e acabaria fracassando, ficou conhecido como Revolta de Aragarças.

— Proclamo meu desacordo com essas situações violentas. Sejam quais forem as falhas do governo, por mais graves e angustiosos que sejam os problemas brasileiros, não será à custa de movimentos de indisciplina, subversivos, revolucionários, que iremos ao encontro das legítimas aspirações do povo. Somente dentro da lei removeremos as dificuldades —discursou o senador Lameira Bittencourt (PSD-PA), líder do governo no Senado.

— Quero deixar patente a reprovação da bancada udenista a qualquer movimento subversivo. A nação precisa de paz e ordem para prosseguir no exercício da sua vida democrática. Qualquer perturbação trará profundos prejuízos não à política ou aos partidos, mas à pátria brasileira —concordou o senador João Villasbôas (UDN-MT), líder da oposição ao governo.

A aliança partidária PSD-PTB governava o Brasil desde 1946. Setores das Forças Armadas estavam insatisfeitos com a hegemonia ininterrupta do getulismo e do trabalhismo e ansiavam por ver no poder a UDN, partido oposicionista que havia perdido as três eleições presidenciais posteriores à ditadura do Estado Novo. Esses militares já haviam planejado golpes para destronar a dobradinha PSD-PTB em 1954, 1955 e 1956, nas três vezes sem sucesso.

Em dezembro de 1959, o estopim da Revolta de Aragarças foi a repentina decisão de Jânio Quadros, o presidenciável apoiado pela UDN, de renunciar à candidatura. A eleição estava marcada para outubro de 1960. Os militares que se aferravam a Jânio e à UDN entenderam que a desistência permitiria a JK eleger seu sucessor e perpetuar a chapa PSD-PTB no controle do Brasil.

“Comando Revolucionário”

Antes da renúncia de Jânio, o autointitulado Comando Revolucionário já estava em alerta por causa de dois boatos fortes. O primeiro dava conta que JK negociava uma emenda constitucional que lhe permitiria a reeleição.

Rebeldes eram contrários a JK e João Goulart e favoráveis ao candidato Jânio Quadros (Reprodução)

O segundo boato dizia que o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, expoente do PTB, orquestrava um golpe para barrar a provável vitória de Jânio e da UDN e instaurar uma ditadura sindicalista no país.

— Não tenhamos dúvida de que a revolução, a revolta, o motim ou golpe frustrado de Aragarças foi muito fruto da decepção causada pela retirada da campanha do senhor Jânio Quadros —afirmou o senador Afonso Arinos.

O manifesto divulgado pelo Comando Revolucionário descrevia o Poder Executivo como corrupto, o Legislativo como demagógico e o Judiciário como omisso. E citava o risco de o Brasil cair nas garras do comunismo:

“Em face desse estado de degeneração e deterioração, os adeptos do comunismo infiltrados nos mais variados setores, dentro e fora da administração pública, procuram tirar o máximo benefício da situação de miséria e de fome das populações para implantar o seu regime de escravidão do ser humano”.

A Revolta de Aragarças falhou porque os insurgentes não conseguiram o apoio imaginado. Eles esperavam que levas de militares de todos os cantos do Brasil se somariam ao movimento assim que o manifesto fosse divulgado. Entretanto, soldado nenhum saiu dos quartéis. Também contavam com a adesão de políticos da UDN. Os udenistas, contudo, calcularam que uma revolta militar nesse momento daria motivo para JK decretar estado de sítio, cancelar a eleição de 1960 e, aí sim, apossar-se de vez da cadeira presidencial.

 

Amotinados se rendem; avião pega fogo (Campanella Neto/ Diário de Notícias)

Fim sem vítimas

No fim, Aragarças envolveu cerca de 15 rebeldes apenas, incluindo três civis. Dado esse pífio contingente, as forças militares do governo sufocaram a insurreição rapidamente, já no dia seguinte ao sequestro do voo da Panair. Não houve mortes. Um dos aviões militares roubados foi metralhado na pista de pouso de Aragarças e pegou fogo. Os revoltosos que estavam a bordo se renderam e foram presos. Os demais usaram os outros aviões para fugir para a Bolívia, o Paraguai e a Argentina. Os reféns do avião da Panair, inclusive o senador Remy Archer, foram libertados em Buenos Aires, sãos e salvos.

Apesar de o líder da UDN no Senado ter repudiado a Revolta de Aragarças, houve senadores do partido que não endossaram a condenação e, em vez disso, aplaudiram os insurretos. O senador Otávio Mangabeira afirmou que concordava plenamente com o diagnóstico da situação nacional descrito no manifesto do Comando Revolucionário:

— Confesso que amo as rebeldias legítimas. O que eu detesto são as acomodações exageradas. A nação que se habitua a acomodar-se a tudo é uma nação que se educa na escola da fraqueza. No dia em que for chamada a defender a pátria, não estará moralmente habilitada a fazê-lo. Apesar de divergir deles no ponto em que pedem a demolição da estrutura constitucional e a implantação da ditadura militar, trago minha palavra de compreensão para aqueles jovens militares levados pelo arroubo de seu temperamento e pelo fogo natural de sua idade.

O senador Afonso Arinos comparou Aragarças com a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, ocorrida em 1922:

— Fui testemunha pessoal. Eu era adolescente e morava ao lado do Forte de Copacabana. Assisti na noite de 4 para 5 de julho àquele pugilo de jovens passar de réprobos [malvados] de uma repressão brutal à condição de heróis impolutos de uma geração. Não podemos agora saber se Aragarças se trata de uma Copacabana aérea. É melhor não tomarmos aqui uma atitude de condenação de que depois venhamos a nos arrepender.

Mangabeira gostou da comparação histórica e citou personagens inicialmente tidos como vilões e depois transformados em heróis:

— Por que esquartejaram Tiradentes? E quem é Tiradentes hoje? Que fez Deodoro a 15 de novembro de 1889? Onde está ele agora? Que fez Getúlio Vargas a 3 de outubro de 1930? Ninguém, tampouco eu, tem autoridade para condenar golpistas só pelo fato de serem golpistas.

Jornal Última Hora informa o fim da Revolta de Aragarças, incluindo a libertação do senador Remy Archer (Reprodução)

O senador Daniel Krieger (UDN-RS) acrescentou:

— Sentir-me-ia diminuído perante mim próprio se assistisse calado tachar-se de covardes aqueles que, ainda que erradamente, dão exemplo de coragem e desprendimento a este país.

A Revolta de Aragarças foi uma reedição de outro movimento militar bastante parecido, inclusive com o uso de aviões militares, que havia ocorrido em fevereiro de 1956, apenas duas semanas após a posse de JK: a Revolta de Jacareacanga, no sul do Pará.  Em 1959, os senadores não puderam deixar de fazer comparações.

Repetição

Eles mencionaram o major-aviador Haroldo Veloso, que havia sido líder revoltoso de Jacareacanga e, após ser anistiado pelo presidente, voltou à cena em Aragarças.

— Da primeira loucura, a de Jacareacanga, disse eu [em 1956] nesta Casa e ao senhor presidente da República que o sistema de se conceder anistia a criminosos políticos antes de a Justiça se pronunciar era muito perigoso. Anistiados, foram endeusados, voltaram à Aeronáutica e foram promovidos! Agora fazem esse segundo movimento. Estamos verificando quão acertado eu estava — criticou o senador Caiado de Castro (PTB-DF).

— Atos de sedição devem ser punidos com rigor. Se não o forem, ensejam a repetição a que agora assistimos — concordou o senador Lima Teixeira (PTB-BA). — Fique a advertência para que não se deixe passar em branca nuvem um episódio que poderá ser mais grave da terceira vez. Que a punição se concretize, a fim de que o povo se tranquilize e confie na autoridade do chefe da nação.JK seguiu os conselhos. Ao contrário do que fizera em 1956, o presidente não concedeu anistia aos golpistas em 1959.

De acordo com o jornalista Wagner William, autor da biografia “O Soldado Absoluto” (Editora Record), sobre o marechal Henrique Lott, o ministro da Guerra que sufocou Aragarças, o presidente JK enxergou a malograda revolta como sinal de que o clima político se tornaria explosivo e o país ficaria ingovernável caso a sua adversária UDN não chegasse logo ao poder.

Salvação nacional

— Foi pensando dessa forma que Juscelino lançou Lott como o candidato presidencial do PSD na eleição de 1960. Ele sabia que o marechal não tinha chance de vencer. A estratégia de Juscelino era que a UDN o sucederia, mas, por causa da crise econômica do país, governaria com muita dificuldade e se desgastaria. Numa frente, Juscelino aplacaria o desejo de poder da UDN. Em outra, ele próprio se apresentaria na eleição de 1965 como o candidato da salvação nacional — explica William.

Poucos dias depois de Aragarças, Jânio Quadros anunciou que era de novo candidato presidencial — “Jânio renuncia à renúncia”, noticiou um jornal. Ele venceu a disputa eleitoral de 1960, marcando enfim a chegada da UDN ao poder e esfriando os ânimos conspiratórios das Forças Armadas.

Mas a paz não duraria.

A  famigerada renúncia de Jânio à Presidência da República, em agosto de 1961, e a tumultuada posse do vice João Goulart, no mês seguinte, despertariam os golpistas. A resposta deles viria em 1º de abril de 1964. Dessa vez, não falhariam.

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Categoria(s): Política / Reportagem Especial
quinta-feira - 28/03/2019 - 19:22h
Golpe de 64

MPF recomenda que militares não façam manifestação política

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou aos comandos da Base Aérea de Natal, 3º Distrito Naval, 16º Batalhão de Infantaria Motorizada e 7º Batalhão de Engenharia de Combate – todos situados no Rio Grande do Norte – que se abstenham de promover ou tomar parte de qualquer manifestação pública, em ambiente militar ou fardado, em comemoração ou homenagem ao período de exceção instalado a partir do golpe militar de 31 de março de 1964.

A iniciativa integra uma ação coordenada, que reúne Procuradorias da República em pelo menos 19 estados, o Ministério Público Federal também solicita às unidades militares a adoção de providências para que seus subordinados sigam essa orientação, e que sejam adotadas medidas para identificação de eventuais atos e de seus participantes – com fins de aplicação de punições disciplinares, bem como, comunicação ao MPF para a adoção das providências cabíveis.

Recomendação – subscrita no Rio Grande do Norte pelos procuradores da República Caroline Maciel, Victor Mariz, Fernando Rocha e Renan Felix – e aciona comandos militares de todas as regiões do país e estabelece prazo de 48 horas para que sejam informadas ao Ministério Público Federal as medidas adotadas para o cumprimento das orientações ou as razões para o seu não acatamento.

Saiba mais detalhes clicando AQUI.

Nota do Blog – A que ponto chegamos. Precisar o MPF emitir recomendação sobre uma data que representa a ruptura do estado democrático de direito. Francamente! Pare o mundo que eu quero descer.

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Categoria(s): Justiça/Direito/Ministério Público
  • Repet
sábado - 16/07/2016 - 10:23h
Márcio Mossoró

Jogador mossoroense fala sobre crise na Turquia apreensivo

O jogador de futebol mossoroense que atua no Istanbul da Turquia, Márcio Mossoró, foi entrevistado pela rede ESPN de televisão, especializada no esporte.

Márcio ao vivo pela Net, na ESPN (Foto: reprodução)

A conversa foi dentro do programa Bate Bola na Veia, nessa sexta-feira (15).

Ele está na Áustria na pré-temporada do seu clube, mas tratou de política, em face de tentativa de golpe no país.

Ele adiantou que há preocupação generalizada entre os jogadores nativos e estrangeiros.

Mas disse que seus familiares (esposa e dois filhos) estão no Brasil.

Adiantou, entretanto, que se não houver reversão do quadro e a instabilidade continuar, não permitirá o retorno de sua família à Turquia.

Carreira

Sua permanência no país também é uma incógnita.

Márcio projetou-se nacionalmente através do Paulista de Jundiaí-SP, com passagem ainda pelo Internacional-RS. Ele é meia-atacante e tem 33 anos, sendo originário de Mossoró.

Despontou no Ferroviário de Fortaleza, mas se destacou no Paulista, onde foi vice-campeão estadual em 2004 e campeão da Copa do Brasil em 2005.

Transferindo-se para o Internacional, Márcio foi campeão da Libertadores em 2006 e Recopa em 2007. A partir daí, começou carreira internacional pela Europa, no Marítimo de Portugal.

Veja entrevista na íntegra clicando AQUI.

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Categoria(s): Esporte
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