domingo - 21/08/2016 - 09:40h

A liquidez da violência na sociedade mossoroense

Por Ibraim Vilar Moisinho

A atualidade é conceituada por Zygmunt Bauman como “modernidade líquida”, pela incapacidade de manter a forma, as relações, instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar. Partindo desse conceito e observando essa liquidez no submundo das conseqüências advindas do tráfico e uso de entorpecentes, se observa que vem surgindo uma geração acostumada com a matança indiscriminada, com o acerto de contas, com a violência gratuita, que banalizam a vida à medida que mudam as circunstancias, à medida que mudam os interesses, à medida que as referencias em uma sociedade não encontram forma.

Trazendo ao leitor algumas vivências do cotidiano como operador de segurança pública e pesquisador das conseqüências do uso de drogas entre jovens, um fato me chamou atenção, levando-me à reflexão posterior, naquele dia. Eram 02h40min da manhã, minha equipe (Eu e outro Policial) tínhamos entrado no plantão às 19h.

Já havíamos atendido inúmeros chamados da população mossoroense com os mais diversificados problemas possíveis, desde brigas entre vizinhos, roubos de celular, vizinhos com som alto, pessoas com medo a ponto de ligar para o 190 e pedir que a polícia passe em frente a sua casa e toque a sirene, violência doméstica, entre tantos outros conflitos que tivemos que intervir e mediar.

Mas o que nos chamou atenção naquela madrugada foi o chamado das 02h40min, fomos acionados para verificar possíveis disparos de arma de fogo em um bairro periférico de Mossoró; uns três a quatro minutos depois chegamos ao local, o relógio do painel da viatura que eu dirigia marcava 02h43min da manhã.

Algumas pessoas se aglomeravam em frente a casa onde ocorrera os disparos, adentramos ao local e logo constatamos uma jovem que aparentava ter seus 19 a 20 anos, em estado de choque. Dizia apenas que três homens tinham invadido sua casa, arrombado a porta do quarto onde ela dormia com seu marido e duas crianças  e disparado contra seu marido, apontando para onde estava seu marido.

Ao nos dirigirmos para o local apontado,  encontramos na porta do quarto onde o casal dormia muitas cápsulas de munição e manchas de sangue dentro do quarto, em que estava o marido dela caído por trás de um armário com vários tiros na cabeça e tórax. Havia muito sangue no chão, a massa encefálica estava exposta.

Até aí para mim, tudo parecia normal comparando-se a  tantos outras ocorrências do tipo já atendidas, porém ao concluir a varredura visual no quarto  percebi que tinha uma criança, aparentando ter entre 2 e 3 anos de idade trajando apenas uma cueca naquela madrugada fria. Olhou para mim e disse: “meu pai tá dormindo no chão, tem sangue nele”.

Olhei para o mesmo e travei, pois já se observava ali que o pai dele estava sem vida. Como dizer a ele que seu pai estava morto?  A criança assistindo toda aquela cena, sem entender bem o que acontecia. Mal sabia que aquele momento era o ultimo com seu pai.

Rapidamente com cuidado para não alterar a cena do crime, e utilizando recursos lúdicos e a experiência de pai, retirei a criança daquele local, conversei um pouco com ele o acalmando, isolamos a cena do crime e a criança foi entregue a parentes que estavam fora da casa.

Analiso essa situação baseado no filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, quando defende que o ser humano atual é um produto do que acontece na modernidade líquida. Nos seus escritos, ele aborda o indivíduo como alguém que integra uma sociedade e responde à ela, modelando-se aos seus ditames.

Essa criança e tantas outras que vivenciam inúmeras cenas de violência no seu dia-a-dia não têm como responder diferente, pois integram essa sociedade líquida, sem forma descrita por Baunan.

Quando foi identificado, se verificou que a vítima do homicídio era envolvida com drogas. Ex-presidiário, tinha 20 anos.

Ibraim Vilar Moisinho é Policial Militar, bacharel em Administração e Especialista em Segurança Pública e Cidadania – SENASP/UERN

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Categoria(s): Artigo
domingo - 07/06/2015 - 15:16h

Juventude e drogas lícitas, uma combinação que não combina

Por Ibraim Vilar

Um tema que vem preocupando as autoridades e acima de tudo as famílias de nossa urbe, e sendo discutido amplamente entre os jovens nas escolas (nos últimos 15 dias fui convidado a ministrar várias palestras/discussões/mesas redondas entre jovens de várias escolas públicas de ensino médio em Mossoró), é o tema de uso de drogas.

Tratamos principalmente sobre as drogas lícitas como o álcool, onde o foco principal é levar esses jovens a fazerem uma análise crítica sobre essas situações. Tenho observado que muitos são bem realistas e “pés no chão”. Em conversa com diretoras e professoras chegamos à conclusão que esses alunos realistas e pés no chão, são justamente aqueles que a família está sempre na escola acompanhando, em reuniões de pais, em conversas, ou seja, aqueles em que a família ajuda.

Outros são desavisados, ou não tem apoio/orientação/cuidados da família e infelizmente estão enveredando por um caminho que na maioria das vezes é sem volta (observemos as páginas policiais dos últimos meses).

Observando essas situações como operador de segurança pública/especialista em segurança pública e cidadania, ou simplesmente soldado da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, estive trabalhando das 13h às 21h30 no evento denominado “Pingo da Mei Dia” neste sábado (06/06/2015).

Pude vivenciar situações, algumas tive como registrar e achei que poderia com esses registros alertar os jovens desavisados e também suas famílias sobre esse perigo. Perdi a conta de quantos jovens em coma alcoólico/overdose/embriagados rolando pelo chão vi neste evento, mas o que chamava a atenção era o semblante de surpresa/sofrimento das famílias quando chegavam e viam seus filhos nestas situações.

Aproveito o espaço cedido pelo Blog Carlos Santos, para reiterar orientação a pais, mães e responsáveis: observem seus filhos, vejam com quem eles saem, confiem desconfiando, previnam-se quando se trata do uso de drogas. Nunca foi tão bem colocado o seguinte jargão: “É melhor prevenir do que remediar”.

Finalizo minha abordagem com um pensamento do famoso John Lennon: “As drogas te dão asas para voar, depois te tiraram o céu”.

Ibraim Vilar é especialista em Segurança Pública e Cidadania, policial militar e coordenador/instrutor do Programa Educacional de Resistência as Drogas (PROERD/RN)

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Categoria(s): Artigo
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quinta-feira - 20/11/2014 - 06:47h
Proerd

Polícia Militar fará evento para marcar combate às drogas

A Polícia Militar do Rio Grande do Norte (PMRN), através da Coordenação estadual do Programa Educacional de Resistência às Drogas (PROERD), realizará no próximo sábado (22), a partir das 8h, o encerramento de suas atividades neste ano em Mossoró e região. Evento ocorrerá no Ginásio Poliesportivo Engenheiro Pedro Ciarlini.

O Programa Educacional de Resistência as Drogas atendeu 3.200 crianças e adolescentes nas escolas públicas e privadas de Mossoró. É desenvolvido por Policiais Militares devidamente capacitados para desenvolver nas escolas atividades educacionais voltadas à prevenção ao uso indevido de drogas.

O público alvo do programa são crianças e adolescentes na faixa etária entre 09 a 12 anos.

Por  todo o Brasil

O Proerd é a versão Brasileira do Dare/America, desenvolvido em vários Países e no Brasil por todas as Polícias Militares através de policiais militares voluntários que são treinados também para esta atividade de cunho social e preventivo.

Na região Oeste no Nosso Estado foram atendidas em 2014, as Cidades de Mossoró, Areia Branca, Porto do Mangue e Governador Dix Sept Rosado. O trabalho foi desenvolvido por Oito Policiais Militares voluntários.

Em Areia Branca foram atendidos 450 crianças e adolescentes; em Porto do Mangue, 150; em Governador Dix Sept Rosado, 180 e em Mossoró 3.200.

Ibraim Vilar, PM coordenador regional do Proerd, especialista em Segurança Pública e Cidadania, comenta que esse programa mostra outra faceta das Polícia Militar, no campo social, com excelentes resultados à sociedade.

Conheça mais sobre o Proerd clicando AQUI.

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Categoria(s): Segurança Pública/Polícia
terça-feira - 04/03/2014 - 20:32h
Depoimento

Uma sociedade à deriva em pleno Carnaval

Carlos Santos,

Depois de dois dias de serviço, (Sábado e Domingo) volto hoje para o Terceiro e ultimo dia de Serviço no Carnaval em Apodi/RN. Enquanto todos se divertem cuidamos da segurança dos mesmos… no entanto em alguns momentos, fico a refletir sobre as situações observadas ”in loco”.

Fica o questionamento: cadê o conselho tutelar de Apodi, e demais instituições que se dizem defender os direitos da Criança e do Adolescente, que não fiscalizam ou ao menos procuram fazê-lo…?

Fiquei imaginando se o dito popular ”no carnaval tudo pode” se aplica também a infringir tais direitos…

Multidão tem marcado carnaval em Apodi (Foto: Blog ApoDiário)

Primeiro, em meio à multidão acompanhando um trio-elétrico no meio de pessoas seminuas, embriagadas, usando drogas, enfim o que se imaginar de atrocidades para os olhos de uma criança.

Observávamos os chamados ”arrastões” e em determinado momento, se via uma cidadã desesperada. Havia perdido seu filho de apenas seis anos, no meio dessa multidão (30 a 50 mil pessoas, se não mais). A mãe havia o perdido… chorava, gritava e dizia: “perdi meu filho”.

Podia ter evitado isso. Um detalhe: estava embriagada, não lembrava sequer a cor da roupa que o filho trajava. Sem falar em tantos outras situações que a polícia tinha que resolver.

Resolvemos, com as condições que nos foram dadas.

Mas o que chamou atenção foram os quebra-quebras generalizados que precisavam de nossa intervenção. Por incrível que pareça, nos camarotes. Pessoas que se dizem cultas, se esbofeteando, dando e levando garrafadas. Observei pouca diferença de comportamentos nas pessoas que estavam no camarotes e as que estavam no meio da multidão, próximas ao “pé do palco”…

Como já era de se esperar, por nós que fazíamos naquele momento a segurança pública do evento, sobe ao Palco a ”Mais esperada atração da noite para os foliões”. Isso era 02h55 da manhã.

A BANDA GRAFITH INICIA SEU SHOW. Não demorou mais que 15 minutos de show, para ter início a um quebra-quebra generalizado, onde se observa, cidadãos se esbofeteando, garrafas de vidro sobrevoando o evento e pousando na cabeça de cidadãos, pessoas sangrando, pessoas caídas ao chão, cidadãos correndo com facas na mão.

Depois de meia hora de intervenção conseguimos controlar os ânimos dos cidadãos que se dizem foliões. Foi muito trabalho, mas a banda voltou a tocar suas “músicas” que embalavam a multidão. Quando pensei que já havia visto as mais improváveis ocorrências naquela noite, que pudessem aparecer, chegam cidadãos aflitos, desesperados pois tinha uma grávida passando mal em meio à multidão e precisava de socorro, claro. Teve que ser levada às pressas ao pronto-socorro da cidade. Demorou muito, (trãnsito, pessoas curiosas se aglomeravam para ver o corrido, isso dificulta bastante o socorro).

No meio do corre-corre, fiquei me perguntando: “mas ela não poderia estar em casa repousando?” Ah, no Carnaval tudo pode”. Até eu mesmo, operador de segurança pública fiquei confuso, havia esquecido esse detalhe.

Bem, eram 05h00. Chegara o momento do repouso dos policiais, que já estavam ali desde as 18h00 do dia anterior quando havia iniciado o arrastão. Vamos para o ponto de apoio. Eis que no meio do trajeto observamos várias pessoas gritando, chorando, sangrando, chamavam pela polícia e ali estávamos prontos para atendê-los é claro, e o fizemos.

Quando perguntamos o que aconteceu, quase não entendemos pois “95% dos que estavam ali, pareciam zumbis humanos” de tão bêbados que estavam, mas testemunhas informaram que acabava de acontecer um arrastão, onde os praticantes foram bastante violentos desferindo inclusive coronhadas na cabeça, dos foliões, que retornavam para suas casas. As diligencias prosseguiram.

Fico a refletir, sobre essa realidade, quando hoje terça-feira (4), antes de assumir novamente o serviço, “graças a Deus, o último desse carnaval”, aproveito para continuar a Leitura de Castoriadis, “Uma Sociedade à Deriva”.

Agora sim, consigo entender realmente o que o autor quer nos repassar com esse título chamativo.

Ibraim Vilar Moisinho – Bacharel em Administração, Policial Militar – PMRN e Especialista em Segurança Pública e Cidadania.

Nota do Blog – Que depoimento pujante, meu querido Ibraim.

Reforça em mim, mais ainda, a admiração pelo trabalho que vocês realizam como escudo dessa mesma sociedade que raramente valoriza tamanho sacrifício.

Quanto ao que é relatado, nenhuma surpresa. Poderia ser sobre Macau, Rio de Janeiro, Salvador, Aracati etc.

Há muito que nossa sociedade está à deriva.

Um abraço. Bom trabalho, boa sorte. Deus proteja a todos vocês e aos foliões.

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Categoria(s): Gerais / Segurança Pública/Polícia
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