domingo - 08/08/2021 - 11:24h

Pasárgada existe

PasárgadaPor Inácio Augusto de Almeida 

E eu pensando ser Pasárgada apenas fruto da criatividade fulgurante do Manuel Bandeira.

Chegava mesmo a comparar a cidade, que julgava imaginária, com a Atlântida de Platão, onde a perfeição existiu até as paixões humanas influenciarem o comportamento dos reis mitológicos e terminasse tragada pelo mar para mostrar quão perigosos são os sentimentos humanos quando divorciados da razão.

Para minha alegria Pasárgada existe.

Pasárgada existe!!!

E lá ninguém precisa ser amigo do rei para ter direito a tudo que quiser.

Tratamento médico imediato e com especialistas. Exames realizados no mesmo dia. E se alguma cirurgia for necessária é feita imediatamente. Em Pasárgada equipes se revezam em plantões diuturnos. Tratamento odontológico a qualquer hora do dia e da noite.

Medicamentos distribuídos gratuitamente e nunca acontece de faltar um só.

Insulina existe em quantidade exagerada e para não perder prazo de validade Pasárgada faz doação de lotes deste medicamento para cidades circunvizinhas.

Em Pasárgada tem tanta creche que a matrícula das crianças é feita pelas mães enquanto cuidam dos afazeres domésticos.

Equipes da Educação vão de casa em casa e tudo providenciam.

Aulas iniciadas e crianças, já uniformizadas, esperam o transporte escolar na porta de casa.

Transporte escolar que funciona com pontualidade britânica.

Ruas tão bem cuidadas e iluminadas que lembram os salões onde valsas vienenses são dançadas nos contos de fadas.

Emprego sobra em Pasárgada.

Comitivas se deslocam a outras cidades e nos auditórios de bancos fomentadores de desenvolvimento   deixam claro que prescindem de qualquer tipo de financiamento público para desenvolver projetos de bilhões de dólares.

Com emprego pleno, saúde de primeiro mundo e educação de qualidade; a violência inexiste.

É comum ver pessoas nas madrugadas de Pasárgada com cadeiras nas calçadas.

Sinto a dor de uma picada de abelha ou de algum outro inseto.

Percebo o rádio ligado e me dou conta de que adormeci embalado pela propaganda oficial.

Não fossem os mosquitos, carro fumacê nem no sonho apareceu, eu ainda estaria em Pasárgada.

Olho pela janela e vejo o lindo céu azul de mais uma manhã cheia de luz e calor desta Mossoró tão bonita.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 08/08/2021 - 04:10h

Hoje não tem crônica

Por Marcos Ferreira

É isso mesmo, hoje não tem crônica. Não tem porque o texto que produzi para este domingo, iniciado na sexta-feira à noite e quase concluído neste sábado, por volta das cinco da tarde, foi apagado por mim acidentalmente, claro. De maneira desastrosa, portanto, numa infeliz e involuntária combinação de teclas enquanto eu digitava, eis que o documento do Word súbito se fechou. Gelei.

Quando tornei a abrir o arquivo, cujo título era “Divina proteção”, sofri um baita choque: não continha uma palavra, uma letra sequer. Das quase três páginas que eu escrevera até àquele instante, restou só uma, mas rigorosamente em branco. Levei as mãos à cabeça, desnorteado. “Agora ferrou”, concluí.Tecnologia, informática, homens trabalhando,manutenção

Sim, eu estava (ainda estou, aliás) ferrado. O sentimento de impotência foi absoluto. Perdi tudo, tudinho, e, a esta altura, já noite de sábado, 7 de agosto de 2021, não tenho como tirar outro coelho da cartola. Não sou mágico das palavras, nem posso reescrever, do zero, o “Divina proteção”. Minha memória, durável quanto um Sonrisal num copo com água, não me permite essa façanha.

Após uma boa sequência de tantos domingos sem faltar com o prezado leitor e a gentil leitora, apareço nesta manhã de sol e céu azul (banco aqui a moça do tempo) com as mãos abanando. Achei por bem, contudo, prestar-lhes este esclarecimento por meio disto, que eu planejara ser uma simples nótula.

Todavia, como percebem, findei me alongando. A simples nótula descambou para relatório. Às vezes, apesar do hábito da concisão que adquiri na feitura de sonetos metrificados com rigor, especialmente nos versos decassílabos, tenho certa dificuldade em ser objetivo, de ir direto ao ponto. Aí, perdoem esta alegoria, falo algo proporcional a uma farmácia para expressar um comprimido.

Outro dia, porém, topei com um leitor generoso na calçada do antigo Cine Pax. Nossos caminhos eram opostos, ainda assim nos detivemos por uns breves minutos. Disse-me, entre uma coisa e outra, que acompanha meus escritos desde O Mossoroense e da Revista Papangu. De repente ele acrescentou:

— Aquele seu texto; que poder de síntese!

Vejam isso: “poder de síntese”. Trata-se de uma frase batida, genérica, não raro empregada na falta de algo melhor ou mais substancial a ser dito, mas não posso negar que me senti lisonjeado. Esse generoso e simpático leitor, que conheço apenas de chapéu, referia-se a uma crônica curtinha (pouco mais de uma página) que expus neste blogue, se não erro na conta, há dois ou três domingos.

— Qual?! — indaguei tomado de curiosidade.

— Você fala dos pirilampos. Esqueci o título.

— Sei… Chama-se “Um simples vaga-lume”.

— Ah, foi esse aí, rapaz! Achei uma beleza.

— Hum, obrigado — respondi todo satisfeito.

Natália Maia, por outro lado, minha adorável e sincera noiva, não se ilude com qualquer textinho que lhe apresento. É a mais insuspeita e impiedosa avaliadora que possuo. Certo dia me fuzilou com o seguinte parecer sobre um conto que escrevi para um concurso literário: “Fraco. História confusa, sem pé nem cabeça.” Resultado: não ganhei sequer menção honrosa no referido concurso.

Nem as ostras produzem somente pérolas. Como também os poetas, cronistas, contistas, etc., não dão a conhecer unicamente rebentos literários preciosos. Aqui e acolá, ou no mais das vezes, surgem pedras falsas, gemas sem luz própria, de brilho emprestado, meros arremedos de outros autores e obras.

É verdade que há depoimentos (perdoem a imodéstia) que me dão orgulho, pois tenho consciência de que fiz por merecê-los. Pudera. Nunca me dediquei a outra coisa na vida com que me identifique mais que escrever. É esperado, então, que eu possua autocrítica, condições de compreender quando produzo algo deveras apresentável ou digno não mais do que a lixeira de um computador.

Retomando o assunto do início, perdi o que eu escrevera para este domingo. Creio, por mais suspeito que seja, que ocupei a telinha com umas boas três páginas que poderiam agradar ao prezado leitor e à gentil leitora. Infelizmente, por uma trapalhada ao digitar, como foi dito, acabei sem nadica de nada.

Indaguei, de mim para comigo, se não haveria, no elenco da Igreja Católica, um santo protetor dos escritores. Se não propriamente dos escritores, protetor ao menos das produções dos literatos, para interceder e evitar o extravio de literatura. “Há tantos santos por aí para tantas finalidades e causas”, continuei a pensar. Julgo de grande importância, avaliem isto, um santo protetor das letras.

E que tal um São Aparecido das Palavras?

As horas voaram. Não pude resgatar, reescrever, a crônica extraviada. Perdeu-se, escafedeu-se. Duvido de que depois, com a cabeça mais fria, eu me aventure e obtenha êxito em extrair dos escaninhos da minha memória nebulosa aquelas quase três páginas que se perderam numa lambança dos meus dedos.

Carlos Santos, meu editor, a quem chamo em outro trabalho literário de “o homem dos suspensórios”, ele que é o único indivíduo que avistei nesta prosaica cidade com o referido adereço incorporado ao seu vestuário, há de publicar estas linhas de improviso torcendo o nariz, meio a contragosto, pois me paga um gordo pró-labore por algo melhor que isto. Lamento se fui indiscreto.

O perigo agora, diante desta nota indiscreta, é outros participantes do blogue (como David Leite, Rocha Neto, Odemirton Filho e Inácio Augusto de Almeida) entrarem com pedido de remuneração. Esses quatro, pelo que eu sei, escrevem de forma abnegada, por completo amor às letras municipais.

— Você tinha que bater com a língua nos dentes?! — protestará “o homem dos suspensórios” logo que pôr os olhos nestas páginas.

Longe de mim, porém, querer semear a discórdia ou atrair despesas para este prestigioso canal de informação, opinião e cultura. Quem sabe na próxima semana, se der o peru no jogo do bicho, eu banque um lauto almoço para o Carlos Santos no Restaurante Prato de Ouro, onde a comida é supimpa.

As horas voaram, repito. Meus olhos queimam. No mais, prezado leitor e gentil leitora, melhor dizendo, hoje temos crônica, sim!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 01/08/2021 - 09:30h

Pobres mães

Por Inácio Augusto de Almeida

Quem nunca ouviu falar da felicidade de um casal que, por mais que tentasse, não conseguia ter um filho e de repente, não mais do que de repente, aparece em sua porta um bebezinho dentro de uma cesta?

Felicidade geral.

Risos, alegria, festa. Um milagre aconteceu.  bebê, pés de criança, recém-nascidoToda a família se reúne e traça planos para batizado, aniversário, primeiro dia na creche com direito a risos e choro da primeira separação.

Os avós e tios não se cansam de admirar a criancinha de olhos claros, cabelos louros, pele branca. Criancinha que não fica quieta um só minuto. Criancinha sempre a mexer os bracinhos, as perninhas e a cabeça a girar para que os lindos olhinhos tudo acompanhem.

Numa maternidade uma pobre mãe que, por ocasião do momento mais sublime da natividade, ouviu o choro da sua tão desejada criancinha, criancinha que dela foi separada para ser colocada no berçário, agora chora.

Sua criancinha morreu.

Recebe palavras de conforto. Alguém lhe diz que o seu neném nasceu com graves problemas cardíacos e com diversos outros órgãos comprometidos por má formação. Que tudo foi tentado para mantê-lo vivo.

E mesmo que conseguissem sucesso na tentativa de salvar o seu bebezinho ele não se manteria vivo por mais do que um dia.

A pobre mãe soluça ao lembrar o choro forte do seu filhinho ao nascer. Mesmo em lágrimas, consegue ouvir que tudo já foi providenciado, ela não precisava se preocupar com nada e que as despesas com o sepultamento já tinham sido pagas pelo serviço social.

O pai da criança, tinha passado a noite no trabalho de vigilante em um supermercado, chega e chora ao saber da notícia. E com a voz embargada pelas lágrimas que brotavam dentro do coração, agradece aos que tudo tentaram para salvar seu filho e resolveram todos os problemas junto ao serviço social.

Naquele mesmo dia, já quase noite, a pobre mãe, amparada pelo companheiro, deixa a maternidade levando numa cestinha as fraldas que seu filhinho usaria.

Na casa onde uma criança tinha aparecido na porta a alegria era total.

Num rádio ligado numa casa próxima a voz do Waldick Soriano a cantar JUSTIÇA DE DEUS.

“Justiça de Deus

 Justiça de Deus

Quem vos chama é um coração que está chorando.”

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 25/07/2021 - 10:50h

Contos de fadas?

Por Inácio Augusto de Almeida

Pensamos ensinar nossos filhos a serem humildes e a perdoar. Até porque isto está em todas as religiões que conhecemos.

Nem desconfiamos que nas canções de ninar já falamos de violência, quando atiramos o pau no gato, e de medo, quando pedimos ao boi da cara preta para pegar esta criança que tem medo de careta. Contos de fadasDepois passamos a contar estórias que apelidamos de infantis, mas causadoras de inveja a qualquer hemocentro. Tente se lembrar de uma estória, dita infantil, sem sangue. Pobre do carneirinho em Branca de Neve e do lobo em Chapeuzinho Vermelho.

Arrogância e prepotência, inveja e vingança, sempre presentes no que chamamos de Contos de Fadas.

Perdão, humildade não encontramos nas fantasias que passamos a nossos filhos.

Nunca acontece o arrependimento da bruxa malvada que só enche de alegria as nossas criancinhas quando despenca para a morte ao cair de uma grande montanha e desaparece para sempre no despenhadeiro sem fim. O lobo mau com a barriga aberta dá seu último suspiro e a vovozinha abraça a netinha feliz e sorridente.

Em algum Conto de Fada o casamento acontece entre um lavrador e a heroína? Não!

Sempre aparece um Príncipe para que vivam FELIZES para sempre, como se a felicidade só fosse possível se a união for com um membro da realeza.

Não existem nas histórias infantis o PERDÃO, a HUMILDADE, o ARREPENDIMENTO.

Vingança existe e muita.

E já crianças crescidas nós as estimulamos a VINGAR a morte de Jesus Cristo quando fazemos judas de pano, cheios de bombom e de chocolate, para serem espancados até se transformarem em frangalhos.

Depois os jovens se tornam adultos e passam a praticar e a aceitar a violência como um fator normal da vida.

Receberam durante sua formação alguma influência da importância do perdão, da humildade e de que é possível felicidade sem riqueza e poder?

Fico sem entender porque nos assustamos tanto com a agressividade e a ambição das novas gerações se nós é que as preparamos, desde a mais terna idade a buscarem riqueza, poder e vingança.

Por que não contarmos estórias de trancoso com as bruxas arrependidas e regeneradas? Por que não mostramos que felicidade existe também em casas humildes e não apenas em ricos palácios?

Por quê?

Porque projetamos nos nossos filhos os sonhos perdidos, as quimeras desfeitas.

Transferimos para eles nossas ambições e os nossos valores distorcidos.

Terminamos criando seres angustiados, infelizes. Pobres coitados sofrendo cobranças descabidas.

Depois nos espantamos com as drogas, movimentos de rebeldia etc. Os hippies dos anos 60/70 deram o grito de alerta, mas não foram ouvidos.

É hora de repensar a educação, a religião e partir para um novo mundo.

Ou fazemos isso ou vamos desaparecer como seres que se dizem filhos de Deus.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 18/07/2021 - 12:42h

Orações para os enfermos

oração, igreja, religião, bíblia, féPor Inácio Augusto de Almeida 

Acreditamos nos ensinamentos de Jesus Cristo? Somos bons cristãos?

Procuramos sempre deixar isto bem claro quando buscamos nas igrejas os primeiros bancos.

Confessamos nossos pecados e comungamos. E no outro domingo confessamos, quase sempre, os pecados já antes confessados. Não nos lembramos, ou fingimos não lembrar, que Jesus ao perdoar os pecados de uma mulher disse, não só para a pecadora, mas para todos, que os pecados estavam perdoados e não pecássemos mais.

Nos cultos gritamos Jesus, Jesus, cantamos hinos de louvor ao Senhor e prometemos não mais pecar.

Nas casas espíritas nos arrependemos dos pecados cometidos, mas na outra semana voltamos a nos arrepender dos mesmos pecados.

E assim seguimos, pecando e pedindo perdão, certos de que somos fiéis seguidores de Cristo.

Nem nos lembramos do VAI E NÃO PEQUES MAIS.

Juramos acreditar na vida eterna, mas pecamos como se o fim existisse e nada após a morte pudesse nos afetar.

Agindo assim, assumimos toda nossa hipocrisia.

O mais impressionante é que mesmo acreditando ser a morte o fim de tudo, permitimos o pavor nos dominar ao sentirmos que estamos, não perto do fim, mas do grande encontro.

Aí está a resposta do pânico que nos causa a morte.

Nosso inconsciente grita que a vida prossegue e que todos os erros terão que ser resgatados, não com um fingido arrependimento, mas com obras reparadoras.

Como exatamente isto se dá, não sei e desconheço quem saiba. Só sei que a reparação acontece.

E é da reparação que temos medo.

Os enfermos estão mais próximos da morte e por eles devemos orar com fervor.

Orar para que Deus, na sua suprema bondade, torne leve o fardo da reparação.

Devemos orar, também, para que os nossos corações aceitem a separação da pessoa querida. Separação de pouca duração.

Quem já conversou com pessoas em estado terminal, pessoas queridas, observou a tranquilidade existente nos olhos delas. O medo existe em nosso olhar. Medo da separação da pessoa amada.

Devemos rezar pelos enfermos e por nós. Pena ainda não estarmos preparados para esta separação.

E isto só conseguiremos alcançar quando formos, realmente, cristãos.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 11/07/2021 - 11:18h

Tempos do Pax

Filme Tambores da Morte de 1954Por Inácio Augusto de Almeida 

Nesta tarde longa, sem fim, que se vai preguiçosamente, fecho o livro que torna suportável este confinamento necessário, necessário, mas sacrificante, extremamente sacrificante.

Busco no meu Whatsapp notícias. Notícias que parecem ser de ontem ou de um mês atrás.  Sempre a fuxicaria da politicalha e da corrupção. Sempre a mesmice dos políticos que esquecem as promessas e quebram as juras feitas nos palanques.

Busco fugir procurando no Whatsapp alguma coisa interessante para ver.

 E achei.

TAMBORES DA MORTE.

Um faroeste que vi no PAX nos anos 50.

Revendo o filme e na minha cabeça lembranças e saudades se misturando com tanta força que aos poucos fui deixando de lado o filme sem nem mesmo perceber que o revólver do mocinho atirava e as balas nunca acabavam. Nem as balas nem os índios que ele matava para que a gloriosa conquista do Oeste se tornasse realidade.

Naquela noite em que vi este filme no PAX chovia. Lembro-me que o filme terminou e ficamos dentro do cinema. As ruas alagadas. Era a Mossoró antiga.

Quando consegui chegar em casa, todo molhado e com os sapatos nas mãos já passava da meia noite. Mas em momento algum senti medo. E não existia nenhuma razão para ter medo. Era uma época em que se podia colocar cadeiras na calçada e ficar conversando até a noite findar e a madrugada, com sua brisa agradável, chegar.

Tiros e mortes só nos filmes do PAX.

Só percebi que TAMBORES DA MORTE tinha terminado porque o clássico beijo do mocinho na mocinha e a palavra END apareceu na tela do Whatsapp.

Fiquei a matutar acerca dos desafios que o avançar do tempo nos traz.

No filme a ocupação do Oeste americano exigiu a matança, verdadeiro genocídio de uma raça. Tudo em nome da criação de uma grande nação.

Hoje, em nome deste mesmo desenvolvimento, milhões são mortos, não só por tiros, mas, principalmente, por total falta de condições de sobreviverem a uma injustiça social que mata de uma forma mais cruel.

Os cara pálidas de hoje, menos de 10% da população, abocanham, por vias lícitas e ilícitas, toda a riqueza de um país tão rico que tem 90% do seu povo mergulhado na miséria e no atraso.

Com a miséria vem o desespero, cresce a criminalidade, agiganta-se a insegurança. A qualidade de vida decai e os que provocam toda a desgraça não perceberam ainda que estão se condenando a viverem em eterno confinamento.

Interessante é todas estas reflexões surgirem após ver um velho filme de bang-bang.

Mas que nesta tarde senti muitas saudades e lembranças dos filmes do Pax, senti.

Percebi que perdemos muito da ternura que havia em nossos corações.

Mais do que o tempo, mudamos nós.

Estamos condenados por um pragmatismo que nos tira toda sensibilidade.

Só me resta ver mais uma vez TAMBORES DA MORTE e me sentir dentro do PAX.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 01/03/2020 - 12:30h

Carta às minhas filhas Lana e Patrícia

Por Inácio Augusto de Almeida

Eu tenho mania de criar aforismos. E já criei prá mais de 500 deles. Tem um que eu gosto muito.

Tempo é uma questão de preferência. A gente sempre tem tempo para as coisas que gosta.

Este pensamento nasceu da observação do comportamento das pessoas. Eu nunca vi um jogador de baralho sem tempo para o jogo, um corrupto sem tempo para maracutaias, um boêmio sem tempo para a bebida, um bom estudante sem tempo para a leitura. E por aí vai.

Mas a vida, minhas filhas, não se resume a fazer apenas o que se gosta. O sucesso está diretamente ligado à nossa capacidade de fazer, também, as coisas que não gostamos. Isto porque há uma tendência no ser humano, tendência natural, de buscar o prazer em tudo.

É bom, claro que é bom, mas é preciso ter consciência de que nem sempre nos é permitido só fazer aquilo que gostamos.

Aí entra uma coisa chamada disciplina.  Pois é através da disciplina que vencemos nossas paixões e, consequentemente, submetemos nossa vontade ao objetivo pré-determinado.

É preciso então separar um pouco do nosso tempo para as coisas que PENSAMOS que não gostamos, quando na realidade nós temos é MEDO de realizar estas coisas. Medo do desconhecido, medo de não sermos bem sucedidos, medo do medo. Medo que muitas vezes  é colocado para que nos tornemos escravos de determinadas situações.

Sabe filhas, nem sei por que estou falando isto para vocês. É que às vezes eu sinto vontade de externar estes meus pensamentos. E como gosto de conversar com vocês…

Mudando de assunto.

No ano de 1964 ia muito ao Rio. Tinha um irmão meu, o Laerson, que morava num hotelzinho bem perto do Palácio do Catete. Em frente ao Palácio havia um barzinho-restaurante que, aos sábados, servia uma feijoada muito boa.

Do barzinho a gente saía caminhando até o Largo do Machado, onde havia várias sinucas. Perto do hotel havia também um cinema, o Bruni Flamengo, se não me engano. Foi lá que vibrei com o James Bond, na época o grande sucesso de bilheteria.

Eu conheço esta área muito bem. O Rio é uma cidade linda. Uma cidade desenhada para o desfrute da terceira idade, já que a cada dia a pessoa pode inventar um passeio, tantas são as opções de lazer. Lazer, o Rio é a Cidade do Lazer, nada nessa cidade lembra trabalho.

Seu pai por lutar pelas crianças mais pobres e combater a corrupção em cidades do Nordeste terminou condenado a pagar danos morais a quem está condenado por prática de corrupção. O meu crime foi prática de calúnia, injúria e difamação, mesmo sem nunca ter dito uma só mentira.

O dinheiro que seria usado nas compras de Natal teve que ser destinado ao pagamento dos danos morais. Pior seria, minhas filhas se eu tivesse feito uma retratação. No Natal deste ano vocês ganharão os seus tênis e as suas novas mochilas.

Não consigo esquecer vocês gritando “a polícia veio prender o papai”, quando um agente de polícia bateu tão forte no portão e gritou tão alto POLÍCIA para me entregar uma simples citação. O objetivo era causar escândalo e assustar a todos. Vocês ficaram traumatizadas. Tão traumatizadas que toda vez que alguém bate na porta ainda pensam que é a polícia que vem buscar papai.

Peço perdão a vocês pelo que aconteceu. Eu poderia ter ficado caladinho ante a corrupção. Tão caladinho como os outros.

Sigo para uma hospitalização em Natal. Vou tentar o tratamento de uma doença que desconheço, mas que imagino ser grave. Deus sabe sempre o que é melhor para nós.

Estudem, estudem sempre. E nunca se esqueçam de que quem estuda tem tudo, quem não estuda não tem nada. Quem não estuda não tem nada, mesmo que consiga dinheiro através de meios espúrios. A história está cheia de corruptos que sustentam filhos e genros malandros.

Do seu pai,

Inácio.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 23/02/2020 - 08:32h

Elegia aos pássaros

Por Inácio Augusto de Almeida

Os pássaros não choram
Os pássaros não desesperam
Os pássaros não rastejam

Os homens…

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 16/02/2020 - 08:40h

Todos têm chance

Por Inácio Augusto de Almeida

Quase todas as tardes, ao sair da faculdade, cruzava com aquela mocinha franzina e de olhos tristes. Seu vestido simples e as suas já gastas sandálias japonesas, destoavam do seu ar gracioso e inteligente.

Até que um dia…

– O senhor é o seu Inácio de Almeida?

A voz humilde e fraca surpreendeu-me. Fiquei meio atarantado, sem nem sequer saber o que responder. E para não ficar calado…

– Sim, sou eu.

Com a  vista baixa e tendo nas mãos alguns livros, ela se apresentou:

– Eu sou a Regina. Já li os seus livros.

– Ótimo.

Falei e já iniciava a caminhada quando ela insistiu:

– O senhor fala muitas coisas com as quais eu não concordo. É engraçado o que o senhor escreve, mas é irreal.

O português correto, a crítica, para ela, lógica; enfim, como poderia uma criatura tão simplória possuir tais conhecimentos? Respirei fundo e olhando-a nos olhos, para isso quase me abaixando, respondi-lhe:

– Você, minha filha, ainda é uma criança. Não se deixe influenciar por esta gente que eu ridicularizo. No fundo são bem piores, na realidade são uns calhordas. Usam as pessoas como instrumentos e depois fazem o que fazem…

Ela apenas riu. Riu e se despediu dizendo já ser hora de preparar o jantar, senão a patroa iria passar-lhe uma reprimenda.

O vulto se perdendo na distância e eu a rir…

Uns três dias depois, eis a mocinha novamente.

– Seu Inácio.

– Diga mocinha (não conseguia me lembrar do nome dela).

– Meu nome é Regina, disse rindo.

– Claro, claro que é Regina, e ri também.

– Eu vim aqui para ver se o senhor conseguia na biblioteca da faculdade alguns livros para mim. Eu lhe garanto que devolvo todos. O senhor não precisa se preocupar.

A coisa começava a ficar meio embaraçosa. Uma empregada doméstica a querer ler livros de nível universitário. A querer, não, pois segundo ela já os lia há tempos. Resolvi arriscar-me a pagar alguns livros…

– Vou conseguir para você os livros que desejar. Se não tiver na biblioteca eu os arranjarei em outro local.

Seus olhos encheram-se de brilho. Uma alegria enorme iluminou todo o seu semblante. A mocinha era pura vibração.

– Consiga para mim aquele do Josué de Castro, Geografia da Fome.

Passei a mão no queixo. E engoli a saliva umas duas ou três vezes.

– Claro. Venha amanhã que eu estarei com o livro.

E lá se foi a Regina preparar o jantar de uma patroa qualquer.

– Trouxe o livro?

– Boa tarde, Regina. O livro está aqui. Agora, diga-me uma coisa. A que horas você lê?

– À noite, depois de lavar os pratos do jantar. É quando minha patroa fica vendo novela e não me aperreia. Aí eu leio até tarde da noite. Tem dia, seu Inácio, que quase não durmo.

– Regina, acabe com este negócio de seu Inácio. Por que você não frequenta um colégio como todas as pessoas? Você é inteligente e tem muita força de vontade. É só você querer e dentro de alguns anos estará dentro de uma Faculdade.

Ela apenas riu. Não, não me disse nada, apenas riu. E quando iniciou a sua caminhada, virou-se e, com aquela sua extrema humildade:

– Eu tenho que ir. Está na hora de fazer o jantar.

E muitos e muitos foram os livros que consegui para Regina. O tempo passando, eu quase terminando o curso, ela, cada dia me parecendo mais magrinha.

E terminei tendo que pagar alguns livros. Regina há mais de um mês não aparecia.

“É a humanidade. A gente faz a coisa com a melhor das intenções e recebe como troco a desonestidade, a ingratidão. Mas isto não vai ficar assim não. Vou descobrir onde ela mora. Os livros eu recebo!”

Pergunta aqui, pergunta ali, consegui descobrir o endereço da patroa de Regina.

– Boa tarde, senhora. Eu desejo falar com a Regina.

A mulher baixinha, gorducha e com cara de imbecil olhou-me como quem olha para um ser do outro mundo.

– Aquela maluca eu mandei embora. Andava tossindo muito. Desconfiei que estivesse tuberculosa. Também, gastava o dinheiro todo com livros. Toda semana chegava com dois três livros diferentes.. Tinha a mania de passar as noites lendo. Era maluca e…

A velhota gorda a falar e eu a não ouvir mais nada. Tudo girava em torno de mim, como se eu estivesse embriagado. A muito custo consegui perguntar onde moravam os pais de Regina.

– Sei muito bem não. Parece que é para os lados das Barrocas.

E bateu a porta na minha cara. Certamente a novela da tarde ia começar…

Depois de gastar quase um dia todo, finalmente chego à “casa” dos pais de Regina. Uma choupana feita de estacas, enrolada em esteiras de palha e coberta de latas. No fundo de uma rede que avistei ainda de dentro do carro, um velho deitado. Ao seu lado, uma velhinha tão magra que tive dúvidas se era uma pessoa ou um esqueleto.

– Pode entrar moço. O senhor deve ser o seu Inácio. Regina falava muito no senhor. Mas não se preocupe, não. Os seus livros estão aqui. Era no que ela mais falava nos últimos dias. Pedia demais, chegava até a implorar para que eu não deixasse de entregar os livros ao senhor. Eu só ainda não tinha ainda ido porque estava esperando o Nicó (apontou para a rede) melhorar. Ele pede esmolas, é cego, e como está doente, não pode sair. E sem o dinheiro da passagem não pude ir entregar os seus livros. Mas eles estão aqui.

– No caminho de volta, lembrei-me do sorriso de Regina. Eu a dizer para ela que todos têm chance, ela a rir aquele seu sorriso puro.

“Todos têm chance, todos têm chance, todos têm chance…”

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 09/02/2020 - 07:38h

Esperança

Por Inácio Augusto de Almeida

Não permitas jamais que a solidão

Por menor que seja o momento

De ti tome conta

E te leve ao sofrimento

De molhar teus olhos

Por quem não te ama

 

E sempre sempre continues a sorrir

Mesmo que teus lábios resistam

Franzidos pela dor da chaga invisível

Que dilacera teu coração

E enche de sofrimento a tua alma

Já tão cansada e vazia

 

Porque em ti existe a certeza

Que teus olhos voltarão a brilhar

Teus lábios tornarão a sorrir

Pois bem longe ou bem perto

Em algum lugar

Alguém gosta de ti

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Poesia
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 02/02/2020 - 11:38h

Aos estudantes de Mossoró

Por Inácio Augusto de Almeida

E as férias terminaram. Chegou a hora de voltar às aulas, de reencontrar os colegas e os mestres. De falar das férias, de até mesmo enfeitá-las com alguns passeios imaginários, aquelas mentirinhas que deixam os colegas morrendo de inveja.

E chegou, também, a hora de voltar aos livros, de mergulhar num mundo de novas descobertas, de novos conhecimentos.Mas, chegou também a hora de começar a pensar na qualidade do ensino. De questionar se realmente é oferecido a vocês condições de desenvolver toda a potencialidade intelectual que possuem.

Hora de questionar se tudo não passa de um faz de conta, onde vocês fingem estudar, o professor finge ensinar e o poder público finge que oferece condições plenas para que o aprendizado aconteça em toda a sua plenitude.

Pensem nisto e comparem os conhecimentos adquiridos nas séries anteriores com o conhecimento que alunos das mesmas séries que vocês, mas que estudam em outras cidades. E se perceberem que estão atrasados em relação aos colegas de fora, lutar por uma qualidade de ensino que a vocês não está sendo oferecida.

Nada me assusta mais do que uma juventude que perdeu a capacidade de reivindicar, de querer o melhor para si e para a sua cidade. E quando os jovens demonstram possuir a sede do saber dá a todos a certeza de que o futuro de toda a humanidade será mais promissor.

Pensem nisto. Conversem com os seus professores, perguntem o que pode ser feito pelo poder público para que haja uma melhoria na qualidade do ensino. Não que eu esteja afirmando que esta qualidade seja inferior, até porque não sou professor, e em não o sendo não tenho como fazer uma avaliação honesta.

Esta avaliação tem que ser feita por vocês, estudantes de Mossoró, e pelos professores que realmente estão compromissados com um futuro melhor para todo o corpo discente da rede de ensino da nossa querida Mossoró.

Não deixem de fazer isto nesta volta às aulas.

Questionem também se a merenda escolar está dentro dos padrões mínimos de qualidade.

E um bom mergulho nos livros em busca do conhecimento que irá possibilitar a todos uma melhor qualidade de vida nos anos vindouros.

Inácio Augusto de Almeida é professor e escritor

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Categoria(s): Artigo
domingo - 26/01/2020 - 07:28h

Mossoró não me ama

Por Inácio Augusto de Almeida

Eu te conheci, Mossoró, quando ainda eras pequena e eu um menino mal saído das fraldas. Banhei-me no teu rio, pisei teu solo, cresci amando o Potiguar.

E vi tuas ruas de areia que levantavam poeira com o vento vespertino das tuas tardes quentes. E te amei, Mossoró.

À noite ouvi tuas histórias contadas por Fernando, Lopes, Luís Bandeirantes. Estes teus filhos legítimos me ensinaram a te amar. Eu te vi chuvosa e seca, e tu sempre me parecias linda.Com nuvens negras ou com sol radiante, tu, para mim, eras sempre como uma noiva. E assim, eu aprendi a te amar, a te querer bem.

E tu me traíste, Mossoró. Nunca vistes o amor que eu sentia e sinto por ti. Com Mário de Almeida e Bernardo de Almeida varei as tuas madrugadas. Mário, que de tanto te amar, ao falar de ti, chorava.

Preferistes dar teu reconhecimento a outra pessoa. Uma pessoa que nunca sequer olhou para ti. Por que, Mossoró? Por quê?

Eu e tantos outros que te amamos fomos postergados, esquecidos, feridos naquilo que temos de mais precioso: O amor que sentimos por ti. Por que, Mossoró? Por quê?

Que estarão a dizer os teus outros filhos? Os que te adoram tanto quanto eu, que de ti sou apenas filho adotivo? E isto, à tua revelia…

Talvez, minha querida, ela nem saiba a tua localização no mapa do Brasil. Talvez, minha cidade amada, ela te confunda com uma cidade qualquer do interior do Rio Grande do Sul, ou, quem sabe, até mesmo com uma cidade dos Estados Unidos. Não, não fiques admirada, não penses que é exagero meu; engenheira química nem sempre sabe muito de geografia.

Teus filhos estão sentidos, muito sentidos.

Mas nós continuaremos a te amar. O nosso amor por ti é mais forte do que a loucura que cometeste. E continuaremos sempre a te amar.

Mas, por favor, em respeito à nossa dor, não cometas outras loucuras iguais a esta.

Graça Foster pode ser tudo, menos tua filha.

Como pode alguém ser filha de quem nem sequer sabia a existência?

Eu e todos os teus filhos continuaremos a te amar e a te querer muito, muito mesmo.

Eu te amo, Mossoró.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 19/01/2020 - 07:30h

As chuvas chegaram

Por Inácio Augusto de Almeida

E já se fazia presente um estado de apreensão. Havia um medo de mais um ano de seca.

Mas as chuvas chegaram.

E já se vê os homens e as mulheres a sorrirem.Há em todos a certeza de que teremos o feijão maduro e o milho verde em abundância, que o São João será uma festa de alegria plena. Deus, em sua suprema bondade se faz presente, propiciando a todos a alegria de uma terra molhada, de açudes sangrando, de riachos transbordando, como transbordando de felicidade estão os corações de todos nós.

Que neste momento de alegria voltemos nossos corações para agradecer a Deus, que não nos esqueçamos de que a Ele tudo devemos. Não podemos buscá-Lo apenas nas horas de aflição. Agora, mais do que nunca, vamos nos mostrar agradecidos.

Ele nos fez o bem, e quem faz o bem ama mais do que é amado por aquele que recebe o bem, daí termos que cuidar para não cometermos a ingratidão para com quem tudo nos dá sem nada pedir em troca.

Não vamos fazer como aqueles que chegam, trazidos até por adoção, e destruindo a autoridade dos que nasceram na terra, usurpam-lhes o poder e a todos humilham, certos de que solidificarão a sua autoridade pela implantação do medo.

Desconhecem que o que não se pode obter pela razão, ou pela habilidade, não se obtém pela força. Somente pela virtude e pela capacidade é que impomos o respeito.

E pela bondade e delicadeza dos costumes nos tornamos amados.

Deus nos mantém em eterna adoração, não pelo medo, mas por sua infinita bondade. Daí o nosso maior cuidado em Dele não nos esquecermos nesta época de alegria. A Ele devemos tudo.

E que Ele nos desvie de pensarmos orgulhosamente de que somos merecedores do favor recebido. E não permita nunca de que nos esqueçamos de que tudo recebemos por bondade do nosso Pai Todo Poderoso.

As chuvas chegaram.

E com as chuvas a felicidade de uma gente que trabalha e é feliz.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/01/2020 - 09:26h

Estoicismo

Por Inácio Augusto de Almeida

Se algum dia sofreres uma injustiça

Lembra-te de Cristo

Se algum dia sofreres humilhação e escárnio

Lembra-te de cristo

Verás como são pequeninas estas maldades

Tão pequeninas como os que as executaram

Ou terá sido maior a tua humilhação

Do que as sofridas por Cristo?

Por acaso tens dúvidas

Sobre o valor de Cristo e o de Kaifás?

Estás certo agora do teu verdadeiro valor

E do valor deles?

Então ria

Apenas ria…

E perdoe

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Poesia
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domingo - 05/01/2020 - 09:05h

Para tentar entender os homens

Por Inácio Augusto de Almeida

No bar do Wellington, Lopes, Sandoval e Izaías continuavam tomando cerveja. A noite já adiantada. No céu, as estrelas formavam uma linda colcha de retalhos. Apenas o barulho do motor da geladeira era ouvido, quando o Lopes, fechando a mão, pigarreou. E, respirando fundo, começou:

– E estava Kung Fu-tse sentado num banquinho de três pernas, quietinho, meditando sobre os homens e suas relações, tanto para com a família como para com o estado, buscando uma definição, quando sem mais nem menos adentra ao pequeno recinto um brutamonte, que vendo aquele homem franzino, resolve escolhê-lo para mostrar a todos o quanto era valente.

E espanca Kung Fu-tse.Ainda no chão, Kung Fu-tse não demonstra estar surpreso com aquela atitude. Entende o ato de covardia. Só não consegue compreender uma coisa. E pergunta ao brutamonte:

– Por que fizestes isto comigo? Eu nunca te fiz o bem.

Sem entender, o brutamonte renova a agressão.

Kung Fu-tse renova a pergunta:

– Por que fazes isto comigo. Quando eu te fiz o bem?

O brutamonte apenas gargalha. Sente-se vitorioso, um mandarim. E na sua ignorância festeja a vitória.

Esta pequena história aconteceu há mais ou menos 2500 anos. Sim, cinco séculos antes do nascimento de Cristo. E que grande lição nos deixou Kung Fu-tse.

Lopes, o grande Boêmio (faz questão da maiúscula no boêmio), terminou de falar e ficou a analisar a reação dos seus ouvintes. Izaías, apenas coçou a cabeça. Sandoval foi que arriscou um palpite de uma forma meio tímida.

– Lopes, este Kung Fu-tse não é o grande filósofo Confúcio?

– Aí, inteligência brilhante. Eu sabia que você conhecia o verdadeiro nome do maior pensador que já passou na face da terra.

Izaías, meio tímido, para não ficar calado, arrisca:

– Lopes, e a história? As pancadas que ele levou do brutamonte?

Lopes abriu o seu largo sorriso. E virando-se para Wellington, pede outra cerveja. É preciso fazer o suspense, e nisto o grande Boêmio é imbatível. Encheu o copo, respirou fundo, bebeu um gole e resolveu continuar.

– Izaías, não me diga que você estava pensando que eu estava falando do Kung Fu daquele seriado da TV. Por favor…

– Não, Lopes, eu sabia que era do Confúcio que você falava.

Sandoval riu. Um riso discreto, mas riu. Lopes observou o riso do Sandoval e muito bem humorado, continuou:

– Vou repetir as palavras do Kung Fu-tse.

Sandoval não agüentou e explodiu:

– Lopes, deixa de qualiragem. Chama o homem de Confúcio mesmo.

Izaías, enchendo-se de moral, emendou:

– Aposto como o Lopes aprendeu hoje o nome do homem e fica bancando o erudito.

O bom Boêmio passa a mão por cima dos olhos, descendo por todo o rosto até ficar apertando o queixo. No gesto mostrava que buscava o autocontrole.

– Então os meus amigos não entenderam a moral da história?

Sandoval, que já estava com mais de seis cervejas na cabeça, não agüentou:

– Deixa de ser besta, Lopes. Para com esta cascaria. Vai, diz logo o que tem de dizer.

– É, fala logo, disse Izaías.

– Não entenderam. Não entenderam. Mas eu vou trocar em miúdos.

Wellington ria a não mais poder. Pela pose do Lopes e por estar entendendo bulhufas daquela lengalenga do Lopes.

– O que acontece se alguém a quem nunca vimos nos agride?

– Ficamos surpresos, apressou-se Izaías.

– Pronto. Aí está a resposta.

– Pera aí, Lopes. Mas ele disse, Confúcio disse. Aliás, você disse que Confúcio disse que nunca tinha feito bem ao brutamonte. Ora, se ele tivesse feito o bem, por que o homem iria agredi-lo?

Sandoval ouviu a argumentação do Izaías e baixou a cabeça. Lopes percebeu que Sandoval já tinha alcançado o sentido da história.

E foi com ar professoral, falando mais do que pausadamente, que o grande Boêmio, não sem antes colocar a mão no ombro do Izaías, disse:

– Voltemos às palavras do grande Confúcio. Prestemos atenção no que ele disse: “POR QUE ME AGRIDES SE EU NUNCA TE FIZ O BEM?”

O bom Boêmio fez a pausa, Sandoval já não agüentava o riso preso.

– Você tem quantos anos, Izaías?

– Minha idade?

– Claro.

– Vinte anos.

– É por isso. Claro que é por isso. Quando você tiver quarenta, cinquenta, você não pedirá que lhe expliquem nada.

– Lopes, eu acho é que você não sabe explicar a fala do Confúcio.

Os olhos negros ficaram bem abertos, as sobrancelhas levantadas, o dedo em riste. Lopes era o retrato da indignação. Sandoval já não conseguia prender o riso.

– Quando você tiver os cabelos brancos, menino, vai saber o que acontece quando se faz o bem a alguém. O que se deve esperar. Entendeu agora a surpresa do Confúcio? Confúcio, claro, não é assim que vocês querem que eu chame o Kung Fu-tse. Mas não é por isso que devemos deixar de fazer o bem. Não devemos é esperar gratidão. Já a ingratidão, esta não deve causar surpresa a ninguém.

Sandoval parou de rir. Izaías começou a iluminar o rosto. E Wellington mostrou a sua dentadura mais do que branca. Aliás, a única coisa que tinha de branco, além da alma.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 29/12/2019 - 08:20h

Desabafo

Por Inácio Augusto de Almeida

Ah, minha cara amiga. Ah, minha adorável e paciente amiga.

E você me viu neste banco de praça.

E viu o meu desânimo.

É que tem dia que bate uma dor mais doída, daquela que vai cortando devagarzinho, moendo, como se estivesse nos esmagando com prazer, sadicamente. Dor que nos vai transformando num sei lá, como se somente o vazio ficasse dentro de nós.

E sentimos o cansaço da vida, a revolta dos julgamentos em que a defesa foi negada. Somente um gosto amargo fica em nossa boca.Talvez estejamos cansados do caminhar sem norte. Ou, talvez, quem sabe, tornou-se entediante o eterno assistir ao crescimento dos maus.

E por que isto sempre acontece? Por que o final é sempre o mesmo?

Atente minha cara amiga, atente para o fato dos maus sempre agirem em bando, enquanto que o bom sempre está sozinho, isolado.

Veja os super-heróis, minha amiga. Sempre sozinhos. Ah, o Batman e o Robin? Certo, mas viu o que os maus falam da dupla dinâmica?…

A realidade é que os maus se unem contra o bom. E os bons não se unem para combater o mau. Não, não estou me referindo à eterna luta entre o bem e o mal, não, não. Falo da silenciosa, às vezes, nem tanto silenciosa guerra não declarada dos maus contra o bom. Bom, sim, pois os maus na sua grande covardia selecionam os bons um a um, para destruí-los.

Com toda a certeza inspiram-se nas hienas. Talvez por isto vivam sempre a mostrar os dentes, como se estivessem rindo.

E assim vamos indo, buscando consolo na religião ou fantasiando a realidade, sonhando com um ajuste de contas que, sabemos, jamais acontecerá.

Na televisão mostram um assaltante de celular. Um tipo cuja imagem deixa claro tratar-se de uma vítima do nanismo famélico. E durante mais de 80 segundos este assunto, assalto de um celular é mostrado de forma debochada pelo apresentador do telejornal.

Engraçado, este mesmo telejornal nunca falou nada do caso dos corruptos, que condenados por peculato e corrupção, recorreram e conseguiram continuar exercendo cargos eletivos, fazendo licitações, votando leis e aprovando orçamentos.

E assim seguimos nós, assistindo a este eterno crescimento dos que se locupletam, dos que se cevam com o dinheiro arrancado sob a forma de impostos de um povo que não tem o que comer.

Será minha amiga, que Deus tirou umas longas e merecidas férias?

Será?

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 22/12/2019 - 09:26h

Onde está o amor?

Por Inácio Augusto de Almeida

Era uma vez um homem que sentiu vontade de saber onde estava o amor.

Ele sempre ouvia falar do amor. Diziam-lhe que o amor era lindo, muito mais lindo do que o mais bonito pôr do sol, mais radiante do que uma manhã de primavera.

Da bondade do amor também lhe falaram. Só que ninguém nunca lhe disse onde estava o amor.

E o homem saiu a procurar…

Perguntou a uma estrela onde estava o amor e a estrela lhe respondeu que o amor não estava com ela, mas que ele perguntasse à lua. Quem sabe se a lua, muito maior do que ela, pequenina estrela, não saberia responder onde estava o amor?

O homem agradeceu e seguiu o conselho da estrela. Enfim, não é a lua a rainha dos namorados? Então a lua deve saber onde está o amor. Talvez o amor esteja com ela.

– Lua, disse o homem, você que é o ornamento do céu, diga-me onde está o amor.

A lua olhou demoradamente para o homem e numa voz meiga, respondeu:

– Não sei meu bom homem, não sei. Por que você não pergunta ao mar? O mar é muito maior do que eu. Ele deve saber onde está o amor.

O homem não descansou sequer da viagem que fizera da estrela até a lua. Começou logo a caminhar em direção ao mar. E chegando ao mar, perguntou:

– Mar, onde está o amor? A lua me disse que você sabe onde está o amor.

O mar quase se zanga e numa voz rouca respondeu ao homem:

Se a lua não sabe, ela que é a deusa dos namorados, como posso eu saber, eu que vivo aqui preso a receber toda a sujeira do mundo? Eu também quero saber onde está o amor. Descubra logo, homem, descubra antes que os seus semelhantes acabem comigo com tanta sujeira que jogam em mim.

O homem desistiu de caminhar. Não, não iria sair mais perguntando a ninguém. Sentou-se numa pedra e, desesperado, começou a chorar.

Quando chorava muito, já desiludido de encontrar o amor, eis que uma abelha, bem pequenina, pousa no seu ombro.

Por que você está chorando, meu bom homem?

– É porque procurei o amor em todos os lugares e ninguém soube me dizer onde encontrá-lo. Eu preciso encontrar o amor. Eu preciso!!!

– E onde você foi procurar o amor?

– Procurei nas estrelas, na lua, no mar.

– Você procurou nos lugares errados. Você perguntou onde estava o amor a quem não sabia onde ele estava.

Surpreso e menos triste, o homem perguntou a abelha:

– E a quem eu devia perguntar? A você que é tão pequenina? Se a estrela, a lua e o mar não me souberam dizer onde está o amor, como pode você, tão pequenina, saber?

– Não, eu também não sei, mas você, você meu bom homem, você sabe onde está o amor. Por que você não pergunta a você mesmo onde está o amor?

O homem parou de chorar. Sentiu o seu coração dizer que o amor estava dentro dele mesmo. Finalmente tinha descoberto o amor. E ficou a imaginar o quanto tinha procurado em vão, o quanto tinha sido tolo ao procurar fora uma coisa que estava dentro do seu coração. E começou a rir satisfeito, feliz. Tinha descoberto onde estava o amor.

Sorridente e agradecido deu a mais linda flor que encontrou à pequenina abelha e saiu saltitante, amando a tudo e a todos.

– Muito obrigado, abelhazinha, muito obrigado.

E a abelhinha se afastando no seu lento voo olhou para trás para gritar:

– Avise aos outros homens, avise aos outros homens, avise a todos…

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 15/12/2019 - 12:15h

Emiliano Zapata e os bufões esquecidos

Por Inácio Augusto de Almeida

O camponês que chegou a governar uma das províncias do México, homem de confiança de Pancho Vila, líder nato, era dotado de uma coragem pessoal sem limites e possuidor de um caráter dificilmente encontrável entre os que se dedicam à coisa pública.

Emiliano, homem rude do campo, só conseguiu aprender a ler depois de adulto, liderou todos os movimentos campesinos na sua região. E entre as belas passagens que encontramos em sua vida, uma se sobressai.

Numa destas rebeliões de camponeses que aconteciam no México da ditadura Porfírio Diaz, Emiliano e vários companheiros foram presos.Levados à presença do então governador da província, mesmo sob ameaça de fuzilamento, Emiliano levanta a voz e protesta contra as injustiças cometidas pelos governantes. Entre surpreso e assustado com aquela reação de um homem simples, o governador pergunta qual o seu nome, ao que ele responde numa voz altiva: Emiliano Zapata.

O governador procura o nome de Emiliano na lista de presos e o grifa. Após mais uma rodada de ameaças, resolve soltar a todos, inclusive Emiliano, a quem lança um olhar ameaçador, recebendo como resposta um olhar desafiador.

O tempo passa, o México mergulha na mais sangrenta de todas as guerras civis e Pancho Vila triunfa. E, como desfrutava do respeito e da admiração de Pancho, Emiliano assume a província onde vivia.

Alguns meses no exercício do cargo, como as injustiças permanecessem quase que as mesmas, os camponeses se rebelam. Presos, são levados até Emiliano.

Tentando convencer os homens do campo, Emiliano explica estar fazendo o possível para melhorar-lhes a vida, que se mais não faz é por uma série de razões.

– Senhor, chega de conversa. Queremos terras, queremos trabalho. Queremos viver como homens. Conversa, conversa, disto estamos cheio.

Emiliano, com seu temperamento forte, de imediato levanta-se da cadeira e parte para cima do lavrador. Mas se contém. Sem que ninguém o segurasse, para. Lembra-se que é o governador, que está dentro do palácio. Volta a sentar-se e olhando o lavrador bem dentro dos olhos, pergunta-lhe:

– Como é o seu nome?

– Meu nome é Pablo Sanchez.

Emiliano pega a lista que estava sobre a mesa para grifar o nome de Pablo Sanchez. A caneta cai-lhe da mão. Fica com o olhar perdido. Um longo silêncio se faz.

– Vocês podem ir. Estão livres.

Pablo, da porta, vira-se e encara Emiliano. Os dois não trocam nenhuma palavra. Apenas se olham.

E tão logo os camponeses saem do palácio, Emiliano abandona o cargo. Percebeu que iria terminar se comportando como os que ele combaterá.

Pouco tempo após deixar o cargo, Emiliano Zapata é assassinado numa emboscada.

Por que contei esta história? Por ver que hoje não mais existe um Emiliano Zapata.

Hoje, os que conseguem chegar ao poder prometendo soluções mágicas, esquecem-se das promessas e passam a grifar os nomes dos que levantam a voz contra a ausência de providências.

Assistem ao crescimento do desemprego, da corrupção, da impunidade e justificam o arrocho salarial que antes tanto combatiam. Retiram direitos dos trabalhadores e falam em aumentar impostos com uma tranquilidade que chega a causar revolta a um frade de pedra.

Emiliano Zapata vive até hoje no coração dos mexicanos.

Já os bufões estão condenados ao esquecimento.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 08/12/2019 - 08:30h

Nossas culpas

Por Inácio Augusto de Almeida

Vivemos assustados. Clamamos pela tolerância zero como forma de inibir a delinqüência. Gradeamos as nossas casas e mantemos nossos filhos presos nos jogos televisivos.

Perdemos o direito de ir e vir.

Pagamos o preço da substituição da fraternidade pelo egoísmo.

Trocamos o bom gosto pelo exibicionismo, a beleza pela utilidade, a cultura pela riqueza. Só nos interessa o triunfo do materialismo e da ciência. Importamo-nos muito pouco com a religião e a arte. Arte que desintegramos em manias e maneirismos.Buscamos a riqueza pela riqueza e nos esquecemos de que a riqueza vem e a paz se vai. O corpo prospera, mas a alma decai. Porque a riqueza pela riqueza equivale a perda da honra, do senso de beleza.

Transformamo-nos em amontoadores de coisas, nos ocupamos primordialmente em transferir dinheiro alheio para o nosso bolso.

Vivemos assustados. Clamamos pela tolerância zero.

Pregamos ética, mas só praticamos a ética que nos é conveniente.

Condenamos o egoísmo alheio e nos esquecemos de que a amizade suplanta a filosofia, e as crianças nos tocam a alma com a música mais profunda que todas as sinfonias.

Um dia descobriremos que os homens não são máquinas.

Neste dia, não mais viveremos assustados, não mais clamaremos por tolerância zero. E transformaremos as grades de nossas casas em balanços onde as crianças, risonhas, sentirão a brisa da tarde num parque de diversão, livres de qualquer medo. E prezaremos mais o aperfeiçoamento da vida do que a vitória na vida.

Se hoje as nossas cidades já não possuem alma, amanhã seremos nós que também não mais teremos alma.

Troquemos a nossa montanha de egoísmo, a nossa fraternidade de vitrine, por um grão de humildade, por um pingo de amor ao próximo.

Já é hora de começarmos a reconciliação maior, única maneira de acabarmos com a violência.

E esta reconciliação plena começa dentro de nós mesmos.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 01/12/2019 - 09:46h

A tragédia anunciada

Por Inácio Augusto de Almeida

Dizer o quê? Que só nos resta rezar pela salvação das nossas almas?

Ou, quem sabe, conscientemente, perder a razão?

Meio paradoxal, mas talvez a única saída inteligente que nos é permitida.

Hemingway e Nava fizeram outra opção. Faltou-lhes a paciência de Jó.Dotados que eram de uma aguçada percepção, pressentiam, anteviam, sem serem pitonisas, baseando-se apenas em análises lógicas, em deduções, para eles simples, o que fatalmente sucederia no amanhã. E, consequentemente, sofriam mais, sofriam duas vezes.

O saber, antecipadamente, sem nada poder fazer para evitar o mal a caminho, gerava nos seus espíritos uma sensação de impotência. O assistir à tragédia, passivamente, enchia as suas almas de uma angústia aniquiladora.

Nada é mais destruidor do que a sensação de impotência.

Quando não se tem vocação para o cinismo, caso em que o compartilhamento social se torna difícil sob todos os aspectos, a vida passa a se assemelhar a um exercício de sobrevivência.

O sentir-se parte de uma massa sem conseguir a ela nivelar-se, sem idiotizar-se e passar a acreditar em tudo, é algo terrificante.

Mas, afora concluir que Nava e Hemingway estavam certos, dizer o quê?

Dizer que Deus resolveu entrar no gozo de uma longa e merecidas férias?

Ou que Ele, cansado de tanta sodomorrice, resolveu tal qual Pilatos, lavar as mãos?

Aonde encontrar a chance derradeira de se fugir à tragédia maior?

Aonde encontrar-se consigo mesmo e ter o direito de ser eu mesmo?

Tornar-se imbecil?

Então, dizer o quê? Que só nos resta rezar pela salvação das nossas almas?

Inácio Augusto de Almeida é escritor e jornalista

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 24/11/2019 - 05:40h

Homem

Por Inácio Augusto de Almeida

Mar, terra, céu, homem

Amor, ódio, fidelidade

Traição

Paixão, indiferença, bondade

Homem

 

Correção, cafajestismo

Caridade, maldade

Mar, terra, céu

Homem

Homem, Homem, Homem

 

Insensibilidade, compaixão

Genialidade, loucura

Imbecilidade, Inteligência

Patifaria, honestidade

Homem

 

Mar, terra, céu

Equilíbrio de forças

Homem, Homem, Homem

Simbiose de sentimentos

Antagônicos

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Poesia
domingo - 17/11/2019 - 08:52h

A grande miséria

Por Inácio Augusto de Almeida

Se a maior tragédia que pode acontecer a um homem é o abandono, a maior miséria é a renúncia.

Observem que a vida do infeliz se resume a um eterno renunciar.

E de renúncia em renúncia vai se fazendo a vida daquele a quem nem ser bom é permitido, já que para ser bom é necessário estar em harmonia consigo mesmo.E isto não lhe é permitido.

De forma muito sutil o empurram para uma estagnação total.

Isolado, tende a atrofiar-se e, sem desenvolver-se, estacionado literalmente, mergulha num mundo onde não caminha.

Mas não só os pobres de bens materiais conhecem a grande miséria.

Os miseráveis de espírito, os que dão a vida por um centímetro de ascensão social, estes são os que mais afundam na grande miséria.

Por ambição renunciam a tudo, até mesmo ao direito de existir.

Torturam-se de uma forma monstruosa, negando a si mesmo qualquer coisa, num processo anulatório que, animado pelo medo, termina por afogá-los na mais extrema das degradações.

Deixam de existir e passam a viver uma ilusão que não permite sequer sonhar os próprios sonhos. Não mais pensam, apenas obedecem e aceitam absurdos como verdades indiscutíveis. Absurdos tão estapafúrdios que ferem a todos os que não estão envolvidos pelo sistema que os transformou em seres desprovidos de senso.

E não pensem que são somente os iletrados que se deixam envolver pela máquina destruidora que esmaga todos os sentimentos e anula por completo a personalidade.

Letrados, sim, doutores, também, que na busca por reconhecimento público, negam-se de forma violenta e desumana, tornando-se carrascos de si mesmos.

Trocam o direito de bem dormir pelo riso sardônico e apenas passam a mostrar os dentes, já que o riso só é permitido aos que têm alma.

Sabem, sim, sabem que levamos sempre conosco o céu e o inferno.

E fazem a opção de forma consciente,

Acham que o céu não é muito claro e na busca por mais e mais luzes terminam indo ao inferno, inferno de onde não mais conseguem retornar.

E se perdem no amontoado de mentiras, tropeçam nas próprias artimanhas e terminam mergulhando na grande miséria, que é a renúncia.

A renúncia de si mesmo.

E como a renúncia sempre vem acompanhada do abandono, quem renuncia, renuncia a si mesmo e aos outros, temos o quadro completo, a imagem nítida da miséria em toda a sua plenitude, o retrato perfeito da grande miséria.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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