“Se você sente solidão quando a sós, está em má companhia.”
Jean-Paul Sartre
Jornalismo com Opinião
“Se você sente solidão quando a sós, está em má companhia.”
Jean-Paul Sartre
Por Marcelo Alves
Na semana passada, registrei aqui que a ideia de uma origem biológica para o comportamento criminoso do indivíduo, sobretudo quanto ao crime violento, ainda hoje é popular e mesmo cientificamente defendida (veja AQUI). Todavia, no estado atual da ciência, entende-se não ser possível prever o comportamento criminoso de alguém com base apenas em fatos biológicos. Mesmo nas pessoas com uma “predisposição genética” para tanto, é necessário um gatilho do ambiente para que essa pessoa “caia pra dentro” na criminalidade. Esse é chamado o “modelo diátese-estresse”, a soma da predisposição genética com o estresse do ambiente.
Esses gatilhos individuais – que podem estar relacionados (mas não necessariamente) aos diversos fatores sociológicos da criminalidade estrutural, como a desigualdade social, a pobreza, a falta de educação, a desestruturação familiar etc. – são de diversas ordens.
Como anotam Emily Ralls e Tom Collins, em “Psicologia: 50 ideias essenciais” (Editora Pé da Letra, 2023), “um dos argumentos mais fortes para que a agressão tenha uma causa comportamental é a teoria da frustração-agressão, que surgiu na década de 1930. A frustração ocorre quando um fator interno ou externo nos impede de atingir uma meta. John Dollard (1900-80) e seus colegas propuseram que a existência de frustração sempre levava a alguma forma de agressão. (…) No entanto, todos nós ficamos frustrados, mas nem todos se tornam agressivos. Em resposta a isso, a teoria da frustração-agressão sugere que a intensidade da agressão é maior quando dirigida à fonte da frustração como um tipo de comportamento retaliatório”. Faz sentido.
Outrossim, é relevantíssima a teoria do aprendizado social – TAS (e as suas derivações), afirmando que aprendemos não só por experiências diretas, mas sobretudo por meio da observação dos outros, incluindo aqui o comportamento agressivo ao nosso redor e a forma como ele se apresenta. Por exemplo, a partir de inúmeros estudos, é convencionalmente aceito – e alguns pais já deviam saber disso por experiência própria – que as crianças familiarizadas com atitudes agressivas têm maior probabilidade de imitá-las.
A imitação está no centro de toda a vida social e explica bem tanto as situações estáveis como as mudanças, já ensinava Gabriel Tarde (1843-1904) em “A opinião e as Massas” (“L’Opinion et la Foule”, de 1901). Assim, a imitação, compulsória ou espontânea, eletiva ou inconsciente, pode ser o gatilho individual do novo fato criminoso.
E podemos ser até mais específicos quanto à influência do ambiente no comportamento criminoso. Esse ambiente pode ter mesmo um papel negativamente educativo no indivíduo. Como anotam os autores de “Psicologia: 50 ideias essenciais”, “Edwin Sutherland (1883-1950), em 1939, sugeriu que dois fatores são necessários para que uma pessoa se torne um criminoso: 1) ela precisa aprender certos valores que apoiariam o comportamento criminoso e 2) precisa aprender as habilidades necessárias para cometer o crime. Essa teoria é chamada de teoria da associação diferencial e argumenta que os criminosos são influenciados principalmente por aqueles com quem se socializam”.
Nesse sentido, o nosso comportamento seria influenciado e mesmo “aprendido”, durante a vida, por intermédio da observação e absorção de certo conhecimento. Os criminosos não são “natos”, mas, sim, “educados” (intencionalmente, o mais das vezes) por meio da observação/imitação dos outros ao redor.
Mas isso não é só uma lição da psicologia forense/criminal. É uma sabença popular. Afinal, “diga-me com quem andas e eu te direi quem tu és”. É uma verdade poética, como assim declamou Rudyard Kipling (1865-1936), no seu poema “If” (“Se”, em tradução do nosso Guilherme de Almeida): “Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes/E, entre reis, não perder a naturalidade/E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes (…)/Tua é a terra com tudo o que existe no mundo/E o que mais – tu serás um homem, ó meu filho!”.
É filosófico: “O inferno são outros”, já dizia Jean-Paul Sartre (1905-1980), alertando sobre os nossos padecimentos quando dos encontros com a alteridade. E é bíblico (1 Coríntios 15:33): “Não se deixem enganar: ‘As más companhias corrompem os bons costumes’”.
Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL
Por Marcelo Alves
Por estes dias, um amigo, apaixonado pelas coisas do Reino Unido, me perguntou se eu sentia saudades do período em que morei/estudei em Londres. Saudade é sentimento muito peculiar e, observando o todo, prefiro dizer que não. Olhando retrospectivamente, posso até dizer que, comigo, a coisa se dava/dá mais ao contrário. Parafraseando o que certa vez disse João Cabral de Melo Neto (1920-1999) quanto ao seu Recife, eu, quando estou no exterior, tenho saudades do Brasil, quando estou no Brasil, tenho saudades de Natal, e, quando estou em Natal, tenho saudades de quase mais nada. E, se a saudade às vezes bate, o é das coisas que vivi pisando no chão dos meus antepassados, da minha gente, dos que ainda estão aqui e dos que já se foram.
É claro que eu sinto falta de alguns lugares (livrarias, sebos, museus, pubs) que frequentava e de coisitas (caminhar, tomar um café à toa) que fazia prazerosamente em Londres.
Vou dar um exemplo relacionado à sétima arte apenas para relembrar de um tempo em que eu tinha tempo para exercitar a cinefilia. Frequentei bastante o British Film Institute – BFI, complexo dedicado ao cinema, que fica à margem sul do Tâmisa (Southbank), mais precisamente abaixo da Waterloo Bridge.
No meu tempo, acho que eram quatro salas de exibição, mais voltadas para o cinema britânico, mas que também exibiam, vez por outra, os lançamentos da hora. Junte a isso restaurantes e cafés, para bate-papos antes e depois das sessões.
Havia a Filmstore do BFI, uma mistura de loja de DVDs e livraria, que era um achado para qualquer cinéfilo, em variedade e qualidade e, às vezes, se pegássemos uma promoção, em preço. Melhor ainda, até porque de graça, era a Mediatheque, onde se podia explorar boa parte do acervo do BFI. Milhares de produções para o cinema e para a TV que podíamos ver sentados em uma confortável poltrona e com uma telona só para nós. Ainda me lembro da então recém-inaugurada BFI Library, com uma das maiores coleções de livros, periódicos etc., sobre cinema e televisão, do mundo todo. Era aberta tanto para os especialistas como para o público em geral.
Da última vez que estive lá, como turista apressado, vi algumas mudanças (se não estou enganado, a lojinha havia sido descontinuada ou reduzida em tamanho). Mas essas reformas são normais. Quase sempre são para melhor. E o que vale a pena é o complexo do British Film Institute. A sua atmosfera. Sinto falta, sim, das minhas tardes por lá.
De toda sorte, o que sinto deveras falta da minha estada em Londres está mais relacionado a coisas simples, que posso chamar de solitude (não de solidão) e de movimento, do que aos grandes aparelhos culturais que essa metrópole oferece.
Por exemplo, adoro café e gosto mais ainda de frequentar cafés. Sentar sozinho, ler um livro tomando um latte, escrever um pouco ou apenas ver a rua passar. Fiz muito isso em Londres. Para tanto, não precisava de um Deux Magots. Podia ser num daqueles Starbucks, Costa ou Nero de estilo, que pululam nas esquinas de Londres. É difícil fazer isso na terrinha. Conhecemos muita gente. Seria interrompido, tido como em crise existencial ou mesmo, quem sabe, como estando meio assim sei lá da bola. Faltaria a bendita solitude. Como diria Jean-Paul Sartre (1905-1980), por sinal habitué do citado Deux Magots, aqui o inferno são os outros.
E, acima de tudo, na segurança e no clima de Londres, amava andar a pé, a qualquer hora do dia ou da noite, de casa à universidade, à biblioteca ou já em direção a algum rendez-vous de ocasião. Amava caminhar, mesmo que sozinho, por avenidas e vielas, parques e praças, sem pressa e perdidamente, vendo as coisas, os animais e as pessoas.
Amava assim flanar, uma “ciência” que Honoré de Balzac (1799-1850) definiu, poeticamente, como a “gastronomia dos olhos”. E amava, claro, pensar caminhando, como outrora fazia o gigante Aristóteles (384-322a.C.) junto a seus discípulos.
Bom, não dá muito para caminhar, seja à toa ou ao cinema, aqui em Natal. Tem a insegurança. Tem o clima. Não dá para ser pacificamente peripatético num calor dos diabos.
Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República, doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL
“A violência, seja qual for a maneira como se manifesta, é sempre uma derrota.”
Jean-Paul Sartre
Por Marcos Araújo
Nesta crise climática e humanitária que vitimou o Rio Grande do Sul, nada me foi mais comovente do que o depoimento de uma criança chamada PIETRO, talvez da idade dos meus filhos (uns 09 a 10 anos). Narrando sua desventura sem qualquer engasgo de choro, contou ele que estava com os seus avós quando a casa desmoronou, tendo sobrevivido porque passou três dias agarrado a uma árvore, salvo da submersão na correnteza pelo avô.
No seu depoimento em vídeo, o vocativo “MEU VÔ” aparece algumas vezes, sempre num ato de heroísmo: saltando de casa para uma árvore; em momentos, da árvore para outra; noutro sustentando a avó, para ela não submergir; em outro, abraçando o neto e resgatando-o por duas vezes, para que o turbilhão da água não o levasse…
Em que pese o esforço hercúleo do “Meu Vô”, diz Pietro que a avó não sobreviveu. Sua história afivelou o meu coração de neto de profunda nostalgia. Todos os meus sentimentos de solidariedade e ternura recaíram sobre estes dois personagens da tragédia: Pietro, pela tristeza da infância roubada, obrigando-lhe a fazer um relato amadurecido da morte; seu Avô, que fez o possível e o impossível para salvar a família.
Fico às vezes absorto pensando sobre a importância dos avós no aperfeiçoamento da sociedade e na educação interna das famílias. Inspiro-me nos meus avós maternos, Raimundo e Idalina. Nos jardins da minha memória, onde o tempo dança ao ritmo suave das lembranças, reservo um legado de bravura e sacrifício próprio do heroísmo para eles. Foram eles titãs que moldaram o nosso mundo existencial com suas mãos calejadas e corações generosos. Foram eles como faróis na tempestade, guiando-nos através das tormentas da vida com sua sabedoria e experiência.
O heroísmo dos nossos avôs transcende as páginas da vida e se enraíza profundamente em nossos corações. São feitos anônimos, cujas façanhas passam despercebidas aos olhos até mesmo dos filhos. Meus pais, avôs de 40 netos, ensinaram a eles (aos netos) muito mais do que nós mesmos (os pais).
Queria ter sido uns 5% (cinco por cento) do que os meus pais conseguiram ser em todas as latitudes existenciais: no campo do trabalho, do exemplo, do amor pelos filhos, da profissão, da dedicação aos amigos… Meu pai, um simples campesino, foi mais sábio e professor em vida do que eu, que ostento diplomas inócuos de uma escolaridade obrigatória. Minha mãe, uma costureira, teceu em torno de si uma rede autêntica de valores e moral que jamais alcançaria.
Voltando aos netos, hoje eles não respeitam, nem idolatram, seus avós como eles merecem. A juventude do presente se ressente das orientações e experiencias dos avós, por considerá-los ultrapassados, mas adoram as “filosofias” dos rappers, as frases de efeito dos neurolinguistas, as rimas sem estética dos funkeiros, os bordões idiotas do piseiro. Em favor dos “ídolos” e “heróis” da atualidade, nossos jovens são capazes de enfrentar filas quilométricas e dias de sol e chuva para ter o prazer de visualizá-los por uma hora apenas, com direito até a adoecer ou morrer como aconteceu no Brasil com os fãs de Taylor Swift e Madonna, mas são incapazes de se submeterem a uma espera de uma hora para um cadastro de emprego.
São incapazes de “perder” 30 minutos na semana para um almoço na casa dos avós, ou de irem à farmácia comprar o medicamento deles. Levá-los a um passeio é algo impensável. Mas, é justamente essa juventude da idolatria barata, do heroísmo de fancaria, que por falta de referenciais de dificuldade a qualquer tropeço se quedam em angústias e se dopam em medicamentos. Somos a sociedade do Zolpiden.
Os netos de antanho registram, quase sempre, o papel relevante do avô. Jean Paul Sartre, filósofo e escritor francês, em seu livro autobiográfico “As palavras”, conta que seu avô, plantou no seu coração a semente da vocação de escritor e da descoberta do sentido moral e social do ofício que o transformou em um dos maiores escritores de seu tempo: “Estes aí, menino, foi teu avô que os fez. Que orgulho! Eu era neto de um artesão especializado na confecção de objetos sagrados, tão respeitável quanto um fabricante de órgãos, quanto um alfaiate eclesiástico” (1964, p. 32).
Outro francês famoso, Vitor Hugo, eternizou nos versos A quoi je Songe, o valor da voternidade. Em relatos autobiográficos o colombiano Garcia Marques relembra a amizade singular vivida com o avô em cuja casa viveu sua infância. A literatura nacional tem no relato de Monteiro Lobato, num gesto de profundo respeito e legitimidade da criança, as estórias de uma avó heroína como Dona Benta.
Precisamos ressuscitar o antropocentrismo. Nós somos o que somos graças aos nossos ancestrais. Descendemos de pessoas fortes, que nos deram testemunhos da força do espírito humano. Ao avô de PIETRO, e a ele próprio, as minhas reverências. São eles os heróis desta tragédia. Foram eles que me fizeram lembrar que mesmo nas circunstâncias mais adversas, é possível encontrar esperança e coragem. E repuseram nos jardins da minha lembrança a memória dos meus avós heróis.
Viva ao “VÔ” de Petro. Viva aos avós!
Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern
“Não se pode querer ao mesmo tempo odiar e agradar.”
Jean Paul Sartre
“Cada palavra tem sua consequência; cada silêncio, também.”
Jean-Paul Sartre
“Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem.”
Jean-Paul Sartre
“Morremos no exato momento em que deixamos de ser úteis.”
Jean-Paul Sartre
“O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo.”
Jean-Paul Sartre
“Cada palavra tem uma consequência. Cada silêncio também”.
Jean-Paul Sartre
“As palavras são traiçoeiras e mais poderosas do que nós pensamos”.
Jean-Paul Sartre
“Cada palavra tem a sua consequência; cada silêncio, também”.
Jean-Paul Sartre
“Um homem não pode ser mais homem do que os outros, porque a liberdade é semelhantemente infinita em cada um.”
Jean-Paul Sartre
“A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo.”
Jean-Paul Sartre
O governador Robinson Faria (PSD) não engole até hoje o PSB ter dado amparo à invencionice da ex-candidatura ao governo estadual, versão “Fake-Mico”, do vice-governador dissidente Fábio Dantas (PSB).
Mesmo assim, não coloca pessoalmente óbice à atração da sigla para composição no lastro numeroso de legendas que terá em sua campanha.
“O inferno são os outros”, dissimularia o filósofo Jean-Paul Sartre.
Ou seja, o problema não é com ele – Robinson.
Segundo o governador já deixou claro, o veto está nos partidos do seu arco de alianças.
Ninguém quer o deputado estadual Ricardo Motta e seu filho e deputado federal Rafael Motta por lá.
Até aqui, também não se arranjaram nem arrancharam noutro acampamento político interpartidário.
As coligações estão praticamente fechadas.
Ponto final.
Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.
Por François Silvestre
O fanatismo é o sarampo da inteligência. Lênin dizia que o esquerdismo era a doença infantil do comunismo. A revolução de 1917, que pariu a União Soviética, desaguou no fundamentalismo stalinista. Uma praga que só serviu ao capitalismo, presenteando-o indevidamente com a bandeira das liberdades fundamentais.
O fanatismo antissemita produziu o holocausto, que de tão violentamente brutal, dispensa comentário. O seu antípoda, o sionismo, tem praticado intolerância e violência a dificultar a implantação do Estado palestino.
Tudo com base em interesses do poder e da economia, onde deuses e religiões, mitos e seitas justificam tudo. E nessa seara tudo é poder e dinheiro. O ser humano, se é que há, fica na rabeira da fila.
Os tiranos não são fanáticos. Fanáticos são os seus seguidores. Os idiotas que se imolam para manter viva a violência fundamentalista. Seja no poder de tiranias de Estado ou de grupos dispersos, onde a estultice fabrica tragédias.
Os chefes ou “líderes”, no fundamentalismo”, agem como os traficantes de droga. Traficam, vendem, mas não usam. O uso fica para os viciados. Nenhum líder fundamentalista se veste de bombas para explodir junto com suas vítimas. Isso é tarefa dos estúpidos, reduzidos à condição de esterco pensante. Terrorista e torturador são excrementos, que nem pra adubo servem.
A palavra não é só resultado do processo adâmico. Ela tem a força da bomba ou a fraqueza do lodo.
Poucas palavras têm a força da edificação que habita o substantivo “fundamento” e o adjetivo “fundamental”. Pois bem; basta uma desinência para desmoralizá-los.
Há um sufixo prostituto que deforma a semântica dos fundamentos. É o “ismo”. Quando se agrega a uma palavra dificilmente lhe preserva a dignidade originária. Vírus semântico. É o caso do fundamentalismo.
O fundamentalismo está espalhado em todo o mundo. À espreita em cada canto, angariando adeptos e recrutando idiotas.
No Brasil, onde tudo tem um toque de hipocrisia, há formas disfarçadas de fundamentalismo. Basta ver os blogs e twitters durante a última campanha eleitoral. Nos dois lados.
Sem falar no fundamentalismo “ético”, da cretinice que inverte o princípio da presunção de inocência, ao transformar acusação em julgamento. Todo moralista carrega escondido no íntimo da sua alma penada um matulão de “defeitos”, que lhe motivam ira ou preconceito.
Sartre dizia que o inferno eram os outros. Assim também ocorre nas discussões políticas que embalam as redes sócias: fanático é quem discorda de você.
Há também que se levar em conta uma realidade que sai do campo político e vai desaguar nos mananciais da antropologia.
Não somos ainda a Humanidade. Somos o elo intermediário entre os ancestrais de onde viemos e a Humanidade que há de vir. Somos pré-humanos. De tecnologia evoluída e humanidade embotada. Tribais da barbárie, intelectualmente desnutridos.
A Humanidade corre o risco de nunca existir, pois depende da nossa sobrevivência para nos suceder. Ao nos destruirmos impediremos seu nascimento. Té mais.
François Silvestre é escritor
Por Paulo Linhares
Por muitos anos a metrópole planejadas por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, Brasília, não passou de um esboço de grandes espaços vazios salteados com angulosas e curvilíneas estruturas de concreto armado – palácios, igrejas, aqueles prediozinhos enfileirados que parecem pedras do dominó que sediam ministérios, o conjunto arquitetônico que abrigam as duas casas do Congresso Nacional caracterizado pelas famosas meias esferas invertidas (ou pratos de sopa, como querem outros) e contrastadas por um duplo espigão.
Nos albores da nova capital, a visão fantasmagórica e desoladora de suas estruturas arquitetônicas e urbanísticas causaram forte e negativa impressão num casal de visitantes ilustres, o filósofo Jean-Paul Sartre e a escritora Simone de Beauvoir, a tirar pelo que esta escreveu: “Guardo a impressão de ter visto nascer um monstro, cujo coração e pulmão funcionam artificialmente, graças a processos de um custo mirabolante.”
Por seu turno, Sartre igualmente ficou horrorizado como uma “suculenta” feijoada que lhe serviram num convescote no Rio de Janeiro, em 1960, no apartamento do jornalista José Guilherme Mendes, quando fez o famoso ‘elogio’ à culinária tupiniquim: “Mais… C’est la merde!” Nem precisa tradução.
Detestou a feijoada e Brasília. Embora não tenha dito expressamente, ficou patente que nunca mais viria a Brasília e ao Brasil.
Durante os vinte e um anos de governos militares as ideias urbanísticas e arquitetônicas dos criadores de Brasília foram preservadas, a despeito de alguns arranca-rabos entre o notório comunista Niemeyer e os novos donos do poder que, de princípio, pensaram em dispensar os serviços do arquiteto tornado celebridade internacional de cuja prancheta sairiam sofisticados projetos que encantaram a Europa e os Estados Unidos da América, inclusive, foi seu o projeto arquitetônico da sede da Organização das Nações Unidas, localizada em Nova Iorque, construída entre 1949 e 1952.
Numa dessas brigas os militares conseguiam impor sua vontade e desfiguraram o futurístico projeto do aeroporto de Brasília, cujo resultado desastroso os obrigou a retomar as encomendas de novos projetos ao escritório arquitetônico do carismático e não menos irascível Niemayer que, numa genial revanche projetou o belo monumento em memória do ex-presidente Juscelino Kubitschek que, batido pelo cáustico sol do cerrado, a certa hora do dia, lança sobre o quartel-general do Exército Brasileiro, o chamado “Forte Apache”, a sombra assustadora de uma foice e um martelo entrelaçados.
Mais de cinco décadas depois, a menina Brasília de Juscelino tornou-se uma cinquentona cheia de vícios, deturpações e medos. A sua passagem é marcada pela suntuosidade dos conjuntos arquitetônicos que abrigam os tribunais superiores e a Procuradoria Geral da República.
No mais, a capital da República vive todos os dramas sócio-ambientais de outras metrópoles terceiro-mundistas, inclusive, o cinturão de comunidades pobres (as Cidades-Satélites) fruto de explosão populacional aliada à precariedade da geração de emprego e renda, um dos efeitos colaterais, também, das péssimas administrações governamentais do Distrito Federal, com governos populistas, corruptos ou ambos.
A Brasília hodierna, nestes tempos de Lava Jato, é uma cidade amedrontada, policialesca, paranóica, como nunca foi, mesmo na época de poder fardado. Agora, sob os auspícios do poder togado, a intolerância e as posturas autoritárias campeiam. No Senado Federal, por exemplo, o acesso do cidadão comum está muito restrito e precisa uma autorização do gabinete que visitar.
Enfim, na maioria das repartições públicas de Brasília os visitantes são vistos, de princípio, como terroristas potencialmente perigosos. Sem qualquer exagero. Só vexames e humilhações que em nada ajudam a superação do clima de insegurança. Um horror.
E isto tudo somente reflete o clima de desagregação institucional vivido pelo Brasil, em que a imagem do presidente da República está cada vez mais abalada após delações que envolvem Temer em graves casos de corrupção, isto sem falar no enorme desprestígio do Congresso Nacional em razão da perda de iniciativa política, além de ter a maioria de suas lideranças também acusadas de receber propinas.
Enfim, evidencia-se como verdadeira a profecia de Simone de Beauvoir: Brasília foi transformada num monstro. Pobre Brasil, tristes trópicos.
Paulo Linhares é professor, escritor, jornalista e advogado
Por François Silvestre
Estamos irresponsavelmente adiando o inadiável. Postergando o impostergável. Acobertando o inacobertável. Camuflando o inescondível.
A ordem institucional nascida em 1988 esgotou-se. Exauriu-se. Atrofiou e padece de infecção generalizada, septicemia que paralisa poderes, órgãos e gestões.
Essa conversa de que as Constituições devem envelhecer para consolidar democracias não se refere à nossa cultura político-institucional. Somos, os latinos dessa América, sociedades movidas pela transitoriedade.
É da nossa tradição. Do nosso jeito de ser. Pois que sejamos o que somos e não o que são os nossos dessemelhantes.
O Brasil é um país ainda experimental. Em formação de povo e de instituições. Nossa História se faz em ciclos e não em amadurecimento continuado. Um ciclo morreu. Que nasça outro. Como a morte e coroação nas antigas dinastias.
Dizia Sartre que o Direito e a Moral não determinam as relações sociais, cujos matizes têm causas nas condições econômicas. Mas acentuou que tanto o Direito quanto a Moral exercem uma ação de retorno na infraestrutura, que muitas vezes você pode julgar uma sociedade pelos critérios morais e jurídicos que ela estabeleceu.
Há, no país, um esgarçamento político tão visível e marcante a influenciar negativamente a economia, que você fica na dúvida para localizar o que é causa ou consequência.
O esgarçamento institucional, acima referido, começa a tomar contornos fora do “controle” estabelecido. Os privilégios desqualificam o poder de controlar. E a pobreza retornando à condição de miséria.
A cada adiamento da solução mais simples, e por ser simples a mais eficiente, o esgarçamento institucional vai aprofundando o abismo.
A falta de credibilidade do poder “constituído” escancara-se. A falta de legitimidade de quem combate esse “poder” retira a chance de solução pelas vias “normais”.
Pelo tocar do comboio, logo teremos desobediência civil generalizada. Num quadro de economia em processo falimentar, descrédito político, bagunça institucional, e confusão de prerrogativas, quantos serão “obedientes”? E quando essa desobediência generalizar-se quem vai controlar?
A superação de um ciclo é o nascimento do ciclo novo. E isso só será possível com a feitura de nova ordem institucional. Pela força de uma Constituinte Originária.
Exclusiva. A ser dissolvida após a promulgação da carta Constitucional. Quarentena dos constituintes, proibidos de participarem, como candidatos, nas eleições seguintes e gerais que formarão o novo poder constituído.
Com candidaturas avulsas. Com isso, as corporações e entidades da sociedade civil, não profissionalmente politizadas, sem o corporativismo da hipocrisia atual.
Qualquer outra saída será remendo, no rasgão da estopa.
Té mais.
François Silvestre é escritor
* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.
Por François Silvestre
Estamos irresponsavelmente adiando o inadiável. Postergando o impostergável. Acobertando o inacobertável. Camuflando o inescondível.
A ordem institucional nascida em 1988 esgotou-se. Exauriu-se. Atrofiou-se e padece de infecção generalizada, septicemia que paralisa poderes, órgãos e gestões.
Essa conversa de que as Constituições devem envelhecer para consolidar democracias não se refere à nossa cultura político-institucional. Somos, os latinos dessa América, sociedades movidas pela transitoriedade.
É da nossa tradição. Do nosso jeito de ser. Pois que sejamos o que somos e não o que são os nossos dessemelhantes.
O Brasil é um país ainda experimental. Em formação de povo e de instituições. Nossa História se faz em ciclos e não em amadurecimento continuado. Um ciclo morreu. Que nasça outro. Como a morte e coroação nas antigas dinastias.
Dizia Sartre que o Direito e a Moral não determinam as relações sociais, cujos matizes têm causas nas condições econômicas. Mas acentuou que tanto o Direito quanto a Moral exercem uma ação de retorno na infraestrutura, que muitas vezes você pode julgar uma sociedade pelos critérios morais e jurídicos que ela estabeleceu.
Há, no país, um esgarçamento político tão visível e marcante a influenciar negativamente a economia, que você fica na dúvida para localizar o que é causa ou consequência.
O esgarçamento institucional, acima referido, começa a tomar contornos fora do “controle” estabelecido. Os privilégios desqualificam o poder de controlar. E a pobreza retornando à condição de miséria.
Vimos recentemente um fato simbólico desse descontrole. Decisão monocrática do Supremo ignorada pela Mesa do Senado. “Desobediência” do não cumprimento.
Fato isolado? Nem tanto. Contornado, o episódio deixa um alerta. Foi uma desobediência localizada, no meio do atrito entre os poderes.
Pelo andar da caravana, logo teremos desobediência civil generalizada. Num quadro de economia em processo falimentar, descrédito político, bagunça institucional, e confusão de prerrogativas, quantos serão “obedientes”? E quando essa desobediência generalizar-se quem vai controlar?
A superação de um ciclo é o nascimento do ciclo novo. E isso só será possível com a feitura de nova ordem institucional. Pela força de uma Constituinte Originária.
Exclusiva. A ser dissolvida após a promulgação da carta Constitucional. Quarentena dos constituintes, proibidos de participarem, como candidatos, nas eleições seguintes e gerais que formarão o novo poder constituído.
Com candidaturas avulsas, sem prejuízo das candidaturas partidárias. Com isso, as corporações e entidades da sociedade civil, não profissionalmente politizadas, poderão ser representadas sem a hipocrisia atual.
Qualquer outra saída será remendo, no rasgão da estopa.
Té mais.
François Silvestre é escritor
* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.
“Ser-se livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer-se aquilo que se pode.”
Jean-Paul Sartre
“Se você sente tédio quando está sozinho é porque está em péssima companhia.”
Jean-Paul Sartre


