domingo - 09/08/2015 - 11:26h

Cangaço na região Oeste do RN

Por Marcos Pinto

Em  15 de  Abril de  1925, com  o  seu  eleitorado  sofrendo  contínuas  ameaças  veladas,  chibateamentos  e  tropelias  praticadas  pelos  jagunços  de  Décio  Holanda  e seu  sogro  Tilon  Gurgel,  deliberou  o  Coronel  João Jázimo Pinto  ir  até Natal  para, em  audiência  com  o  governador  Dr.  José  Augusto  Bezerra  de  Medeiros, narrar-lhe  a  triste  situação de  apreensão   pela  qual  estava  padecendo a  grei  Apodiense, com  as  frequentes  incursões  da  jagunçada  comandada   pela  satânica  dupla,  na  cidade,  e  nos  sítios  pertencentes  aos  eleitores  da  sua  facção  política  pacifista.

Após  minuciosa  exposição  feita  pelo  Cel. Jázimo,  o governador  prontamente  enviou   para  a  cidade  de  Apodi  um  contingente  policial  formado  por  40  praças, comandada  pelo  respeitado  e  temido  Capitão  Jacinto Tavares  Ferreira, onde  ficou  aquartelada.

Casa de Quincas Saldanha (Foto: reprodução)

No dia  imediato  à  sua   chegada, o  Capitão  Jacinto  fez  uma  varredura  no prédio/sobrado  pertencente  ao Sr.  Martiniano  de  Queiroz  Porto (Natural do Ceará), truculento  capitalista  que  compunha  a  virulenta  facção política   oposicionista  comandada  por  Tilon  Gurgel, Sebastião  Paulo  Ferreira  Pinto, João  de  Deus  F. Pinto, Juvêncio  Barrêto,  e  os  irmãos  Benedito  Saldanha  e  Quincas  Saldanha.

Na  incursão  feita  à  residência  do  Martiniano, foram  encontradas  farta  munição e  30  fuzis, razão  pela  qual  despertara a  atenção  do  Capitão  Jacinto  para  a  possibilidade  de que  o  mesmo  estava  intentando  formar  milícia particular.  Martiniano  tinha  um jagunço  que  residiu  muitos  anos  com  ele  e  que atendia  pelo  nome  de  Júlio  Porto, que  em 1927  já  integrava o  bando  de  Lampião, quando  este  acoitou-se  na  fazenda  Bálsamo, no  Pereiro-CE, preparando-se  para  os   ataques  à  Apodi  e  Mossoró.

Há  quem  afirme  que  a  fazenda  “Bálsamo”  tinha  uma  parte  que  pertencia  a José  Cardoso.

Com  a  atuação  de  eficaz  comando  e  vigilância  do  Capitão  Jacinto, que  os  celerados  Benedito  e  Quinca  Saldanha  referiam-no   como sendo  “O Jacintão”,(Pela  estatura elevada) os  sicários  Juvêncio  Barrêto  e  Martiniano  Porto  mudaram-se  do  Apodi,(Final de Maio  de 1925). O  primeiro  voltou  para  Martins, de onde  era  natural,  e  o segundo fixou  residência  em  Pau  dos  Ferros-RN, onde  o  seu  genro  Dr. José  Vieira  era  o  Juiz  de  Direito  da  comarca.

Sentindo-se  coibidos  na  prática  contumaz  da  intimação, a  horda  virulenta  comissionou  a  Tilon  Gurgel  e  a Benedito  Saldanha  para  parlamentarem  com  o  governador, sob  a  falsa  alegativa  de  que  a  força  policial  estava  a  causar transtornos  na  região  do  Apodi, cuja  arguição  visava  retirar  a  força  policial  sediada  em  Apodi.

Quando  encontravam-se  em  audiência  com  o  governador, recebem  telegramas  informando-os  da  ocorrência  do  “Fogo de Pedra de Abelhas”. Na  manhã  do  dia  12  de  Maio  de  1925  a  tropa  policial  dirigiu-se  até  a  povoação  de “Pedra  de  Abelhas”, objetivando  efetuar  as  prisões  de  Décio, Tilon  Gurgel  e  toda  a  jagunçada.

Antes  da  força  policial  chegar  ao  seu  destino, já  Décio  e  Tilon  eram  sabedores  de  que  o  contingente  estava  vindo  aos  seus  encontros,  por  mensageiro  enviado  por  Martiniano  Porto  e  Sebastião  Paulo.

Massilon: com Lampião (Foto: reprodução)

Quando  Décio  Holanda preparava-se  para  debandar  com  seus ” cabras”, empreendendo  fuga rumo  ao Ceará, eis  que  surge  a  tropa  policial, travando-se  cerrado  tiroteio, no  lugar  “Barrocas  do  Boqueirão”, culminando  com  a   desesperada  fuga  da  jagunçada no  rumo  do  rio  Apodi,  situado  nas  imediações.

Na  ocasião  do  embate, morreu,  afogado, um  “cabra”  de  Tilon  Gurgel, de  nome  Mamédio  Belarmino  dos  Santos, da família  dos  “Caboclos”,  do  sítio  “Brejo  do  Apodi”. Após  este  entrevero bélico,  a  tropa  policial  retornou  ao  Apodi,  com  a  missão  de  retornar  no dia  seguinte, o que  não  se  efetivou  pela  informação  concreta  de  que  o  grupo  armado  do  Décio  se  homiziara  no Ceará.

Depois  desta  ocorrência coibitiva, a  paz  voltou  a  reinar  naqueles  rincões, mas, por  pouco  tempo, pois  em  10  de  Maio  de  1927  o  Tilon  Gurgel  arquitetou, via  Décio  Holanda,  o  ataque  de parte  do  grupo  de  Lampião ao  Apodi, comandado  por  Massilon, cujas  minudências  serão objeto  de  outro  artigo.

Marcos Pinto é advogado e escritor

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quinta-feira - 16/07/2015 - 20:44h
Mossoró

Conselho começa a tratar da “Festa da Liberdade”

Membros do Conselho Municipal de Políticas Culturais se reuniram nesta quarta-feira (15). Encontro ocorreu no auditório do Centro Administrativo Alcides Belo, para discussão de diversos assuntos relacionados à cultura no Município.

A reunião contou com debates quanto ao funcionamento do conselho. Também foi discutido o formato da Festa da Liberdade 2015, evento que exalta os quatro grandes feitos do povo mossoroense: a libertação dos escravos cinco anos antes da Lei Áurea, o Motim das Mulheres, o primeiro voto feminino da América Latina e a resistência à invasão do bando de Lampião.

“O Conselho é um importante órgão consultivo e deliberativo e é também sua função contribuir com a preparação dos eventos e atividades culturais da cidade. Estamos discutindo a Festa da Liberdade inicialmente neste grupo e quando a proposta estiver consolidada, anunciaremos à população”, declarou a secretária da Cultura, Isolda Dantas.

O Conselho Municipal de Políticas Culturais se reúne ordinariamente na última terça-feira de cada mês.

Com informações da Prefeitura de Mossoró.

 

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domingo - 28/06/2015 - 09:27h

A trincheira de Ezequiel Fernandes no ataque de Lampião

Por Honório de Medeiros

Ocorreu que Raimundo Nonato Alfredo Fernandes, nascido na fazenda “Cantinho”, ali entre Pau dos Ferros e Encanto, no Alto Oeste do Rio Grande do Norte, em 2 de junho de 1910, estando na roça, no apogeu dos seus quinze anos, encostou no terreiro de sua casa um Ford 1922 com duas pessoas dentro: seu primo Elias Fernandes, irmão de Alfredo Fernandes, proprietário da empresa homônima em Mossoró, no mesmo Estado, e da residência na Avenida Getúlio Vargas vizinha à celebre casa do Coronel Rodolpho Fernandes, de quem era cunhado, que hoje é a sede da Prefeitura da Cidade, e um motorista ao volante, o depois cangaceiro que participou dos ataques a Apodi e Mossoró e que atendia, na época, pelo nome de Júlio Porto.

Elias vinha convidá-lo para ir trabalhar na empresa Alfredo Fernandes, a convite do seu proprietário.

Atentemos para o detalhe: em 1922 Júlio Porto, natural de Aurora, no Ceará, já conhecia, e bem, Mossoró, onde era motorista dos Fernandes.

Elias e Alfredo Fernandes eram filhos do Coronel Adolpho Fernandes, protagonista do “Fogo de Pau dos Ferros”, quando sua família, por ele liderada, expulsou o líder político Coronel Joaquim Correia da cidade, em 1919. O Coronel Joaquim Correia jamais voltou a Pau dos Ferros. E o Coronel Adolpho Fernandes era seu Prefeito (Intendente) quando Lampião atacou Mossoró.

Passam-se cinco anos. Estamos em 1927. Junho. No dia 13, Lampião invade Mossoró. No final da Rua hoje denominada Dr. Francisco Ramalho, no sentido de quem vai para o centro da cidade, na última residência, do lado direito, reside Ezequiel Fernandes de Souza, sobrinho do Coronel Adolpho Fernandes e sócio de Alfredo Fernandes. Nela, a poucos passos da Igreja de São Vicente, montou-se uma tosca trincheira para aguardar os cangaceiros.

Sob a liderança de Ezequiel Fernandes lá estava sua esposa Ester, que havia dado a luz, e padecia de febre puerperal, o chofer de um caminhão da Prefeitura que aguardava condições para retirá-la da cidade, mas que fugiu tão logo aconteceu os primeiros tiros, um freguês da empresa Alfredo Fernandes chamado de “Velho Chico”, um amigo da família, Maurílio, que lá estava porque tinha raptado Isabel, sobrinha de Afonso Freire e a depositado sob os cuidados dos donos da casa.

Os demais, quinze pessoas, recolheram-se em um quarto no centro, no entorno da cama da doente: Ezequiel Fernandes, Pedro Ribeiro, seu primo, seus filhos Laete, Luís e Aldo, Chico Sena, seu sobrinho, Isabel, as domésticas Leonila e Esmerinda, as vizinhas Maria Leite e sua filha Laura, Julieta, filha de Delfino Fernandes, Alzenita Fernandes e Raimundo Fernandes, então com vinte anos.

Os integrantes da trincheira, que se posicionaram no telhado da residência foram o “Velho Chico” e Maurílio.

Dessa vez Raimundo Fernandes não chegou a ver Julio Porto, mas o ex-motorista estava com os cangaceiros de Lampião e Massilon no ataque a Mossoró.

Ester Fernandes não resistiu à doença e faleceu quatorze dias depois, no dia 27 de junho, cercada pela família.

* Tudo aqui contado conforme o livro “RAIMUNDO FERNANDES, ANTEPASSADOS E DESCENDENTES”, da lavra de Inês Maria Fernandes de Medeiros, ainda a ser lançado, tiragem de junho de 2015, sem outras informações acerca de sua edição, com alguns acréscimos do autor do artigo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Mossoró e do Estado do RN

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domingo - 03/05/2015 - 06:14h
Rodolfo Fernandes

Família de herói da resistência a Lampião visita Mossoró

Familiares de um dos principais nomes da história mossoroense estiveram na manhã desta sexta-feira, 1º, no Palácio da Resistência, sede do Poder Executivo local. Netos, bisnetos e tataranetos de Rodolfo Fernandes, prefeito da cidade durante a invasão do bando de Lampião, visitaram as instalações do prédio, que serviu como trincheira em 13 junho de 1927 e era a residência do prefeito na época.

Família posa no Palácio da Resistência com foto do patriarca ao fundo (Foto: PMM)

O grupo, formado por quatro netos, cinco bisnetos, acompanhados de seus maridos e esposas, e nove tatarenetos, totalizando 27 pessoas, foi recepcionado pela secretária-chefe de Gabinete, Glaudionora Silveira.

“A visita foi emocionante, percebemos que o prédio continua muito bem preservado. É com muito orgulho, que nós, familiares, passamos para as gerações seguintes essa história de luta e coragem” destacou Maurício Fernandes, neto do prefeito que liderou o movimento de resistência em 1927.

Gratificante

Para Marcelo Fernandes, bisneto do prefeito Rodolfo Fernandes, mais uma vez poder estar presente no prédio que mantém vivo um dos episódios mais marcantes da cidade, é gratificante. “Trouxemos dessa vez a quarta geração da família, composta por tataranetos de Rodolfo. É a segunda vez que visitamos o Palácio, mas a emoção continua a mesma. Aqui estão as raízes da nossa história”, comentou.

Além do Palácio da Resistência, o grupo também percorreu outros pontos históricos de Mossoró, como a Igreja de São Vicente. Segundo a secretária-chefe de Gabinete, Glaudionora Silveira, é uma grande satisfação para o Município receber os familiares do prefeito Rodolfo Fernandes.

“A visita ressaltou a importância de manter para a posteridade fatos que marcaram época. Esse momento também serviu para enaltecer o vínculo familiar que os netos, bisnetos, tataranetos, possuem com o prefeito Rodolfo Fernandes  e essa forte ligação com a cidade”, afirmou a secretária, que presenteou o grupo com um kit que conta a história da cidade e da resistência de Mossoró ao bando de Lampião.

Com informações da Prefeitura de Mossoró.

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domingo - 07/09/2014 - 11:26h

Feudalismo, coronelismo e cangaço

Por Honório de Medeiros

Convido-lhes a empreender, comigo, uma ousadia.

Para tanto precisamos recordar o que sabemos acerca do feudalismo, esse nicho histórico que começou com a queda de Roma – gosto de imaginar a cena de Hipona, da qual Santo Agostinho era bispo, incendiada pelos bárbaros enquanto ele agonizava, como sendo o verdadeiro marco inicial – e terminou com o início da idade moderna, mais precisamente, segundo vários historiadores, com a descoberta da América por Cristovão Colombo e o início do absolutismo, cujo primeiro momento, e ninguém há de me convencer do contrário, ocorreu quando Felipe, o Belo, criou seu próprio papa, o de Avignon, e dizimou os templários, fortalecendo a instituição do Estado.

O feudalismo – sabemos todos – calcava-se na propriedade da terra e na rígida divisão da Sociedade em nobres, clero e servos das glebas. Os nobres e o clero eram aliados, claro, para espoliar o povo.

O epicentro dessa estrutura de poder era o Barão feudal, latifundiário, em cujo entorno gravitavam seus vassalos, ou seja, proprietários de terra de menor importância, e a nobreza eclesiástica. A ele pertencia o direito de aplicar o baraço e o cutelo – ou seja, de criar, interpretar e aplicar as leis ou costumes. Sua vontade era lei.

A IGREJA exercia papel fundamental nesse sistema, por vários motivos: em primeiro lugar era detentora de muitas riquezas; em segundo lugar sua nobreza era formada pelos filhos segundos dos senhores feudais – os primeiros seguiam o caminho das armas; e, em terceiro, a ela cabia a formatação ideológica que assegurava o domínio da nobreza e do clero, bem como a fiscalização de possíveis desvios – instrumentalizada por intermédio da confissão e delação – bem como a punição dos recalcitrantes via inquisição.

Brigavam muito entre si, os nobres, disputando terra e prestígio político.

Quem tinha terra, tinha Poder; quem tinha Poder, tinha terra. Por exemplo: a primeira cruzada não foi à Terra Santa, como comumente se crê. Foi contra os Cátaros, uma heresia que ameaçava dominar todo o Sul da França, sob o beneplácito do Conde de Toulouse.

Contra os Cátaros levantou-se a Igreja, ameaçada em sua soberania ideológica, e os barões feudais do norte da França, liderados por São Luis, ou Luís XI, como queiram. Na verdade o pano de fundo dessa cruzada foi a disputa pelas ricas terras do sul da França. Nada mais.

Para essas brigas mobilizavam os nobres seus vassalos, seus servos, bem como exércitos de mercenários. À toda mobilização acompanhava a Igreja, abençoando ou punindo, conforme o caso.

Pois bem, embora ainda haja muito o que se dizer acerca do feudalismo, façamos uma parada estratégica e utilizemos o “desenho” – chamemo-lo assim – de sua estrutura de poder para analisar o nicho histórico brasileiro ao qual denominamos de coronelismo.

Há alguns, para não dizer vários, autores que dizem não ter havido feudalismo no Brasil. Eu, pelo meu lado, com fulcro em Raymundo Faoro, Gustavo Barroso e Câmara Cascudo, penso que tal não procede. Analisemos.

O coronelismo também se calcou na posse da terra e no prestígio político. O coronel – verdadeiro senhor feudal – era o epicentro de uma estrutura de poder.

Lampião (centro), símbolo de uma discussão controvertida (Foto: reprodução)

Também ele tinha, enquanto senhor feudal, seus vassalos, os proprietários menores de terra, a si ligados por laços de compadrio e interesses mútuos, que lhe prestava vassalagem. O coronelismo dependia, ideologicamente, da igreja, que tratava de fiscalizar e punir desvios da ortodoxia, como o demonstra tudo quanto ocorreu com Padre Cícero.

E dependia da confissão e delação, principal forma de obtenção de informação por parte da igreja, e sempre à disposição, seus resultados, do coronel que a mantinha. Quem não lembra da estreita relação do Coronel com o Padre, em o Alto da Compadecida, de Ariano Suassuna?

O coronel tinha os seus servos da gleba, empregados que viviam às custas dos sobejos do grão-senhor. E da mesma forma que no feudalismo, a vontade do Coronel era lei.

Ele era senhor de baraço e de cutelo. Claro, brigavam entre si disputando terra e prestígio, briga essa que arrebanhava vassalos – os compadres; servos da gleba, os jagunços; e mercenários, os cangaceiros, como nos demonstra a rica história do Cariri cearense.

Agora talvez os senhores estejam se perguntando: e qual a relação entre tudo isso e Chico Pereira? A relação é a seguinte: Chico Pereira, assim como Jesuíno Brilhante, o mais remoto, passando por Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião, Corisco, e outros menores, tal qual Cassimiro Honório, e por aí segue, não eram servos da gleba.

Eram proprietários rurais em maior ou menor escala. Todos ligados a coronéis, todos ligados a alguma estrutura de Poder detendo parcela dele. Ou seja, os grandes líderes cangaceiros estão mais próximos da nobreza da terra que do proletariado.

Em sendo assim, não faz o menor sentido a teoria do banditismo social, de Hobsbawn quanto aos cangaceiros. Pensa assim, por exemplo, aproximadamente, Luiz Bernardo Pericás, em “Os Cangaceiros”.

Tampouco faz sentido a teoria que aponta os cangaceiros enquanto desviantes, da qual faz uso Frederico Pernambucano de Mello.

Muito menos a teoria marxista da luta de classes, calcada em Althusser, de tantos outros.

O cangaço é resultante de brigas intestinas entre famílias que dispunham de terra e prestígio. A briga era no seio do coronelismo. Era o coronelismo. Todo líder cangaceiro, com raras e honrosas exceções – até mesmo Sabino Gore, por exemplo, está inserido nesse contexto.

O referencial teórico aqui talvez seja Gaetano Mosca e sua teoria da classe política, enquanto situação limite em um plano mais complexo, ou seja, a teoria darwiniana. Nesse sentido concluo propondo o seguinte:

1) que se faça o estudo do cangaço a partir do coronelismo, ambientando o epifenômeno no fenômeno;

2) que se estude Chico Pereira, por exemplo, a partir do panorama político de sua época, no Sertão paraibano.

Chico Pereira não era um bandido social, e embora fosse um desviante, no sentido de que se voltou contra o sistema legal de sua época, essa informação nada acrescenta quanto a entender causa e efeito de sua existência enquanto cangaceiro.

Por fim, lembro uma consequência imediata da assunção desse modelo teórico: a verdeira história do ataque de Lampião a Mossoró é a história da briga entre coronéis paraibanos e coronéis norteriograndenses por prestígio político no Oeste e Alto Oeste potiguar.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

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quarta-feira - 24/07/2013 - 15:49h
História

Morre “Candeeiro”, cabra do bando de Lampião

Do Diário de Pernambuco

Morreu nesta quarta-feira (24), o último cangaceiro do bando de Lampião: Manoel Dantas Loiola, de 97 anos, mais conhecido como “Candeeiro”.

Ele faleceu na madrugada de hoje no Hospital Memorial de Arcoverde, onde estava internado desde a semana passada, após sofrer um derrame.

Candeeiro: tiro e fuga

O sepultamento está marcado para as 16h, no cemitério da cidade de Buíque.

Pernambucano de Buíque (a 258 quilômetros do Recife), Manoel ingressou no bando de Lampião em 1937, mas afirmava que foi por acidente. Trabalhava em uma fazenda em Alagoas quando um grupo de homens ligados ao famoso bandido chegou ao local.

Pouco tempo depois, a propriedade ficou cercada por uma volante e ele preferiu seguir com os bandidos para não ser morto. No final da vida, atuava como comerciante aposentado na vila São Domingos, distrito de sua cidade natal.

Atendia pelo nome de batismo, Manoel Dantas Loyola, ou por outro apelido: “Seu Né”.

Lampião

No primeiro combate com os “macacos”, quando era chamado de Candeeiro, foi ferido na coxa. O buraco de bala foi fechado com farinha peneirada e pimenta.

Teve o primeiro encontro com o chefe na beira do Rio São Francisco, no lado sergipano.

“Lampião não gostava de estar no meio dos cangaceiros, ficava isolado. E ele já sabia que eu estava baleado. Quando soube que eu era de Buíque, comentou, em entrevista concedida ao Diário: ‘Sua cidade me deu um homem valente: Jararaca’”.

Candeeiro dizia que, nos quase dois anos que ficou no bando, tinha a função de entregar as cartas escritas por Lampião exigindo dinheiro de grandes fazendeiros e comerciantes. Sempre retornava com o pedido atendido.

Ele destacou que teve acesso direto ao chefe, chegando a despertar ciúme de Maria Bonita.

Cangaço: sofrimento

Em Angicos (em grota localizada no estado de Sergipe, próxima ao rio São Francisco), comentou que o local não era seguro. Lampião, segundo ele, reuniria os grupos para comunicar que deixaria o cangaço. Estava cansado e preocupado com o fato de que as volantes se deslocavam mais rápido, por causa das estradas, e tinham armamento pesado.

No dia do ataque, já estava acordado e se preparava para urinar quando começou o tiroteio. “Desci atirando, foi bala como o diabo”.

Mesmo ferido no braço direito, conseguiu escapar do cerco. Dias depois, com a promessa de ser não ser morto, entregou-se em Jeremoabo, na Bahia, com o braço na tipóia. Com ele, mais 16 cangaceiros.

Cumprindo dois anos na prisão, o Candeeiro dava novamente lugar ao cidadão Manoel Dantas Loyola.

Sobre a época do cangaço, costumava dizer que foi “história de sofrimento”.

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quinta-feira - 07/02/2013 - 08:48h
Projeto

Ataque de Lampião a Mossoró vai virar filme e minissérie

Em reunião do Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará (GECC) – Cariri Cangaço nesta última terça-feira (5), em Fortaleza, ficou oficialmente formalizada a parceria entre as duas instituições com a Icapuí Filmes e Laser Vídeo, produtoras do Longa Metragem “Assalto a Mossoró” e da Minissérie “Cangaço-A História Verdade”.

Ângelo e Manoel formalizam projeto

Na oportunidade, o diretor da Icapuí Filmes e da FGFTv, Jonasluis da Silva,de Icapuí e o Conselheiro do Cariri Cangaço, também titular da Laser Vídeo, Aderbal Nogueira, receberam das mãos do presidente do GECC, Ângelo Osmiro e do Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, o documento que sela a parceria e a participação no ousado projeto cinematografico.

Segundo Jonasluis da Silva, “a justificativa para a produção cinematográfica desse episódio de Lampião, é de que em toda a sua história complexa e específica por si mesma, nada há igual. Para os historiadores essa epopeia não foi um ataque qualquer a um arruado, vila ou povoação. Nem mesmo a uma cidade pequena. Foi um ataque a uma cidade de grande porte para os padrões da época, a segunda maior do Rio Grande do Norte”.

Já Aderbal Nogueira completa: “Será um grande desafio mas estamos falando de um épico e que ficará para a posteridade”.

Manoel Severo ressalta:

– A competência e o talento de toda a equipe envolvida, desde a pesquisa até a produção e edição do Projeto nos dão a certeza de um marco do cinema nacional.

Ângelo Osmiro confirma o total apoio do GECC e Cariri Cangaço ao projeto:

– Para nós pesquisadores é um grande desafio, ao qual nos entregamos de corpo e alma; podem contar com o GECC e Cariri Cangaço.

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quinta-feira - 21/06/2012 - 22:12h
Nesta sexta-feira

“Arraiá da Apae” lembra resistência a Lampião

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE Mossoró) desenvolveunetse ano um projeto junino inovador e especial. Durante 30 dias a instituição trabalhou com os seus usuários o projeto Junino que foi totalmente voltado para a cultura de Mossoró. A história do ataque do bando de Lampião a Mossoró foi parte dessa abordagem.

Para finalizar o Projeto, haverá uma promoção especial: será o “Arraiá da Apae”, a partir das 15h30h, no Espaço Recreativo da instituição, nesta sexta-feira (22).

“Todos estão convidados e se eu fosse você não ia perder, porque teremos o Lampião e a Maria Bonita da APAE. Em nossa programação teremos Apresentações de quadrilhas, cordel, comidas típicas e muita alegria”, avisa a coordenação do evento.

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segunda-feira - 18/06/2012 - 04:13h
Nós, o povo!

Vítimas do medo são condenadas à própria sorte

O crime funciona sob os mesmo princípios do capitalismo: visa o lucro. A modalidade de crime e área em que será utilizada, seguem lógica de mercado. No Rio Grande do Norte, por exemplo, durante anos do Governo Garibaldi Filho (PMDB), o forte era assalto a banco e carro-forte.

Na era Wilma de Faria (PSB), o ‘negócio’ desandou muito.

Inteligência e estratégias de caça a bandos especializados em assalto a banco/carro-forte praticamente acabaram essa especialidade de crime no RN.

No Rio de Janeiro e São Paulo durante muito tempo, assaltar banco e carro-forte era negócio rentável. Estado criou dificuldade, vieram os sequestros. Hoje, o próprio sequestro ficou “relâmpago” para tentar ser eficaz.

Aos poucos o grande negócio passou a ser o narcotráfico. Nele, a prosperidade de muitos, a morte de incontáveis pessoas e milhões de famílias destruídas. É, também, um caso de saúde pública e  não apenas policial-judicial.

Enfim, com Estado fraco, impotente, lerdo, omisso e negligente, o crime tem tudo para prosperar. É facilitado e continuará prosperando, sim.

Frederico Pernambucano de Mello, um estudioso do banditismo no espaço geopolítico nordestino, tem um livro obrigatório para entendermos isso. Leiam. “Guerreiros do Sol” faz um mergulho antropológico, sociológico, político, histórico e cultural nas entranhas do coronelismo do Nordeste. Vai mais além, nos levando ao reencontro com nossas raízes coloniais bárbaras.

Fica relativamente fácil entender por que crime compensa e continuará compensando nessas plagas. Se o Estado agir, com mão de ferro, atenua-o. Se o Estado tiver uma presença social provedora, saneia-o.

Banditismo

Lampião reinou durante 20 anos sob apoio de coiteiros, consorciado com coroneis corruptos e financiado por alguns plutocratas urbanos. Quando a União entrou em cena, transformando o Nordeste num território federado, armou as volantes e foi ao ataque. Dizimou o cangaço rapidinho.

Nós, após tantas décadas, somos novamente reféns do medo e do banditismo, agora de faceta mais urbana. O Estado iníquo prefere propaganda e festa, do que cumprir um princípio constitucional: garantir a segurança, o direito de ir e vir. Não há polícia, sobram bandidos. É parecida com a relação entre gato e rato. Se no galpão de cereais não tem gato, abundam os ratos. Se os gatos ocupam-no, os ratos correm.

Enquanto a violência era um problema de favelados, a elite torcia o nariz e recriminava a ralé. Aos poucos, a barbárie chega ao asfalto. A violência passeia pelo shopping, escala prédios elegantes, desdenha o bacana em sua casa de praia e barbariza a ‘patricinha’ na esquina.

Não temos dinheiro para convocar quase mil aprovados em concurso da Polícia Militar. Falta grana para chamar gente à Polícia Civil. Entretanto, sobra verba para estádio de futebol.

No clássico “Democracia na América”, Alexis de Tocqueville nos retrata uma “sociedade “comunal” na América do século XIX. O cidadão no comando. Segundo Tocqueville, o povo tinha a cultura de participar diretamente das decisões que lhe diziam respeito, “os negócios públicos”. Nós, não.

“O povo reina sobre o mundo político americano como Deus sobre o universo. É ele a causa e o fim de todas as coisas, tudo sai do seu seio, e tudo se absorve nele.” (Alexis de Tocqueville, “Democracia na América”)

Somos um povo em que até gente “letrada” faz questão de bradar que detesta política. O pior dos analfabetos. O “analfabeto político” apontado por Brecht.

Você acha que está ruim? Está não. Vai piorar muito mais, para finalmente considerarmos tudo isso insuportável, muito além do que seja ruim.

Em nossa ainda jovem democracia criaram ou repetem o conceito de “municipalismo”, como saída para “fazer acontecer” a tese do bem-estar social. Tudo começa no município. Mas só para pedir grana à União; mais dinheiro para ser torrado com pracinhas, festas popularescas e foguetório.

Esse “localismo”, como Tocqueville chamava a postura proativa das comunas nos EUA, nos serve apenas para bairrismo besta, feito de alegorias e arroubos. Protestamos ruidosamente se nosso time de futebol não vencer o da cidade vizinha; apenas resmungamos em casa ou na fila do posto de saúde, se faltar remédio.

Inculto, alheio à verdadeira política, dependente do poder público e viciado no compadrio, o povo é aquela massa-gente descrita por Darcy Ribeiro:  gado. Chega a ser inocente. Inocente útil, claro. E indefeso. Num romance de Jorge Amado é lírico. Na vida real, dói.

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Categoria(s): Opinião da Coluna do Herzog
domingo - 17/06/2012 - 03:45h

Graciliano Ramos e o cangaço

Por Honório de Medeiros

Graciliano Ramos e o Cangaço.

Ricardo Ramos ao ouvir seu pai contar acerca de quando Palmeira dos Índios se armara para enfrentar Lampião, ficara fascinado:

“Passara a meninice acalentado pelas estropolias dos cangaceiros, da polícia volante, duas pestes que nos assolavam.”

“E (lhe) contei de uma noite, após a ceia, em que, atraído por foguetes, sai à calçada e vi os caminhões, as cabeças cortadas, espetadas em estacas, de Lampião, Maria Bonita e mais dez outros, os soldados empunhando archotes, gritando vitoriosos, um cortejo macabro pelas ruas de Maceió”.

Graciliano lhe diz:

“- Eu escrevi sobre isso”.

“Não havia lido, era pequeno e estava fora do Rio. Bem depois, ao se reunirem as crônicas de Viventes das Alagoas (título sugerido por Jorge Amado), afinal encontrei “Cabeças”. Ou reencontrei minha antiga visão, bárbara, mas transporta no sarcástico perfil do tenente Bezerra, que se reformou coronel, o falante matador de Lampião, versado em frases feitas, sua retórica elementar de glorificado primário.”

“Havia mais, bem mais. O Fator Econômico no cangaço, crônica da propriedade que se mantém e cresce pela força, com pequenos exércitos de senhores rurais, sedentários, enquanto os cangaceiros se distinguem dos outros facínoras apenas por serem nômades, no regime de produção agrícola da caatinga.”

Corisco, uma crônica do diabo louro, seu conterrâneo de Viçosa, filho de decadente família de donos de engenho, forçado a decair, enlouquecido, o pequeno monstro baleado e decapitado, morto quase inédito porque havia a guerra na Europa, tantos crimes. Dois Cangaços, a crônica dos matutos indefesos diante de dois poderes, a volante e o cangaceiro, a primeira muitas vezes obrigando-os à segunda opção, ou o seu reverso, em todo o caso forçando-os a escolher, pela imposição sócia, ou pior ainda, pela econômica.”

“E Lampião e Virgulino, que buscam o perfil. Necessariamente fincado no agreste.”

“Graciliano nunca idealizou Lampião. Desde 1926, ao escrever do assédio a Palmeira dos Índios, sem mencionar a sua participação pessoal. Chama-o ‘bicho montado’, ‘horrível’, ‘sanguinário’, diz dele o animal ‘cruel’, que ‘queima fazendas’, capaz ‘de violar mulheres na presença de maridos amarrados’, e ‘se conservara ruim, porque precisa conservar vivo o sentimento de terror que inspira’, enfim ‘vemos perfeitamente que o salteador cafuzo é um herói de arribação bastante chinfrim’”.

“Por outro lado, não desconhecem a sua projeção lendária. ‘Lampião nasceu há muitos anos, em todos os estados do Nordeste’. E se refere à nossa tradição bandoleira, do remoto Jesuíno Brilhante ao envelhecido Antônio Silvino, para concluir: ‘Resta-nos Lampião, que viverá longos anos e provavelmente vai ficar pior. De quando em quando, noticia-se a morte dele com espalhafato. Como se se noticiasse a morte da seca e da miséria. Ingenuidade.’”

Obra citada: “Graciliano RETRATO FRAGMENTADO”; RAMOS, Ricardo; Globo; 2ª edição; 2011; São Paulo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Estado do RN.

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domingo - 26/06/2011 - 07:50h

Um herói mossoroense (Manoel Duarte)

Por Honório de Medeiros

Um preciso tiro de fuzil ecoou no final de tarde nublado do dia 13 de junho de 1927 e, aproximadamente cem metros além, a bala atingiu o meio-da-testa de um caboclo puxado para o negro aparamentado com a indumentária típica do cangaceiro, prostando-o na terra nua, de barriga para cima, a olhos fixos e vazios voltados para o céu acima, bem ali onde a Avenida Rio Branco cruza a Rua Alfredo Fernandes, onde, na esquina, fica a famosa Igreja de São Vicente cuja imagem, do seu nicho decenal, tudo contemplava.

Era o começo do fim.

No alto da casa do Prefeito Municipal – o líder que começara a epopéia -, no telhado, o atirador viu quando outro cangaceiro, de um trigueiro carregado se aproximou, rastejando e disparando, da vítima, e começou a rapiná-lo, retirando freneticamente, de seus bolsos, munição, dinheiro e jóias. Calmamente, mirou e aguardou.

Pressentindo o perigo iminente o bandido ergueu o tronco elevando os olhos até o telhado da casa cuja frente fora tomada por fardos de algodão prensados para servirem de barreira. Foi apenas um momento, mas foi fatal.

Outro tiro de fuzil ecoou e, no mesmo local onde seu companheiro jazia sem vida o cangaceiro foi atingido.

O violento impacto da bala derrubara-o momentaneamente e desenhara, em seu tórax, uma rosa de sangue. Seus parceiros, paralisados, perplexos, observavam incrédulos. Começou a debandada.

Enquanto os resistentes percebiam que a ameaça fora sustada e o recuo dos cangaceiros era generalizado, o atirador recolhia o fuzil e fitava a cidade no prumo que tinha a Igreja de Nossa Senhora da Conceição como limite. Olhava e pensava.

Ele tinha morto um cangaceiro e ferido mortalmente outro. Não havia dúvida quanto à importância desse fato para a vitória. Mas cangaceiros são vingativos, cangaceiros são ferozes, cangaceiros são cruéis. Cangaceiros são dissimulados e não esquecem nunca, matutava ele com seus botões.

Se ele aceitasse passivamente as homenagens que lhe seriam tributadas a partir daquele momento tudo poderia, no futuro, desandar no gosto amargo causado pela retaliação de algum anônimo, talvez até mesmo em algum parente, como era prática comum na vida cangaceira. Não que fosse medroso. Ao contrário.

Todos quantos lhe conheciam podiam atestar sua coragem e perícia com as armas, que já ficavam lendárias. Mas era melhor se precaver. Era melhor silenciar. Não seria o caso de negar veementemente, por que não era homem para esse tipo de extroversão mentirosa. Mas ia silenciar. Não ia comentar nada.

Duarte, um herói de verdade

O que estava feito, estava feito, e era de acordo com seu temperamento reservado. Se lhe perguntassem, mudaria de assunto. Se comentassem em alguma roda da qual estivesse fazendo parte, sairia de mansinho. Guardaria a verdade consigo, por muito e muito tempo, e a contaria apenas para alguns escolhidos.

Naquele dia banal, muito tempo depois, sozinho com seu neto de dez anos de idade, sentiu vontade de contar aquilo que nunca contara a ninguém. Era uma necessidade da alma, um anseio de perpetuar um feito honroso, um gesto de heroísmo que o mostrava tão diferente dos que tinham fugido em direção ao mar quando os cangaceiros ciscavam nas portas de Mossoró, um gesto que lhe orgulhava por que defendera sua família e sua cidade a um custo alto, que era o de tirar a vida de alguém.

Olhou para o neto e compreendeu que ali estava o interlocutor perfeito. Não questionaria, não interromperia, não esqueceria. Guardaria a lembrança do dia e do relato. Assim sendo começou a lhe contar todo o episódio, detalhe por detalhe.

O neto apenas olhava intensamente e sentia que estava sendo transmitido, para ele, algo muito importante e que somente no futuro seria plenamente entendido. Acalmou sua inquietude de menino. Não desgrudou o olho do seu avô, aquele homem reservado e pouco propenso a confidências.

No final, quando toda a história havia sido contada, compreendeu que devia guardá-la consigo, até mesmo esquecida, por algum tempo. Em um final de tarde tipicamente mossoroense, de muito calor, em um café, o neto se aproximou de uma roda de estudiosos do cangaço e percebeu que discutiam a participação do seu avô na invasão da cidade pelo bando de Lampião. Uns diziam que havia sido ele o autor dos disparos. Outros negavam e apontavam nomes.

Quase oitenta anos haviam se passado do episódio. O neto, agora, era cinqüentão. Sentiu que ali estava o momento certo para contar a história, a sua história, a história do seu avô. Aquela platéia saberia ouvi-lo e entenderia plenamente as razões do silêncio da família.

Contou tudo.

Fechou-se o ciclo.

Dezenas de anos depois já não há mais dúvidas. O atirador postado no alto da casa de Rodolpho Fernandes, o homem que praticamente abortara a invasão lampiônica, o herói entre heróis fora Manoel Duarte. Esta é a verdade, como o sabe sua família e a contou seu neto, Carlos Duarte, jornalista, muitos anos depois, a mim, que registro, aqui, a história, e a Kydelmir Dantas e Paulo de Medeiros Gastão, estes últimos dirigentes da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário do Estado do RN e da Prefeitura do Natal

P.S – Décadas depois desse feito, ele foi homenageado com o nome de um largo à Avenida Rio Branco, além de busto, de frente onde fora sua casa. Mas na construção da chamada “Praça da Convivência” no primeiro governo Fátima Rosado (DEM),  o busto foi retirado.

A peça de bronze foi localizada semanas depois num depósito de ferro velho, pronta para ser derretida. A intervenção de sua família e do então “Jornal Página Certa” fez com que o governo municipal arranjasse um meio de reparar o crime à história e à cultura de Mossoró, doando outro espaço à fixação do busto.

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