sábado - 07/03/2026 - 20:24h
Encontro e encontro

Depois de tantos e tantos anos

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Coincidência? Que seja.

Num mesmo dia, em locais distintos, reencontro dois colegas da faculdade, ainda do primeiro período do curso de Direito.

Lá se vão 20 anos. Eles recordaram, me reconheceram e me transportaram para 2006.

Um deles, desistiu de ingressar na advocacia e enveredou por outra área, herança profissional do pai.

O outro, não. É advogado militante. Seguiu carreira.

Ambos felizes nas escolhas, caminhos e vida.

Eu também.

Encontros fugazes, mas que embalaram meu coração neste sábado (07), depois de tantos e tantos anos sem vê-los.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 30/11/2025 - 11:36h

Amanhã é dezembro

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com uso de recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com uso de recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Mais um mês de dezembro pra conta. De muitos.

Em minha memória, inúmeras lembranças. Eu ficava ansioso pelo início das férias, na praia de Tibau. No entanto, como quase sempre ficava em recuperação na escola, era preciso esperar alguns dias. Enquanto isso, começavam-se pequenos reparos na casa de veraneio, faziam-se reboco e pintura por causa da maresia, consertavam-se alguns móveis; eu ficava mais animado do que “pinto em beira de cerca” com esses preparativos.

Para mim, o mês de dezembro sempre foi envolto em boa aura. Havia algo de mágico. Lá de casa, no centro da cidade, ouvia o badalar dos sinos da Catedral de Santa Luzia, anunciando os festejos da padroeira; era hora de ir comprar uma roupa e sapatos novos, acompanhado por minha mamãe.

Sobre a Festa de Santa Luzia, vale transcrever um fragmento de um texto escrito pelo historiador Geraldo Maia:

“Essa tradição de celebrar a Virgem de Siracusa só deixou de acontecer três vezes ao longo dos anos. Em 1860 e 1865, a igreja passou por uma grande reforma, e o padre da época achou melhor não realizar a festa. E a última vez que a festa não aconteceu foi 1935, quando Padre Mota achou melhor não fazer a festa por causa dos conflitos gerados pelo movimento conhecido como Intentona Comunista”.

No meu tempo de menino/rapaz, à noite, vez ou outra, ia assistir as novenas celebradas por Monsenhor Américo. Depois, gostava de andar pra lá e pra cá na rua da Catedral, onde havia uma ruma de gente, lotada de barracas. Logo após as novenas, o burburinho profano varava noite adentro. Cadê A Mais Bela Voz?

Eu, então, parava na barraca de minha tia, Socorro de “Puca”, pra degustar uma generosa fatia de bolo de leite. Com o passar dos anos, já na qualidade de pai, levava os meus filhos pra passear; comprava aquelas bolas grandes que, no primeiro chute, furavam. Eles jogavam argolas para ganhar uma prenda ou brincavam de pescaria, e sorriam, alegres, pois para as crianças o singelo é sinônimo de felicidade.

No dia 13, o ponto culminante. Uma enorme procissão, com milhares de fiéis, num misto de fé e devoção. Ali, tradição e fé se entrelaçam, com pessoas das mais variadas classes sociais; alguns caminham com pedras na cabeça, outros, vestem-se com as cores da roupa da Santa, e há aqueles que acompanham a procissão com os pés descalços. Sem falar nos milhares de pessoas que ficam nas esquinas, à espera da passagem do andor. Tudo isso, é claro, acompanhado por orações, cânticos e muita, muita emoção.

Sim, amanhã é dezembro, aproveito para garimpar lembranças. Recordo-me da ceia de Natal, na casa dos meus avós, na rua Seis de Janeiro. Um bocado de primos e primas, amigo secreto, mesa farta. Era tão bom. À tarde, ia à casa dos meus primos, jogar bola, na rua ainda de areia. Outras vezes, ia brincar e saborear seriguelas na casa de tia Adna e tio Chico Espínola.

Pois bem. Há quem não goste do mês de Dezembro por ser carregado de lembranças e saudades, com ares de melancolia. Eu, porém, sempre gostei. E ainda gosto.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 15/09/2024 - 09:26h

O que somos?

Por Odemirton Filho

Lembranças (Foto: Getty Images)

Lembranças (Foto: Getty Images)

Afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos”.

A frase foi dita pelo filósofo Noberto Bobbio, no seu livro O Tempo da Memória. Somos, decerto, uma construção de tudo isso; uma construção inacabada, diga-se. Passamos tão rapidamente pela vida que não conseguimos concluir os nossos planos. Pensamos mais do que realizamos, pois ficamos presos as amarras dos nossos medos.

Sair da zona de conforto ficou para poucos, nem todos conseguem abrir as grades que aprisionam os sonhos; o novo sempre causa receio. Vislumbramos o horizonte, mas, muitas vezes, não conseguimos navegar até lá. Parece distante. E, por diversas vezes, o é.

Vez ou outra converso com alguém que vive a lamuriar, sempre colocando a culpa no destino. Todavia, não faz uma autorreflexão. Conquanto, saibamos que nem todos têm as mesmas oportunidades no decorrer da vida. Por que estou nessa situação? Às vezes, você tem a resposta. Continuar a fazer tudo do mesmo jeito não modificará coisa alguma. Pensar e sonhar, sim. Entretanto, é preciso “colocar a mão na massa”.

Até o amor precisa ser alimentado para não morrer de inanição. Os relacionamentos, de qualquer tipo, precisam de um sopro na brasa que ainda arde. Do contrário, o fogo se apaga lentamente. Doutro lado, como sabemos, o homem também nutre sentimentos deletérios, não somente semeia o amor. Cultiva o ódio, a inveja, a ganância, a arrogância. Infelizmente.

Sobre sonho e realidade, deixo consignado as palavras do bruxo do Cosme Velho:

– “a realidade não será sempre tal qual a sonhamos. Mas isto mesmo é uma harmonia na vida, é uma grande perfeição do homem. Se víssemos logo a realidade como ela há de ser, quem daria um passo para ser feliz?

E mais: aqui ou acolá eu encontro um dos muitos leitores deste Blog, e alguns me indagam por qual motivo escrevo sobre fatos pretéritos. Respondo-lhes que, ao escrever sobre tempos idos, procuro revisitar bons momentos. Os ruins? Tento esquecer, pois somos aquilo que lembramos, diz Bobbio.

O que somos? Quem dera saber.

“Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Crônica
domingo - 04/02/2024 - 15:48h

Lembranças de um pretérito imperfeito

Ilustração Psicoonline

Ilustração Psicoonline

Por Odemirton Filho

De vez em quando, ao encontrar um dos vários leitores deste Blog, tenho uma grata surpresa. Alguns me dizem que leem minhas crônicas, e gostam de lembrar fatos do passado que, aqui ou acolá, trago a este espaço. Segundo me dizem, revivem um pouco a infância e juventude.

Como sabemos, o ato de escrever não é fácil. Contudo, para não faltar ao nosso compromisso dominical com os leitores, buscamos no fundo da alma algo que faça despertar bons sentimentos e lembranças, quiçá algumas saudades.

Ora, até o nosso querido escritor Marcos Ferreira, vez ou outra, diz que enfrenta uma peleja medonha para escrever, imagine. Só que Marcos, mesmo quando afirma estar sem inspiração, consegue escrever de modo genial. De minha parte, entretanto, procuro resgatar aquilo que vivi, pois, além de lembrar bons momentos, sei que muitos dos fatos coincidem com o que foi vivenciado por alguns leitores.

Por vezes, nas conversas com os meus pais, procuro saber sobre o passado. E vejo que seus olhos brilham ao lembrar das festas do Clube Ipiranga e da ACDP; quando falam sobre o Cine Jandaia, o Cine Cid, o Caiçara, o Cine Pax; dos carnavais de tempos passados. Meu pai lembrou do Pavilhão Vitória e da lanchonete de seu Fenelon, na qual se servia a famosa “bananada”; do restaurante Umuarama e da sorveteria Oásis. Falou-me que, quando criança, brincava no horto florestal e tomava banho no rio Mossoró, à época, não poluído.

Entre os momentos dos quais me lembro, vem à memória o forró chique na ACDP, as festas da AABB, o Clube Realce, o Ferrão, o Burburinho, as vaquejadas nas cidades circunvizinhas, a pizzaria de Patrício português, a sorveteira do Juarez, os vesperais no Cine Pax, os comícios no largo do Jumbo e da Cobal. Além das brincadeiras com os meus primos na casa de nossos avós; das brincadeiras com os amigos no patamar da igreja de São Vicente e do veraneio na praia de Tibau, onde vivi doces dias da minha infância e juventude.

Por outro lado, não devemos ficar remoendo o que passou; “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Das lembranças de um pretérito imperfeito que todos vivemos, talvez, seja de bom tom extrair lições para não cometermos os mesmos erros. O edificante, creio eu, é carregar no peito boas lembranças e algumas saudades para aquecer o coração.

Para mim, lembrar fatos do passado é ver a fotografia da nossa vida, feita de ângulos diversos, certos ou errados. Sendo assim, transcrevo algumas palavras de um texto rabiscado por mim e publicado neste Blog, em 2018:

O passado sempre visita o presente na vã tentativa de reviver. Esqueçamos o pretérito imperfeito. Resgatemos, do passado, somente os melhores momentos.

Agradeço, de coração, aos leitores que embarcam comigo nessas viagens aos tempos de outrora.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 10/12/2023 - 04:38h

As minhas lembranças

Por Odemirton Filho 

Ilustração da Freepik

Ilustração da Freepik

Lembranças vêm à memória.

Ao lado de amigos eu brincava na calçada do Cine Caiçara, uma vez que a lateral do antigo cinema ficava na rua Tiradentes, pertinho da minha casa. Víamos os cartazes anunciando os filmes para maiores de dezoito anos; e sonhávamos em “ficar de maior”.

A Rádio Difusora ficava ao lado do Caiçara, entrando-se por um “bequinho”; já o prédio da Rádio Libertadora ficava vizinho ao casarão de seu Dix-Neuf e dona Odete Rosado, um endereço histórico conhecido como o “Catetinho”, por ter recebido o então presidente Getúlio Vargas.

O mundo da minha infância e juventude foi vivido naqueles arredores; a praça do Codó, o Caiçara, o Cine Pax, a padaria de meu pai, a Igreja de São Vicente. Isso, lá pelo início dos anos oitenta.

Não, não se trata de querer viver de saudosismo, pois cada época de nossa vida tem momentos felizes e tristes. É piegas escrever sobre? Pode ser. Mas é a história da minha vida; minha, tão minha.

Sem esquecer que o domingo é um dia para as pessoas lerem artigos e crônicas leves, suavizando o fardo do dia a dia, como diz o meu nobre editor.

Pois bem, jogávamos bola na rua Francisco Ramalho, passeávamos de bicicleta no patamar da Igreja de São Vicente e na praça do Codó. Assistíamos a filmes no Caiçara, no Pax e no Cine Cid; os famosos vesperais. Na calçada lateral do Cine Pax, ficavam uns carrinhos, onde comprávamos revistas novas e usadas.

Nem imaginávamos que, um dia, teríamos internet, redes sociais, celulares, tablets e computadores. Ter um telefone fixo já era um luxo. E caro.

O mês de dezembro me faz lembrar de quando ouvíamos os sinos da Catedral anunciando à Festa da nossa padroeira. Após as novenas, uma ruma de gente ficava andando pra lá e pra cá, pois havia várias barracas.

Íamos também para a casa de algum conhecido para as famosas “festas americanas”, ao som das deliciosas músicas dos anos oitenta, tocadas numa radiola com discos de vinil.

Aqui, permitam-me citar o cronista Braz Chediak num de seus belos textos: “pertenço a um tempo que enriqueceu a música brasileira, por isso, quero, um dia, sentar com o meu neto e dizer-lhe o tema de cada música que ouvimos juntos, de cada amigo, de cada viagem, física ou não. Assim, em alguma noite, ele ouça uma música vinda de uma vizinha qualquer, e se lembre deste seu avô, contando-lhe de suas aventuras e de tudo o que lhe ofereceu a vida”.

Os mais jovens devem perguntar: como vocês se divertiam naquele tempo sem o mundo virtual?

Respondo: quem viveu o ontem, decerto traz da sua infância e juventude algumas lembranças. Quem vive o hoje, no futuro lembrará de doces momentos. Porém, creio que não existe um tempo melhor ou pior. Existe o tempo de cada pessoa, com seus sonhos e decepções.

Sim, eu sei que alguns fatos aqui descritos já narrei em crônicas pretéritas. Mas, vez ou outra, lembranças vêm à minha memória.

Lembranças da primavera dos meus dias.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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segunda-feira - 13/11/2023 - 04:16h
Futuro

O que vai ficar

janela, isolamento, quarto, apartamento, luz solarHá pouco mais de dois meses, em conversa com um filho à distância de milhares de quilômetros, no uso de um desses aplicativos virtuais, falamos sobre vida e despedida.

De mim, um testamento para resumir o que ofertarei para o futuro, quando não estarei mais por aqui:

– Espero não deixar sequer uma bicicleta; só boas memórias e exemplos. Herança, legado.

É isso.

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  • Repet
domingo - 30/10/2022 - 07:22h

De volta à infância e à adolescência; saudades de um amigo

Por Odemirton Filho 

Fim de tarde. Eu voltava às pressas da escola. Ficava agoniado para chegar logo em casa e assistir aos desenhos animados. No caminho, via as andorinhas sobrevoando a velha Igreja de São Vicente, onde as balas do bando do cangaceiro Lampião e da trincheira em defesa da cidade de Mossoró troaram.

Esperava o jantar; comia apressadamente. Depois, ia brincar com os amigos da vizinhança. As brincadeiras eram, normalmente, passear com a minha bicicleta BMX azul e jogar futebol com a bola dente de leite.

Márcio Iuri Albuquerque Dias (Foto: redes sociais)

Márcio Iuri Albuquerque Dias (Foto: redes sociais)

Às vezes, as brincadeiras eram na casa de um amigo, com carrinhos e bonecos. Colecionávamos maços de cigarros. Uma noite, vimos luzes de cores variadas no céu. Brilhavam intensamente. Um disco voador ou o fim do mundo? Era menino correndo pra todos os lados.

Esperava, ansioso, a vinda de um parque de diversão. A roda-gigante, pra variar, estava com as cadeiras enferrujadas. Em dezembro, participava dos festejos de Santa Luzia; e ganhava uma roupa, novinha, novinha.

De vez em quando, ia com os meus pais almoçar na churrascaria O Laçador para comer uma maionese de lamber os beiços. Aos domingos, assistia aos vesperais no Cine Pax e tomava sorvete no Juarez. Ao lado de meu pai, ia saborear salada de frutas com sorvete no Café Mossoró.

Quando somos crianças queremos que o tempo passe depressa. A maturidade, porém, apresenta-nos a fatura da vida; entre elas, a dor da perda e da saudade.

Pois é. No último dia 22 perdi um querido amigo: Márcio Iuri Albuquerque Dias, filho do “Nego” Rubens e Genoveva (Vevinha).

No patamar da Igreja de São Vicente passeávamos com as nossas bicicletas; jogávamos bola. Íamos brincar no casarão do doutor Leodécio Néo.

Depois, na adolescência, passávamos a tarde do sábado lavando e polindo o Chevette vermelho do seu pai, para que pudéssemos sair à noite. Juntamente com amigos, comprávamos um litro de Rum Montilla e Coca-Cola. Eram porres “de virar a perna”. Coisas da juventude.

Vez ou outra íamos às vaquejadas das cidades vizinhas, voltávamos de madrugada, escondidos de nossos pais. Curtíamos as festas no Imperial, no Realce, no clube do Banco do Nordeste. Na praia de Tibau, “Tibauzim de açúcar”, eram as festas no Creda e no Álibi. Dirigíamos os nossos buggys de Areias Alvas até o “arrombado”. íamos a Canoa Quebrada; brincamos os carnavais de Aracati.

Já adultos, mantivemos a nossa amizade, apesar de cada um seguir a sua vida. “Quase quarenta anos de amizade”, dizia. Ele era pura alegria; não existia tempo ruim. Sempre tinha uma brincadeira pra dizer, gostava de “tirar onda”, mas sabia escolher a palavra certa, no momento certo. Ao seu lado, conversando sobre a vida, eu sorri, eu chorei.

Dias antes de partir, foi ao Rio de Janeiro assistir ao jogo do Mengão, no Maracanã. Realizou um sonho. “Mengão do meu coração, vai começar a festa”, cantava. Estava feliz. A vida é um instante. Por isso, devemos vivê-la. Ele viveu do jeito que gostava, pois o que conta é a vida em nossos anos.

Márcio Iuri se foi. Levou um pedaço da minha infância e adolescência, deixando uma saudade danada no peito de seus familiares e inúmeros amigos.

Quando eu estiver tomando umas, lá pra tantas lembrarei de nossa amizade, levantarei o copo em direção ao céu e direi, com os olhos cheios d`água, uma de suas “tiradas”:

“Eu nem ia beber hoje”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 13/02/2022 - 10:22h

De longe chegava a voz de Altemar Dutra cantando…

Janela, olhando da janela, janela de edifício, apartamento, iluminação externa, condomínio, cerca de proteção em janelaPor Honório de Medeiros

De longe chegava a voz de Altemar Dutra cantando “Tudo de Mim”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Quem estaria escutando essa música, no último dia do ano, quando já era noite fechada e faltava pouco para os fogos subirem aos céus?

Enquanto desfrutávamos da nossa solidão a dois, preparávamos, a quatro mãos, nossa ceia. Eu e ela. Os meninos, ainda os chamamos assim, já tinham partido, para muito longe. Ficamos nós, aqueles cujas raízes são fundas demais para serem arrancadas.

Eles se foram, são o futuro, e, nós, cada dia mais, o passado.

Ela nota minha melancolia. Disfarço. Brinco. Não resolve. Não consigo mais engana-la. São muito anos de cumplicidade. Falo-lhe de Altemar Dutra, de quando o conheci ainda praticamente adolescente, uma noite, no “Casarão”, e emendo com uma confissão, dizendo-lhe que minha tristeza não vem da batida do passado na porta do meu coração.

Não é isso, digo-lhe. É a tristeza de quem sente que algo precioso está se perdendo, e não voltará. Estou, agora, falando acerca da maravilhosa letra da música que Altemar Dutra canta e que ouvimos vinda de longe, de alguma das casas que cercam nosso prédio, elas mesmas, as casas, antigas, desaparecendo para cederem seus lugares a prédios modernos, repletos de vidros e ausentes de história.

Essas músicas sobrevivem como espasmos e me quedo surpreso quando as escuto em algum lugar, por insistirem em abrir espaço, vindas do passado, em um futuro tão diferente. Como quando escutei uma melodia de Chiquinha Gonzaga, em um celular portado por uma adolescente no shopping onde almoçávamos.

Altemar Dutra segue desaparecendo lentamente da nossa memória, e fatos como esse sempre me lembram amigos que se foram, ao longo do tempo, de nossas vidas. Amigos que se afastam, aqueles velhos amigos, com eles desaparecem “a testemunha e o comentarista de milhares de lembranças compartilhadas, fiapos de reminiscências comuns que se desvaneceriam“(*). “All those moments will be lost in time, like tears in rain“(Todos esses momentos serão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva**).

Assim, concluo, enquanto ela põe a mesa, morre aquilo que o homem constrói, apaga-se, desaparece na neblina do tempo, pois o futuro e seu filho dileto, o esquecimento, algoz de todas essas lembranças, não se compadece do quanto já foi construído em todos os lugares e tempos. É preciso que chegue o novo, que se vá o passado.

Eu me calo. Muito antes, já se calara Altemar Dutra. Decerto, quem o escutava, já se aproximando do inverno da vida, resolveu dormir. Mal sabe ele que lhe fiz um brinde, com um copo de água, quando vinha a madrugada.

Para ele, Altemar Dutra, Evaldo Gouveia e Jair Amorim.

* Hereges, Leonardo Padura.
** O replicante Roy Batty, em “Blade Runner“.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN.

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quarta-feira - 09/06/2021 - 08:30h
A carta

Em busca de um tesouro perdido em meio a LP’s dos Beatles

Karlo, mulher e filhas numa foto de família, lembranças que precisam de uma carta (Reprodução Canal BCS)

Karlo, mulher e filhas numa foto de família, lembranças que precisam de uma carta (Reprodução Canal BCS)

Por Bolívar Torres, do jornal O Globo

Beatlemaníaco 100%, Karlo Schneider gostava, como na canção de Paul McCartney, de imaginar como seria seu futuro. Quando sua filha nasceu, o potiguar escreveu uma carta para que ela pudesse ler no dia 4 de março de 2022, quando completasse 15 anos. Mas, antes disso acontecer, veio a pandemia. Schneider faleceu em março vítima de covid-19. Ele tinha 40 anos e sua filha Barbara, 14.

A esposa de Schneider, Alcione, foi atrás das cartas escritas no passado para consolar a filha. Mas elas tinham sumido. Além de apaixonado pelos Beatles, Schneider também sabia apreciar as caças ao tesouro, escondendo a missiva em um de seus LPs do quarteto britânico. Só que muitos deles foram vendidos no ano passado, quando a família passava por dificuldades financeiras. Agora, a família tenta reaver a carta que sumiu junto com os discos.

Desde então, a história dramática vem correndo o mundo dos fãs de Beatles e as redes sociais. Nas páginas dos beatlemaníacos nacionais, onde Schneider tinha muitos amigos,  não se fala em outra coisa. O canal The Beatles School gravou um vídeo fazendo um apelo para os seus 35 mil seguidores — afinal, não é impossível que um deles tenha adquirido o álbum “premiado”.

Família

— Esse é o maior presente que a minha família poderia receber agora — diz Alcione. — É o presente que ele está entregando para a sua filha, mesmo sem estar aqui fisicamente.

A família toda é beatlemaníaca. Barbara deve seu nome a Barbara Bach, ex-namorada de John Lennon. A outra filha mais nova, Laya, foi batizada em homenagem Patti Boyd, ex de George Harrison. Schneider trabalhava no setor hoteleiro e realizava eventos com temáticas dos Beatles.

— Eu lembrei que a carta poderia estar em um LP porque meu esposo sempre gostou de caça ao tesouro — conta. — Na Páscoa, ele fazia mapinhas para os filhos acharem os presentes. A ideia era fazer a mesma coisa no aniversário da Barbara. Que ela buscasse a carta escondida em algum lugar da casa.

Além da carta principal, escrita pelo pai, há outras. Quando Alcione engravidou, Schneider também pediu para que amigos escrevessem para a Barbara do futuro. Elas também foram escondidas nos LPs e podem estar em posse de algum comprador. Nenhuma missiva ainda foi encontrada.

— Para nós, a carta mais importante é a do Schneider, claro — diz Alcione. — Mas também gostaríamos de reaver as outras.

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quarta-feira - 02/11/2011 - 08:26h
Eu

Minhas lembranças

No “Dia de Finados”, “Mossorótima” acorda silenciosa, oscilando entre compungida e sonolenta.

Eu, lembranças, lembranças… Como foram ontem e serão também amanhã.

Não há um único dia em que os “meus”, que se foram, não estejam presentes. Lanternas na popa; luz na proa. Farol a me guiar.

Guias, guias, guias, guias…

Guiem-me, continuem me guiando. Ainda sou aprendiz; apenas engatinho.

Minha benção!

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