domingo - 19/02/2017 - 07:48h

Família Cavalcanti na Ribeira do Açu

Por Marcos Pinto

Verificando   minuciosamente   os documentos oficiais do final do Sec.  XVII   existentes no vetusto acervo do venerando Instituto Histórico e Cultural Do Rio Grande Do Norte – (IHGRN), resta sobejamente comprovado que todo o processo de colonização e povoamento da região do Açu está intrinsecamente ligado ao combate à indiada hostil, cujo movimento bélico passou a ser denominado de “A guerra dos bárbaros” (16871697).

Surge  daí  a  certeza  de  que  a  Ribeira  do  Açu  constituiu  uma  importante  corrente  de  colonização  da  região  do  Oeste  potiguar, citando-se como exemplo  o  caso  da  família  Nogueira  Ferreira, oriunda da  Paraíba, comandada  pelo  bandeirante  Manoel  Nogueira  Ferreira, que  antes  de  fundar  a  cidade  do  Apodi  em  1680, requereu e conseguiu  uma   concessão  de  “Data de Sesmaria”  na  região  do Açu, tendo  desistido  da mesma, após  ter  descoberto  as  paradisíacas  paragens  do  rincão  Apodiense.

Com certeza o célebre bandeirante seguira as veredas indígenas que faziam o intercâmbio dos Janduís do Assu com os tapuias Baiacus da lagoa do Apodi.  As tradicionais famílias do Assu descendem de bravos homens que participaram do combate aos índios Jardins, destacando-se as famílias Soares, do bravo combatente nonagenário Manoel de Abreu Soares, Rodrigues Santiago, do Capitão Manoel Rodrigues Santiago, Vieira De Melo, do fundador do Arraial de Nossa Senhora dos Prazeres (Atual Assu) Bernardo Vieira de Melo.

 

Armas da Família Cavalcanti da Itália, região de Florença (Foto: reprodução)

Até meados do séculos XVIII, a terra rica em lavoura e pecuária do vale do rio Açu era habitada pelos andus, nome do chefe indígena que se estendeu à tribo. Nessa época, o homem branco já havia começado a explorar os potenciais da região, gerando amplo conflito de interesses com os índios. O homem branco partia para a criação bovina, enquanto os andus consideravam legítima a caça ao gado.

Devido à intensidade das lutas entre brancos e índios, um grande conflito, conhecido como a guerra dos Bárbaros, marcou a década compreendida entre 1687 a 1697.

Em 1696, Bernardo Vieira de Melo, então Governador da Capitania do Rio Grande, colocou-se à frente de uma pequena expedição e fundou à margem esquerda do Rio Açu ou Piranhas o Arraial de Nossa Senhora dos Prazeres, ponto de reforço para a conquista do sertão.  Instalou-se com seus soldados no novo arraial, iniciando o aldeamento dos índios e assegurando o estabelecimento dos colonos.

Surgiu daí o povoado com a denominação de “Povoação de São João Batista da Ribeira do Açu”.  Aos perscrutadores da genealogia açuense, sugiro que comecem a pesquisa   pela leitura da lista dos nomes dos estoicos homens que compunham o famoso “Terço dos Paulistas”.

Como leitor contumaz da exponencial obra de genealogia nordestina intitulada “Nobiliarquia Pernambucana”, pude encontrar os liames genealógicos desta nobre família na Ribeira do Açu, nos Volumes II e IV. Houve tempo em Pernambuco em que predominava um famoso bordão de que “Quem não era Cavalcanti era cavalgado”.

Esta família é das mais antigas e nobres de Pernambuco, onde teve princípio em Felipe Cavalcanti, ilustre fidalgo natural de Florença, na Itália, filho de João Cavalcanti e de Genebra Mandelli. Segue esboço genealógico:

* Felipe Cavalcanti (Vôlei, pág. 413) – Casou em Olinda-PE com Catharina De Albuquerque, filha de Jerônimo de Albuquerque e da índia Maria do E. Santo Arcoverde, filha do   Principal dos Tabajaras, que habitavam em Olinda.  Foram pais de:

F.01- Antônio Cavalcanti De Albuquerque (1º – Vol. II, pág. 415) –  Casou com Isabel De Góes, filha de Arnaud de Holanda, Natural de Utrecht, na Holanda, e de Brites Mendes de Vasconcelos, sendo neta paterna de Henrique de Holanda de Regensburg e Margarida Florência, irmã do Papa Adriano IV.  Foram pais de:

N.01- Isabel Cavalcanti. (Vol. II, pág. 419): – Casou a primeira vez com Manoel Gonçalves De Cerqueira, filho de Pedro Gonçalves de Cerqueira, por apelido “Peru Peco” e Catharina de Friezas.  Foram pais de:

BN.01- Antônio Cavalcanti De Albuquerque (Vol. II, pág. 420): Conhecido com o nome de Antônio Cavalcanti, o da guerra.  Aos seus prudentes conselhos deveu João Fernandes Vieira a resolução de restaurar Pernambuco. Faleceu durante a Guerra Holandesa em 1645, em Igarassu, comandando tropas que iam em socorro a Goiana-PE. Casou com Margarida De Souza, filha de Antônio de Oliveira, português, e Leonard Velho.  Foram pais de:

TN.01-  João Cavalcanti De Albuquerque (Vol. II, pág. 423):  A quem chamaram “O de Santana”, por ser Senhor deste Engenho, na Freguesia de Santo Amaro de Jaboatão.   Em 1645 já se achava casado com MARIA PESSOA, filha de Arnaud de Holanda Barreto, Senhor do Engenho de São João, da Freguesia de São Lourenço da Mata-se, e de Luísa Pessoa.  Foram pais de:

QN.01- Francisco Xavier Cavalcanti. (Com sucessão na região Oeste Potiguar, que será objeto de outro artigo).

QN.02- Bertoleza Cavalcanti – (Vol. II, págs. 424 e 473, e Vol. IV, pág. 475): Casou em segunda núpcias com Marcos Dantas Da Cunha, natural da Paraíba, e foram pais de:

PN.01- Antônio Dantas De Barros, natural da Paraíba. Casou com IGNEZ, filha do Cel. Pedro da Silva Cardoso. Foram pais de:

Sexto-Neto 01- Pedro De Barros Dantas -. Assentou Praça em 27.07.1789, e era morador na Ribeira do Açu, tinha 45 anos de idade, Branco, casado, estatura ordinária, barba fechada, olhos azuis, cor rosada, testa grande.  Foi pai de Joaquim de Barros Franco, que em 1789 tinha 12 anos de idade, quando assentou Praça.

PN.02- Capitão-mor Francisco Dantas Cavalcanti –  Casou no Assú com Ana Maria De Santiago, filha do Capitão Antônio Cabral de Macedo e Josefa Martins de Sá (Esta filha do Capitão-mor José Ribeiro de Faria, português, e de Joana Martins de Sá. (Fonte: Livro “Documentos do Arquivo – Potes. De Províncias – Vol. II, págs. 43 a 45 – Secretaria do Governo de Pernambuco – Recife 1943)”.  Foram pais de:

Sexto-Neto 02-  Antônio Dantas Cavalcanti – Casou com Maria José De Menezes, sobrinha do famoso Padre Francisco Correia Telles de Menezes, que faleceu e foi sepultado no ano de 1845, com a idade de 100 anos.  Foram pais de:  Manoel Ignácio Cavalcanti, Pedro de Barros Cavalcanti, Antônia, Antônio e Manoel Correia Telles, que por sua vez foi o pai do General José Correia Telles (1835-04.01.1897. (Vide livro “O RN na Guerra do Paraguai” – Adauto da Câmara – pág. 82).

Sexto-Neto 03- Bertuleza Dantas Cavalcanti – Casou com o Capitão Manuel Varela Barca (0 1º deste nome), natural do Cabo-PE, filho legítimo de José Varela Barca (Português) e de Brites Paes Barreto.  Manuel casou em primeira núpcias com Luzia Florencia Da Silva, filha do Capitão-mor João Ferreira da Silva, falecido em sua fazenda “São Lourenço” das Várzeas do Apodi a 05.02.1788, e de Brites Maria de Melo. Com descendência. Casou em 2º   núpcias com Francisca Ferreira Souto, e em 3º   núpcias com BERTULEZA.  Manuel e Bertoleza foram pais de:

– Francisca Ferreira Santos –  Casada com João Pio Lins Pimentel.

– Domingos Varela Barca.

– Rosa Francisca Ferreira.

– Manuel Varela Barca (2º) – Pai de Maria Beatriz Paes Barreto, casada com Manuel de Melo Montenegro Pessoa, e de Maria Francisca Silvina, casada com João Rodrigues da Costa Júnior. (FONTE: Vide  livro  “Velhos Inventários do  Oeste  Potiguar” – Pág.16 – Marcos  Antônio  Filgueira -Coleção Mossoroense – Série  C – vol. 740 – ano  1992.

Marcos Pinto é advogado e escritor

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domingo - 05/02/2017 - 11:52h

A Revolução Pernambucana de 1817 e a região Oeste potiguar

Por Marcos Pinto

A chamada Revolução Pernambucana, também conhecida como Revolução dos Padres, foi um movimento emancipacionista que eclodiu em 6 de março de 1817, na então Capitania de Pernambuco, no Brasil, culminando  em 19  de  Maio  do  mesmo  ano.

Dentre as suas causas, destacam-se a influência das ideias Iluministas propagadas pelas sociedades maçônicas (sociedades secretas), a crise econômica regional, o absolutismo monárquico português e os enormes gastos da Família Real e seu séquito recém-chegados ao Brasil — o Governo de Pernambuco era obrigado a enviar para o Rio de Janeiro grandes somas de dinheiro para custear salários, comidas, roupas e festas da Corte, o que ocasionava o atraso no pagamento dos soldados, gerando grande descontentamento do povo brasileiro.

Foi o único movimento separatista do período colonial que ultrapassou a fase conspiratória e atingiu o processo revolucionário de tomada do poder. Câmara Cascudo, historiador-mar do Rio Grande do Norte definiu esse movimento como “…A mais   linda, inesquecível e inútil das Revoluções brasileiras.  Em relação a então Capitania do Rio Grande do Norte, a região Oeste assume papel relevante promovendo intercâmbio com as Capitanias do Ceará e Paraíba.

Assumiu proporções com magnitude de vulto, que chegavam a ofuscar as conspirações engendradas na cidade de Natal.

Essa temática suscitou um longo processo investigativo que soma o decurso de quatro décadas, em que colhi subsídios diversos e dispersos constantes em obras famosas, citando-se as que tratam sobre a história do RN, dos célebres historiadores Tavares de Lira, Rocha Pombo e Câmara Cascudo.

Destaca-se, ainda, a famosa Coleção denominada “Documentos Históricos”, publicada pela Fundação Biblioteca Nacional, Divisão de Obras raras, no ano de 1955, Volumes CV a CX.

Esse artigo não representa trabalho didático.  Costumo fugir dos planos metódicos e da aridez dos compêndios.  Constitui mais um processo de resgate dos protagonistas e heróis que se sacrificaram pela causa da independência do país, promovendo o bem coletivo e o progresso da nação.

Quando faz abordagem sobre esse movimento separatista no RN, o historiador Rocha Pombo cita a região do Apodi como foco irradiador desse ideal revolucionário, para as Vilas de Portalegre, Martins e Pau dos Ferros.

Em Portalegre e Pau dos Ferros eram comandados pelos Padres João Barbosa Cordeiro e Manoel Gonçalves da Fonte, respectivamente. Observa-se marcante desenvoltura desses padres, em suas pastorais e efusivos discursos nos púlpitos de suas paróquias.

Na devassa feita por determinação da Corte portuguesa radicada no Brasil, são citados os nomes dos levantados do Apodi, com ênfase para os Capitães do Regimento de Milícias das Várzeas do Apodi José Francisco Ferreira Pinto, José Ferreira da Mota (O 1º deste nome), Manoel Freire da Silveira. O contato dos revolucionários apodienses com Pernambuco eram feitos pelo Capitão José Ferreira da Mota que, disfarçado de comprador de gado, se dirigia até à cidade de Olinda, onde o seu filho de igual nome, estudava no Seminário, onde ordenou-se em 1820.

Esse notável Clérigo nasceu na fazenda “Santa Cruz” no ano de 1797, tendo falecido – acometido pelo ‘Cólera morbos” – na Vila de Brejo do Cruz, no ano  de 1862.

Dentre  o  vasto  referencial  aos  fatos  desse  movimento  revolucionário em terras do Apodi, sobressai-se  a revel de que o belo lugar de nome “Passagem Funda”, encravado no célebre “Brejo do Apodi”, era valhacouto dos revolucionários da Região Oeste, destacando-se os irmãos Domingos Alves Ferreira Cavalcanti (Falecido a 02.10.1830), Manoel  Januário  Bezerra  Cavalcanti  (Residia  no  Ceará)  e  Capitão  Antônio  Alves  Ferreira  Cavalcanti, residente  em  Portalegre, depois  na  Serra  do  Martins.

Em torno desse retumbante movimento revolucionário, cita-se, ainda, os relevantes serviços prestados pelos irmãos João Saraiva de Moura e David Leopoldo Targino, filhos do Capitão-mor Geraldo Saraiva de Moura, que casou em segunda núpcias com Rita Maria de Jesus, pernambucana, filha do primeiro Padre da Paróquia de Apodi  João da Cunha Paiva (1766-1776), patriarca dessa tradicional família da região Oeste potiguar.

Não olvidemos, também, a pessoa do Capitão Agostinho Pinto de Queiroz, comandando os ideais revolucionários na dadivosa Serra do Martins.  Essa figura de vulto passou dois longos anos preso nos cárceres da Bahia.

Esses dados sobre os irmãos Moura foram colhidos do   livro “Velhos Inventários do Oeste Potiguar”, de autoria de Marcos Antônio Filgueira –   Coleção Mossoroense – série C –  Volume 740 –  ano 1992.

Logo que os revoltosos souberam do aniquilamento do movimento revolucionário, ocorrido em 19 de Maio de 1817, aderiram imediatamente ao comando da Corte portuguesa.

Para escapar da sanha perseguidora pós-revolução, o indômito apodiense Capitão José Francisco Ferreira Pinto resolveu transferir sua residência para a Vila Rio Preto, na Província de Minas Gerais, de quem descende o renomado banqueiro (Dono do Banco Itaú) e político mineiro Magalhães Pinto.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

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