“A vaidade é um princípio de corrupção”.
Machado de Assis
Jornalismo com Opinião
“A vaidade é um princípio de corrupção”.
Machado de Assis
Por Paulo Linhares
A imortalidade pode ser vista por dois ângulos: aquela aspiração da condição humana de vence a morte e, como mero eufemismo criado com a Academie Française, para designar a perenização da memória de autor de obra literária para muito além de sua existência como ser biológico e culturalmente circunstancial. Da primeira não é possível cuidar, por inalcançável; da outra, contudo, é possível.
Sim, algumas coisas que o engenho humano cria pode dar séculos de vida aos criadores, enquanto as criaturas conseguirem sensibilizar corações e mentes em épocas e latitudes inimagináveis.
Com muita razão, lembra Camões que, em seus versos, sua amada Dinamene jamais seria esquecida, viveria eternamente (“Ah minha Dinamene! Assim deixaste/ Quem não deixara nunca de querer-te!”, para na estrofe inaugural de famoso soneto completar: “Alma minha gentil, que te partiste/Tão cedo desta vida descontente,/Repousa lá no Céu eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste.”).
A obra artística imortaliza, dá força de perenidade a coisas que originalmente nasceram com o timbre do efêmero. O mulato Machado de Assis, um dos gênios da literatura universal ao lado de Virgílio, Dante, Shakespeare e outros que formam uma centena (se aceita a seleção do grande crítico norte-americano Harold Bloom), jamais poderia imaginar a influência, nas gerações seguintes, aqueles “olhos de ressaca” de Capitu, aquele olhar que era qual avassaladora onda que a tudo ameaçava tragar, como quase fez com Betinho, o contador da história no Dom Casmurro, vaga marinha de cruel ressaca que, afinal, tragaria impiedosamente o nadador Escobar, o fura-olho cuja traição, se houve ou não, se projeta como um dos grandes enigmas literários da civilização ocidental, já que o Bruxo do Cosme Velho conseguiu tornar universal aquela casa de número 18, na Rua Cosme Velho, do bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro, que se fizera definitivamente soturna e fria quando sua Carolina, a “Carola” de seus amores, se foi dessa vida e inspirou um dos mais belos e comoventes sonetos da língua portuguesa:
“Querida! Ao pé do leito derradeiro,/em que descansas desta longa vida,/aqui venho e virei, pobre querida,/trazer-te o coração de companheiro./Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro/que, a despeito de toda a humana lida,/fez a nossa existência apetecida/e num recanto pôs um mundo inteiro…/Trago-te flores – restos arrancados/da terra que nos viu passar unidos/e ora mortos nos deixa e separados;/que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,/pensamentos de vida formulados,/são pensamentos idos e vividos.”
Parece um sacrilégio depois de tão belas luzes descer ao pântano da política mixuruca e barateira, justo para especular acerca da imortalidade a que aspira o doutor Michel Temer, acidental presidente do Brasil. Claro, nem pensar na glória de pisar que seja na calçada da Casa de Machado de Assis: os seus livrinhos não têm fôlego para tanto.
Esqueçam-se os de (fraquíssimo) conteúdo jurídico. Tome-se o seu opus magnum em matéria de poesia: o livro intitulado “Anônima Intimidade“, publicado pela editora TopBooks em 2012, prefaciado pelo então ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, bem naquele ritmo do “mediocridade atrai mediocridade”…
A primeira sensação que se tem à leitura, por mais despretensiosa que seja, desses poemas temerosos, é que a pena mínima que caberia ao autor dessas temeridades poéticas seria mesmo a guilhotina; o impeachment seria branda pena, sem dúvida.
Vejam, benévolos leitores, e é porque desta feita serão vossas senhorias vitimadas com apenas alguns desses ‘poemas’; o livro todo pode até ser incitação ao suicídio, literário ou literal: no poemeto Fuga, diz Temer, que “Está/ Cada vez mais difícil/ Fugir de mim”; no Trajetória confessa que “Se eu pudesse/ Não continuaria” (o que quis dizer com isso?!! Largaria a a boquinha do Planalto?); no Saber, quase se entrega ao afirmar que “Não sabia. Juro que não sabia!” (certamente sobre aquela recheada mala da corrida do deputado Rocha Lures…); em A Carta faz uma revelação: “Leu./ Releu./ Não entendeu./ Mas compreendeu./ Tanto escreveu/ Só para dizer/ ‘Adeus’” (certamente se refere às próprias leituras das Constituição da República…); no Pensamento diz algo que parece mesmo uma sincera autodefinição:
“Um homem sem causa/ Nada causa”; depois, no Compreensão Tardia (antes tarde do que nunca!), revela a crise da confusa existência quando desabafa: “Se eu soubesse que a vida era assim,/ Não teria vindo ao mundo”. Ainda bem que numa página final da edição ficou estampada curiosa advertência: “Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança comigo ou com terceiros é mera coincidência”.
Pelo visto, a única imortalidade que o doutor Temer almeja é aquela primeira, de vencer a morte na frágil epopeia do seu “ciclo do carbono”, a exemplo daquela personagem do autor irlandês Bram Stoker, do livro Drácula, escrito em maio de 1897, inspirado naquele nobre romeno Vlad Tepes, “o Empalador”, que depois de perder a amada renega a Deus e se torna vampiro, condenado a viver sempre com eterna sede de sangue.
Com esse jeitão de mordomo de filme noir, sempre foi lembrada a semelhança física do doutor Temer, o penteado, os trajes (sem a capa preta, claro), com alguns dos dráculas das fitas hollywoodianas, sobretudo, o que tantas vezes foi encarnado pelo ator britânico Christopher Lee.
Aliás, vampirizar Temer já vampirizou muitas coisas: traiu os aliados petistas e tomou a presidência de Dilma, precarizou a proteção social da legislação trabalhista, ameaça ferrar as velhinhas e velhinhos aposentados e pensionistas, botou no bolso do colete o Supremo Tribunal Federal, mantém com parca ração deputados federais e senadores, acabou de quebrar Estados e Municípios, vai entregar o resto do patrimônio da nação a grupos privados daqui e de alhures, além das atrocidades com os dinheiros públicos sabidas por todos, provadas e comprovadas, porém, impunes.
O homem está blindado: nem alho, nem cruz, água benta, bala de prata, luz do Sol ou estaca no coração seriam capazes de vulnerá-lo. E se aquele amigo dele, o fute, o tinhoso, coçar o olho, em 2018, mesmo com a rejeição nas alturas, ele se reelege a presidente da República sem nunca ter sido eleito. Pode?
É temível, mas, poderá acontecer.
Resta-nos, ao menos, fazer figas e esperar que passe o “ridimunho”.
Paulo Linhares é professor e advogado
Por François Silvestre
Fosse o Brasil apenas um personagem, seria de um romance de costumes. Não caberia nos textos de um romance épico ou romântico; e muito menos nas densas páginas de um romance heroico.
Não seria de guerra, mas de violência. Não seria de revolução, mas de golpes. Não seria de história, mas de invenções. Não seria de política, mas de trampolinagens.
Não seria de qualquer escola clássica. Nem do renascimento. Não teria o mistério penumbroso da Idade Média nem o estoicismo do sofrimento romântico. Não descreveria serenatas nem empunhava espadas. Seus espadachins fugiriam antes do duelo.
E por ser um romance de costumes, seus personagens também são contumazes. Não desistem nunca da safadeza consuetudinária. Refinada Inteligência do embuste, argumentadores a matar de inveja os sofistas gregos.
O que não fariam com esse material Machado de Assis, Joaquim Manoel de Macedo, Eça de Queiroz, Lima Barreto, O Barão de Itararé, Bocage, Gregório de Matos e outros do mesmo espírito?
Posto que num romance de costumes sujos, nada como a lente de um gênio a lavar a alma dos roubados.
Mas eu dizia que os personagens precisam merecer destaque na sujeira. Veja um deles. Promotor de Justiça, responsável por uma “meritória” campanha de furor ético. Chegou à capa de uma revista semanal, das mais famosas. Vestido de mosqueteiro.
Sua luta intensa contra os corruptos o levou ao senado federal. Uma Casa empanzinada de personagens típicos desse romance. Da tribuna, ele apontava o temido dedo. E ai de quem fosse o apontado.
Um dia, o dedo voltou-se. Um corruptor confessa e prova que o ilustre personagem era cria sua. Marionete dos seus interesses sujos. Onde anda o personagem? Nalguma página esquecida do calhamaço. Não basta ser corrupto. Precisava sê-lo combatendo a corrupção.
Ao retomar os rumos das liberdades políticas, o personagem Brasil institucionalizou-se. Nesse quadro de formal democracia, novos partidos ocuparam as páginas.
Um pôs um “P” antes do antigo e heroico nome. Outro trocou o “trabalhismo” por “trabalhadores”. Um terceiro, dissidente, vestiu-se de social-democracia. Cada um com sua farsa. E um rebanho de outros figurantes.
O pior de tudo é que de antagônicos na aparência uniram-se na semelhança. Na mais escandalosa união de oponentes para juntos esconderem a ficção, fazendo-a real de fato.
No panteão dos iguais, hastearam a mesma bandeira. Num mastro chantado no pedestal da fossa. Cuja franja, desencarnada, tremula aspergindo o miasma fedido de uma pátria marrom.
Os leitores desse romance não o reescrevem por preguiça mental. Ou desleixo com a leitura. Ou cansaço de aprender. Ou até, e pior que tudo, por afinidade com os personagens. A síndrome do roubado a identificar-se com o ladrão.
É com essa bandeira, não há outra, que os mesmos pilantras levarão os bocós às ruas novamente. Às ruas ou às páginas? Já que é apenas um romance. De maus costumes.
Té mais.
François Silvestre é escritor
Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior
“O que me cabe aqui embaixo, faço. Não sou juiz, sou parte ou sou testemunha. Meu juiz sabe tudo, vê tudo. Lá em cima, é instância superior”.
(Carlos Lacerda)
Sou um caso sem solução. Apesar de não gostar dessa expressão, mas, como dizem alguns oncologistas: sou um FPT (FPT, caro leitor, não significa Fora PT! Mas sim Fora de Possibilidade Terapêutica). E olha que minha doença foi diagnosticada há tanto tempo.
Dia 25/12/1989, isso mesmo, dia de natal. Dia da minha aula da saudade. A oradora da turma, minha querida colega de curso, Dra. Maria das Vitória disse em alto e bom tom o meu diagnóstico: “Pinto, sempre do contra!”.
Pois é! 28 anos já se passaram e é sempre assim: quando todos estão indo para o mesmo lado, lá vou eu na direção contrária… Não sei se é por influência do meu guru Nelson Rodrigues que dizia que toda unanimidade é burra, mas o fato é que eu pareço até aquele personagem do poema de T. S. Eliot: “Numa terra de fugitivos, aquele que anda em direção contrária parece estar fugindo”… E parece que eu estou mesmo fugindo da mesmice, fugindo da multidão que só enxerga sob o mesmo prisma, fugindo da música que tem uma nota só. E sozinho, fico eu vendo todos do outro lado.
A minha última crise aguda de solidão está acontecendo agora. Enquanto todos pedem a prisão do ex-presidente Lula, lá vou eu implorar para que o juiz Sérgio Moro não faça isso. E olha que ninguém, absolutamente ninguém, nesse país queria mais essa prisão do que eu.
Porém, bastaram chegar as mensagens no WhatsApp dizendo que com a delação devastadora de Leo Pinheiro (ex-presidente da OAS) indicando que Lula tinha solicitado a destruição de provas da corrupção, e assim já poderia ser preso, para eu começar a mudar de lado. Virar a casaca…
Eu sei que o ordenamento jurídico brasileiro no seu artigo 305 do Código Penal afirma: “Destruir, suprimir ou ocultar, em benefício próprio ou de outrem, ou em prejuízo alheio, documento público ou particular verdadeiro, de que não podia dispor: Pena – reclusão, de dois a seis anos, e multa, se o documento é público, e reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é particular”… No entanto, a minha dúvida é: pra que prender alguém que já se encontra preso na sua própria consciência?
No livro Dom Casmurro, Machado de Assis coloca muito bem o que significa a terrível prisão feita pelo nosso juiz interior:
“A ideia saiu finalmente do cérebro. Era noite, e não pude dormir, por mais que a sacudisse de mim. Também nenhuma noite me passou tão curta. Amanheceu, quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. Saí, supondo deixar a ideia em casa; ela veio comigo. Cá fora tinha a mesma cor escura, as mesmas asas trépidas, e posto avoasse com elas, era como se fosse fixa; eu a levava na retina, não que me encobrisse as coisas externas, mas via-as através dela, com a cor mais pálida que de costume, e sem se demorarem nada”.
Esse terrível juiz interior não permite a ampla defesa e nem muito menos espera que o processo esteja transitado em julgado para realizar a prisão. Lula carregará até o seu túmulo o remorso de que poderia ter feito um país diferente, mas não fez… Ambição, cobiça, vaidade, ingenuidade, mostrar que todo homem tem seu preço, não sei quais as razões do ex-presidente…
Volto a pergunta que não quer calar na minha consciência: Pra que prender Lula se ele nos deu a verdadeira imagem de como funcionam os bastidores pútridos da nossa política? Tudo bem! Alguns vão dizer que sempre foi assim. Carlos Lacerda no seu livro “Rosas e pedras de meu caminho” alertava que “Os políticos são tolerados para salvar as aparências em troca da fisiologia, isto é, do toma-lei-me-dá-verba”…
Mas como homens de pouca fé, como um São Tomé incorrigível de que somos, precisávamos ver para crer… Se não fosse Lula e a escolha “desastrosa” da sua sucessora, que não conseguiu dar suficientemente a verba para obter a lei, nada disso estaria acontecendo.
Concordo plenamente com Carlos Lacerda quando ele dizia que se a vida fosse falada era bem melhor do que escrita… As imagens da delação dos Odebrecht, rindo em alguns momentos e afirmando que tudo sempre foi feito assim de forma natural, nos choca. Ferem-nos. Agridem-nos. Mais uma vez Carlos Lacerda tem razão: “Nada mais perigoso para uma nação do que homens públicos que se portam em relação a ela como se não temessem o julgamento de seus próprios filhos”…
Pois bem! Nem a rainha das telenovelas Janet Clair escreveria um enredo tão interessante: de pedidos inusitados de camarotes para assistir o carnaval a pequena bagatela de trinta milhões de dólares em propina. Tudo sendo feito debaixo do sol, nesse país tropical e abençoado por Deus.
Vendo as imagens das delações veio-me um sentimento de revolta. Lembrei-me de quando dava plantão na emergência do maior hospital do Estado e via milhares de pacientes morrerem por falta de condições de trabalho. Morriam porque uma sala cirúrgica estava interditada há meses por falta de material. Enquanto isso, “a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber era subtraída em tenebrosas transações”. Agora, todos nós sabemos a resposta da dúvida cruel que Cazuza levou para o túmulo: o nome do sócio do Brasil é…
Portanto, mais uma vez imploro ao juiz Sérgio Moro: não prenda o homem! Deixem-no ainda “trabalhar” e nos ajudar. Lula poderá mostrar quem verdadeiramente alimenta todo esse círculo vicioso. Um personagem tão nocivo ao nosso país que, curiosamente, ainda não se encontra nem na lista do Ministro Fachin e nem muito menos na lista do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot: o povo brasileiro.
Esse mesmo povo que tanto critica a reforma trabalhista e a terceirização, mas não se constrange de continuar terceirizando as suas mazelas para os políticos, e que se der uma única oportunidade, faz o ilícito, afinal “tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda”.
Esse mesmo povo (estou aqui me incluindo também) que no auge da sua capacidade intelectual quer se aposentar, para viver teclando mensagens inúteis nas redes sociais, enquanto deveria estar prestando contribuição ao seu país… Deixem Lula solto! Deixem-no se candidatar e ser eleito já no primeiro turno, aí veremos quem – que por sua omissão e inconsequência-, são os verdadeiramente responsáveis pelos políticos que temos…
Por fim, faço minhas as palavras de Mario Sérgio Cortella e Marcelo Tas: “Basta de cidadania obscena!”.
Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor do Curso de Medicina da UFRN e UnP. Médico cirurgião e escritor. Aluno do terceiro período de Direito da UnP.
Por Marcos Pinto
Na escola da vida não dou espaço para nenhum tipo de pretensiosismo. Daí, que faço minhas a sapiente reflexão do nobre amigo Jornalista de escol Carlos Santos, diante ataques e achaques de alguns sacripantas:
– “…Prefiro exercitar a tolerância e a compaixão. Ajudam-me a aplacar os efeitos da má-fé alheia e reconhecer também meus limites”.
É nesse processo de estabelecer limites às minhas pretensões provincianas, que assalta-me a assertiva de que nosso conhecimento e fortalecimento nada mais são do que a soma de toda experiência vivida no decorrer de nossa vida.
Entendo que começamos a nos convencer de que estamos realmente envelhecendo a partir do momento em que, durante o decorrer de uma animada conversa, enfocando fatos há muito tempo decorridos, frisamos a frase: “No meu tempo…”.
Essa evolução cognitiva e intelectiva, no somatório do tempo e na contagem dos dias vividos deve ser precedida por uma espécie de alumbramento cotidiano das virtudes cristãs, evitando, assim, um vir-a-ser pleno de obstáculos e dificuldades. Nesse desiderato da longa estrada percorrida reside a certeza inexpugnável de que a vida é uma escola em que, às vezes, o Professor Senhor Tempo bate com tanta força que ameaça romper os liames da resistência.
É dentro dos princípios da razoabilidade e do bom senso que devemos romper os grilhões que nos amarram à estreita mentalidade do nosso tempo passado. Devemos ficar atentos para não esquecermos, também, de nos vigiarmos, para nos impormos limites aos nossos pretensiosismos e devaneios sentimentais.
Quando alcançamos o patamar de meio século de vida bem vivida, geralmente chegamos à conclusão de que a felicidade total e plena não existe. Há sempre uma lacuna no contexto de que ser feliz é ter tudo que se quer ao mesmo tempo – à tempo e à hora.
Aos nossos passos devemos imprimir as marcas do nosso ego, em que as virtudes superem os nossos defeitos em larga escala. Sintetizemos os caminhos a serem percorridos, através das paralelas das diligentes e imperiosas discrição, modéstia e fé.
Nesse mister, a honradez e a dignidade constituirão o estandarte a ser conduzido bem alto, para ser triunfalmente fixado no umbral do Templo do Senhor Tempo. Nos anais hão de constar a fiel descrição do caráter virtuoso, norteador indispensável para o enfrentamento e resolução dos desafios do cotidiano, onde o antagonista sempre traz na boca o gosto do sangue e o bote certeiro da traição.
Há uma grande virtude, que respalda a modalidade conservadora no pensar e no agir – a conduta retilínea no cumprimento e exigência da verdade como fator indutivo de confiabilidade pessoal e profissional. Os nossos pais e avós há muito já diziam que quem mente rouba é capaz de praticar todo tipo de vilania, perfídia e leviandades, magináveis e imagináveis.
Assombra-me o fato de que o mentiroso sempre acha que ninguém checará a história divorciada da realidade.
Patologia? Desespero? Desfaçatez?
Geralmente, se for confrontado, tentará alguma manobra diversionista do tipo “Me entenderam mal”. Típico de pessoa bipolar, de temperamento instável, colecionadora de atitudes questionáveis e nada recomendáveis.
Longe de mim o querer imputar-me como cultor do puritanismo. Na ruidosa agitação do dia-a-dia, prefiro fazer valer a máxima do grande Machado de Assis:
– De médico, poeta e louco, todos nós temos um pouco.
Inté mais ver.
Marcos Pinto é advogado e escritor
“A frase — escassez das rendas municipais — há muito tempo que nenhum tipógrafo a compõe; está já estereotipada e pronta, para entrar no período competente, quando alguém articula as suas idéias acerca dos negócios locais.”
O texto acima da “Obra Completa de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994”.
Foi publicado originalmente em O Cruzeiro, Rio de Janeiro, de 02/06/1878 a 01/09/1878.
Atualíssimo.
Em síntese, o autor de obras clássicas da literatura brasileira como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”, revelava um clichê que era comum à classe política na segunda metade do século XIX, para justificar despreparo e incompetência.
Passados quase 140 anos da publicação, a ladainha é a mesma.
O romancista, que era também um cronista político perspicaz e mordaz, parece que cobre os dias atuais da política desse lado do Atlântico.
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“Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silêncios que se declaram”.
Machado de Assis
Por François Silvestre
Sem me atrever a discutir definições ou conceitos poéticos, debate que já produziu tratados, polêmicas, esperneios e intrigas famosas, vou ao trivial.
E como tal, longe de qualquer cientificidade literária, trato tudo no pequenino e atrevido mundo do empirismo.
Até porque de Otávio Paz a Cardoza y Aragón, de Neruda a Tolstoi, de Garcia Lorca a Machado de Assis, de Baudelaire a Fernando Pessoa, para citar poucos, todo mundo já deu seu pitaco sobre conceituação dos modos, formas e alcances da poesia.
Exemplo marcante é a formação estrutural de um idioma a partir da obra poética de um autor. Do inglês, com Chaucer e do português, com Camões.
Se a organização morfológica, no português, deve-se ao teatro de Gil Vicente; foi Camões, na poética, quem edificou a sintaxe portuguesa. Criador de um idioma; a partir de uma algaravia como a última “Flor do Lácio”, da verve de Olavo Bilac. “Ora direis ouvir estrelas”.
De lá pra cá, de tudo e sobre tudo já se escreveu quase tudo. Ainda bem que apenas quase. Pois seria uma monotonia cultural a vida com tudo já resolvido. A incompletude conceitual alimenta criações e permite, na colheita do inquieto, manter acesa a chama do refazer-se. Eternamente.
E a rima? Para o gosto popular a poesia sem rima é prosa curta. Neruda ensinou que poesia é metáfora. E a prosa poética? O Pe. Vieira foi o craque desse estilo. Ao responder o suplício do silêncio imposto, alfinetou a cúria: “Deus, na sua infinita misericórdia, fez surdos os que eram mudos e mudos os que eram surdos. Posto que até a Natureza ao ser agredida com o grito, responde com o eco”.
Há palavras de rima difícil ou até inexistente; exemplo de cinza, painço, nenem. Um violeiro aceitou o desafio e rimou: “Na Bahia de Rui Barbosa/ numa tarde muito cinza/ vi uma velha fanhosa/ que chamava camisa caminza”. Só rima; poesia nada.
“Venho para uma estação de águas nos seus olhos”. Joaquim Cardoso; só poesia, sem rima.
De Neruda, o das metáforas: “Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Escrever por exemplo: a noite está estrelada e tiritam azuis os astros ao longe./… Embora seja a última dor que ela me causa/ e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo”.
Luiz Cardóza y Aragón, o diplomata guatemalteco que acolheu, na embaixada de Bogotá, os fugidos da revolta colombiana, na noite em que foi assassinado Jorge Gaitán, disse: “A poesia é a única prova concreta da existência do homem”.
A rima não é vilã. No bom poema ela se agasalha em lençóis de seda.
D. Pedro II rima e faz poesia no soneto/recado ao ex-amigo Deodoro. Veja a última estrofe : “…Mas a dor que crucia e que maltrata/ que fere o coração e pronto o mata,/ é ver na mão cuspir, à extrema hora,/ a mesma boca aduladora e ingrata/ que tantos beijos nela pôs outrora”.
Té mais.
François Silvestre é escritor
“Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz…”
Machado de Assis
“Está morto: podemos elogiá-lo à vontade.”
Machado de Assis
“O dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele”.
Machado de Assis
Por Machado de Assis
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando…
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Machado de Assis (1839-1908) – Escritor, jornalista e cronista
* Texto extraído do livro “Para Gostar de Ler – Volume 9 – Contos”, Editora Ática – São Paulo, 1984, pág. 59.
P.S – “Apólogo” é narrativa em prosa ou verso, geralmente dialogada, que encerra uma lição moral, e em que figuram seres inanimados, imaginariamente dotados de palavra.
“Há coisas que melhor se dizem calando.”
Machado de Assis
“Tudo é aliado do homem que sabe querer.”
Machado de Assis
“Em nosso país a vulgaridade é um título, a mediocridade um brasão.”
Machado de Assis
“Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz…”
Machado de Assis
“Amar e ser amado é, neste mundo, a tarefa melhor da nossa espécie, tão cheia de outras que não valem nada. ”
Machado de Assis
Bom-dia, webleitor. Saúde e paz.
Dessa janela virtual desejo paz de criança dormindo, para enfeitar o dia e a noite dos que quero bem; respeito às diferenças e silêncio aos que são indiferentes ou insensíveis.
Meu primeiro olhar, contudo, é pro meu eu, num necessário mergulho em busca do autoconhecimento.
E como bem diz uma antiga música de Dominguinhos/Manduka, “quem me levará sou eu”.
Amém!
Minha “dopamina” são meus filhos; da mesma forma meus amigos. Inclua aí meu Fluminense; o amor de uma mulher que quer amar e ser amada.
A natureza que lá fora brota com a chuva ou é tocada pelo sol. A palavra impressa em livro, de Hannah Arendt a Machado de Assis. A música que diz muito ou apenas mexe com o corpo.
Minha “dopamina” é mais do que um neurotransmissor, quando estou em meu ofício laboral.
Por isso sou feliz.
Feliz “quesó”.
“A natureza fala, mas fala como uma alma deve falar a outra, sem intermédio dos lábios.”
Machado de Assis
” Tudo são instrumentos nas mãos da Vida”.
Machado de Assis


