“As coisas me ampliaram para menos.”
Manoel de Barros
Jornalismo com Opinião
“As coisas me ampliaram para menos.”
Manoel de Barros
Por Hildeberto Barbosa Filho
Parece já existir certa bibliografia em torno dos tempos pandêmicos. O confinamento em suas respectivas casas levou alguns escritores a pensar, refletir e escrever, a partir das circunstâncias singulares dessa tragédia que se abateu sobre o mundo e sobre a humanidade.
O isolamento, a solidão, o sentimento de exílio, associados ao medo e à ansiedade diante de tempos tão nublados, como que cria condições especiais para o ato de escrever, de escrever e de ler, numa voltagem mais intensa, sobretudo se pensarmos nos gêneros íntimos e testemunhais.
Ocorrem-me estas considerações porque tenho, diante de mim, o livro Confidências literárias (Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2021), do escritor Clauder Arcanjo, no qual exercita um diálogo com alguns autores e autoras de suas “afinidades eletivas”, primando sempre pelo cuidado poético com a palavra.
Clarice Lispector, Beatriz Alcântara, Emily Dickinson, Walt Whitman, Hilda Hilst, Miguel de Cervantes, Eugênio de Andrade, Nicanor Parra, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa, Cora Coralina, Cecília Meireles, Lília Souza, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Manoel de Barros, Helena Kolody, Marcos Ferreira, Manuel Bandeira, Adélia Maria Woellner e Vinícius de Morares constituem o seleto elenco dos seus interlocutores.
Vê-se logo que Clauder Arcanjo mescla, em suas escolhas, poetas e prosadores, clássicos e modernos, consagrados e desconhecidos, sinalizando, assim, para a riqueza e a diversidade de seu olhar de leitor sensível à variedade dos métodos de produção literária e à particularidade de cada visão de mundo.
Na “Nota ao Leitor”, o autor assinala: “Lembro quando os escrevia, uns três por semana, à época em que estava ´confinado` em um hotel em Vitória (ES), lendo e escrevendo para não enlouquecer, em pleno início da pandemia”, e, num recado mais direto para o leitor, faz este apelo: “Que Confidências literárias o faça (re)visitar as obras dos autores e autoras que me acompanham ao longo da minha vida de leitor-escritor; e que você, assim como eu, sinta-se motivado a se confidenciar com eles (as). A boa leitura nos é altamente inspiradora”.
Sem dúvida: a criação literária tem, na leitura, especialmente na leitura das obras literárias, uma de suas fontes mais ricas e um de seus processos mais decisivos. Quando um Harold Bloom assegura que um poema dialoga ou está em conflito com outro poema; quando um T. S. Eliot afirma que nenhum poeta pode ser conhecido sozinho, ou quando um Jorge Luís Borges fala de precursores desse ou daquele escritor, temos aí o selo de uma corrente unindo vozes e visões.
Clauder Arcanjo é um leitor-escritor e, por isto mesmo, poderia situá-lo muito bem dentro da tradição moderna de uma poética da leitura. Uma leitura que não se esgota na simples experiência emocional ou intelectiva, no indispensável prazer da subjetividade, no estímulo à meditação e ao pensamento, no gozo da sensibilidade e no voo da imaginação. Mas, principalmente, numa leitura que tende a encaminhar o leitor para o desafio da sua própria criação e, portanto, da realização de sua própria obra.
No diálogo com Clarice, há certa altura, escreve o autor: “No sereno da tarde, volto para dentro. Dentro de onde? De mim? De ti? Um silêncio anterior ao mundo dito civilizado. O oco de tudo a me revelar que é preciso abrir mão das platitudes para sentir as altitudes. {…} A literatura é um tributo à loucura de si mesmo”. Já no primeiro parágrafo do diálogo com Whitman, afirma que “O homem sofre de um silêncio absurdo”, e no prosear com Fernando Pessoa, revela: “Preso às obviedades da vida, caminho como se o infinito estivesse à minha frente. {…} E a Poesia teima em renascer, sem metafísica, na esquina menos festejada”.
Atento ao estilo e à técnica, assim como ao universo emotivo e intelectual, de cada escritor, Clauder Arcanjo traz à tona, na medida do possível, as inclinações psicológicas e as atitudes perceptuais de cada um deles, nas suas diferenças e aproximações, ao mesmo tempo em que se descortina a si mesmo, na sua geografia sentimental, nos seus predicados ideológicos e nas suas preferências estéticas.
Fazendo suas confidências literárias, este cearense de Santana do Acaraú, poeta, romancista, contista, editor, convida-nos a uma viagem de volta ou a uma viagem de descoberta pelas páginas artísticas dos escritores que leu e cuja leitura nos sugere, a seu modo também artístico e pessoal.
Hildeberto Barbosa Filho é poeta, escritor e professor da UFPB, além de membro da Academia Paraibana de Letras
Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior
“Há tempo para tudo debaixo do sol. Há tempo de escrever; há tempo de calar!”.
Caro “Patrão” Jornalista Carlos Santos,
Por favor, não me “demita” do seu Blog. Eu sei que faz tempo que não produzo um texto. Mas, saiba que estou acobertado pela Lei nº 11.770, de 9 de setembro de 2008, que instituiu o programa de empresa cidadã, prorrogando o período de licença maternidade de 120 para 180 dias, ou seja, de quatro para seis meses.
Assim, se levarmos em conta que a minha última “gestação e trabalho de parto” foi exatamente em setembro de 2012, veja que estou dentro do prazo, perfeitamente dentro da Lei. Portanto, só em março de 2013 é que eu teria que produzir mais um filho…
Sim! Meu caro, não tenha dúvida: um texto é como um filho. Muitas vezes, passa nove meses em nossa cabeça – esse útero terrível, como nos ensina Rubem Alves-, pois “Dela tanto pode sair flores e borboletas quanto charcos e escorpiões. De vez em quando ela é invadida pelos demônios das catástrofes e dos horrores”… Outras vezes, a gestação é interrompida e o parto precoce – repleto de contrações e dores-, faz nascer a criança que estava dentro de nós.
Confesso. Admiro sim, quem consegue ter filhos, e escreve como Dipirona: de seis em seis horas. Haja coragem de pagar pensão alimentícia!… Mas não é o meu caso. Talvez por ser cirurgião e também por ser admirador de Nietzsche, só consigo valorizar aquilo que é escrito com sangue, pois sangue é espírito. Imagine, então, caro patrão, se todo dia eu escrevesse, estaria tão anêmico, que nem todas as bolsas de sangue do HEMONORTE restauraria o meu hematócrito… E sem hemoglobina não há oxigênio; sem oxigênio, o filho é um natimorto…
Portanto, desculpe-me o meu egoísmo. Mas, só escrevo quando tenho vontade. Quando a dor é tão intensa que nenhuma morfina é capaz de aliviá-la. Pois ter filhos, caro “patrão”, é doloroso. Escrever é estar doente dos olhos… O prazer da criação e a dor andam juntos, são irmãos gêmeos.
E, por favor, caro “patrão” não me condene pelo meu egoísmo. Até porque se só escrevo para mim é porque escrevo para todos. Como? Aprendi isso com o magnífico Orhan Pamuk, prêmio Nobel de literatura, no seu belo livro “A maleta de meu pai”:
“PARA MIM, SER ESCRITOR, É RECONHECER AS FERIDAS SECRETAS QUE CARREGAMOS; tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura. O escritor fala de coisas que todos sabem, mas não sabem que sabem… Se ele usa suas feridas secretas como ponto de partida, consciente disso ou não, está depositando uma grande fé na humanidade. Minha confiança vem da convicção de que todos os seres humanos são parecidos, que os outros carregam feridas como as minhas.”.
Por isso que Guimarães Rosa tem razão quando diz que cada um de nós tem um grande SERTÃO dentro de si… E é por causa desse sertão, que muitas vezes somos incompreendidos, criticados e ridicularizados, já que ninguém sabe o que se passa dentro de cada escritor, durante a sua gestação.
Então, muitas vezes, querem nos corrigir: “Retire essas reticências todas! Acabe com tantas citações, elas nos cansam!” Ora, caro patrão! Veja que todo filho tem que ser mesmo imperfeito. Se Deus quisesse a perfeição não teria feito tantos ingratos, desonestos, mentirosos, oportunistas, invejosos, sanguessugas, etc. etc. E uma raça pura, sem defeitos, não era o que Hitler preconizava?! Por isso, tenho medo da eugenia!
Além disso, caro “patrão”, é bom lembrar que todo escritor tem as suas manias. Enquanto, Faulkner só escrevia pela manhã; Hemingway escrevia de pé. Já Balzac só escrevia bebendo café; e o que dizer de Schiller que guardava na sua escrivaninha maças podres cujo cheiro o embriagava e o estimulava… Eu, arremedo de escritor, mais para “ladrão de citações”, não poderia ficar para trás.
Veja caro “patrão” – e que fique como um segredo só entre nós-, mas a minha inspiração ocorre nos momentos mais inoportunos: ou quando estou debaixo do chuveiro ou dentro do elevador, rumo a uma reunião importante.
E quantas não foram às vezes que tive de interromper o banho e sair todo ensaboado do box, pegar uma caneta, papel e escrever o que a cabeça começava a parir; ou ainda ter que voltar do estacionamento do meu prédio e sentar em frente ao computador, para escrever… Acho que dentro de mim – já que somos muitos como diz o poeta Manoel de Barros: “Eu sou muitas pessoas destroçadas!”-, tem alguém que não gosta de banhos ou de cumprir horários…
Pois bem! Depois de todas essas explicações, espero que o meu processo de “demissão” seja interrompido e que o meu espaço no seu blog (//blogcarlossantos.com.br/) continue o mesmo. Afinal, qualquer tribunal de trabalho dará ganho de causa ao meu pleito.
E eu sei que embora processos não lhe intimida, já que estás respondendo aos 9.865.489 (nove milhões oitocentos e sessenta e cinco mil quatrocentos e oitenta e nove) processos movidos contra a sua pessoa pela antiga gestão municipal de Mossoró, não seria melhor não aborrecermos a justiça com mais essa pendenga?
Até porque outro dia, logo após assistir ao filme “O terminal”, com Tom Hanks, que conta a história de um viajante que impedido de entrar no EUA, passa a viver dentro de um aeroporto, fui dormir e sonhei com uma versão jerimum caboclo: os oficiais de justiça do país de Mossoró, cansados de levarem intimação para o jornalista Carlos Santos, resolvem fazer um abaixo assinado, pedindo que você passe a morar nas dependências do fórum de justiça, pois assim economizaria o tempo deles e também as árvores da mata amazônica… A cabeça é ou não um útero?!
Ah! E não se esqueça do meu pagamento, afinal não acertamos que a sua amizade era o meu salário?!
Então, venha a Natal tomar um café e colocaremos as noticias em dia, ok?
Abs, do seu empregado Edilson Pinto.
Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor
* Crônica originalmente postada no dia 17 de fevereiro de 2013, às 6h45. A resposta do “patrão” saiu em seguida, no mesmo dia. Aguarde. Vamos reproduzi-la ainda hoje (Domingo, 25 de abril de 2021).
Por François Silvestre
Ou a “dura escritura” a que se referia Clarice Lispector. É certo que ninguém, do ramo de mesmo, escapa impune dessa maldição.
Tranquilizem-se os que fazem da escrita apenas um exercício de redação, principalmente na internet, onde todas as línguas são maceradas pelas penas infames dos redatores de shoppings. Não serão alcançados pela maldição.
Aliás, nesse caso a maldição atinge o leitor. O coitado pune os olhos e ainda maltrata a escassa instrução. São leitores de copistas que nem sabem de onde vem o palimpsesto. Nem pra onde vai.
Mas essa não é a maldição de que trata o presente texto. Aqui eu quero cuidar da real escrita, maldita e carcereira que mantém sob cadeados os que a usaram ao longo da vida sem perceber que é ela a usá-los e não o contrário.
E quando percebem, já nada podem fazer. Apenas esperneiam, deprimidos e angustiados. Sentindo os grilhões que lhes aprisionam o juízo.
Foi assim com Manoel de Barros. Poeta da desfeitura, do desaprender para atingir o miolo do desconhecimento. Da inutilidade mais útil do que todas as utilidades práticas. Essa inutilidade a que se refere Kerubino Procópio, como exercício do envelhecer.
E o castigo foi a morte do riso do poeta, ainda em vida. Abatido pela depressão que não perdoa nem a poesia.
Com Câmara Cascudo. Escreveu mais livros do que os leitores que tem. Escreveu mais do que a maioria lê durante toda a vida. Também viveu, e o fez intensamente. Mas não se livrou da maldição, ao pronunciar uma única vez a amargura provinciana. “Não consagra nem desconsagra”…
Com José Lins do Rego. Sua escrita é a tentativa frustrada de espantar o fantasma de um garoto a cuja morte lhe deu causa.
Com Ariano Suassuna. A tragédia que abateu sua família, quando um parente seu matou João Pessoa. E o resultado mais brutal foi o assassinato do próprio pai. Diniz Quaderna, d’A pedra do Reino, confirma o revelado. Que nem Sinésio, o alumioso, conseguiu alumiar.
Com Guimarães Rosa, o “reacionário da palavra”, a feitura nova da frase. “Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que fui o primeiro que cri”. Premonitor da própria treva.
Com Drummond de Andrade. A poesia mais chafurdada por críticos e acadêmicos. O esplendor poético na pele de um funcionário tímido, da burocracia oficial.
Com João Cabral de Melo Neto. A poesia de pedra a ser jogada secamente na cara dos sentimentos, para negá-los. E a rendição final, ante a fraqueza física que não se nivelou à fortaleza poética.
Com Mário de Andrade. Angústia antropofágica e partida precoce. As letras e a música modelaram a maldição íntima de um homem além do tempo. “No Pátio do Colégio, afundem meu coração”.
Com Clarice Lispector. “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. A dor invisível do próximo instante desconhecido. Ou presentemente visível. Em Manoel Bandeira, Oswaldo Lamartine, Zila Mamede, Augusto dos Anjos. Nenhum anjo.
E assim é com quem paga o preço dessa maldição. Da palavra escrita com jeito novo, mesmo sendo palavra velha. Do espanto que causa a cópula das palavras a embuchar a frase e parir o rebento.
Té mais.
François Silvestre é escritor
Por Manoel de Barros
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros era poeta sul-mato-grossense, falecido aos 97 anos, em novembro do ano passado.
Por Manoel de Barros
I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.
IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. “Sonora voz de uma concha”,
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos dementam
cigarras.” Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Língua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos.” Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.
VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.
VII
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.
Manoel de Barros (1916-2014) –
* Extraído da publicação “O Livro das Ignorãças”.
“Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”
Manoel de Barros
Por Manoel de Barros
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
– Imagens são palavras que nos faltaram.
– Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
– Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.
II
Todos os caminhos – nenhum caminho
Muitos caminhos – nenhum caminho
Nenhum caminho – a maldição dos poetas.
III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.
Baratas passeiam nas formas de bolo…
A casa tem um dono em letras.
Agora ele está pensando –
no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras…
Um tordo avisou que é março.
IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!
V
Escrever nem uma coisa Nem outra –
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.
VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.
VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.
VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural – Que os poetas aprenderiam –
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.
IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos – como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.
Manoel de Barros – Poeta nascido em Mato Grosso – (Cuiabá)
Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior
“Há tempo para tudo debaixo do sol. Há tempo de escrever; há tempo de calar!”.
Caro “Patrão” Jornalista Carlos Santos,
Por favor, não me “demita” do seu blog. Eu sei que faz tempo que não produzo um texto. Mas, saiba que estou acobertado pela Lei nº 11.770, de 9 de setembro de 2008, que instituiu o programa de empresa cidadã, prorrogando o período de licença maternidade de 120 para 180 dias, ou seja, de quatro para seis meses.
Assim, se levarmos em conta que a minha última “gestação e trabalho de parto” foi exatamente em setembro de 2012, veja que estou dentro do prazo, perfeitamente dentro da Lei. Portanto, só em março de 2013 é que eu teria que produzir mais um filho…
Sim! Meu caro, não tenha dúvida: um texto é como um filho. Muitas vezes, passa nove meses em nossa cabeça – esse útero terrível, como nos ensina Rubem Alves-, pois “Dela tanto pode sair flores e borboletas quanto charcos e escorpiões. De vez em quando ela é invadida pelos demônios das catástrofes e dos horrores”… Outras vezes, a gestação é interrompida e o parto precoce – repleto de contrações e dores-, faz nascer a criança que estava dentro de nós.
Confesso. Admiro sim, quem consegue ter filhos, e escreve como Dipirona: de seis em seis horas. Haja coragem de pagar pensão alimentícia!… Mas não é o meu caso. Talvez por ser cirurgião e também por ser admirador de Nietzsche, só consigo valorizar aquilo que é escrito com sangue, pois sangue é espírito. Imagine, então, caro patrão, se todo dia eu escrevesse, estaria tão anêmico, que nem todas as bolsas de sangue do HEMONORTE restauraria o meu hematócrito… E sem hemoglobina não há oxigênio; sem oxigênio, o filho é um natimorto…
Portanto, desculpe-me o meu egoísmo. Mas, só escrevo quando tenho vontade. Quando a dor é tão intensa que nenhuma morfina é capaz de aliviá-la. Pois ter filhos, caro “patrão”, é doloroso. Escrever é estar doente dos olhos… O prazer da criação e a dor andam juntos, são irmãos gêmeos.
E, por favor, caro “patrão” não me condene pelo meu egoísmo. Até porque se só escrevo para mim é porque escrevo para todos. Como? Aprendi isso com o magnífico Orhan Pamuk, prêmio Nobel de literatura, no seu belo livro “A maleta de meu pai”:
“Para mim, ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos; tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura. O escritor fala de coisas que todos sabem, mas não sabem que sabem… Se ele usa suas feridas secretas como ponto de partida, consciente disso ou não, está depositando uma grande fé na humanidade. Minha confiança vem da convicção de que todos os seres humanos são parecidos, que os outros carregam feridas como as minhas.”.
Por isso que Guimarães Rosa tem razão quando diz que cada um de nós tem um grande SERTÃO dentro de si… E é por causa desse sertão, que muitas vezes somos incompreendidos, criticados e ridicularizados, já que ninguém sabe o que se passa dentro de cada escritor, durante a sua gestação.
Então, muitas vezes, querem nos corrigir: “Retire essas reticências todas! Acabe com tantas citações, elas nos cansam!” Ora, caro patrão! Veja que todo filho tem que ser mesmo imperfeito. Se Deus quisesse a perfeição não teria feito tantos ingratos, desonestos, mentirosos, oportunistas, invejosos, sanguessugas, etc. etc. E uma raça pura, sem defeitos, não era o que Hitler preconizava?! Por isso, tenho medo da eugenia!
Além disso, caro “patrão”, é bom lembrar que todo escritor tem as suas manias. Enquanto, Faulkner só escrevia pela manhã; Hemingway escrevia de pé. Já Balzac só escrevia bebendo café; e o que dizer de Schiller que guardava na sua escrivaninha maças podres cujo cheiro o embriagava e o estimulava… Eu, arremedo de escritor, mais para “ladrão de citações”, não poderia ficar para trás.
Veja caro “patrão” – e que fique como um segredo só entre nós-, mas a minha inspiração ocorre nos momentos mais inoportunos: ou quando estou debaixo do chuveiro ou dentro do elevador, rumo a uma reunião importante.
E quantas não foram às vezes que tive de interromper o banho e sair todo ensaboado do box, pegar uma caneta, papel e escrever o que a cabeça começava a parir; ou ainda ter que voltar do estacionamento do meu prédio e sentar em frente ao computador, para escrever… Acho que dentro de mim – já que somos muitos como diz o poeta Manoel de Barros: “Eu sou muitas pessoas destroçadas!”-, tem alguém que não gosta de banhos ou de cumprir horários…
Pois bem! Depois de todas essas explicações, espero que o meu processo de “demissão” seja interrompido e que o meu espaço no seu blog (//blogcarlossantos.com.br/) continue o mesmo. Afinal, qualquer tribunal de trabalho dará ganho de causa ao meu pleito.
E eu sei que embora processos não lhe intimida, já que estás respondendo aos 9.865.489 (nove milhões oitocentos e sessenta e cinco mil quatrocentos e oitenta e nove) processos movidos contra a sua pessoa pela antiga gestão municipal de Mossoró, não seria melhor não aborrecermos a justiça com mais essa pendenga?
Até porque outro dia, logo após assistir ao filme “O terminal”, com Tom Hanks, que conta a história de um viajante que impedido de entrar no EUA, passa a viver dentro de um aeroporto, fui dormir e sonhei com uma versão jerimum caboclo: os oficiais de justiça do país de Mossoró, cansados de levarem intimação para o jornalista Carlos Santos, resolvem fazer um abaixo assinado, pedindo que você passe a morar nas dependências do fórum de justiça, pois assim economizaria o tempo deles e também as árvores da mata amazônica… A cabeça é ou não um útero?!
Ah! E não se esqueça do meu pagamento, afinal não acertamos que a sua amizade era o meu salário?! Então, venha a Natal tomar um café e colocaremos as noticias em dia, ok?
Abs, do seu empregado Edilson Pinto.
Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor


