domingo - 13/08/2023 - 04:24h

Pequenas grandes coisas

Por Marcos Ferreira

A noite estrelada (Vincent Van Gogh)

A noite estrelada (Vincent Van Gogh)

Preciso dizer que não é rotina, algo corriqueiro. Mas, a exemplo de muita gente, tenho pensamentos negativos. Às vezes minha cabeça é um poço escuro, solitário, nebuloso. Os motivos, embora alguns considerem tolos, são complexos. Há sensações que os meus ombros nem sempre conseguem suportar. Então, como quem busca um alívio, eu reflito. E, mesmo sem muito entusiasmo, recordo que o Sol brilha e aquece nossos corações e sonhos. Por mais pessimistas que sejamos.

É necessário que a gente lute, reaja. Ainda que tudo pareça desfavorável ou perdido. Que o vento desta manhã radiante carregue as sombras, o pessimismo, o desânimo. Ora desejo a cantoria dos pássaros, o macio e distante passeio dessas poucas nuvens branquinhas que pontilham o infinito azul do céu. Hoje estou de bem comigo, com a vida, com o mundo. Não quero conflitos. Somente paz.

Logo mais à noite teremos a Lua e toda uma infinitude de estrelas cujo brilho nos é dado gratuitamente desde que o mundo é mundo, sem nos cobrar um centavo por isso. Ao contrário das companhias de luz elétrica, as estrelas, o Sol e a Lua não exigem taxa de iluminação pública. Você já parou para olhar o espaço em uma noite estrelada? Quanta vastidão! Quanto poder sobre as nossas insignificantes cabeças! Nossa geração cabisbaixa está habituada demais ao asfalto e paralelepípedo.

Você tem se permitido ler ou ouvir um bom poema? Não sei dizer. Porque a poesia, assim como o pipilar e o voo dos passarinhos, não é prioridade, não se vincula ao seu campo de interesses, ao seu percurso nem à sua vida apressada. O trabalho, os eventos sociais e os bares talvez sejam sua única busca e destino. Quando foi a última vez que você tomou um banho de chuva, hein? Não sabe.

Ninguém é obrigado a nada. De jeito algum. Não vim aqui dizer o que você deve fazer ou deixar de fazer. Cada um procura por aquilo que lhe é mais importante.

Quanto a mim, no entanto, preciso dessas pequenas grandes coisas que a vida e a Natureza têm a nos oferecer. Lembrar desses aspectos de nossa existência me fortalece até quando a minha alma se encontra de joelhos. É preciso que todos busquemos as nossas razões para seguirmos em frente. Tenho buscado as minhas.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 06/08/2023 - 08:20h

Olhos profundos

Por Marcos Ferreira

Getty Images (Foto ilustrativa)

Getty Images (Foto ilustrativa)

Talvez o leitor já esteja farto desse assunto. O assunto dos necessitados, das pessoas que estão por aí na pior, na pobreza extrema, caídas na sarjeta. Talvez eu tenha batido demais nessa tecla. Ah! Que se exploda o teclado!

Naquele dia (já era noite, aliás) fui a um supermercado próximo à minha casa. Fiz algumas compras, especialmente itens para abastecer a geladeira, e me encaminhei ao pátio, onde eu havia deixado a minha moto. Foi aí que avistei, sentadinha na calçada, à meia-luz, uma criança de uns oito ou dez anos. Pareceu-me entregue à própria sorte, rifada entre os perigos e armadilhas desta cidade violenta.

Hoje, transcorrido mais de um mês, resolvi escrever sobre tal encontro. A demora se deve ao fato de que fiquei impactado, congelei, travei enquanto cronista. Isto justamente porque aquela garota não era qualquer uma. Muito diversa dos menores de rua que sabemos existirem na maior parte do mundo. Apiedado, aproximei-me dela. Talvez eu pudesse ajudá-la de algum modo. Sim. Estou convicto de que, muito ou pouco, cada um de nós pode mitigar o padecimento dos desvalidos.

Portanto, como eu ia dizendo, acheguei-me até à frágil desconhecida. E essa aproximação me revelou alguns detalhes graciosos quanto amenos daquela menininha negra, de uma beleza singular. Seus olhos eram garços, magnéticos, profundos, entre o verde e o azul, emoldurados num rosto belo, quiçá exótico.

De certo modo, vale a pena citar, a guria não estava de todo sozinha. Entre seus braços, carinhosamente, segurava um lindo gatinho preto cujos olhos também eram de um azul intenso, luzidio. Um sugeria proteger o outro. Todavia, neste município notoriamente classificado como um dos mais perigosos do planeta, a situação em que ambos se encontravam inspirava temeridade. Ao menos a mim. Tentei conversar com ela, afagar o bichano, mas se retraiu, naturalmente me fazendo compreender que eu não devia ultrapassar o limite do solilóquio a que me restringiu.

Cabelos ondulados caídos nos ombros, miudinha e assustadiça, vestia umas roupinhas humildes e calçava sandálias de borracha. Ainda assim, sobrepondo a humildade, tinha um aspecto íntegro, malcuidada, mas altiva.

Lá estavam aquelas duas criaturinhas ignoradas numa calçada do estacionamento, junto a uma parede. Consumidores de sortidos naipes e perfis iam e vinham sem dar pela presença de ambos. Os pequenos pareciam como que invisíveis à percepção da apressada clientela. Fiz-lhe algumas perguntas e ela me respondeu apenas balançando a cabeça afirmativa ou negativamente. Por exemplo, expressou um não quando lhe indaguei se gostaria que eu lhe comprasse algum alimento.

Não quis. A seguir, porém, ao inquirir se aceitaria um salgado, meneou a cabeça de modo afirmativo. Botei minhas compras no chão, pertinho dela, e voltei para o supermercado no intuito de comprar a iguaria que ela aprovara. Naquele horário, quase oito horas, já não havia no balcão dos salgados muitas opções. Poucas, na realidade. Restavam tão só uma fatia de pizza de calabresa e um rissole de queijo. Peguei os dois, além de uma garrafinha de suco supostamente natural, e fui mais uma vez ao também suposto caixa rápido. Ao todo demorei uns quinze minutos.

Quando cheguei ao local onde os deixara, para minha completa decepção, encontrei unicamente as três sacolas com minhas compras junto à parede. Aquela enigmática dupla havia sumido. De tal maneira que não possuo convicção do que vi. Então, se alguém tiver alguma notícia do paradeiro de ambos, da bela pequenina e do seu lindo gatinho de olhos azuis, gentileza comunicar a este cronista.

Não faço ideia de onde estejam a esta hora, ou se existem só na minha imaginação, contudo, não sendo outra de minhas fantastiquices, sinto que necessitam de nosso amparo. Pois nesta terra, hoje tão marcada pela violência, ouso dizer que até os fantasmas correm perigo. Imaginem dois seres naquelas condições. Depois de um mês e poucos dias, enfim, não tenho nenhuma certeza sobre coisa alguma.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 30/07/2023 - 14:38h

Musa morta

musa, mulher, fêmea, feminina ilustração maiorPor Marcos Ferreira

Sem nome, sem respeito, malfalada;
Com tinta no cabelo, um dente escuro.
A boca muito rubra quanto usada
No leito coletivo, atrás do muro.

O vício do cigarro e tanto nada
No olhar daquela vida sem futuro…
A cruz dentro do peito, ensanguentada,
Um feto sepultado no monturo.

A perna com platina… A tosse feia
-O busto avantajado de baleia,
A voz muito sonora, mas confusa.

Portanto, assim morreu na primavera
(Doente de si mesma e de quimera),
Na casa do meu peito, a minha musa.

Marcos Ferreira é escritor

*Extraído do livro “A hora azul do silêncio” do mesmo autor.

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Categoria(s): Poesia
domingo - 23/07/2023 - 06:34h

A hora azul do silêncio

Ilustração

Ilustração

Por Marcos Ferreira

No coração da noite segue uma tristeza

Com passos muito lentos e desmotivados,

Enquanto novamente a solidão retesa

A corda no pescoço dos abandonados.

 

Porém, no meu silêncio, com a luz acesa,

Eu vejo a roda-viva dos sonhos alados

Girando e espatifando toda natureza

De santos e demônios por todos os lados.

 

Também eu sei da vida azul dos vaga-lumes

Com suas lanterninhas, loucos de ciúmes

Da Lua sonolenta, que nunca se importa.

 

E tarde, na penumbra, junto à minha cama,

Reparo que um fantasma de mulher me chama

Ao reino vaporoso de uma deusa morta.

Marcos Ferreira é escritor

*Soneto originalmente publicado no livro “A hora azul do silêncio” do próprio autor.

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domingo - 16/07/2023 - 04:10h

Verbo sertanejo

Por Marcos Ferreira

Zenóbio Oliveira faleceu na última quarta-feira (Foto: cedida)

Zenóbio Oliveira faleceu na última quarta-feira (Foto: cedida)

Escrevi, talvez há três semanas, uma pequena crônica que intitulei de “Vida fugaz” (veja AQUI). Tratava, obviamente, sobre o quanto a nossa despedida deste plano terreno pode ser precoce e repentina. Ou seja, discorri acerca de algo que todo mundo está careca de saber. E por qual motivo (indagarão) volto a requentar esse tema? Retomo tal assunto porque na quarta-feira passada, como foi divulgado pela imprensa, perdemos mais um poeta relevante: o jornalista e cinegrafista Zenóbio Oliveira (veja AQUI).

Sim, a arte poética está de luto. Arrebatado por um infarto inapelável, o autor de Verbo sertanejo, seu primeiro e único livro de poesia, partiu e deixou por aqui um sem-número de admiradores e amigos. Pois, além de homem de letras e competente repórter cinematográfico, Zenóbio era uma figura humana das melhores, benquista em todos os segmentos sociais e profissionais por onde passou.

Pena que somente hoje estou repetindo o que é público e notório. Com o mesmo atraso com que outros indivíduos teceram justos e oportunos depoimentos sobre o profissional e vate das Aguilhadas. Temos (salvo pequenas exceções) essa lamentável tradição de só louvarmos, valorizarmos os nossos artistas depois que estes são chamados para o além-túmulo. Então, a exemplo de alguns, findei não dizendo ao sonetista de “Trajetória”, não ao menos com a merecida ênfase, quanto respeito e admiração eu tinha por sua pessoa e arte da escrita. Deixei isso para depois e depois.

É verdade que vez por outra me deparei com ele nas redes sociais, de maneira que nossa relação nunca foi próxima fisicamente. Melhor dizendo, jamais sentamos à mesa para um café e trocar umas ideias, bater um papo. Permito-me dizer, entretanto, que nutríamos um pelo outro, sobretudo enquanto sonetistas, gênero que Zenóbio Oliveira cultivava com rara mestria, uma estima recíproca.

Então, para desfalque de nossa literatura, perdemos o escritor de Verbo sertanejo. Era bom no que se propunha a realizar. Em especial na debulha do verso. Seus sonetos e sextilhas, entre outras formas versíficas, estão aí para comprovar o que digo e todos admitem. Sabia rimar e metrificar de verdade. Não era (aqui não aponto ninguém) autor de cordéis do pé-quebrado. Até qualquer dia, poeta!

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 09/07/2023 - 04:34h

Boi de piranha

Por Marcos FerreiraBoi de piranha

Hoje em dia, cansado de guerra, tenho enorme dificuldade de me ocupar com a vida alheia. Especialmente a de políticos, celebridades e subcelebridades. “Você é o famoso quem?”, às vezes pergunto em silêncio. Então, por mera higiene mental, busco tratar de outros assuntos quando escrevo. A exemplo desta crônica que versa justamente acerca de minha certeza de que não vale a pena oferecer palanque a determinados indivíduos.

Porque já existem tantos sujeitos por aí descendo a ripa na cuca de fulano e beltrano e outra ruma lambendo os bagos dessas pessoas, que me sinto inútil, um risco n’água. É como servir de isca, ser usado como boi de piranha.

Isto não quer dizer (prestem bem atenção!) que tudo o que se escreve nos periódicos ou se estampa nos veículos de mídia televisiva é futilidade. Não. Nem oito nem oitenta. Considero razoável, porém, que exista um meio-termo, um equilíbrio. Digo isto por conta do besteirol (principalmente o da televisão com alguns programas de auditório) que me embrulha o estômago.

Sei, evidentemente, que se trata do estômago de uma minoria. E haverá quem nos tome por caretas, quadrados, etc. Pois a boiada que se deixa tanger por essas atrações é qualquer coisa esmagadora.

Repito que não estou generalizando. Seria injusto. Nem só de besteiras é constituído o globo midiático. Há exceções em toda parte e cabe a cada um escolher para si o conteúdo que lhe interessar. A impressão que tenho, no entanto, é que as opções vão ficando mais escassas a cada dia. Tanto que muito raramente assisto a alguma coisa da promíscua TV aberta, onde todo cuspidor de microfone é artista genial, fora de série, galáctico.

Por essas e por outras, vejam só, é que de quando em quando também me irrito, os nervos tremem e me dá vontade de descer o malho, apontar essa ou aquela estrela, dar nomes aos bois que formam a referida manada fútil.

Conforme prometi, não vou atacar nem defender ninguém. Quer seja no campo artístico ou na seara da política partidária. Não me permitirei cair em tentação, deixar-me envolver na pancadaria nem na bajulice. Temos elementos qualificados, competentes, com estômago forte para enfrentar esse métier. Não serei eu, enfim, a me queimar com terceiros enquanto fulaninho fica só na moita, dando corda aos incautos.

Hoje quero paz, sossego. Chega de guerra e de me sacrificar pela boiada. Cansei. Quem quiser que enfrente o cardume e se entenda com as piranhas.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 02/07/2023 - 07:28h

Águas passadas

Por Marcos FerreiraÁguas passadas - Marcos Ferreira

Desde há muito (em sua quase totalidade) que os jornais morreram, bateram a caçoleta, deram o último suspiro. As revistas, também. Ao menos os veículos impressos. Aqui e ali, no entanto, um ou outro estrebucha, persevera, nega-se a jogar a toalha, fechar as portas. Algo louvável, contudo embalde. A debacle não faz acordo, não parcela dívidas, não perdoa as rescisões trabalhistas que não foram honradas.

Então a mídia física arqueja, vai caindo uma após a outra como moscas de tinta e celulose. O rolo compressor dos sites, portais e blogues é duro, imparável. Mas isso é notícia velha, com cheiro de mofo e naftalina. Não é possível corrigir, reeditar o tempo.

O mundo sabe bem que a era do papel, em se tratando de informação, perdeu o seu reinado, chegou ao fim. Exatamente. Um buraco negro se abriu sob os pés das redações e tragou todo um universo de história e progresso. O que outrora era solidez, futuro, de repente se transformou em velharias.

O império ruiu, acabou-se, foi engolido pela modernidade e tecnologia. Até o livro físico está ameaçado. Livrarias emblemáticas, importantes, tradicionais, estão falindo em toda parte.

Ao longo da corrente “internética” foi arrastada a fina e simpática categoria dos colunistas sociais. Sim, o glamour também sucumbiu entre as engrenagens das rotativas. Hoje, para o bem ou para o mal, cada indivíduo é dono de sua própria coluna e expositor de caras e bocas, ideias e babados.

Perdemos (quase por inteiro) a elegância, a finesse desses informantes das boas-novas, divulgadores do sucesso e pujança alheios. Já ninguém procura fulano ou beltrano para se informar da vida luxuosa, endinheirada e chique dos colunáveis. Porque todos os assuntos, rostinhos e sorrisos se transferiram para as vitrines das redes. Fato definitivo, irreversível.

Sou mais um que se adaptou. Pulei de ponta-cabeça nas águas da blogosfera. Saí de uma barulhenta máquina de escrever para um notebook que ora está com quinze aninhos, caducando, com velocidade e jeitão de jabuti. Possuo minhas contas no Facebook e Instagram e me considero um elemento em sintonia com os tempos modernos, embora ainda saudoso dos jornais e revistas que a gente buscava nas bancas. Águas passadas. Agora espero somente pelo link desta crônica.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 25/06/2023 - 05:54h

Vida Fugaz

Por Marcos FerreiraVida fugaz

Antes, ao ir contar o cabelo, eu achava ruim quando, aqui e acolá, caía um fiozinho branco sobre o pano. Hoje, trinta anos depois, fico contente se, vez por outra, um fio preto despenca sobre o tecido. A barba negra e macia de outrora virou uma moita branca, espinhenta, hirsuta. Ah, como é perverso o tempo! Contra tudo atenta. Até contra o mármore dos campos-santos, o aço e o ferro. Imaginem contra nós, seres provisórios, passageiros, presas fáceis dos calendários e relógios. Ainda há quem diga que faz certas coisas apenas para passar o tempo. Tolice. Nós é que passamos, enquanto ele segue íntegro, irredutível, indomável, sem que lhe possamos pôr um freio.

Quando jovens, afoitos, cheios de pressa e desperdício, tínhamos a mais completa certeza de que todo o mundo e os relógios giravam a nosso favor. Torcíamos pela chegada disso e daquilo, contávamos as horas, dias, meses e anos, por exemplo, para atingirmos a maioridade e adquirirmos uma cédula eleitoral, uma carteira de habilitação. Ora! Quanta ingenuidade! Não fazíamos ideia do terreno movediço em que estávamos pisando, da areia fininha a se filtrar na cintura da ampulheta.

Alguns de nós já nos metamorfoseamos. De belas, rútilas e doces uvas nos transformamos em ameixas secas, engelhadas, azedas. Perdemos (não todos) a doçura e, em determinados casos, até a ternura. Como é perverso o tempo, senhoras e senhores! A juventude, permitam-me a metáfora, é uma distraída gazela cruzando águas fervilhando de crocodilos. Nunca a coitadinha alcançará a outra margem.

Assim também somos nós, gazelas bípedes, vulneráveis, sujeitas à abocanhada fatal e ao giro da morte a qualquer instante. Poucos realizam essa travessia ilesos, sem nenhuma cicatriz na carne ou na alma. Felizes os que conseguem envelhecer dignamente.

Toda sorte de limitações é destinada aos sobreviventes. Algumas, em grau menor; outras, em grau maior. A longevidade é um luxo e uma bênção. Ainda assim há cobranças inegociáveis: quando não caem, os cabelos embranquecem; as pernas ficam bambas; os joelhos emperram; a vista se torna curta; a audição diminui. Até a voz, num e noutro indivíduo, fica rouquenha, nasalada. Ninguém pode contar vantagem diante do tempo. Mais cedo ou mais tarde ele nos pega. Não perdoa.

Cadê o pulmão de atleta, a musculatura rígida, a libido infalível? Nenhuma sombra ou vestígio. Porque tudo é passageiro, fugaz, transitório. Refugiamo-nos nas recordações, no acervo afetivo. Ao menos aqueles que dispõem de boas memórias para reprisar. Então praticamos mil e uma ações para nos sentirmos produtivos.

Engendramos filhos, criamos netos, deitamo-nos tarde, levantamos cedo. Porque de repente descobrimos que já passamos pela cinturinha da ampulheta e que a areia que nos resta é bem pouca. Buscamos atrasar o relógio, ludibriar o calendário. Mas o tempo não tem nada de bobo. Nós é que somos tolos ao achar que damos as cartas.

Isso, no entanto, não é uma descoberta. É fato revelho e notório. Temos mais passado que futuro. Aí começa a corrida em busca da imortalidade de nossa biografia. Fulano decide escrever um livro, sicrano pinta uns quadros, beltrano compõe uma música. É um deus nos acuda. Porque estamos morrendo. Mais cedo ou mais tarde.

Todavia a perpetuidade da alma é um alento. No fim das contas compreendemos que só o amor nos torna imortais, nos eterniza. Amar é viver além da morte.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 18/06/2023 - 08:38h

O enigma de Sherlock

Por Marcos FerreiraSherlock Holmes (1)Logo que abriu o portão, por volta das nove da noite, Emília Reis avistou o corpo amarronzado no fim da garagem. Seu coração disparou de imediato. Aquele era um típico siamês, adotado ainda pequenino nas ruas, contudo se tornara bastante bonito e não menos mimado por sua tutora. Depois da separação, além da casa e do carro, ela ficara também com Sherlock. Eis o nome da vítima. Emília desceu do carro aos prantos.

— Oh, Senhor! Não me tire o meu Sherlock!

Tarde demais. Porque o Altíssimo, que tudo sabe, tudo vê e tudo pode, deve ter assuntos mais urgentes para se ocupar no Reino dos Céus.

Perto da boca do animal estava uma pequena poça de sangue. Não muito distante se encontrava um rato de médio porte também morto. Então, ao contrário das intrincadas histórias do famoso investigador (o guapo detetive Holmes) ali não existia nenhum mistério que valesse a pena ser averiguado.

A causa da morte do protegido daquela mulher era algo de uma clareza solar. O aclamado britânico não se prestaria a solucionar o óbvio, pois o sinistro se tratava de uma evidente fatalidade. Concluiria que Sherlock fenecera por envenenamento graças ao rato, que terminou de morrer nas garras do bichano.

Secretária da Universidade Estadual de Vila Negra, a jovem senhora saíra mais cedo àquela noite, visto que habitualmente deixava o serviço às dez. Nessa ocasião, acometida por uma enxaqueca que resistia aos analgésicos, largou o expediente antes do horário costumeiro. Passados quinze ou vinte minutos sobreveio o choque.

Depois de tocar em Sherlock e constatar que o corpo se enrijecera, ela desmoronou e decidiu que o enterraria no quintal. Seria isto o mínimo que ele merecia. Então, com os nervos muito abalados, sentiu que não seria capaz de realizar o sepultamento de Sherlock.

Lembrou-se do vizinho Fernando, motorista de táxi morador de uma residência defronte à sua. O problema era que Fernando quase não parava em casa, isto devido àquela atividade e à numerosa clientela. Portanto, seria uma sorte encontrá-lo. Ainda assim, desnorteada e com o rosto banhado de lágrimas, foi até lá. Bateu ao portão, chamou pela esposa do homem, com quem tinha maior intimidade, e em breve o portão foi aberto.

— Pois não, senhora Emília — falou Fernando.

— Graças ao bom Deus, você está em casa!

Ela continuava com os olhos lacrimosos.

— O que aconteceu, vizinha. Posso ajudar?

— Meu Sherlock morreu. Foi envenenado.

— Lamento. Geralmente é por conta de ratos.

— Sim. Tem um morto na minha garagem.

— O que deseja que eu faça? Pode dizer.

— Eu gostaria que o enterrasse na parte de trás do meu quintal. Desculpe lhe pedir uma coisa dessas, mas não posso simplesmente jogá-lo fora.

— Farei o que deseja. Eu tenho uma pá.

— Desculpem mesmo por incomodá-los.

— Não se preocupe. Darei conta do serviço.

No próprio instante em que Fernando abriu o portão, Navegantes, sua mulher, já estava ao seu lado e ouviu toda a conversa. A moça convidou a vizinha a entrar, ofereceu-lhe um pouco de água, todavia ela recusou, alegando que precisava acender a luz de trás. Então, de posse da sua ferramenta, Fernando foi abrindo a cova, cuja terra era um tanto fofa.

Daí a pouco, antes que o homem enterrasse o siamês, Emília entregou ao taxista uma pequena toalha e pediu que Sherlock fosse embrulhado nesta. Dessa maneira o vizinho procedeu. A cova, com aproximadamente setenta centímetros de profundidade, talvez não fosse tão funda, mas era o bastante para sepultar aquele cadáver com cerca de um ano.

No dia seguinte, antes das seis horas, a mulher se levantou ainda entristecida e foi dar uma olhada no local onde Sherlock fora enterrado. Nesse instante ela tomou outro grande susto. Pois, de maneira bizarra, havia sobre a sepultura uma bela e pequenina roseira de flores miúdas e vermelhas. Atônita, impactada, de novo foi à residência dos vizinhos, apesar de ser demasiado cedo, e narrou ao casal o que havia encontrado.

— O que quer que eu faça dessa vez? — indagou Fernando. — Continuo à sua disposição. Quero ver isso. É algo de fato inexplicável.

— Preciso que você desenterre o Sherlock, por favor! Do contrário, meus amigos, eu sei que não terei mais sossego. Como pode uma planta desse tipo nascer assim, da noite para o dia, justamente sobre a cova do meu gatinho?

— Vou buscar a pá — disse Fernando, intrigado.

O rapaz primeiramente arrancou a roseira pela raiz, que não era tão arraigada. Após foi reescavando com cuidado, paleando a terra úmida até o ponto onde se esperava encontrar o corpo do felino. Daí a pouco, para a surpresa geral, Fernando retirou do buraco (totalmente intacta) nada mais que a toalha. Não se imagina como Sherlock desaparecera. Quem sabe esse seja um mistério para o célebre detetive desvendar.

A partir de agora, talvez, o senhor Holmes decida voltar os seus talentos investigativos para o sumiço do bem-amado Sherlock e o repentino aparecimento da roseira. Como se sabe, há um provérbio que diz que os gatos têm sete vidas.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 11/06/2023 - 08:36h

Tabaco

Por Marcos Ferreirafumante, cigarro, foto

O médico explicou a situação pormenorizadamente, os dedos e mãos peludos cruzados sobre o birô. Por sua vez, estarrecido, Alcides ouviu tudo cabisbaixo, consentindo com a cabeça, de quando em vez, o linguajar cientificista do doutor. “Puta que pariu! Estou fodido!”, pensou o enfermo num impulso de revolta. Sessenta e dois anos. Agora tomava aquele baque. Deixara o cigarro havia cerca de duas décadas.

O oncologista continuou com as explicações, apontando os caminhos e os procedimentos a serem adotados dali por diante. Alcides moveu a cabeça de novo, agora de forma desalentada. A voz do outro lhe parecia longe, sumida.

— Sabe, doutor… Isso só pode ser um castigo — lamentou-se. — Pois larguei aquele maldito há vinte e dois anos, para lhe ser exato.

— Casos desse tipo não são raros, senhor Alcides — argumentou o experiente médico reposicionando os óculos sobre o nariz agudo. — Pessoas que abandonaram o tabaco antes que o senhor são surpreendidas desse modo. Há quem fume a vida inteira e morre devido a enfermidades que não têm nada a ver com fumo.

— É um castigo, doutor. Decerto mereço.

— Em outras palavras, trata-se mais de causa e efeito. Isso, contudo, não é regra. Existem na literatura médica diversos registros de indivíduos que nunca fumaram e adquirem câncer de pulmão. Acho isso uma ironia perversa.

Ele se lembrou dos negócios, da próspera empresa de laticínios, rentável, esbanjando saúde financeira. Pensou ainda em Ramona, esposa do segundo casamento, morena e bonita, trinta anos mais jovem, com a qual não tivera filhos.

Já trêmulo, olhos marejados, perguntou:

— Quanto tempo me resta? Pode ser franco.

— Com o tratamento, pouco mais de um ano.

O empresário deixou a clínica aniquilado. Lançou no canteiro o jato de vômito. Um sujeito saiu para fumar e ele pediu-lhe um cigarro.

Morreu após dez meses. O vício entre os dedos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 28/05/2023 - 04:44h

Por que escrevemos

Por Marcos FerreiraPor que escrevemos #

Todo domingo é assim. Pomos a cara fora e tratamos sobre um monte de assuntos. Há uns que caem no gosto do público leitor, e o cronista é logo aplaudido por seu texto. Pois bem. O Blog Carlos Santos (Canal BCS) é isto: um reduto desses intelectos, e atrai pessoas dos mais diversos estratos humanos e níveis críticos. São um show à parte os comentários vistos no espaço reservado à opinião dos leitores.

Assim como eu, alguns articulistas se autodenominam escritores. Não tiro a razão de ninguém. Já outros, mais contidos quanto modestos, preferem informar suas profissões e status curriculares. Para os quais tiro o chapéu.

Aos domingos, então, expomos nossa escrita acerca de um sem-número de temas. Há aqueles, todavia, que se atêm a um determinado campo temático, a exemplo do doutor Marcelo Alves Dias de Souza, aguçado bateador da história da Literatura e dos seus autores, tanto os bambas das letras nacionais quanto estrangeiras. Temos também a verve suave e envolvente do cronista Odemirton Filho.

Vez por outra é François Silvestre quem ataca com uma crônica, artigo ou poema neste espaço. François, com legitimidade, é mais um que se declara escritor. Possui biografia, histórico e estatura para dizer-se como tal.

Temos, ainda, o não menos doutor e professor Marcos Araújo, cuja inteligência e mérito literário não ficam a dever a nenhum de nós. O mestre Honório de Medeiros é outro que volta e meia dá o ar da graça com uma página de apreciável rutilância. Semana passada deu-se a estreia do ilustrado Hildeberto Barbosa Filho, professor da UFPB, poeta, escritor e membro da Academia Paraibana de Letras.

Por essa ou aquela razão, enfim, todos escrevemos. Uns com periodicidade definida, enquanto fulano e beltrano comparecem de maneira esporádica, feito procedem o doutor Marcos Araújo e Honório de Medeiros. O importante é escrever, ter onde publicar e contar com o interesse de nove ou dez leitores.

Se me perguntarem por que escrevemos, digo que é menos por dom que necessidade. Abrimos uma brecha em nossas agendas (a maioria possui isso) e nos dedicamos a compor algo com um mínimo de literariedade.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 21/05/2023 - 08:34h

Clauder Arcanjo: leitor-escritor

Por Hildeberto Barbosa Filho

Parece já existir certa bibliografia em torno dos tempos pandêmicos. O confinamento em suas respectivas casas levou alguns escritores a pensar, refletir e escrever, a partir das circunstâncias singulares dessa tragédia que se abateu sobre o mundo e sobre a humanidade.

Clauder Arcanjo (Foto: arquivo)

Clauder Arcanjo (Foto: arquivo)

O isolamento, a solidão, o sentimento de exílio, associados ao medo e à ansiedade diante de tempos tão nublados, como que cria condições especiais para o ato de escrever, de escrever e de ler, numa voltagem mais intensa, sobretudo se pensarmos nos gêneros íntimos e testemunhais.

Ocorrem-me estas considerações porque tenho, diante de mim, o livro Confidências literárias (Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2021), do escritor Clauder Arcanjo, no qual exercita um diálogo com alguns autores e autoras de suas “afinidades eletivas”, primando sempre pelo cuidado poético com a palavra.

Clarice Lispector, Beatriz Alcântara, Emily Dickinson, Walt Whitman, Hilda Hilst, Miguel de Cervantes, Eugênio de Andrade, Nicanor Parra, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa, Cora Coralina, Cecília Meireles, Lília Souza, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Manoel de Barros, Helena Kolody, Marcos Ferreira, Manuel Bandeira, Adélia Maria Woellner e Vinícius de Morares constituem o seleto elenco dos seus interlocutores.

Vê-se logo que Clauder Arcanjo mescla, em suas escolhas, poetas e prosadores, clássicos e modernos, consagrados e desconhecidos, sinalizando, assim, para a riqueza e a diversidade de seu olhar de leitor sensível à variedade dos métodos de produção literária e à particularidade de cada visão de mundo.

Na “Nota ao Leitor”, o autor assinala: “Lembro quando os escrevia, uns três por semana, à época em que estava ´confinado` em um hotel em Vitória (ES), lendo e escrevendo para não enlouquecer, em pleno início da pandemia”, e, num recado mais direto para o leitor, faz este apelo: “Que Confidências literárias o faça (re)visitar as obras dos autores e autoras que me acompanham ao longo da minha vida de leitor-escritor; e que você, assim como eu, sinta-se motivado a se confidenciar com eles (as). A boa leitura nos é altamente inspiradora”.

Sem dúvida: a criação literária tem, na leitura, especialmente na leitura das obras literárias, uma de suas fontes mais ricas e um de seus processos mais decisivos. Quando um Harold Bloom assegura que um poema dialoga ou está em conflito com outro poema; quando um T. S. Eliot afirma que nenhum poeta pode ser conhecido sozinho, ou quando um Jorge Luís Borges fala de precursores desse ou daquele escritor, temos aí o selo de uma corrente unindo vozes e visões.

Clauder Arcanjo é um leitor-escritor e, por isto mesmo, poderia situá-lo muito bem dentro da tradição moderna de uma poética da leitura. Uma leitura que não se esgota na simples experiência emocional ou intelectiva, no indispensável prazer da subjetividade, no estímulo à meditação e ao pensamento, no gozo da sensibilidade e no voo da imaginação. Mas, principalmente, numa leitura que tende a encaminhar o leitor para o desafio da sua própria criação e, portanto, da realização de sua própria obra.

No diálogo com Clarice, há certa altura, escreve o autor: “No sereno da tarde, volto para dentro. Dentro de onde? De mim? De ti? Um silêncio anterior ao mundo dito civilizado. O oco de tudo a me revelar que é preciso abrir mão das platitudes para sentir as altitudes. {…} A literatura é um tributo à loucura de si mesmo”. Já no primeiro parágrafo do diálogo com Whitman, afirma que “O homem sofre de um silêncio absurdo”, e no prosear com Fernando Pessoa, revela: “Preso às obviedades da vida, caminho como se o infinito estivesse à minha frente. {…} E a Poesia teima em renascer, sem metafísica, na esquina menos festejada”.

Atento ao estilo e à técnica, assim como ao universo emotivo e intelectual, de cada escritor, Clauder Arcanjo traz à tona, na medida do possível, as inclinações psicológicas e as atitudes perceptuais de cada um deles, nas suas diferenças e aproximações, ao mesmo tempo em que se descortina a si mesmo, na sua geografia sentimental, nos seus predicados ideológicos e nas suas preferências estéticas.

Fazendo suas confidências literárias, este cearense de Santana do Acaraú, poeta, romancista, contista, editor, convida-nos a uma viagem de volta ou a uma viagem de descoberta pelas páginas artísticas dos escritores que leu e cuja leitura nos sugere, a seu modo também artístico e pessoal.

Hildeberto Barbosa Filho é poeta, escritor e professor da UFPB, além de membro da Academia Paraibana de Letras

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domingo - 21/05/2023 - 04:00h

Música para a alma

Por Marcos FerreiraMúsica para a alma

Neste minuto, como ocorre em parte do meu tempo, aqui me ponho frente o computador redigindo e escutando uma de minhas playlists favoritas. E embora seja melhor ouvir, que tal falarmos um pouco sobre música?

Pode ser um Raul Seixas (Ed Mota, não!) num desses dias em que me encontro inclinado para o pop rock nacional. Também gosto de música americana de vários estilos e épocas. Além, claro, de alguns compositores como Schubert, Debussy, Stravinsky. Esses eu guardo numa caixinha de nome “Produtos Zen”, para quando estou em momentos extramurais, fumando um charuto de metáforas.

Depois da literatura, portanto, música é a lombra salutar de que me permito usufruir com algumas doses de um cafezinho. Ambos aquecem e motivam o espírito deste colecionador de palavras e melodias. Palavras são a essência da literatura. A música é a maternidade das palavras. Ao menos é o que acho.

Um tal de Wolfgang Amadeus Mozart, compositor austríaco, já apregoava que a poesia tem de ser a filha obediente da música. Há quem afirme que é o contrário. Eu, particularmente, prefiro não me engalfinhar nisso.

Fico aqui em meu aconchego, neste cantinho, saboreando muitas dessas canções que ninguém fez para mim. À exceção do poeta cantador Genildo Costa, que musicou uns quatro ou cinco poemas de minha cuca, entre os quais o estrondoso fenômeno “Caminhos Opostos”, com quase dez CDs vendidos. Não é pouca coisa. Pois se trata de um artista outsider, distante dos holofotes da grande mídia.

Agora ouço um tanto do grande Belchior, do qual vai rolando a faixa “Tudo Outra Vez”. Um pouco antes passaram por aqui a Elza Soares e a Gal Costa. Não. Rita Lee ainda não apareceu. Deve estar em outra playlist.

Curto também o choque de gerações. Tenho um gosto eclético, quiçá promíscuo. Daí aprecio artistas insuperáveis como Michael Jackson, Nelson Gonçalves, Elvis Presley, Frank Sinatra, Vicente Celestino, Tim Maia, Caetano, Chico Buarque, Elton John, Lady Gaga, Amy Winehouse, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso. Ah, são tantos e tão bons que me parece ser um risco deitar nomes.

Mas quem, enfim, deseja conhecer o meu gosto musical? É provável, sendo otimista, que pouca gente. Ou, pensando melhor, ninguém. No entanto eu daria todo o meu exercício literário por uma voz e um palco para cantar. Aí a minha alma, como na letra de Gilberto Gil, teria um cheirinho bom de talco.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 14/05/2023 - 07:22h

Cartas do reformatório

Por Marcos FerreiraCartas do reformatório

Peço desculpas aos interessados em amenidades, porém hoje quero discorrer sobre algo um tanto travoso, meio amargo. Mas um amargor diferente do amargor da amargura. Não. Isso não tem nada a ver com tristeza. O travo aqui é puramente abstrato, semântico. Nem tudo o quanto é amargo é desagradável.

Muito bem. Vivemos entre as paredes de um vasto e singular reformatório, invisível a outros que estão trancados em si mesmos. Cada um possui as chaves dos seus portões, contudo quase ninguém se atreve a sair, a encarar o mundo externo. Tal instituição metafórica (ou psicológica) é o nosso porto seguro, o que nos mantém centrados, nos trilhos. É isto que impede que descarrilhemos.

Esse lugar metafísico, fugindo à acepção comum, não acolhe apenas pessoas na menoridade. É outro tipo de espaço, também voltado para elementos adultos, de vários níveis e desníveis mentais. Nele somos amiúde reformados e registramos nossas lembranças desde sempre, sujeitos às suas normas e regras.

Consciente ou não, todo indivíduo vai emitindo suas correspondências nos mais recônditos porões de si próprios. Alguns, entretanto, por “razões que a própria razão desconhece”, como no dizer do filósofo Blaise Pascal, conseguem anular sua psique e aí findam não se tornando uma coisa nem outra, descambando para um abismo de esterilidade e solidão. Esses estão condenados ao nada.

Por meio de algumas cartas, exibo meu ponto de vista sobre o assunto proposto lá no início deste monólogo. Não creio que exista uma plateia interessada em saber o que busco com essa história de missivas. Também não estou bem certo do intuito desta narrativa sem objetividade. Todavia julgo correto sabermos o que somos ou desejamos ser. É mais ou menos o ser ou não ser de Shakespeare.

Então escrevam (embora desprovidos de talento) tudo aquilo que representa a essência de vocês. Até porque, segundo José Saramago: “Todos nós somos escritores, só que alguns escrevem e outros não”. Assim compartilho minhas impressões. Sem pressa nenhuma ou desejo de abandonar o reformatório.

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domingo - 07/05/2023 - 06:26h

Assunto polêmico

Por Marcos Ferreira

Foto ilustrativa

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No meu tempo de criança (não me perguntem quando) a gente era menino besta e pobre e se alegrava com qualquer besteira que vencesse os obstáculos do nosso nível de pobreza. Nem que fosse de maneira provisória. Calma aí! Não vou falar de coisas tristes, de sentimentalismos. Não. Sosseguem o facho. Somente quero contar uma história de algumas almas (pessoas) tal qual a história se deu.

— Sem assunto polêmico! — alguém dirá.

— Certo, vamos adiante!  — eu respondo.

Convém, portanto, que não descambemos para a pieguice. Nada pior do que choramingarmos por brinquedos quebrados ou nunca entregues pelo Papai Noel, aquele velhinho do Polo Norte que supostamente possui o dom da ubiquidade, capaz de estar em diversos lugares ao mesmo instante. Menos onde morávamos. Ali, em vez de chaminé, tinha apenas um fogão a lenha retinto, cheio de tisna.

A infância, por mais precária que seja, é mágica. Embora alguns imaginem que não, também já fui criança. Essa época pueril era motivo de júbilo quando, por exemplo, fazíamos uma simples turnê em uma manhãzinha de domingo no grandioso e único shopping desta cidade: o clássico Mercado Central.

Aquilo era o must, inclusive da classe rastaquera, dos “bem de bolso”, que cedinho acorriam ao Mercado com seus baldes (de plástico ou alumínio) para enchê-los com toda sorte de mercadorias, provisões. Eu, meu pai e irmãos ficávamos meio à margem desse intransponível círculo dos baludos. Isso mesmo!

Nosso orçamento era pequeno, apertado. Aqui apertado é uma modalidade de eufemismo. Porém a vida era modesta e boa. Não importava que o senhor João Batista Figueiredo só soubesse nos mandar apertar o cinto.

Ainda não havia para nós Rita Lee nem Caetano. O Sítio do Pica-pau Amarelo era a estrela que fazia os olhinhos de pirilampo da gente brilharem. Isto quando tínhamos ao menos uma tevê Telefunken em nossa casa.

Televisor, a propósito, era artigo de luxo e durava pouco no lar dos Ferreiras. Porque o meu pai, acossado pela inflação galopante, sempre encontrava um comprador oportunista.

Eis, para a decepção de alguns, o assunto polêmico de hoje. Quem sabe noutro ensejo eu discorra acerca de eutanásia, racismo, vida após a morte, tráfico de pessoas, ou sobre uma certa base de extraterrestres na Antártida.

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domingo - 30/04/2023 - 04:00h

Dinossauros no parquinho

Por Marcos Ferreiraolho de um dinossauro, olho animal

Com receio de ser mal interpretado e agredido verbalmente, pensei duas vezes em abordar ou não o assunto a seguir. É que tomei conhecimento de que agora o Ministério da Cultura, sob a batuta da senhora ministra Margareth Menezes, acaba de lançar um edital para a premiação de obras literárias escritas única e exclusivamente por mulheres.

Ótimo! Palmas para o autor ou autora dessa ideia.

Avaliem só isso. Com recursos milionários destinados a contemplar a intelectualidade feminina, o sensibilíssimo Ministério exclui impiedosamente o trabalho de homens de letras. Claro que concordo em se pensar e executar projetos voltados para as nossas nem sempre valorizadas mulheres no também machista segmento literário.

As senhoras e senhoritas operárias da palavra são mais que merecedoras de todos os incentivos. E que venham outros mais para estimular esse público.

Porém o referido Ministério e o governo petista mostram-se farinha do mesmo saco e findam por dar um tiro no próprio pé. Exatamente. O Partido dos Trabalhadores (com seus gênios e camaleões da cultura) perde ótima chance de apagar a escrita de menosprezo e descaso dos governantes anteriores contra a literatura de um modo geral. Isto porque a produção masculina também sempre foi criminosamente ignorada pelo Estado brasileiro e seus dinossauros de terno e gravata.

Hoje, portanto, os petistas são os mandachuvas, os dinossauros da vez a ocuparem o parquinho dessa poderosa máquina de fabricar coisas boas e outras muito desastrosas, despropósitos e despautérios. Porque criar um importantíssimo e oportuno prêmio literário para promover a produção das trabalhadoras da palavra escrita e não lançar outro edital voltado para os homens é qualquer coisa perversa.

Bom, antes que caia uma chuva de canivetes sobre minha cabeça, vou ficando por aqui. Creio que já corri um grande perigo ao botar o dedo sobre tal ferida. Esse, entretanto, é só o meu ponto de vista. Nada além disso.

De resto, mais uma vez, parabéns aos gênios e dinossauros responsáveis por essa ideia. Tchau!

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domingo - 23/04/2023 - 07:38h

Outras joias

Por Marcos FerreiraIlustração beija-flor e borboletas

Ainda estamos aqui. Claro que estamos. Mas até quando? Não sei. Ninguém sabe. Por isso a importância de vivermos cada dia, cada hora, cada minuto com o máximo aproveitamento. O que não significa dizer com afobação, desespero nem de repente. Vivamos com alguma urgência, contudo sem pressa, sem desperdício.

Degustemos a vida que possuímos de maneira inteligente. Não permitamos que nossa agenda seja pautada por terceiros. Esse tempo livre nos pertence e a mais ninguém. Não deve ser negociado. Então não o gastemos à toa, à revelia. Tenhamos pulso.

É preciso discernimento, cuidado, para distinguirmos prioridades de frivolidades. Apuremos o paladar, agucemos os olhos e os ouvidos. Tudo pulsa, lateja, transpira e também embeleza este planeta a todo momento. Vejam os colibris beijando as flores, prestemos atenção nas borboletas sobre o jardim. Quantas formigas haverá naquele formigueiro ao pé do muro? Não me aventuro nesse cálculo.

Pode não parecer, no entanto aspectos dessa ordem têm um valor inestimável. Importam mais que um carro-forte cheio de papel-moeda ou rutilantes barras de ouro. Besteira, polução noturna dos que sonham e gozam pensando em dinheiro que não lhes pertence, reféns do vil metal.

A vida se constitui de outras joias além daquelas oriundas das minas do rei Salomão ou provenientes da Arábia Saudita. Grana é importante, mas não tanto quanto saúde e amizades sadias. Como disse o poeta Manoel de Barros, o cu de uma formiga é mais importante que uma usina nuclear.

Essas coisas miúdas, supostamente irrelevantes para os homens de corações empedernidos e almas azinhavradas, saltam aos olhos quando se começa a enxergar a vida com sensibilidade. Falo assim, talvez com ar professoral, porém não me tomem por cabotino, alguém que busca atrair para si certos holofotes. Não é isso. Hoje decidi expor gigantescas miudezas que ignoramos no cotidiano.

Peço, ademais, que não confundam esta página com literatura de autoajuda, muito menos produto de autopromoção. Não é nada pior nem melhor que velhas receitas para elevar o próprio espírito, acaso tal medida funcione. Ora exibo meu pensamento com o mesmo pudor com que os gatos ocultam suas fezes.

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domingo - 16/04/2023 - 07:50h

Bocejos

Por Marcos Ferreira

Falei comigo mesmo que hoje eu me levantaria tarde. Afinal de contas é um domingo de uma manhã com grande possibilidade de chuva. Sim. Pode cair um aguaceiro nesta região. Ao menos foi o que alertou a classuda moça do tempo ontem à noite, no telejornal, ensardinhada num belo vestido azul-turquesa.Ilustração para Bocejos

Torço muito por isso. A água se precipitando das alturas! Um convite à preguiça.

Após um longo bocejo, reuni forças e fui ao banheiro. Urinei, fiz uma coroa de espumas, mas a descarga dissipou tudo. Por enquanto, nada de banho! Abri a janela e mal avistei a luz do dia, o sol semioculto por uma manta de nuvens escuras. Fechei a janela. Um vento frio entrando pelas frestas. De volta aos lençóis, toquei no celular: seis e cinco. Não estava nos meus planos acordar tão cedo. Agora, porém, estou aqui entre a cadeira e o teclado a usufruir da nossa língua portuguesa.

O passaredo canta inspirado, remoinha na mangueira do quintal vizinho. A velha e portentosa mangueira de outras citações. À exceção dos bichinhos alados, o silêncio predomina. De vez em quando um veículo ou outro percorre esta Rua Euclides Deocleciano. Gosto dessa quietude.

O sono vai se desprendendo dos meus olhos. Começo, com moderada empolgação, a me fixar nesta página. Hei de ser breve. Almejo não ultrapassar as trinta linhas. Porque é domingo, dia de ócio, de não assumirmos compromissos. Contudo este vício de escrever sempre me captura.

Daqui a uma hora ou mais me renderei à intimação do chuveiro. Passarei um café e o degustarei sozinho, o pensamento vadiando, o olhar distante. No momento não largarei este osso. Pois é, fui derrotado pelo vício de escrevinhar.

A fidelidade, minha devoção às letras, mandou a preguiça embora. E ela se foi sem mostrar cara feia. Sabe que não pode competir com este sacerdócio. Estou relaxado. Ouço música baixinho. À noite, para desopilar, verei um filme besta e espetaculoso.

Começou a trovejar. Vem água por aí. Tomara. Abençoada chuva a lavar a minha alma. Agora me deem licença. Creio que cheguei mais ou menos às trinta linhas. Não quero cansar os olhos de ninguém num dia como este. Prezo pelo respeito ao leitor, patrimônio abstrato. De novo largo outro bocejo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 09/04/2023 - 04:38h

Fatalidades

Por Marcos Ferreira

Hoje, exatamente hoje, completam-se dois anos da trágica morte de um pardal aqui na minha rua. “Que fato irrelevante!” Protestará alguém pregueando a testa, um cristão ou cristã cuja existência é tão concreta e objetiva quanto as quatro operações de aritmética; ciência exata que por anos me assombrou.

Foto ilustrativa

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Entre outras coisas, jamais me dei bem com os algarismos. Mas isso nunca foi novidade.

Bom. Eu falava sobre a morte do pardalzinho. Ocorreu no fim de uma tarde de sábado, 9 de abril de 2021, horas antes do meu aniversário. Sim, aquilo foi uma tragédia. O coitado não teve a menor chance de empreender fuga. Pousou perto do arame farpado. Eu estava na calçada com uma pequena xícara de café. Assisti a tudo. Fiquei perplexo, o coração aos pulos. Súbito um gato marrom irrompeu de dentro do mato que encobria parte da cerca do terreno e capturou aquele ser alado.

Embora eu tenha instintivamente emitido um grito no intuito de assustar o bichano e ele largar o pobre do pássaro, não pude fazer mais nada. Depois de cravar suas unhas e presas na vítima, logo o felino arrepiou carreira, escafedeu-se rapidamente por entre o matagal e eu fiquei estático, a boca semiaberta.

Por causa do meu aniversário, como podem concluir, gravei essa data na memória. Dali há mais treze meses seria a minha vez de me despedir deste plano físico. Fui vitimado por uma bala perdida quando da troca de tiros entre integrantes de uma facção criminosa e homens da Força Nacional.

O tiro, disparado não sei por qual dos lados, entrou pelas costelas e atingiu meus pulmões. Fui socorrido pelos policiais, levado à urgência do Hospital Regional Tancredo Neves, aqui em Vila Negra, mas era muito tarde. Quando acordei eu já estava num caixão, sendo velado em casa.

Presenciei a minha família em lágrimas. Pude sentir o cheiro das velas e das rosas. Vizinhos entravam e saíam, contudo ninguém se apercebeu da minha presença. Meu rosto estava lívido, empalidecido, os dedos cruzados sobre o peito. Não pude ver, claro, o ferimento das costelas. Hoje, enfim, eu me lembro do pardalzinho. Desde então vago a esmo em meio a uma incalculável multidão sem matéria.

— Sinto muito! — talvez alguém diga.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 02/04/2023 - 04:30h

Clube do Cafezinho

Por Marcos Ferreira

Esta semana precisei ir ao banco. Parei diante da porta giratória e dentro de uma caixa em acrílico (creio que fosse em acrílico) larguei alguns pertences que trazia comigo. Eram nada mais que um celular, as chaves de minha casa e algumas moedas embaladas numa fita adesiva transparente. Apenas depois disso foi que a desconfiada porta autorizou o meu ingresso naquele típico reduto do capital.

Foto ilustrativa

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Peguei uma ficha no porteiro eletrônico e, a seguir, tomei uma maçada de quase hora e meia até meu número ser chamado no monitor de televisão afixado no alto de uma parede. Nem sei dizer se toda aquela espera valeu a pena, pois o motivo de eu estar ali era um só: receber um novo cartão do Banco do Brasil. O outro estava vencido e com uma rachadura. Então, para obter esse objeto de importância nenhuma no tocante a dinheiro em caixa, lá estava eu, um cidadão ordinário e igualmente desimportante com uma merreca de setenta e quatro reais na conta-corrente.

Deixei a agência da Alberto Maranhão convicto do quanto o meu viver é uma espécie de zero à esquerda. Hoje me permitam estar assim, melodramático. É uma espécie de trejeito, um cacoete. Imagino que não se trate de vitimismo ou autocomiseração. Como se alguém houvesse perguntado, digo também que no próximo dia 10 de abril (peço que isto fique somente entre nós) completarei cinquenta e três anos de idade. Até o momento, para lhes ser franco, não me tornei outra coisa à exceção de um homem de letras sem relevo nesta terra e menos ainda por aí afora.

O que possuo de valor, outra vez sendo honesto comigo e com um bocado de gente bacana, não é muita coisa material, mas amigos que me têm honrado com sua amizade e consideração gratuitas. Alguns são de longa data, desde 1912, como Antonio Alvino, outros se achegaram não faz muito tempo. Talvez devido à minha súbita mudança de açougueiro do verbo para cronista dominical. Então, feito um sonâmbulo, eu caminhava devagar pela Avenida Alberto Maranhão, escolhendo os passos nas calçadas irregulares desta cidade, pensando à toa numa coisa e noutra.

Meti a mão no bolso, peguei o telefone e consultei as horas: 16:05. Com a mixaria no banco e aquelas moedinhas, cogitei entrar num café e pedir uma xícara da rubiácea. Mas, num reflexo de bom senso, larguei tal ideia e rumei para outro endereço: o do meu próprio casulo, onde uma porção do velho e saboroso moca não desfalcaria o meu orçamento como certamente ocorreria no comércio.

Quem sabe num dia qualquer, acompanhado de cafezistas como Elias Epaminondas, Marcos Rebouças, Odemirton Filho, Rocha Neto, Antonio Railton, Clauder Arcanjo, Carlos Santos, todos esses notórios apreciadores do líquido citado, sentemos para tomar essa bebidinha quente e odorífica. Por onde andarão Mário Gaudêncio, Ayala Gurgel, José Arimatéia, Francisco Amaral Campina, Túlio Ratto?… Estarei feliz ao redor dessas pessoas. Ontem mesmo, antes que eu me esqueça, recebi a visita do Dr. Marconi Amorim. E, evidentemente, tomamos mais um cafezinho.

Marconi veio conferir como ficou esta nova morada da Euclides Deocleciano, 32, fruto, em grande parte, do apoio de amigos. Claro que esta crônica não deveria ser tristonha, como se vê de modo predominante, todavia alguns ímpetos depressivos ainda me acometem, morbidez que combato seguindo as prescrições do Dr. Dirceu Lopes. Então, geralmente devido ao meu estado psíquico, às vezes esqueço do quanto a vida é maravilhosa e este mundo não é tão ruim quanto parece.

Portanto, às quatro e pouco da tarde, lá ia eu um tanto sem rumo, decerto em busca de algum amigo com o qual não havia agendado me encontrar. Realmente não encontrei ninguém, nenhum dos meus colegas batendo pernas.

Entrei no meu lar, tomei um banho, fiz café e bebi uma xícara sozinho. Após uns minutos o telefone tocou. Era o poeta Rogério Dias. Trocamos umas ideias através da invenção de Graham Bell e combinamos em ele vir aqui na próxima semana. Trará os seus apetrechos culinários para produzir algumas de suas boas e famosas tapiocas recheadas. De minha parte ficarei encarregado do café.

No fim das contas, dando o braço a torcer, reconheço que esta tarde não foi nada infecunda. Vez por outra, cheio de caraminholas, é o meu quengo que inventa as penas em que vivo, como no belo soneto de Olavo Bilac.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 26/03/2023 - 04:34h

Grilos e grilhões

Por Marcos Ferreira

Então, como um pássaro cativo, eis que a gente se vê entre as grades de uma gaiola chamada vida em sociedade. Nessa gaiola, que também podemos chamar de tempo, somos prisioneiros de uma série de rigores e ditames. Temos que obedecer a isso e àquilo. Do contrário, se nos rebelarmos, cortarão o alpiste do final do dia ao começo da manhã. Talvez até por período mais longo. Não duvidem.Ilustração grilos e grilhões

Alheios ao cativeiro, os notáveis cidadãos de bem vivem nas suas bolhas prisionais, crédulos de que têm algum poder sobre terceiros e que mandam em suas próprias existências. Não. Todos estão numa só clausura. É verdade, todavia, que uns dispõem de melhores casas de detenção. Esses possuem tornozeleiras eletrônicas e têm especial liberdade para deixarem suas penitenciárias residenciais e curtirem a noite sem serem incomodados por nenhuma autoridade policial ou judiciária. A esses é imposto apenas o dever de retornarem para suas casas no final da noite.

De tal modo, mesmo que a liberdade lhes pareça uma vitória inconteste, percorremos os limites dos nossos recintos prisionais a supor que usufruímos de plena liberdade. Isto porque, entre outros prazeres e sensações, cremos piamente que dispomos do direito de ir e vir para fazermos o que bem nos der na telha. A isto, com a licença de Saramago, poderíamos chamar de ensaio sobre a cegueira.

Por deleite ou imposição, temos o dever de frequentar determinados ambientes, sobretudo noturnos, escolher uma mesa requintada, ser de pronto atendidos por um garçom educadíssimo, e aí exibirmos nossa sociabilidade ante um copo de uísque com gelo (às vezes em harmonia com um cigarro) ou diante de um prato naturalmente de elevado custo. É o que estou dizendo. As casas de pasto, os restaurantes chiques, graças a Deus, estão repletos dessas pessoas sintonizadas com os padrões sociais. Os casais, as famílias, põem à mostra seu bom gosto e poder aquisitivo.

— Boa-noite. Traz um Old Par, por favor.

Aquele sapato em ótimas condições se torna feio aos olhos do dono e este resolve que seus pés carecem de outro mocassim. A esposa do homem julga que seu guarda-roupa está ultrapassado e vai a uma loja grã-fina, lança mão do seu poderoso cartão de crédito e, de uma só tacada, adquire quatro peças de fino corte e excelente tecido. Os filhos do casal também não ficam de fora do upgrade.

Estamos o tempo inteiro, além da reclusão das gaiolas metafóricas, sujeitos às vontades e humores do capital. Indivíduos de menor alcance monetário se endividam com frequência para se exibirem à altura de outros elementos de seu ciclo de amizades. Põem a corda no pescoço, gastam o que não podem e o que não têm para não fazer feio no aniversário da filha do patrão, ou no casamento do filho do gerente da empresa bancária. Não acreditam? Não estou contando nenhuma história da carochinha. Há pessoas que se enforcam até para comprar uma gravata chique.

Por que não vivermos segundo as nossas posses? Assim não haveria essas gaiolas. Ser natural, autêntico, não é apenas um indício de bom caráter. É ter zelo e respeito consigo próprio. Abandonemos as cadeias da pose e da aparência. No fundo, bem no fundo, todos nós somos seres alados. Uns com ambições maiores, outros com ambições menores. E eis que o céu permanece tão azul e o voo é livre.

Basta, enfim, de tantos grilos e grilhões.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 19/03/2023 - 04:50h

A extrema curva do senhor Inácio

Por Marcos Ferreira

Inácio Augusto de Almeida faleceu nessa sexta-feira última (Foto: família)

Inácio Augusto de Almeida faleceu nessa quinta-feira última, 16 (Foto: família)

— Inácio Augusto?! — indagou a voz rouquenha.

— Aqui estou! — respondeu o velho cronista.

Ele atendeu à convocação e partiu, destemido.

Agora este eclético espaço, infelizmente, fica sem a opinião do senhor Inácio Augusto de Almeida. O homem, que não conheci de maneira pessoal, foi convocado pela Moça da Foice. Não sei, portanto, detalhes da pessoa nem da vida do senhor Inácio. Tão somente o que ele, de modo incansável, publicava no Canal BCS. Era, quem sabe, o mais atuante, o único ombudsman do Blog Carlos Santos.

Que sua família encontre a necessária força, conformação. Porque Deus é assim: envia e manda buscar pessoas. Possui os seus desígnios, e todo mundo (ou quase todo mundo) aceita isso de bom grado, de forma resignada. O senhor Inácio foi chamado por Deus para uma conversa mais próxima entre ambos. Sem conforto, conheço bem esse tipo de partida: já me tiraram meus pais e dois irmãos.

Também ainda no campo da suposição, imagino que este seja o segundo óbito, o segundo sinistro que este espaço dominical sofre desde o princípio de suas atividades. Não sei, posso estar enganado. Sou o mais novo entre os colaboradores do Canal BCS. Não vou ligar para Carlos Santos para fazer esse tipo de pergunta. O fato, porém, é que perdemos um expressivo colaborador. Suas ideias, contraditórias ou não, bem aceitas ou não, farão muita falta. Era ele uma espécie de pedra no sapato de certos políticos e indivíduos da sociedade mossoroense. Malquisto, ridicularizado.

Enquanto cidadão, personagem humana, não vou entrar nesse mérito, pois, como eu disse, não o conhecia nem mesmo de chapéu. Nunca nos avistamos, jamais trocamos um aperto de mãos. E assim (como eu) era ele para muitos que acompanham estas páginas do domingo um simples desconhecido, só um nome.

Com pouco mais de setenta anos, pelo que ouvi dizer, o senhor Inácio fez “a extrema curva do caminho extremo”. Sentença esta, mais uma vez, que pesco num soneto de Olavo Bilac. Então, sem retrato, sem foguetes, Inácio Augusto de Almeida partiu deste mundo para outro completamente indecifrável. Isto se deu na última quinta-feira, dia 16 de março do corrente ano. Foi sepultado no município de Granja, no Ceará. Talvez sua terra natal, coisa que não asseguro, ou de familiares.

Neste blogue, entre inúmeros comentários desferidos ao longo de mais de uma década, ele também deixou um romance incompleto.

De minha parte, embora não o conhecesse pessoalmente, como já referi, mantivemos um contado por telefone de pouca duração. Pois o senhor Inácio sempre esteve muito irritado com a política (com um determinado candidato à Presidência, na verdade) e deixava outros assuntos importantes de nossa amizade em segundo ou terceiro plano.

Enjoado daquele envio de conteúdo feroz, fui aos poucos me conservando em silêncio, e ele findou, não sei o motivo, me bloqueando no WhatsApp. Parou de me ligar e desapareceu da porfia política após seu candidato perder a eleição.

Ao fim e ao cabo, excetuando-se a sua virulência no tocante a alguns políticos, pude observar que o falecido era um indivíduo de bom coração, um sujeito de bem com Deus e respeitável. Torço que a sua obra inacabada (o romance chamado “Maranhão”) seja publicada, ainda que em edição póstuma e inconclusa. A pior coisa para um autor, ao menos para mim, é deixar algo assim, na orfandade.

Publique-se, portanto, preferencialmente com outras informações acerca do literato, o romance do senhor Inácio Augusto de Almeida.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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