“Não me envergonho de mudar de ideia, não me envergonho de pensar.”
Mario Quintana
Jornalismo com Opinião
“Não me envergonho de mudar de ideia, não me envergonho de pensar.”
Mario Quintana
“Eu não tenho paredes, só tenho horizontes”.
Mario Quintana
“Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja.”
Mario Quintana
Sem formação acadêmica, Olavo de Carvalho jacta-se de sabedoria infusa. Autointitulado filósofo, não chega sequer aos pés daqueles filósofos clássicos.
Nem ao umbigo dos filósofos modernos. Exemplo de Platão ou Sartre.
Nesse afã de amealhar seguidores incultos, malestudados, espaçosos e ridículos que infestam as redes sociais, o “mestre” Olavo bate no peito e confessa-se autodidata.
Aí me veio à memória a lição do poeta Mario Quintana: “O autodidata é um ignorante por conta própria”.
François Silvestre é escritor
“A ironia atinge apenas a inteligência. Inútil desperdiçá-la com os que estão longe do seu alcance. Contra estes ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma. A burrice é invencível”.
Mario Quintana
“Na convivência, o tempo não importa. Se for um minuto, uma hora, uma vida. O que importa é o que ficou deste minuto, desta hora, desta vida”.
Mario Quintana
“As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas, assim como não estamos aqui, para satisfazer as dela”.
Mario Quintana
“A arte de viver é simplesmente a arte de conviver… simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!”
Mario Quintana
Por Marcos Pinto
“Quando eu for, um dia desses
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada ,
Serei um pouco do nada
invisível , delicioso“. (Mário Quintana).
Assoma enigmática e cruciante. Traz consigo espectros dolentes de pedaços da alma. Magistral, entre soluços de dor, desliza na tépida face a lágrima mais bonita do sentimento humano – a lágrima da saudade. Nasce de risos que já se foram, de sonhos que não se acabam, e de lembranças que jamais vão embora.
Lágrima que emblematiza e amalgama-se nos mistérios envolventes da saudade. Nessa saudade, reside a certeza de que algo muito especial ocorreu em nossas vidas. Saudade que não mata, mas fere todos os dias. Na envolvente alquimia das imagens do passado, surge a firme convicção é e sempre será a sentença de um morto que chora pedaços da alma. O que é o amor, senão o desenrolar espectral de uma futura e incisiva saudade , perfilando os nossos mortos para que permaneçam tão vivos, como se vivos fossem.
A amplitude envolvente do transcendental bem-querer sentencia, sem recuos, que em cada ausência notada e anotada existe uma eternidade. Eternidade de noites mal dormidas pelo assédio de remorsos oriundos de fraquezas e indecisões. Na célere procissão das interrogações , o sorriso segue na frente mentindo e escondendo a sua dor.
Alguém já estigmatizou no epitáfio do coração, que ” a saudade é um sentimento que, quando não cabe no coração escorre pelos olhos”. Fuga dos momentos ou momentos de fuga?. Saudades certas de momentos certos de certos momentos de pessoas que deixaram o seu inconfundível DNA em nossa geografia do bem-querer.
Socorrem-me tons soturnos de devotada cadência sentimental. Diante tamanha tristeza , como não sucumbir, afogado no sofrimento em pranto ?. Onde estão os meus mortos queridos ?. Como não quebrar o suporte que guarda os pedaços da alma?.
Onde encontrar um oásis de alento no deserto da minha alma ?. Não tenho, ainda, um coração amigo onde possa haurir sonhos e procurar o indescritível alívio da confidência. Onde e como escoar as mágoas, , pesares e desgostos ?. A alma, já cansada e desiludida, segue acabrunhada de pensamentos tristes, cruciantes como remorsos.
Delineia-se um perfil de ingente dor, sob o látego do castigo do céu. O desalento tinge com crepe a intensidade da cena, dolorosa e de imaginação acesa, fecunda em descrição. Sigo, ungido e consumido pelas sombras do remorso, por não ter feito mais e sempre mais em forma de caridade e fé. É mais fuga que desvario desenfreado. Quero minha alma estrangulada pelo mais querido dos afetos.
Enchamos o nosso baú de saudades com as reminiscências mais antigas dos nossos entes queridos, que vivem sob o resplendor da luz divina. Façamos da renúncia um traço de originalidade da alma. Vida que é sempre um monólogo de interesse e de sonho. Ou você segue a vida com o sobressalto da esperança ou com a amargura do desespero. Nesse caminhar merencório, adote a mesma grandeza dos ricos de espírito.
Fuja do mesmo mudo espanto, sem deixar de entoar o seu singular canto. A lufada de vento que brinca com a folha seca é a mesma que fica ruminando alguma coisa de alma penada, num segredar entrecortado de alguma coisa retardada de há muito.
Sigo o meu destino com a mesma obstinação desencontrada. Desenvolvo minhas palavras gesticulando para o lado de dentro da sensatez. São raríssimos os que conseguem ser maiores que a desgraça e o desalento.
Inté.
Marcos Pinto é escritor e advogado
No “Dia dos Namorados”, este 12 de junho, uma louvação aos que amam, aos que esperam ser amados, aos que acham que estão preparados para o amor, aos que se sentem amados, mas principalmente para quem ainda não despertou para o amor. E nada melhor do que recorrer ao meu poeta favorito, Mario Quintana, numa crônica que fala tudo e muito mais sobre o bom sentimento. Diz aí, meu bom Quintana. É com você:
“BORBOLETAS”
Por Mario Quintana
Quando depositamos muita confiança ou expectativas em uma pessoa, o risco de se decepcionar é grande.
As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas, assim como não estamos aqui, para satisfazer as dela.
Temos que nos bastar… nos bastar sempre e quando procuramos estar com alguém, temos que nos conscientizar de que estamos juntos porque gostamos, porque queremos e nos sentimos bem, nunca por precisar de alguém.
As pessoas não se precisam, elas se completam… não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.
Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com a outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher de sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você, e principalmente a gostar de quem gosta de você.
O segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!
Mario Quintana (1906-1994) – Poeta, cronista, tradutor e jornalista gaúcho
Por Marcos Pinto
“…E no fim resta apenas a saudade. Não importa onde estejam, Quem amamos sempre estará conosco”.
A trajetória indefinida do ser humano impõe a necessidade da adoção de fé inquebrantável, através da qual se atenuará a tensão das interrogações sobre o incontinenti desfecho existencial. Nesse desenrolar, assiste-nos a certeza inexpugnável de que todos nós carregamos nossos baús de ossos.
É certo que alguns mais pesados que os outros – pesados por tragédias que marcam a crônica do passado, a história do presente e uma dor que sempre marcará o programa do futuro. Somos sempre flagrados comungando silenciosamente com a merencória procissão de nossos mortos, em penosas meditações que sacodem o ânimo em desalentos ante a dura e pungente realidade de que já não temos perto de nós aqueles que um dia compuseram nossa diuturna geografia sentimental.
Assistiu razão ao grande poeta Mario Quintana quando indagou: ”
– Por que será que a gente vive chorando os amigos mortos e não aguenta os que continuam vivos ?.
E Humboldt arremata:
– A morte não é um período que termina uma existência, mas um prelúdio somente, uma passagem de uma forma para outra do ser infinito.
Ao abrirmos os nossos mofados baús de ossos, somos assediados por um corolário de crenças, sentimentos, superstições, algo de transcendental e instigante. E tudo isso há de ser contrastado por muita reação antes de completar-se o nosso desenlace material. E porque não dizer que persistem referenciais em relíquias deixadas, como testemunhas mudas, intensamente evocantes de seus antigos donos.
E nessa garimpagem dos nossos baús de ossos segue-se aquele silêncio comprimido, aquela pausa de toda a co nversação espiritual em que os pensamentos são tantos que se atropelam e não acham saída no nostálgico labirinto de saudades. Nesse diapasão, percebemos que nossa voz espiritual tem o dom da súplica, amortecendo a dor da alma – filha de um remorso salutar.
É como se fora aquela plácida sensação de mais profundo sentimento. Não mais que de repente, abre-se o livro do passado, parando em uma página repleta de reticências, como a culpar-me por omissões sentimentais de atos e palavras. Era preciso ter existido o desejo de fazer, e não apenas ser.
O lamentoso ranger das dobradiças dos nossos baús de ossos instiga-nos o espírito como todas as coisas que nos fazem pensar muito. E o inconfundível eco morto da solidão responde tristemente às minhas perguntas. É aí onde a cronica se cala, como efeito da inexaurível piedade de Deus, que acode minha alma, antes que ela se perca nos desvarios da mulher amada.
Nesse cotejo, há cenas indescritíveis, circunstâncias e ações pretéritas que me remetem ao sentido das coisas e da vida. A verdade é que o mistério oculto mostra um outro lado da utilização das sombras.
E o que somos? Nada mais do que espectros humanos. Somos sombras que sofrem.
Diante todo esse inclemente materialismo dialético, só nos resta abandonar o cadáver de nossas desilusões, deixando-o entregue às tormentosas lufadas de ar do imponderável.
Já é tempo para que meus pensamentos e sentimentos transponham os umbrais do tempo e do espaço, onde eu possa rever quase materialmente os meus entes queridos que já atenderam ao chamado do Supremo Arquiteto do Universo. Na esperança de um dia viver a mansuetude da mansão celestial, vou seguindo vida afora.
Nunca mais esquecerei de abrir o meu baú de ossos, resgatando, assim, em minhas perenes lembranças, o sentimento indizível de solidão, saudade, angústia e bem-querer.
Marcos Pinto é advogado e escritor
Por Mario Quintana
O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!
Mario Quintana (1906-1994) Poeta e cronista gaúcho
Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior
Era um dia de sol. E Xerxes, rei persa louis vuitton bags sale uk (485-465 a.C), querendo mostrar o seu poderio, ordenou que juntasse todo o seu exército, e quando viu o Helesponto tomado pelos soldados e navios – (reza a lenda que eram tantos, mas tantos soldados, que se o último quisesse ir para a primeira fileira, ele levaria cinco dias caminhando ininterruptamente) -, o rei chorou. Chorou e soluçou!
Preocupados com esta atitude, os seus ajudantes mais próximos quiseram saber o motivo de tantas lágrimas, e Xerxes respondeu:
“É que me veio à mente agora, lamentar louis vuitton outlet uk sobre a brevidade de toda vida humana, pois dentre toda essa multidão de homens que aqui estão, dentro de cem anos, nem um único sobreviverá”…
A vida é uma escola, com uma característica interessante: a prova vem sempre antes do aprendizado. E nesta escola, sem dúvida nenhuma, a maior professora é mesmo a Morte. Alguns //www.morhealth.co.uk/ tentam minimizar os efeitos do seu aprendizado, como no caso dos poetas Fernando Pessoa e Mário Quintana.
O primeiro quando lamenta que tem dó das estrelas por luzirem há tanto tempo; e se pergunta se não haveria um cansaço das coisas, um cansaço de existir… O segundo quando afirma que tem medo não do sono eterno, mas sim da insônia eterna. Mas é o mesmo Mario Quintana que depois se contradiz ao dizer: “Morrer; que me importar? O danado é deixar de viver!”. E não adianta querer fazer uma escada em forma de caracol para que ela chegue ao nosso quarto, tonta e cansada, sem forças para nos levar, pois a Morte vem e vem mesmo. E quer queiram quer não, ela chegará para todos.
Eu também sou um professor, que transmite ensinamentos muito aquém dos transmitidos pela professora Morte. Mas ao admitir que sou professor, automaticamente abercrombie and fitch outlet uk eu estou também dizendo que sou duas outras profissões: médico e escritor. Todo professor é médico, pois tenta curar a pior de todas as doenças, a ignorância da alma. Todo professor é escritor, pois ele nada mais faz do que colocar os seus sonhos nos livros de vida de cada um dos seus alunos, e estes ao saírem pelo mundo carregando esses sonhos, nada mais fazem do que ratificar a frase: “O professor se liga a eternidade; Ele nunca sabe onde abercrombie and fitch outlet cessa a sua influência”.
Mas se todo professor é também médico e escritor, ele também é livro… Sim! Os alunos também escrevem as suas estórias no livro de vida dos seus professores. Agora fica mais fácil entender o que Neruda afirmou no seu “Confesso que vivi”: “Talvez não vivi em mim mesmo, talvez vivi a vida dos outros. Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre – como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado”…
Recentemente, páginas amarelas – ou melhor, páginas abercrombie and fitch uk cinzentas, tristes, e dolorosas-, foram escritas neste meu livro de vida. E foram escritas por um aluno meu…
Joinville. Sábado à tarde. Estava no congresso de Educação Médica (COBEM). O celular vibrou no meu bolso. Não atendi de pronto. Estava no meio de uma palestra interessante e resolvi enviar uma mensagem dizendo: “ligarei em seguida”. Novo toque e uma mensagem: “Professor! Precisamos falar com urgência!”. O coração betabloqueado acelerou o seu compasso.
Pressenti que algo terrível acontecera. E aconteceu! A noticia veio do outro lado do celular, pelo choro de outro aluno meu, Dênis: “Ele morreu, professor. Nosso amigo morreu. E Igor foi junto também!”. Estava recebendo uma das mais terríveis notícias: a morte do meu aluno Ivan Brasil e do seu filho de 12 anos, Igor Marinho (uma criança que todo pai deste mundo gostaria de tê-lo como filho).
Um acidente terrível na estrada que liga Mossoró a praia de Tibau (RN). Mais uma vez Tibau… Como se não bastasse há 48 anos, ter sido palco da morte do meu pai, agora, a mesma Tibau, reescreve o seu nome em páginas tristes do meu livro de vida… Fiquei louis vuitton pas cher desnorteado. Não sabia se chorava, se voltava para sala, se acreditava naquilo que tinha ouvido há pouco.
Confesso que não sabia o que fazer. Interessante! Logo eu, que a cada plantão na Liga Contra o Câncer, me encontro com a professora Morte, não tinha ainda aprendido a lição… e acho que nunca aprenderei.
Fui beber uma água. Sentei e respirei fundo. Via em volta pessoas rindo, conversando, enquanto dentro de mim, nas páginas cinzentas do meu livro, estava sendo escrito um capítulo bastante doloroso. Tentei mudar o tom preto das letras. Lembrei-me da viagem que tínhamos feitos com as nossas esposas, na travessia dos lagos Andinos.
Ivan, sempre aventureiro, ria da minha covardia de ter subido todo o Cerro Catedral, em Bariloche, com os olhos fechados… Ivan, que toda vez que eu ia a Mossoró, fazia questão de me receber com jantar e o melhor dos vinhos (foi com ele que aprendi os prazeres do deus Baco); Ivan, que era capaz de cometer uma indelicadeza com você, mas no outro dia ligava pedindo desculpas, envergonhado com a sua atitude; Ivan, que no nosso penúltimo contato, me fez lembrar uma passagem da Bíblia (Lucas 17, 11-19), quando dos dez leprosos curados por Cristo, apenas um voltou para agradecer…
Voltei para o hotel. De repente, a cidade catarinense se viu escurecendo e um temporal começou. Cheguei todo molhado ao quarto. Molhado, por fora e mais ainda por dentro. Chorava, afinal, chovia lá fora, e fazia tanto frio. E embora uns dizendo que nem sempre se ver lágrimas no escuro.
EU CHORAVA, no escuro do quarto. Tava tudo tão cinza. Tão vazio. E a noite ficava me martelando a cabeça: “Por quê? Qual a lição? Qual a lição?”. É! A professora Morte mais uma vez nos ensinava: somos um fósforo acesso de frente para um mar revolto, que sopra a toda hora querendo nos apagar… Não consegui dormir.
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Domingo, voltei ao COBEM. Mas nada era capaz de tirar as páginas cinzentas da minha memória. Estava sozinho, desnorteado, precisando tanto da minha Viviane e do meu Lucas, que resolvi apelar para os amigos sempre tão fieis: os livros. Fui a um shopping perto do hotel. Entrei em uma livraria, peguei alguns exemplares e resolvi sentar, para folheá-los. De repente, escuto vozes. Eram de crianças, que estavam em volta de um violão.
Aí eu percebi que nem sempre se vê, “Mágicas no absurdo, Mágicas no absurdo”…
Tristeza e alegria; vida e morte. É assim que caminha a humanidade. E o espetáculo tem que continuar… Mesmo sabendo que naquela mesa, não haverá mais histórias contentes do que se fez de manhã; mesmo sabendo que naquela mesa do canto, haverá sempre uma taça a menos, com metade apenas do vinho EPU, como Ivan gostava de ensinar…
Ah! A saudade dele vai doer bastante… Eu estou em pedaços.
Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.
“Amar é mudar a alma de casa.”
Mário Quintana
Por Mario Quintana
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso…
Mario Quintana (1906-1994) poeta, escritor, jornalista e cronista gaúcho
Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior
“Art. 1º – É permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal.”
(Resolução CFM 1805/2006)
“Rápido! Adrenalina 1mg: fazer EV, agora! Continue a massagem cardíaca! 28, 29 e 30! Duas ventilações, agora! Pessoal, já chegou o desfibrilador?! Vamos lá! Todo mundo se afastando que eu vou chocar! 1, 2 e 3: choque administrado! Voltem as compressões torácicas! Prepare 300mg de Amiodarona!…”.
Acabara de chegar ao hospital, e vi toda a equipe envolvida, tentando fazer uma Reanimação cardiopulmonar (RCP), em um paciente. Perguntei se queriam ajuda. Ninguém respondeu! Todos estavam tão concentrados em exercer da melhor forma possível as suas funções, que acho que nem escutaram a minha oferta… De repente, do nada, apareceu uma criança. Parecia até que era a mesma criança do conto de Hans Christian Andersen: “A roupa nova do rei”.
Logo pensei comigo: “Quem a deixou entrar aqui, logo nesta hora?”. Mas, antes de alguém responder o meu questionamento, a criança rindo, gritou – não que o rei estava nu-, mas sim: “Ei, todos vocês! Não percebem que estão reanimando um cadáver?!”.
Aquela óbvia constatação congelou a todos. Vi, na face de cada membro da equipe, instalar um sentimento de vergonha… Havia algo de podre, não no reino da Dinamarca, mas naquela RCP…
Todos ficaram parados! Parecia até que tinham recebido uma carga de desfibrilação de mais de 200 joules… A ficha caiu! E todos, em um silêncio profundo, começaram a recolher o material utilizado nesta RCP inútil… Sem saber o que fazer – tão desnorteado quanto todos da equipe de reanimação-, corri em direção à criança e perguntei:
“Você conhece este paciente?”. “Claro!”, respondeu à criança, “Ele se chamava AMIZADE!”.
O poeta inglês William Blake, no seu poema “Augúrios de inocência”, já tinha nos solicitado a “Ver o mundo num grão de areia/ E um céu numa flor de campo/ Capturar o infinito na palma da mão/ E a eternidade numa hora”… Pois bem! Aquela criança, na sua inocência verdadeira, fazia tudo isso: via o grão de areia, o infinito, a eternidade… Via o óbvio! Enxergou o que ninguém conseguiu ver. A AMIZADE tinha virado um cadáver! Sem nenhuma possibilidade de RCP…
A criança saiu correndo. Foi embora. Muito provavelmente para aprontar mais uma das suas: ver se algum rei estava nu; ver se tinha jiboia dentro do chapéu; ver se estavam reanimando cadáveres por aí… Tentei alcançá-la. Mas foi inútil. Ela era mais rápida do que eu. Cansado e desnorteado, parei! E fiquei pensando: “Por que a AMIZADE tinha morrido?! Quem tinha tido a ousadia de matá-la?!”.
Sim, alguém a matou! Pois a AMIZADE, segundo Mario Quintana, é um amor que nunca morre. Então, se morreu, foi porque alguém a matou… Mas quem?! Quem seria o culpado (ou culpados?), que teria atentado contra o maior de todos os sentimentos, a maior de todas as riquezas?
Não foi à toa que Xenofonte, historiador e filósofo grego, há mais de dois mil anos, nos alertava: “Um bom amigo é o mais precioso de todos os bens. Está sempre pronto a auxiliar”… Vinícius de Morais afirmava que enlouqueceria se morressem todos os seus amigos.
Acredito que o pai da “Garota de Ipanema” não só enlouqueceria, mas morreria também, já que a AMIZADE nada mais é do que uma alma em dois corpos, como ensinava Aristóteles. Beethoven, na sua magnífica Nona Sinfonia, bradava a AMIZADE: “Quem já conseguiu o maior tesouro/ De ser amigo de um amigo… Rejubile-se conosco! Mas aquele que falhou nisso que fique chorando sozinho”… Cristo, tão abalado com a morte de Lázaro, chorou… Afinal, “Queremos amigos”, ensinava Sêneca, “Para ter alguém por quem eu possa morrer!”…
A história de Damon e Pítias mostra exatamente o que o verdadeiro amigo – a verdadeira AMIZADE-, é capaz de fazer: “Dionísio, rei de Siracusa, prendeu Pítias e o condenou a morte, acusado-o de está incitando a população contra o seu reinado. Certo de que ia morrer, Pítias pediu ao rei, que o liberasse para se despedir da família. O rei sorriu: ‘Você acha que eu sou otário de liberar você, para fugir?’.
Calado até então, Damon disse ao rei: ‘Pode liberá-lo que eu ficarei em lugar de Pítias e se ele não voltar, pode me matar!’… e assim foi feito. Os dias se passaram e nada de Pítias voltar. O rei, então, mandou matar Damon. E este até o último momento acreditava que Pítias voltaria. E ele voltou. O rei ficou tão impressionado com a lealdade, dessa AMIZADE, que revogou a pena e implorou aos amigos que lhe ensinasse a receita de tão sólida AMIZADE”.
Pensando em todas essas frases e história, bateu-me uma sensação de tristeza: a AMIZADE morreu! Mataram-na!
Caminhei lentamente em direção ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), com o intuito de saber a Causa Mortis da AMIZADE. E estava lá no laudo de necropsia e no boletim do atestado de óbito: “Ingratidão; Inveja; Grosseria; Indiferença; Mentira; Desonestidade; DESCONFIANÇA!”.
Pena! Muita pena de quem fez isso! Pois matar a AMIZADE é o mesmo que perder a oportunidade de unir o céu e a Terra. Já que o amigo é uma testemunha do passado, que divide o amor, esperanças, fracassos, suportando o nosso sucesso – sem inveja… e sem tê-lo, a nossa possibilidade de ser feliz é mínima…
Lamento também! Mas acabou…
Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor.
“No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas/que o vento não conseguiu levar…”
Mario Quintana
“Só se deve beber por gosto: beber por desgosto é uma cretinice.”
Mário Quintana
“Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas…”
Mario Quintana
“O amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço”.
Mario Quintana
Por Mario Quintana
O maior chato é o chato perguntativo. Prefiro o chato discursivo ou narrativo, que se pode ouvir pensando noutra coisa… Me lembro que fiz um soneto inteiro — bem certinho, bem clássico e tudo — durante o assalto ao Quarto do Sétimo, isto é, quando um veterano de 30 me contava mais uma vez a sua participação nas glórias e perigos daquela investida.
As velhotas que nos contam seus achaques também são de grande inspiração poética.
Mas que fazer contra a amabilidade agressiva do chato solícito? Aquele que insiste em pagar nossa passagem, nosso cafezinho, ou quer levar-nos à força para um drinque, ou faz questão fechada de nos emprestar um livro que não temos a mínima vontade de abrir…
Ah! ia-me esquecendo dos proselitistas de todas as religiões. Os proselitistas amadores, que são os piores.
Quanto aos sacerdotes que conheço, registre-se em seu louvor que eles sempre me falam de outras coisas. Ou me julgam um caso perdido ou um caso garantido… Bem, qualquer que seja o caso, deixam-me em paz.
O que pode acontecer de mais chato no mundo é o chato que se chateia a si mesmo, o autochato.
Para essa extrema contingência, descobri em tempo que a última solução não é o suicídio. É escrever, desabafar para cima do leitor, o qual, se me leu até aqui, a culpa é toda dele.
Há gente para tudo…
Mario Quintana (1906-1994) – Poeta, tradutor e cronista gaúcho
“Amar é mudar a alma de casa.”
Mario Quintana


